Senhor Presidente da República do Peru,
Senhores Ministros de Estado do Peru e do Brasil,
Senhores e senhoras empresários peruanos e brasileiros,
Meus amigos da imprensa,
Meus companheiros que vieram nesta viagem ao Peru,
Eu sempre tenho, Alan, dois discursos: um discurso por escrito e um de improviso, e fico pensando que vou começar com o escrito. Mas, antes, eu queria fazer um desafio ao companheiro Alan García. O Alan García tem seis filhos. Certamente, quando chega em casa, depois de uma jornada de trabalho muito grande, gostaria de dedicar atenção a todos os seis filhos. Mas se, entre os seis, tiver um que teve algum probleminha na escola, com a namorada, certamente é a ele que você vai dedicar alguns minutos a mais.
O fato de o Brasil não estar com uma relação com o Peru tão cotidiana quanto está com os outros companheiros da América do Sul, é porque parece que a paz reina no Peru. Os conflitos são infinitamente menores e os resultados estão acontecendo. Eu queria propor aos empresários brasileiros e aos empresários peruanos, concordando com o companheiro Alan García, que nós podemos fazer muito mais coisas. Nós poderemos dar um salto de qualidade e fazer, nos próximos três anos, o que não foi feito nos últimos dias. Poderíamos começar com uma proposta feita pelo Paulo Skaf. Ainda este ano, quem sabe em julho ou agosto, fazermos uma grande reunião em São Paulo com os empresários brasileiros e peruanos, e fazermos uma semana de cultura peruana e de culinária peruana em São Paulo. E depois de alguns meses fazermos outra reunião com uma semana de cultura brasileira e de culinária brasileira, no Peru. Quem sabe fosse o momento de começarmos a colocar para fora tudo o que temos de bom, porque o que temos de ruim, a imprensa coloca todo santo dia.
É com muita alegria que inicio minha visita a Lima, inaugurando este Seminário Empresarial. Vocês, empresários, sabem que são parte fundamental da parceria estratégica que estamos construindo. Os números são eloqüentes. Nos últimos cinco anos, nosso comércio bilateral quadruplicou. No ano passado, alcançamos mais um recorde: 2 bilhões e 700 milhões de dólares. Nesse período, nossas exportações aumentaram 276%, e as nossas importações aumentaram 362%. É verdade que ainda temos um superávit de quase 700 milhões de dólares favoráveis ao Brasil, e todos os empresários brasileiros sabem que eu reivindico que, nas relações comerciais, é preciso que haja um equilíbrio para que uma economia não leve tanta vantagem sobre a outra. O essencial é que nossa balança está ficando mais equilibrada, provando o êxito de nosso esforço conjunto para estimular as vendas de produtos peruanos no mercado brasileiro.
Os investimentos brasileiros também estão chegando num ritmo recorde. Já supera a marca dos 2 bilhões, o estoque de capitais do Brasil no Peru. As principais empresas brasileiras trazem empregos, ou seja, mais de 20 mil postos de trabalho direto, trazem tecnologia e competitividade. Exemplo disso é a Petrobras, e concordo com o Presidente Alan García, porque a Petrobras sofria da síndrome do medo de ser grande. Ela fez menos investimentos no exterior do que está fazendo agora, porque agora tem uma definição do Governo brasileiro de que a Petrobras não pode ter medo de exercer o papel que precisa exercer no mundo.
A Petrobras chegou ao Peru em 2002. Hoje, ela é a segunda maior petroleira no país, e nós vamos trabalhar, Presidente, para que ela invista mais e mais rápido do que está investindo. Impressiona não apenas a dimensão, mas também a abrangência desses investimentos brasileiros, o que é um sinal extremamente importante, porque os empresários brasileiros começam a fazer no Peru, que é hoje a economia campeã de crescimento na nossa América do Sul.
Nos últimos anos, esses investimentos, que incluem a instalação de novas fábricas, se espalharam por setores-chave, como siderurgia, produção de zinco e comercialização de bebidas. Inclusive, eu trouxe uma cachaça de qualidade para lhe presentear, produzida pelo meu Vice-Presidente. E as perspectivas são promissoras, com uma presença ascendente de capitais brasileiros, também no setor financeiro, de obras públicas, de montagem de veículos e de limpeza urbana. Em nenhum outro setor vejo possibilidades tão favoráveis, no entanto, quanto na cooperação em energias renováveis. Tenho a convicção de que o setor energético, Alan, é uma possibilidade excepcional do crescimento das relações entre Brasil e Peru.
