1. Objeto de análise: continuação da crise diplomática e política entre Colômbia e Equador depois da intervenção do governo colombiano em território equatoriano para atacar um acampamento das FARC, em março de 2008. A crise se agravou ainda mais quando a Interpol anunciou que os dados contidos nos computadores apreendidos nesse acampamento guerrilheiro apontam para uma ligação de Hugo Chavez e Rafael Correa, atual presidente do Equador, com as FARC.
Além da crise, expecula-se quanto ao futuro das forças guerrilheiras da Colômbia, depois de serem desfalcadas e desestruturadas com a morte de dois líderes muito significativos para os combates (Raúl Reyes e Tirofijo) e com a rendição de Karina, uma guerrilheira-modelo, que também era líder de um grupo das FARC.
2. Informações de referência
2.1. Palavras-chave: Colômbia, FARC, narcotráfico, Equador, Raúl Reyes, confronto armado, Interpol, prisioneiros, violação de soberania, conflito diplomático.
2.2 Cronologia:
1948: Tem início na Colômbia o período conhecido como La Violencia, marcado por embate político, atentados e outras formas de violência entre membros e simpatizantes do partido Liberal e membros e simpatizantes do Partido Conservador;
1953: O General Gustavo Rojas Pinilla assume o poder por meio de um golpe de Estado. Liberais e conservadores passam à oposição;
1958: Rojas renuncia devido à pressão da opositora Frente Nacional, formada por uma união entre liberais e conservadores. Esses dois partidos passam a se alternar no poder a partir desse ano, excluindo do poder qualquer outro grupo político;
1964: Com o apoio dos comunistas colombianos, surgem as FARC (Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia), movimento de guerrilha contrário à Frente Nacional. Nesse mesmo período, surgem diversos outros grupos, como o ELN (Ejército de Liberación Nacional) e o M-19 (Movimiento 19 de abril);
Década de 1970: Surgem os Cartéis de narcotráfico de Medellín e de Cali – aquele, sob o comando de Pablo Escobar, e este, liderado pelos irmãos Rodríguez Orejuela. Ambos os cartéis dedicavam-se, a princípio, ao comércio da maconha, mas, com a queda do preço desta no mercado internacional, passaram a dedicar-se ao tráfico da cocaína;
Década de 1980: Lutas e atentados entre membros do Cartel de Medellín e do Cartel de Cali;
1987: Alguns grupos guerrilheiros, como o EPL, as FARC e o M-19, organizam-se na chamada Coordinadora Guerrillera Simón Bolívar, em busca de coordenação de suas atividades;
1989: O Cartel de Medellín declara “guerra” ao governo colombiano, conduzindo atividades terroristas contra alvos civis e do governo;
Década de 1990: Surgimento do Cartel Norte del Valle, comandado por Diego León Montoya Sánchez e Juan Carlos Ramírez Abadía, ambos figurando na lista dos mais procurados do FBI;
1995: Desmantelamento do Cartel de Cali, com a prisão de seis de seus principais líderes, entre eles os irmãos Orejuela;
1997: criação da AUC – Autodefensas Unidas de Colombia, federação paramilitar de direita cujo objetivo é o de proteger interesses econômicos e políticos de grupos dominantes do país. Suas atividades contra-revolucionárias são financiadas, em grande escala, pelo tráfico de drogas, o que faz da AUC uma “organização terrorista” para os EUA e a União Européia;
1998: O presidente Andrés Pastrana cria uma zona desmilitarizada (chamada zona de distensão) para possibilitar negociações de paz com grupos guerrilheiros;
2001: O governo Álvaro Uribe adota posicionamento mais duro com relação aos grupos dissidentes e lança o Plano Patriota, de intensificação de combate à guerrilha; após os atentados de 11 de setembro, os EUA passam a adotar uma posição muito mais enfática em seu apoio ao combate ao narcotráfico na América Latina, associando-o ao terrorismo. Em declaração oficial, o governo estadunidense afirma que “o grupo terrorista internacional mais perigoso em nosso continente são as FARC”.
