Programa de rádio “Café com o Presidente”, com o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva – Brasília – DF, 09/06/2008

Luciano Seixas: Olá, você em todo o Brasil. Eu sou Luciano Seixas e nós estamos começando agora o “Café com o Presidente”, o programa de rádio do presidente Lula. Como vai, Presidente, tudo bem?

Presidente: Tudo bem, Luciano.

Luciano Seixas: Presidente, na última terça-feira, dia 3, em Roma, na Itália, aconteceu o encontro da FAO sobre segurança alimentar, bioenergia e mudanças climáticas. O senhor, mais uma vez, fez uma defesa vigorosa dos biocombustíveis. O senhor acha que o Brasil vai ganhar essa guerra, Presidente?

Presidente: Luciano, primeiro, quero dizer aos nossos ouvintes que o encontro foi extremamente importante e ele se deu num momento, eu diria, mais importante ainda para a Humanidade, na medida em que todos nós estamos preocupados com a inflação que volta, no mundo inteiro, por conta da subida do preço dos alimentos. Sobretudo porque o Brasil é um país que tem um potencial agrícola extraordinário, é um país que produz, eu diria, utilizando a melhor tecnologia da agricultura tropical do mundo, e o Brasil quer que os outros países que têm a mesmas características que ele utilizem a tecnologia brasileira para que possam também se tornar grandes produtores de alimento.

A segunda coisa é que estiveram presentes 30 chefes de Estado. Fui lá, não para defender os biocombustíveis; fui lá para defender o Brasil, para defender a agricultura, para defender a diminuição da utilização de combustível fóssil, até porque todos os países do mundo assinaram o Protocolo de Quioto, em que têm que diminuir a emissão de gases de efeito estufa, e poucos países estão cumprindo o Protocolo. O Brasil, que é também signatário do Protocolo de Quioto, tem tecnologia para a produção de um combustível, que é o álcool, que emite menos gás carbônico do que os outros combustíveis. E era importante dizer isso, porque há uma verdadeira guerra comercial. Nós conhecemos os interesses dos países que não produzem etanol, ou produzem etanol do trigo ou do milho, que não é competitivo, é mais caro, diferentemente da cana, e eu acho que isso foi um marco na participação do Brasil.

O Brasil tem o combustível, tem a matéria-prima e nós fomos mostrar a eles: olhem, eu não tenho medo. Se vocês não querem plantar nos países de vocês, vamos desenvolver na África, vamos fazer parceira com os governos africanos, com as empresas africanas, com os países da América Central, do Caribe, da América do Sul, e vamos plantar uma parte do combustível que nós precisamos para diminuir a emissão de gases de efeito estufa. Por isso, foi muito importante esse encontro, Luciano.

Luciano Seixas: Você está ouvindo o “Café com o Presidente”, o programa de rádio do presidente Lula. Presidente, de onde vêm os principais ataques aos biocombustíveis?

Presidente: Acredito que os principais ataques aos biocombustíveis vêm das empresas de petróleo, porque não existe nenhuma explicação. Por exemplo, lá fora, dizer que a cana-de-açúcar está invadindo a Amazônia, é um absurdo muito grande. Nós mostramos a eles que, de toda a cana que nós temos, apenas 21 mil hectares estão plantados perto da Amazônia; mostramos a eles que a distância do local em que se planta cana no Brasil para a Amazônia são milhares de quilômetros, ou seja, que não tem nenhum problema; e que o Brasil tem tecnologia. Nós, agora, estamos também com o biodiesel tentando repetir a mesma coisa, sem permitir que haja, em nenhum momento, a redução da produção de alimentos. Até porque, Luciano, tenho dito a todos os presidentes com quem converso: o ser humano pode até cometer erros, mas nenhum ser humano, nenhum governo, nenhum ser vivo do planeta Terra vai deixar de plantar alimentos para encher o seu estômago, para poder encher o tanque de um carro. Seria até insano um comportamento desses.

Agora, é uma guerra que acho que vamos ganhar. Eles levantam a questão das condições de trabalho na cana-de-açúcar, e eu reconheço que é pesado o trabalho na cana de açúcar, reconheço que é muito pesado o trabalho no corte de cana. Agora, não é mais pesado do que o dos trabalhadores que trabalham numa mina de carvão a 80, 90 metros abaixo do subsolo, que foi a base do desenvolvimento de muitos países europeus.

Nós, neste momento, estamos trabalhando. O ministro Luiz Dulci está negociando com os empresários um contrato de trabalho para que possamos melhorar a situação dos cortadores de cana-de-açúcar, sabendo que nós precisamos tratar isso com muito carinho porque, em São Paulo já temos 50% do corte de cana mecanizado. E estamos tratando de fazer um acordo porque precisamos cuidar de formar esse trabalhador que trabalha no corte de cana agora, e que vai ser substituído por uma máquina que vai cortar – cada máquina substitui quase 80, 90 trabalhadores –, para que ele possa ter possibilidade de, com uma boa formação profissional, ter emprego em outro lugar. Nós não queremos substituir o homem pela máquina. Nós queremos que a máquina corte cana, mas queremos que o ser humano que hoje corta cana tenha possibilidade de ter um trabalho melhor, um trabalho digno. Ou seja, é criar as condições para que ele possa trabalhar com dignidade até que se forme em outra coisa e a gente possa, então, ter uma máquina substituindo o homem.

Luciano Seixas: Muito obrigado, Presidente, e até a próxima semana.

Presidente: Obrigado a você, Luciano, e até o próximo programa.

Luciano Seixas: O programa “Café com o Presidente” volta na próxima segunda-feira. Até lá.

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