O setor privado brasileiro dispõe de conhecimentos técnicos que podem ajudar o Peru a replicar o sucesso dos biocombustíveis no Brasil. Essas novas fontes, limpas e renováveis, foram determinantes para que o Brasil alcançasse a auto-suficiência energética, e também geram empregos e renda, sobretudo no campo, para as populações mais pobres, sem comprometer a segurança alimentar.
Meus caros empresários,
Tenho plena consciência do papel que nossos governos podem e devem desempenhar para induzir e promover negócios entre os dois países. Concluímos o Acordo de Complementação Econômica entre Mercosul e Peru, e assinamos, ainda, instrumento para evitar a dupla tributação e prevenir a evasão fiscal, como estímulo adicional aos fluxos comerciais e de investimentos. Quero ressaltar, no entanto, que esses notáveis resultados econômicos muito se devem à visão empresarial de homens de negócios que apostaram no dinamismo de nossas economias e na vontade de trabalhar de nossos trabalhadores.
Peru e Brasil, recentemente, receberam o “grau de investimento”, num reconhecimento internacional de que estamos no caminho certo. Adotamos a estratégia de acelerar o crescimento, com políticas sociais capazes de distribuir renda e de gerar inclusão, sem renunciar a uma conduta macroeconômica prudente e responsável. Os resultados são auspiciosos: crescimento sólido, inflação baixa, expansão do mercado interno, com o aumento do consumo popular e de crédito, ampliação de empregos e de renda dos trabalhadores e, o que é fundamental, redução da pobreza e das desigualdades. Nossos países têm o mesmo desafio fundamental: superar um pesado legado de injustiça e de desigualdade que, por muitos anos, atrasou nosso desenvolvimento. Sei que conto com os empresários peruanos e brasileiros para se engajarem, cada vez mais, nesse esforço de levar a cidadania plena a milhões de peruanos e de brasileiros.
Meus amigos e minhas amigas,
A nossa aliança estratégica está assentada no firme compromisso com a integração sul-americana. Queremos construir a infra-estrutura energética, de transporte e de comunicação, indispensável para unir nosso continente. Já passamos do discurso à ação. Inauguramos a ponte do rio Acre, a primeira ligando nossos países. Aqui, Alan, é importante que a gente tenha clareza de como os países da América do Sul se enxergavam. A primeira ponte entre Brasil e Peru foi construída no meu Governo. Depois de 500 anos, nós fizemos uma ponte. A primeira ponte entre Brasil e Bolívia foi feita no meu Governo, depois de 500 anos. A demonstração (inaudível) de que durante quase quatro séculos, o Brasil não se importava com a América do Sul, a não ser com os países do Sul mesmo, que hoje fazem parte do Mercosul. Peru, Venezuela, Colômbia, Equador eram coisas muito distantes do Brasil e, graças a Deus, agora nos descobrimos. E a Interoceânica vai permitir, com a participação de brasileiros e de peruanos, renovando e construindo os portos que têm que ser construídos. Penso que nós vamos dinamizar as regiões do Peru e do Brasil que precisam da presença do Estado.
No ano que vem, eu espero, junto contigo, participar da inauguração da Interoceânica. Talvez seja no ano que vem. As empresas brasileiras que estão construindo, aqui, sabem que têm que trabalhar um pouquinho mais. Ela vai ligar a região Centro-Oeste do Brasil ao Sul do Peru, permitindo o escoamento bioceânico das produções dos dois países, resgatando populações historicamente isoladas e marginalizadas, e abrirá um canal ágil e competitivo para os mercados asiáticos.
