Declaração à imprensa e entrevista coletiva conjunta por ocasião da visita oficial da Chanceler Federal da Alemanha, Angela Merkel, com perguntas respondidas pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva – Brasília, DF, 14/05/2008

Excelentíssima Senhora Angela Merkel, Chanceler da República Federal da Alemanha,
Embaixador da Alemanha no Brasil, e Embaixador do Brasil na Alemanha,
Demais integrantes da comitiva brasileira e da comitiva alemã,
Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães Neto, Ministro de Estado das Relações Exteriores,
Meu companheiro Sérgio Machado Rezende, Ministro de Estado da Ciência e Tecnologia,
Companheiros da imprensa alemã e da imprensa brasileira,
Meus amigos e minhas amigas,

É com particular satisfação que recebo a Senhora Angela Merkel em sua primeira visita ao Brasil como Chanceler Federal – chefe do governo – da Alemanha.
Sua presença em nosso País tem forte simbologia. Conhecemos sua trajetória pessoal, seu papel na construção da Alemanha que nasceu dos escombros do Muro de Berlim. Trata-se de uma Alemanha forte e unida, capaz de superar décadas de divisão e conflito e retomar um papel central na Europa. Todos sabemos que a Alemanha é indispensável para que a União Européia se consolide como interlocutor global nos grandes desafios da atualidade.
O Brasil que a recebe hoje também passou por grandes transformações desde sua estada aqui, em 1996, como Ministra do Meio Ambiente. A democracia consolidou-se, firmando o papel crescente da sociedade civil na definição dos rumos da nação. Retomamos o desenvolvimento, revertendo décadas de estagnação no nosso crescimento. Revertemos, também, a histórica concentração de renda e a perpetuação da pobreza e da exclusão social, criando empregos e implementando programas inovadores de combate à fome e de melhorias na educação e na saúde. Alcançamos a estabilização macroeconômica, controlamos a inflação e acumulamos importantes reservas de divisas.
Essas experiências não se restringiram ao Brasil. A América Latina, e especialmente a América do Sul, vive hoje um período ímpar de profunda transformação social, democratização política e ressurgimento econômico. Em todos os países, cada um a seu modo, uma democracia vibrante vai nascendo ou se consolidando, como resultado do contraponto saudável entre forças e interesses divergentes, mas igualmente legítimos. Consolidam-se ou renovam-se instituições, amplia-se o espaço público, ganha corpo uma opinião pública amadurecida. Pela primeira, vez classes esquecidas tornam-se atores de seu próprio destino.
Em toda a região, temos pressa em recuperar o tempo perdido, deixando para trás a inércia e a estagnação de décadas, para não dizer séculos. Mais do que nunca, é necessário dialogar e criar convergências. Hoje, nenhum país ou grupo de países, por mais poderoso que seja, pode imaginar que tem a solução para as questões globais, ou que pode resolvê-las sem ter em conta os interesses dos demais países.

Senhora Chanceler,

Esse espírito de abertura e diálogo que sempre caracterizou as relações entre Alemanha e Brasil, é ainda mais importante quando tratamos do meio ambiente. A preservação da Amazônia é uma legítima preocupação da comunidade internacional e de Vossa Excelência, em particular. Posso assegurar-lhe, no entanto, que a ninguém essa questão é mais cara do que a nós, brasileiros, e especialmente àqueles 25 milhões que vivem e trabalham na Amazônia.
Nosso compromisso com o desenvolvimento sustentável está demonstrado em números. Entre 2004 e 2007, o Brasil criou quase metade do total das áreas protegidas do mundo. No mesmo período, o desmatamento caiu 59%. É por isso que 69% da floresta brasileira ainda estão preservados e que 28% das florestas de nosso Planeta estão em nosso País. Mas não basta aumentar a fiscalização e reprimir os crimes ambientais. Lançamos o Plano Amazônia Sustentável com o objetivo de melhorar as condições de vida da população da Amazônia, que será a guardiã principal desse enorme patrimônio.
Esse mesmo compromisso explica que nossa matriz energética seja uma das mais limpas do mundo, com quase 45% de sua produção oriunda de fontes renováveis. Toda a gasolina no Brasil recebe, no mínimo, 25% de etanol. Quase 90% dos veículos produzidos no ano passado possuem motores habilitados a combinar gasolina e etanol, e 22% de nossa frota de transportes utiliza biocombustíveis. São fatos que provam nossa determinação em proteger o meio ambiente. Mas vamos fazer ainda mais. Para isso, contamos com nossos parceiros para avançar na produção em escala mundial de biocombustíveis sustentáveis do ponto de vista ambiental e social.
Nossa experiência de 30 anos demonstra que o aumento da produção de etanol não causa degradação ambiental. Graças aos ganhos de produtividade, estamos colhendo cada vez mais na mesma área plantada, e nessas três décadas também evitamos a emissão de 800 milhões de toneladas de CO2.
Ao longo desse período, aumentamos a produção de alimentos para toda a população brasileira, e ainda ampliamos nossa participação nas vendas internacionais de carne, açúcar, soja, sucos e grãos, além de aviões.
As vantagens não param aí. Os biocombustíveis geraram um milhão de empregos diretos e outros seis milhões indiretos. Quarenta por cento da produção de etanol no Brasil vêm de fornecedores de pequenas e médias propriedades, beneficiando 224 mil famílias de baixa renda, que recebem o equivalente a dois salários mínimos. O zoneamento agroecológico do País e o selo combustível social, iniciativas que meu governo está adotando, são a garantia de que a produção brasileira atenderá todos os requisitos de sustentatibilidade ambiental e de respeito ao trabalho decente.