2003: Conflitos de facções dentro do Cartel Norte del Valle após extradição de alguns membros para os Estado Unidos; dá-se início a guerras de gangues notadamente no departamento colombiano de Valle de Cauca. Entre esse ano e o seguinte, mais de mil pessoas foram mortas nesse contexto, razão pela qual o governo dedica especial atenção a esse caso, no qual conta ainda com a ajuda do FBI e da DEA (Drug Enforcement Administration);
2007: Juan Carlos Ramírez Abadía, o Chupeta/Lollipop, é preso pela PF brasileira em São Paulo. Abadía era um dos chefes do Cartel Norte del Valle, e o segundo homem mais perigoso do mundo segundo a lista do FBI; Abadía admite que juntou uma fortuna de US$ 1,8 bi graças ao tráfico, afirma que a PF brasileira só o capturou porque teve ajuda da DEA norte-americana e tenta negociar uma redução em sua pena caso delate policiais subornados e outros envolvidos nos crimes do qual participou.
2008: Como resultado das negociações com as FARC, Chávez se pronuncia contra o tratamento dos rebeldes como terroristas.
Março de 2008 – o governo colombiano anunciou a morte de Raúl Reyes, um dos comandantes mais importantes das FARC, ocorrida em confronto com o exército colombiano, porém em território equatoriano. Essa possível violação de soberania do Equador causou uma crise política entre Equador e Colômbia e entre outros da América do Sul que se sentiram ameaçados com o caso, o que levou até mesmo a recorrências à OEA.
- o governo colombiano declara à imprensa que documentos encontrados no computador de Raúl Reyes sugerem um vínculo entre as FARC e o governo de Rafael Correa.
Abril de 2008: Rafael Correa nega qualquer ligação com as FARC, nega ter recebido dinheiro das mesmas para financiar sua campanha eleitoral, e assim a crise política entre Colômbia e Equador continua.
- governo colombiano acusa Correa de negligência perante as FARC, uma vez que Reynes estava em território equatoriano e os militares nada fizeram para combater a guerrilha.
16 de maio de 2008: Interpol anuncia que os computadores encontrados no acampamento no qual aconteceu a morte de Reynes continham informações que acusam os governos do Equador e da Venezuela de forte ligação com as FARC, principalmente através de empréstimos e financiamentos.
17 de maio de 2008: presidente Rafael Correa anunciou que renunciaria caso fossem comprovadas suas ligações com a guerrilha colombiana.
18 de maio de 2008: Karina (Nelly Ávila Moreno), a mulher considerada a mais sanguinária da guerrilha e acusada de matar há 25 anos o pai do presidente Uribe, se entrega à polícia colombiana em troca de sua integridade física, anteriormente prometida pelo governo.
19 de maio de 2008: Karina pede que seus companheiros se rendam, aderindo ao programa de “reinserção”do governo, já que afirma que acredita que algo deve ser feito pela paz na Colômbia. Karina confessou ter medo de ser assassinada pelos companheiros em troca de recompensas oferecidas pelo governo colombiano. Também disse que estava cercada e que não tinha outra alternativa senão se entregar.
24 de maio de 2008: ministro da Defesa da Colômbia afirma que o guerrilheiro Manuel Marulanda, o Tirofijo, com quase 80 anos e considerado o fundador das FARC em 1964, estaria morto desde março, depois de sofrer de um ataque cardíaco. Sua morte já foi anunciada 17 vezes nas últimas quatro décadas e, portanto, as informações estão sendo checadas.
25 de maio de 2008: as FARC confirmar a morte de Tirofijo através de um vídeo transmitido pela TV Telesur. Ele realmente morreu em 26 de março depois de um ataque do coração.
- especula-se quem será o novo líder do grupo, já que o sucessor de Tirofijo seria Reyes, morto em março.
26 de maio de 2008: Alfonso Cano será novo líder das FARC. Cano tem aproximadamente 50 anos, é antropólogo e morou na URSS por alguns anos. Ele é da parte política e não militar das FARC o que faz com que muitos analistas afirmem que pode-se caminhar para muitas negociações entre guerrilha e governo. Alguns até falam em caminhos para a paz.