A rodovia simboliza, sobretudo, a vontade de união duradoura de duas nações vizinhas e amigas. Concretizaremos um antigo sonho e reafirmaremos nosso compromisso de integrar nosso Continente por meio do diálogo, da cooperação e do comércio. Quanto mais dinâmicos o comércio e os investimentos de lado a lado, maiores serão os benefícios para nossos povos. O progresso econômico reforçará nossos vínculos de amizade e solidariedade, e contribuirá para o desenvolvimento social de nossas populações, sobretudo as mais pobres. É preciso que nossas sociedades e empresários se aproximem e se conheçam mais. O resultado será uma nova corrente de negócios produtivos, uma corrente que nos permita garantir o lugar que cabe ao Peru e ao Brasil no cenário econômico mundial. O potencial de expansão do comércio e dos investimentos bilaterais está longe de ter sido esgotado. Ainda existem muitas oportunidades por aproveitar.
É com esta convicção que eu participo deste Seminário, e gostaria de te dizer algumas palavras, fora do meu discurso. Primeiro, a você, meu querido companheiro Alan García, quero lembrar que quando eu não era Presidente da República, em 1989, e você era Presidente da República do Peru, foi o único Presidente da América do Sul a me receber. E o que é mais importante: foi o único a me telefonar quando eu perdi as eleições em 1989. E um gesto de solidariedade, quando saímos derrotados de uma eleição, é sempre mais gratificante do que um gesto (inaudível) quando se ganha uma eleição. Isso eu não esqueço.
Lembro-me da cena, visitando o Palácio do Governo do Peru. Você, num quadro, me explicando a economia peruana, e saímos daqui para o Chile. Chegamos ao Chile, e o Brasil inventou um tal de Plano Verão. Nós íamos ficar no Chile, e voltamos correndo para o Brasil, e eu me lembro de como eram difíceis as coisas aqui na América do Sul. Lembro-me do pavor que o “Sendero Luminoso” criava neste país. Lembro-me de uma palavra tua, em que me dizia: “Lula, o problema aqui no Peru é que eu nem sei se a pessoa que está me servindo o café é do ‘Sendero’ ou não”. Naquela ocasião, eu visitei uma vila chamada Salvador, que era um dos poucos lugares aqui em que o “Sendero Luminoso” não conseguia se organizar.
Passados 20 anos, praticamente, eu fico imaginando os avanços que ocorreram na América do Sul. Eu sempre digo isso, porque a imprensa e os empresários têm que entender que houve um avanço excepcional na América do Sul. Em 1990 – não faz tanto tempo assim. Faz 18 anos apenas – em quase todos os países da América do Sul, tinha correntes políticas que imaginavam que a única possibilidade de chegar ao poder era pela via da luta armada.
Em 1990, criamos um Fórum, em São Paulo, para o qual chamamos toda a esquerda latino-americana a participar. Era impressionante a quantidade de grupos dentro de cada país que não conversavam entre si. (inaudível) que da Argentina foram tantos grupos, e a única coisa que unificou os argentinos é que a reunião foi feita (inaudível). A única coisa que unificava as correntes ideológicas argentinas era Maradona, era a única coisa. O resto eram divergências, e esse Fórum que nós criamos foi educando a esquerda para compreender que existia a possibilidade de disputar as eleições e ganhar pela via democrática. E qual era o argumento que eu tinha? Cinco anos antes, em 1985, dei uma entrevista, se não me falha a memória, à Folha de São Paulo, em que eu dizia que não era possível chegar ao poder pela via da eleição direta. Quatro anos depois, eu tive quase 47% dos votos. Esse resultado eleitoral permitiu que nós convencêssemos amplos setores da esquerda, na América Latina, de que existia uma possibilidade de se organizar, competir, ganhar e governar.
Quando tomei posse, em 2003, Alan, eu tinha um único desafio. Eu sabia do preconceito que tinham contra mim. Tinha diminuído, mas tinha muito preconceito. Eu tinha a consciência de que, se eu não desse certo, levaria mais 150 anos para que um operário pensasse em ser Presidente da República num país do tamanho do Brasil.
Hoje todo mundo já tem claro que eu sou uma pessoa de sorte. Todo mundo tem claro que, mesmo nos momentos mais difíceis, eu tive sorte. E eu digo sempre: que Deus permita que nunca mais o Brasil eleja um Presidente que não tem sorte, porque será a desgraça do povo brasileiro.
