China e Índia – “Chindia” (II): vasta estrutura econômica em construção, por Paulo Antônio Pereira Pinto
No momento, é impossível tratar sobre as relações entre a China e a Índia sem citar o livro “Billions of entrepreneurs – How China an India are Reshaping Their Futures and Yours”, por Tarun Khanna (Publicado por Penguin Group, 2007. Takun Khanna é Professor da “Harvard Business School” e escreveu o livro com base em vasta experiência pessoal de viagens pela China e Índia.), que visa a interpretar, a leitores ocidentais, oportunidades de negócios na vasta estrutura econômica em contrução entre os dois países asiáticos emergentes.
Sua obra diferencia-se da maioria da literatura disponível sobre China e Índia, que, até recentemente, utilizava parâmetros de comparação entre a RPC e, quase sempre, o Japão, a Coréia do Sul, ou mesmo Taiwan. Os indianos eram, nesses estudos, associados, inevitavelmente, aos paquistaneses.
No momento, a China parece “descolar-se” do resto da Ásia Oriental, que continua a ser vista com atenção, por sua dinâmica própria. A Índia deixou de ter como referência o Paquistão.
China e Índia são, hoje, o foco de comparações inesgotáveis, para os leitores ocidentais, seja a respeito de seus respectivos processos de desenvolvimento econômico, seja quanto à inserção de cada país no cenário internacional, inclusive com o emprego de suas respectivas “soft power” (Nye, Jr. Joseph S. “Soft Power: The Means to Success in World Politics”. Public Affairs, 2004. O autor descreve tal poder como “a habilidade de obter o que você quer, atraindo e persuadindo os outros a seguirem objetivos seus”).
Para o observador em Mumbai, no entanto, o mais interessante tem sido o esforço de analistas indianos para explicar, ao seu próprio país, a “China”, inclusive as razões para seu sucesso econômico recente.
Isto porque, como se sabe, o intenso intercâmbio comercial, a “cross-fertilization” cultural e mesmo a mistura étnica que prevaleciam, havia séculos, entre as duas civilizações, foram suspensos, a partir de 1962, com a guerra fronteiriça entre os dois países. Em 2007, no entanto, a China já se tornou o maior parceiro comercial da Índia, com trocas bilaterais no valor de US 37 bilhões. Espera-se que, em 2010, este comércio entre dos dois países chegue a US 60 bilhões (Revista indiana “Business Today”, 10.02.2008, pag. 46).
Nessa perspectiva, a narrativa de Tarun Khanna – de nacionalidade indiana – é bastante simples, na medida em que seleciona alguns aspectos da vida econômica nos dois países. Cada capítulo é baseado em tais comparações, utilizando histórias de sucessos e fracassos de empresas, indivíduos e projetos nas nações vizinhas. Assim, o autor analisa, por exemplo, porque cidades podem ser construídas, praticamente da noite para o dia, na China, enquanto Mumbai não consegue, apesar de repetidos esforços, há anos, urbanizar sua favela Dharavi, a maior do mundo. Em contrapartida, o mercado de capitais indiano – também com sede em Mumbai – tornou-se respeitado mundialmente, a partir do início deste milênio, na medida em que a forte intervenção estatal chinesa mantém as instituições financeiras da RPC atrasadas.
Tharun Khana questiona a razão de a indústria de “software” ter prosperado na Índia, mas não na China. Por que os chineses atraíram maior volume de capital externos do que os indianos. Busca explicar a razão da diferença de tratamento oferecido aos chineses de ultramar – que são bem vindos, com seus investimentos no país de origem – e aos indianos residentes no exterior – que hesitam, ainda, em aplicar seu dinheiro na terra onde nasceram ou de seus antepassados.
Ressalta, também, que as propostas para introduzir, na China, a “economia socialista de mercado” foram iniciadas com reformas no campo, enquanto, na Índia, pouco resultado pode ser visto com a redistribuição de terras. Em outro capítulo, analisa o sucesso indiano, em sua inserção internacional, com a exportação de “soft power”, manifestada em filmes de Bollywood, medicina tradicional e gurus, atraindo, assim, simpatias em diversas partes do mundo. Os chineses, de sua parte, especializam-se em “hard power”, isto é, explorando fortemente os recursos minerais e energéticos de paises na África e América Latina, criando, assim, antipatias externas.