Meus amigos e minhas amigas,

O Plano de Ação da Parceria Estratégica Brasil-Alemanha, que acabamos de assinar, abre novas perspectivas de cooperação entre os dois países, com um rico patrimônio de realizações. Nossa aliança no combate à fome e na reforma do Conselho de Segurança nos habilita a explorar outras vertentes de fortalecimento e democratização do sistema multilateral. A iniciativa de Vossa Excelência permitiu lançar o Processo de Heiligendamm, abrindo caminho para um diálogo mais estruturado entre o G-5 e o G-8. Confiamos que a Alemanha atuará com igual sentido de liderança para ajudar a superar as divergências que vêm impedindo a conclusão da Rodada de Doha.
O Brasil tem se empenhado muito para chegar a um resultado justo nas negociações. Só assim garantiremos às nações em desenvolvimento a oportunidade de gerar riqueza e crescimento. A resposta está em eliminar os subsídios aos agricultores dos países ricos, que anulam as vantagens comparativas dos países em desenvolvimento, e geram dependências e distorções nocivas. Não nos iludamos sobre as causas da fome do mundo e a recente elevação dos preços dos alimentos. A incapacidade de muitos países de produzir seus próprios alimentos se deve, também, a séculos de distorções no comércio internacional.
O Brasil, no Mercosul e no G-20, e a Alemanha, na União Européia, têm condições de exercer uma liderança inovadora e construtiva. É preciso atuar rápido, sob pena de sério comprometimento do sistema global de comércio. Se isso acontecer, não haverá vitoriosos. Perderemos todos. Nosso compromisso com o fortalecimento do multilateralismo nos estimula, também, a ampliar nossa cooperação na área de desarmamento e não-proliferação, no combate ao terrorismo e ao crime organizado, e no respeito aos direitos humanos.
Brasil e Alemanha têm responsabilidade muito especial na Convenção sobre Diversidade Biológica. Em poucos dias, passaremos o bastão à Alemanha, na reunião de Bonn. Confiamos na liderança alemã para chegarmos a regime equilibrado de acesso e repartição de benefícios oriundos do uso de recursos genéticos. Somente assim, teremos êxito no combate à biopirataria e na proteção dos direitos dos povos indígenas e comunidades locais.
Quero dirigir, também, uma palavra, e quem sabe, a nossa Ministra da Fazenda possa comunicar aos empresários alemães. O Brasil vive hoje o desafio de desmantelar os entraves ao crescimento. Este é o objetivo básico do Programa de Aceleração do Crescimento que lancei, no ano passado: estimular a atividade produtiva e levar benefícios sociais para todas as regiões do País. São mais de cem projetos de investimento em rodovias, hidrovias, ferrovias, portos, aeroportos, saneamento e recursos hídricos. Abrem-se, assim, múltiplas oportunidades para investidores alemães reafirmarem sua confiança numa parceria, cujo futuro haverá de ser tão rico quanto seu passado.
Na mesma direção vai a Política Industrial, que anunciei na última segunda-feira. O acordo bilateral de cooperação na área de energia, que acabamos de assinar, é pilar fundamental do renovado estímulo que queremos dar à nossa tradicional cooperação econômica e em ciência e tecnologia.
Juntos, temos todas as condições de estar na vanguarda da revolução da bioenergia, e das respostas que ela poderá oferecer ao duplo desafio de garantir a segurança energética, ao mesmo tempo em que preservamos o meio ambiente.