Há uma coisa que eu poderia dizer aos empresários brasileiros e peruanos: nós estamos vivendo um certo momento mágico na América do Sul. Eu não me lembro, na minha vida política, de ter uma combinação tão razoável de crescimento econômico, estabilidade macroeconômica e, ao mesmo tempo, uma forte política de inclusão social. Alan, eu dizia a você noutro dia que eu tinha um desafio na minha vida, porque aprendi, na minha vida política, que era preciso a economia crescer para a gente ter o que distribuir, e isso desde a minha formação como dirigente sindical.
Tinha uma discussão se a economia tinha que crescer para distribuir, ou se era possível combinar uma certa distribuição para que as coisas pudessem ocorrer juntas. Isso num momento muito crítico da economia brasileira, em 2003, em que nós fizemos o maior ajuste fiscal da história do meu País. E eu só pude fazê-lo porque tinha capital político para trocar pela insatisfação que ia criar na minha base depois, no meu Partido, nos meus amigos sindicalistas. Eu troquei todos os aplausos que poderia ter pela certeza de que um ajuste fiscal, sempre na hora certa, poderia resultar em que nós pudéssemos, mais adiante, colher os frutos. Posso garantir-lhe, hoje, que deu certo.
Eu me lembro do meu Ministro da Fazenda, quando propus criar o projeto da Bolsa Família, e que a gente tinha uma perspectiva de investimentos de 8 bilhões de reais. Era impensável imaginar em gastar 8 bilhões de reais com os pobres no Brasil. Alguns escreviam assim: “Com esse dinheiro poderia fazer estradas”. Outros escreviam: “Esse dinheiro poderia ser emprestado para o desenvolvimento das empresas”. E quando eu ouvia ou lia essas críticas, me lembrava de que o Brasil cresceu, em 1973, 14,3% ao ano e, nesse mesmo ano, o salário mínimo decaiu.
Eu firmei a convicção de que apenas o crescimento econômico, sem a repartição do resultado desse crescimento com os pobres, apenas alarga o fosso entre os que já têm e os que não têm. Isso aconteceu no Brasil, na época do chamado Milagre Brasileiro, que foram os anos em que o Brasil cresceu, em média, 10% ao ano. Na época, os sindicalistas diziam assim: “O bolo precisa crescer. Quando o bolo estiver grande, vamos distribuir”. Comeram o bolo todo, Alan. Não sobrou nada. O que sobrou foi que, exatamente quando deveria distribuir, os números internacionais aumentaram, as dívidas do Brasil ficaram impagáveis, e nós passamos três décadas – Peru, Brasil e outros países – em que toda a nossa preocupação diária era o pagamento da dívida externa e o controle da inflação, que, no meu País, chegou a 80% ao mês.
Então, eu fico olhando para o mundo de hoje, (inaudível), o avanço que nós conseguimos no nosso continente… e nós poderemos conseguir muito mais. Não depende de muita coisa. Depende apenas de nós confiarmos no nosso potencial, fazermos um levantamento das oportunidades que nos oferecem e termos mais arrojo nos investimentos.
Faz cinco anos, meu caro Alan – e estão aqui os empresários brasileiros que podem testemunhar –, que fico brigando com eles: “não tenham medo de virar empresas multinacionais. É importante que vocês invistam”. Acabei de criar, no Brasil, agora, na última segunda-feira, um fundo soberano para ajudar as empresas brasileiras a fazerem investimentos no exterior. E onde nós temos que fazer investimentos? Fazer investimentos na América do Sul, na América Latina, na África. É onde estão as grandes possibilidades de a gente começar quase do zero, fazendo coisas importantes. Eu fico olhando o potencial de integração da América do Sul, o potencial hidrelétrico que tem a América do Sul, o potencial de gás e de petróleo que tem a América do Sul. Nós poderíamos ser motivo de inveja ao mundo desenvolvido se tivermos competência de explorar as nossas próprias potencialidades.
Muitas vezes, fica um empresário peruano, um empresário brasileiro, ou um político peruano, um político brasileiro olhando a grandeza da Europa, olhando a grandeza dos Estados Unidos. E ficamos até como aquela pessoa que, na rua em que se mora, fica com inveja do cara que comprou um carro novo, tem inveja do cara que comprou uma casa nova. Nós ficamos olhando a dimensão dos outros, sem discutir se temos ou não possibilidade de chegar a ser grandes e ricos, explorando o que nós temos. O exemplo mais vivo da descrença que tínhamos em nós é a ponte da Bolívia e a ponte do Peru, depois de 500 anos. Eu penso que nós acordamos. Eu penso que nós tomamos consciência de que temos o que oferecer ao mundo.