Cada parte de seu livro demonstra profundo conhecimento pessoal dos temas abordados, revelando ter o autor ampla vivência dos dois países. Sua carga de informação é, portanto, significativa. As conclusões, contudo, para o observador em Mumbai, deixam a desejar. Por exemplo, analisa que, além da influência budista – de origem indiana – na China, foi encontrado, também o registro do símbolo “om” – palavra que inicia toda a prece da religião hinduísta – em templo na cidade chinesa de Hangzhou, onde são crescentes os investimentos da Índia em “software”. Conclui, portanto, que a facilidade de absorção de tecnologia indiana, nesta metrópole da RPC, deve-se a predisposição histórica da China em receber influência da Índia.
O livro, ademais, busca ser um receituário a grandes empresas multinacionais ocidentais que queiram investir nos dois países. Seu conselho principal é o de que deveria ser emulado o exemplo da General Electric, que foi bem sucedida em empreendimento que teve como base o estabelecimento de “hardware”, na China, e de “software”, na Índia. Assim, caso se queira produzir um “chip” ou realizar um projeto de arquitetura, cabe recorrer a parceiros indianos. Se o investimento depender de estradas, portos, energia e demais elementos de infra-estrutura eficiente, é melhor pensar no vizinho chinês.
Segundo este raciocínio, ambas as nações teriam muito a ganhar, em sua inserção na economia internacional, caso viessem a melhor articular suas complementariedades e vantagens competitivas. Retorna-se, portanto, ao tema de que a emergência atual da Índia e da China é, muitas vezes, analisada apenas na perspectiva da cobiça quanto ao acesso de centenas de milhões de seus potenciais consumidores à oferta de produtos e serviços estrangeiros.
Tais avaliações estariam mais adequadas ao debate, nas últimas décadas do século XX, quando o processo de globalização começou a prevalecer sobre as economias fechadas e centralmente planificadas.
Sabemos, agora, que a criação de uma economia global e o fortalecimento de novas tecnologias não erodiram culturas e valores locais. Verificou-se, pelo contrário, que, na medida em que as pessoas tiveram acesso a maior informação e educação, suas diferenças culturais se tornaram mais pronunciadas – não menos. Nesse processo, diferentes grupos demonstraram perseguir visões distintas de bem-estar, assim como reagiram de formas agressivas a ameaças perceptíveis a sua dignidade cultural.
Nessa perspectiva, conforme já exposto em colunas anteriores, as grandes questões deste novo milênio parecem dizer respeito a: como culturas podem ser adaptadas; como capital social e cultural pode alavancar o desenvolvimento das nações; e como o potencial de conflito destrutivo entre culturas pode ser transformado em saudável competição cultural.
A título de conclusão pessoal, lembro que, na década de 1950, Nehru comentou sobre a histórica falta de vontade e de habilidade da Índia em aprender da China: “Durante estes milhares de anos…cada país aprendeu algo do outro, não apenas em termos de pensamento e filosofia, mas também nas artes e ciências da vida. Provavelmente, a China foi mais influenciada pela Índia, do que a Índia pela China, o que é uma pena, pois a Índia poderia ter tirado proveito do sólido senso comum dos chineses, facilitando, assim – na Índia – o controle de suas próprias extravagâncias…a China levou muito da Índia, mas foi sempre suficientemente forte e auto confiante para absover influências externas em seus próprios termos e enquadrá-las em algum lugar na sua própria textura social. Até mesmo o Budismo, com sua complexa filosofia não pode mudar ou suprimir o amor pela vida e alegria dos Chineses” (Nehru, “Discovery of India”).
Fica em aberto, portanto, a questão sobre se a formação de uma “Chindia” resumir-se-ía a um vasto espaço econômico para o lucro de empresas estrangeiras e locais, ou se prodominaria a abertura para negociações culturais, que garantiriam a estabilidade regional.