3. Contextualização e repercussões
3.1. Locais
- O sucesso da operação de ataque ao acampamento guerrilheiro no território equatoriano, em termos técnicos e militares, sugere um amadurecimento das forças de inteligência colombianas. Em termos gerais, essa tendência poderia dar um novo fôlego para o governo colombiano na guerra contra as FARC. Em contrapartida, a crise diplomática gerada logo após a intervenção demonstra certa fraqueza de planejamento estratégico e dificuldade em coordenar as ações no âmbito bilateral e multilateral, dificuldade reforçada pela troca de acusações entre os governos depois da revelação das informações da Interpol.
- A morte de Raúl Reyes, de Tirofijo e a rendição de Karina podem representar um duro golpe para as FARC em termos organizacionais, uma vez que representavam uma importante lideraça para o grupo. Alfonso Cano pode representar uma reestruturação em seu sistema de comando, com um líder mais político do que militar, mas isso são apenas expeculações que preenchem a mente daqueles que esperam para ver os resultados dessa nova liderança.
- O pedido de Karina para que mais companheiros se entreguem pode gerar uma crise dentro das FARC, uma vez que tal ato é considerado traição, e, se houver qualquer tipo de desconfiança de que alguém pode se render, haveria certamente desentendimentos internos, mais uma mostra de perda de força organizacional das FARC.
3.2. Regionais
- As implicações regionais da crise são óbvias, uma vez que já é confirmada a presença de guerrilheiros das FARC fora do território colombiano. A crise apontaria desse modo, para uma tendência à regionalização da questão colombiana;
- Confrontados pela assertividade colombiana, Equador e Venezuela tendem a se aproximar. O fortalecimento de seus laços poderia ser interpretado como espécie de aliança constituída no sentido de regionalizar a crise.
- O evento reacendeu a agenda de organismos regionais de cooperação como o Grupo do Rio e a UNASUL.
- A crise representa mais um retrocesso no âmbito da integração sub-regional. De fato, ainda que a Comunidade Andina seja a organização regional juridicamente mais evoluída, a recorrência de conflitos diplomáticos entre seus membros põe em cheque o futuro da integração. Em 2006, a Venezuela se retirou do bloco por conta da crise gerada pela assinatura de TLCs com os EUA.
- A diplomacia brasileira, reconhecendo as implicações regionais, procurou enquadrar a questão numa moldura institucional, especialmente no âmbito da OEA. Nesse sentido, Amorim atenta que a cooperação regional não deveria ficar restrita ao combate ao terrorismo, como tem sido feito por Uribe, mas deveria envolver inclusive a parte humanitária.
- O governo brasileiro, indagado sobre os motivos de não apontar as FARC como uma organização terrorista e se isso estaria vinculado a uma possível afinidade ideológica entre FARC e PT, reiterou sua condenação aos atos de violência das FARC, mas que a classificação de “terrorismo” seguir-se-ia apenas a uma declaração das Nações Unidas.
- O Brasil defende a cooperação no combate a ações de grupos ilegais, mas discorda de uma doutrina de ataque preventivo, tal como foi proclamado por Condoleeza Rice, justificando “ações militares preventivas” em zonas fronteiriças para combater o tráfico e a guerrilha.
3.3 Bilaterais
- Colômbia-Equador: o evento sugere uma ruptura na tendência de cooperação militar e estratégica estabelecida entre os dois países.
- Colômbia-Venezuela: apesar de relativo sucesso em negociações de reféns entre os dois governos, a última crise demonstra uma tendência à deterioração das relações entre os dois países em matéria de segurança. O governo colombiano insiste na hipótese de que o governo venezuelano manteria relações escusas com as FARC, hipótese fortalecida pela divulgação das informações dos computadores de Reyes. Aponta-se ainda para o fato de que o primeiro comandante das FARC poderia estar instalado em território venezuelano, o que explicaria a pronta reação de Caracas ao receber a informação da intervenção no Equador.
Caso a crise se prolongasse, haveria conseqüências negativas para as relações econômicas entre os países. Apesar da deterioração nas relações entre os países, observa-se um alto grau de integração na região fronteiriça que seria gravemente afetado em caso de conflito armado entre os dois países.