Na questão ambiental, estou vendo a preocupação extraordinária com a Amazônia. Todo mundo lá fora fala na Amazônia, todo mundo fala em preservar a Amazônia. Agora, ninguém quer discutir a qualidade de vida que leva o povo que mora na Amazônia peruana, na Amazônia brasileira, na Amazônia venezuelana, na Amazônia colombiana. E nós, que somos governantes dos países onde está a Amazônia, queremos preservá-la mais do que qualquer outro dirigente do mundo, mas queremos fazer dela, também, uma fonte de riqueza para melhorar a vida das pessoas que moram lá. O mundo desenvolvido fala muito em dinheiro, fala de créditos de carbono, fala de uma série de coisas. Entretanto, esse dinheiro vem muito lentamente, e a sobrevivência do nosso povo exige pressa, exige rapidez.
Essa é uma discussão que eu quero fazer mundo afora. Agora nós somos responsáveis pela subida do preço dos alimentos. Ontem, Alan, eu não vi um europeu falar do aumento do petróleo. O petróleo é como se fosse a vaca sagrada. Ele aumenta de 30 dólares para 124 dólares o barril, e não há uma única crítica, em nenhum lugar do mundo. É normal. Agora, ninguém quer discutir o que implica o aumento do preço do petróleo na produção de fertilizantes para a agricultura. Ninguém quer discutir o que significa o preço do petróleo no frete da comida que produzimos. Eles querem dizer que é o biodiesel, mas quem produz biodiesel? O biodiesel é uma extraordinária invenção que, por enquanto, somente o Brasil continua produzindo, porque já produzia antes da história do biodiesel.
Eu achei estranho que, ontem, nenhum companheiro europeu tivesse falado da crise americana. A verdade é que também os bancos europeus tiveram prejuízos enormes, e isso não existiu. Se fosse um país da América do Sul que tivesse tido um prejuízo de 100 dólares, já estaria aqui o FMI para dizer o que a gente tinha que fazer. O Banco Mundial já teria convocado 80 reuniões. Como são os Estados Unidos, o mundo econômico é fantástico. Todos os dias a gente vê nos jornais “sobe o risco-Brasil, desce o risco-Brasil, sobe o risco (inaudível)”, e, na crise americana, não sobe e nem desce o risco. É um mundo maravilhoso.
Graças a Deus, conquistamos o investment grade. Agora, (inaudível) estão com medo. Conseguimos o investment grade, teremos muitos dólares, e vai piorar o câmbio. De vez em quando, (inaudível): a única solução que vocês têm é ter um câmbio fixo, o que é uma farsa e não pode dar certo em nenhum lugar do mundo.
Quando digo que estamos vivendo um momento mágico, meu caro Alan, é porque eu conheço muito a América do Sul. Por ter perdido muitas eleições, eu viajei muito pela América do Sul, não ensinando como perder, mas trocando idéias. Eu sinto que há um clima de auto-estima na sociedade, que não existia antes. No Brasil, nós conseguimos, de 2004 para cá, tirar 10 milhões de brasileiros da extrema pobreza, conseguimos elevar 20 milhões de brasileiros das classes D e E para a classe C. É por isso que as pesquisas mostram que o consumo da parte mais pobre do Brasil é maior do que o consumo da parte mais rica do Brasil.
Qual é o milagre? Não tem milagre. É que, pela primeira vez na história do Brasil, Alan, conseguimos combinar o aumento das exportações, o aumento das importações e o crescimento interno. O Brasil, depois de muito tempo, tem um mercado interno. As pessoas estão comprando sapatos, as pessoas estão comprando comida, e eu acho que o aumento do preço da comida é um problema. Eu diria que nós temos que (inaudível), mas nós estamos sendo provocados a produzir mais alimentos. E nós (inaudível). Cada país (inaudível). Se cada país produzir e tiver um estoque regulador, não teremos problemas com alimentos. O problema é que, durante três décadas, a Europa pagava para que seus produtores não produzissem, e ainda colocava subsídios para a gente não exportar os nossos produtos. Quem sabe agora haja uma flexibilização, e a gente possa, na Rodada de Doha, encontrar uma saída para que as coisas produzidas com qualidade (inaudível) sejam vendidas por um preço mais justo nos países que consomem muitas (inaudível), como os europeus ou os americanos. Então, acho que há um clima positivo na América do Sul e eu acho que a gente não pode perder isso, não pode perder de vista o que está ocorrendo.
Eu criei um programa chamado “Luz para Todos”, os empresários brasileiros sabem. Nós detectamos que tinha, segundo o IBGE, 10 milhões de pessoas que não tinham energia elétrica. Este ano, nós completaremos o atendimento a essas 10 milhões de pessoas, levando energia a elas. Descobrimos, por conta de termos entrado no meio do mato para levar energia, que o IBGE (inaudível) tem mais de 1 milhão e 700 mil famílias, além dos dados iniciais do IBGE. Cada ligação, agora, a mais longínqua, está custando 5 mil reais. Então, nenhuma empresa privada vai levar energia a um lugar tão distante, porque não é rentável. É melhor um único poste conectado a 50 casas, aí, sim, há rentabilidade. Quem é que tem que fazer isso? É o Estado. Estamos assumindo o compromisso, nessas que custam 5 mil reais, estamos (inaudível) a conexão de graça, damos três tomadas de graça, três, cinco minutos de graça… Eu tenho tido emoções em ligar, numa casa que viveu à luz de lamparina o tempo inteiro. Uma luz é transportar a pessoa do século XVIII para o século XXI em menos de um segundo.
E vamos continuar fazendo, porque o papel do Estado é permitir que as pessoas melhorem de vida; melhorando de vida, elas vão virar consumidoras; virando consumidoras, os empresários vão ter como aumentar suas empresas, vão ter que contratar mais gente, vai ter mais comércio vendendo, mais gente trabalhando, mais gente comprando, e a gente vai consolidando o desenvolvimento da nossa querida América do Sul.
Eu sou um homem, hoje – faltando dois anos e sete meses para deixar a Presidência da República –, convencido de que vou fazer mais nesses dois anos e sete meses do que fiz até agora, porque eu acho que aprendemos que é importante a gente consolidar essa parte do crescimento.
Ontem você falou em educação. Essa é uma coisa que precisamos transformar em prioridade na América do Sul. Nós criamos, nesses cinco anos, 10 milhões de empregos. Nos últimos 24 meses, temos batido o recorde, todos os meses, de carteira profissional assinada. O Paulo Skaf pode te dizer que, há três anos, eu fazia uma reunião com a indústria automobilística brasileira, todos eles estavam quebrados, todos estavam falidos, todos eles diziam que iam embora do Brasil, e todos eles falavam na China. Hoje, eles batem recorde de produção, de venda, de licenciamento e de contratação de trabalhadores todos os dias. Se Deus quiser, com a política de desenvolvimento que lançamos agora, vamos produzir muito mais.
O brasileiro, acho que o peruano também, acho que o povo latino-americano tem três paixões. Quatro, talvez. A primeira paixão de todo mundo, de todo homem e de toda mulher, é se casar com uma mulher bonita e a mulher querer casar com um homem bonito. Isso é o primeiro que todo mundo quer. Não venham dizer que não é verdade, que sou mentiroso. A segunda coisa que todo mundo quer é ter uma casa. A terceira paixão do ser humano é ter um carro. E agora tem uma outra, que é o computador, sobretudo para a juventude. Ela é capaz de trocar a namorada por um computador, porque namora pela internet agora. Na modernidade, não precisa estar junto para namorar. Namora à distância. E o que nós estamos fazendo?… Criamos um programa chamado “Computador para Todos”. A nossa burocracia levou mais de dois anos discutindo o financiamento. Hoje, o pobre está tendo acesso ao computador, pagando 50 reais por mês (inaudível). Acabamos de fazer um programa, em que vamos levar internet banda larga para 55 mil escolas públicas urbanas brasileiras até 2010. Todas as escolas técnicas já têm laboratório de informática. Se Deus quiser, em mais uns quatro ou cinco anos, vamos estender a todo o território nacional e a internet banda larga vai deixar de ser um privilégio apenas daqueles que podem pagar.