3.4. Globais e hemisféricas
- A crise evoca o potencial de internacionalização de conflitos intra-estatais, especialmente em um contexto de redes terroristas transnacionais e narcotráfico;
- O conflito diplomático confirmou o papel da OEA enquanto um importante ator na manutenção da segurança hemisférica;
- Além das implicações regionais, os EUA são um ator essencialmente envolvido na questão. O conflito lida com tráfico de drogas e financiamento da AUC e FARC. Há centenas de soldados americanos na Colômbia para ajudar o governo na luta contra o narcotráfico no âmbito do Plano Colômbia, no intuito de desmantelar a estrutura das FARC, combater terroristas e guerrilheiros e destruir as plantações de coca. Há também muitos soldados norte-americanos sequestrados pelos guerrilheiros, o que deixa os EUA ainda mais dispostos a combater as FARC.
- o envolvimento da Interpol na apuração dos dados dos computadores de Reyes acaba por dar ainda mais legitimidade aos resultados, já que sua não ligação com os governos descarta uma possível parcialidade na investigação.
4. Cenários
1) A crise escala com as provocações do governo colombiano sobre possíveis ligações entre as FARC e os governos Chávez e Correa. Caso essas informações ou parte delas sejam confirmadas pelo governo colombiano e corroboradas pela Comissão da OEA, as conseqüências para os governos equatoriano e venezuelano seriam severas. A questão poderia agravar-se com a deflagração de crises políticas nos dois países e pela possibilidade de estabelecimento de sanções contra os mesmos no âmbito da OEA ou no âmbito de uma coalizão antiterror liderada pelos EUA. Nesse caso, as possibilidades de spill over seriam altíssimas.
2) Há a possibilidade de evolução do conflito no âmbito jurídico: as provocações da mídia colombiana prosseguem sem que o governo colombiano consiga provar conexões entre Correa, Chávez e as FARC. Nesse caso, Equador e Venezuela levariam a questão a cortes internacionais, aproveitando-se do fato de um cidadão equatoriano ter sido executado, em território equatoriano, durante a intervenção colombiana. Haveria pequena possibilidade de ressurgimento de tensões e de remobilização de tropas na fronteira com a Colômbia.
3) A crise se estabiliza sem demais complicações. A Colômbia se decide por acatar as proposições da comissão da OEA e reconhece o “rechaço” equatoriano à violação cometida contra seu território durante a intervenção. As relações entre os dois países continuam normalizadas e evoluem para um “fortalecimento nos mecanismos de cooperação e diálogo” como previsto na recomendação da OEA. Numa perspectiva mais otimista, a tendência a uma cooperação mais consolidada em matéria de segurança se estende às relações com a Venezuela.
4) O cenário mais provável é que a crise se acomode. Os governos continuarão os esforços cooperativos para que a questão das FARC – que já está nitidamente trans nacionalizada – seja resolvida da melhor forma. Isso implicaria uma possível não divulgação de informações delicadas que pudessem comprometer o governo equatoriano. A possibilidade de re-emergência de contendas continuaria, entretanto, existindo, já que os governos venezuelano e equatoriano não estariam dispostos a colaborar da forma esperada segundo as exigências de Uribe.
5) Não há previsão para o término da crise, uma vez que, emergidas as informações que comprometem o presidente equatoriano, este provavelmente não irá se mostrar muito flexível quanto ao fato da Colômbia haver adentrado em seu território. E da mesma forma, a Colômbia não irá se retratar e, agora, passa a acusar Rafael Correa de “abrigar”, sem combater, acampamentos das FARC em seu território. Com o envolvimento de Chávez na crise, esta pode, até mesmo, adquirir aspectos militares, já que é possível que o exército venezuelano se mostre cada vez mais pronto a atacar caso descubra qualquer incursão em seu território por parte da Colômbia. Isto geraria ainda mais desconfiança por parte de Uribe para o fato de que Chávez poderia estar acobertando bases de guerrilha no território da Venezuela.
O futuro das FARC é muito incerto. Apesar de uma onda de otimismo com relação ao seu enfraquecimento e possível caminho para negociações mais abertas, a liderança de Alfonso Cano é recente demais para que se tenha uma idéia de que rumos a guerrilha vai tomar, se ela realmente está enfraquecida e disposta a negociar ou se ela só ganha força com essa nova estrutura organizacional.

30/05/2008



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