O Brasil, Alan, em 100 anos construiu 140 escolas técnicas profissionalizantes. Em oito anos, nós vamos construir 214 escolas técnicas. Nós conseguimos colocar… E neste ano, se Deus quiser, vamos participar de um evento. Neste ano se formarão os primeiros 60 mil jovens em universidades de um programa que nós criamos, chamado ProUni. Nós demos uma isenção para as universidades privadas, e pagamos o valor da isenção em bolsas de estudo para jovens de escolas públicas da periferia. Já temos 410 mil jovens na universidade, 40% são negros, para formar mão-de-obra qualificada, para que o Brasil possa ser mais competitivo e começar a exportar conhecimento e inteligência, e não apenas minério de ferro, soja, suco de laranja ou (inaudível).
(inaudível), Alan. E eu digo isso em todos os países. Ontem eu estava discutindo com os meus assessores que é visível o crescimento (inaudível). É visível, você vê nas ruas que as coisas estão acontecendo. E a gente vê em todos os países que as coisas estão acontecendo. Os empresários peruanos e brasileiros precisam acreditar que não depende apenas do Alan ou do Lula, nós somos passageiros. Daqui a pouco acaba o mandato do Alan, não pode mais se candidatar, (inaudível) e vêm outras pessoas. O que acontece é que os governantes, se encontrarem a coisa sólida, obrigatoriamente qualquer um vai dar continuidade. Ninguém vai ser louco de retroceder. O alicerce está pronto, a parede foi levantada.
Então, eu posso te garantir, companheiro, que os investimentos brasileiros no Peru vão crescer. Estou te garantindo que os investimentos da Petrobras vão crescer. (inaudível) não ia fazer merchandising (inaudível), e que a participação do Brasil no setor energético vai crescer, porque nós temos dimensão de que o Peru será muito melhor parceiro do Brasil do que qualquer país que a gente tenha que atravessar o Oceano Atlântico para fazer negócios.
Quero desejar a vocês um próspero (inaudível). Quero dizer que a questão da aviação na América do Sul é um desastre. Se alguém tem que ir ao Equador – agora parece que abriu uma linha (inaudível) – e antes vai a Miami; ou se alguém quer ir a Angola e antes vai a Londres, a nossa perspectiva de negócios se transforma em (inaudível).
Essa é uma reunião, Alan, de muitas das reuniões que fazemos na América do Sul… Nós precisamos colocar a questão do transporte aéreo como uma decisão dos Governos, para que a gente discuta com as nossas empresas. Não é possível a dificuldade que temos de voar na América do Sul, não é possível a dificuldade que temos de voar para a África. É quase impossível. E eu acho que é um problema da aviação peruana, da aviação brasileira e de todos nós. Nós falamos de negócios, falamos de oportunidades, mas não damos a oportunidade de ir e vir às pessoas que têm que fazer negócios. Eu dizia ao Paulo Skaf, na reunião com os empresários brasileiros: “vamos ter que chegar ao Brasil, juntar os empresários (inaudível) e ter uma conversa séria com eles”. (inaudível), comecem a colocar na minha cabeça a idéia de que o Estado vai ter que fazer (inaudível). Eu não quero fazer. Acho que o Estado não (inaudível), mas se (inaudível) necessário, não tiverem ousadia, nós vamos ter que ter ousadia, pelo menos para forçá-los ou estimulá-los a fazer. É inconcebível a quantidade de reclamações para um peruano chegar ao Brasil, e os brasileiros para virem ao Peru. Então, (inaudível) para não ter mais avião.
Quero dizer a você, com muita alegria, que cresceu muito o turismo peruano no Brasil. Segundo a nossa presidente da Embratur, do ano passado para cá, mais de 30 mil peruanos (inaudível) foram ao Brasil. Agora, os brasileiros precisam conhecer o Peru. Agora, se não tiver avião, vai ser muito difícil.
Então, eu quero te dizer, meu caro, que hoje nós assinamos bons acordos. Acho que deveríamos ter o compromisso de fazer essa reunião empresarial em São Paulo, com uma semana peruana, e depois fazer aqui uma semana brasileira, e vamos recuperar, caro amigo, (inaudível) em quase três anos (inaudível) aquilo que não foi feito nos últimos dez anos.
A vocês, boa sorte, e que Deus os abençoe (inaudível).

17/05/2008



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