Senhora Chanceler,

Sua trajetória como cientista, política, ministra, e agora chanceler, serve de inspiração para o crescente número de mulheres que, no Brasil e no resto do mundo, vêm galgando lugares de destaque em seus países. Também estou certo de que suas qualidades como negociadora muito nos ajudarão a avançar na ampla e importante agenda de trabalho que temos pela frente.

Minha querida amiga, Chanceler Angela Merkel,

Quero dizer aos companheiros da imprensa do Brasil e da Alemanha que a sua visita era muito esperada por nós, brasileiros, e há uma razão de ser. Embora possamos parecer tão diferentes, embora estejamos distantes tantos milhares de quilômetros, o dado concreto é que os alemães descobriram o Brasil em 1850. Aqui chegaram dezenas de imigrantes alemães, que tiveram todo tipo de sofrimento que um ser humano tem quando chega em uma terra nova e desconhecida para ser desbravada. Hoje, quando olhamos para um pedaço do Brasil, nós nos deparamos com um pedaço da Alemanha. É só ir a Santa Catarina, é só ir ao Rio Grande do Sul e a algumas cidades do estado do Paraná, que a gente não faz muita diferença, nem pelas casas e nem pelo povo, porque são todos alemães ou muito parecidos com os alemães.
Obviamente que não podemos esquecer o que significou essa imigração alemã para o desenvolvimento da agricultura no nosso País, para o desenvolvimento da indústria do nosso País, para o avanço do conhecimento científico e tecnológico do nosso País. O Brasil é grato a tudo que os alemães fizeram para que nós pudéssemos chegar a ser a nação que somos hoje. O Brasil, senhora Chanceler, é um país com um coração do tamanho do coração de uma mãe. Aqui no Brasil nós temos muitos alemães, muitos italianos, muitos espanhóis, muitos portugueses, muitos chineses, muitos japoneses, muitos africanos, porque aqui no Brasil, também, nós recebemos pobres. Temos muitos bolivianos, muitos paraguaios. Nós achamos que o processo de integração que o mundo precisa construir passa pela integração econômica, sim, passa pela integração cultural, sim, passa pela integração do conhecimento científico e tecnológico, sim, passa pela política comercial, sim, mas também tem que passar pelo livre trânsito dos seres humanos que habitam o nosso querido planeta Terra.
Queria lhe dizer essas palavras, porque eu sou de uma região em que na década de 60 tinha muitas empresas alemãs, e ainda tem, empresas que contribuem com o desenvolvimento do País, empresas que contribuem com o pagamento de salário, com a melhoria da renda do nosso povo. E vou lhe dizer uma coisa: a primeira empresa, no Brasil, que tomou a atitude de firmar um acordo para criar uma comissão de fábrica de trabalhadores dentro da empresa, eleita pelos trabalhadores, para negociar com o sindicato, não foi nenhuma empresa brasileira, foi exatamente uma empresa alemã, que a senhora vai visitar amanhã, a Volkswagen.
Muitas vezes me criticavam, quando eu era dirigente sindical, porque eu dizia que às vezes era mais democrático negociar com uma empresa multinacional, do que com uma empresa nacional. Nós só fomos conseguir criar comissões em empresas brasileiras, dez anos depois que nós construímos a primeira comissão na Volkswagen. Eu lamento profundamente que, por viajar para o Peru, eu não possa estar na Volkswagen junto com a senhora amanhã. Se eu estivesse lá, a senhora iria perceber que mesmo estando fora do Sindicato há 28 anos, eu ainda sou tratado pelos companheiros trabalhadores da Volkswagen como se fosse um metalúrgico de São Bernardo do Campo.
Desejo, na sua visita à Volkswagen, toda a sorte do mundo, e certamente a senhora será tratada como se fosse uma companheira da diretoria de um sindicato que eu presidisse em São Bernardo do Campo. Parabéns pela sua visita.

Jornalista: (pergunta em alemão)

Presidente: Primeiro, eu quero dizer ao jornalista que fez a pergunta que a evolução científica e tecnológica no mundo criou a consciência, no seio da humanidade, de que hoje nós precisamos repartir, de forma solidária, tudo que existe no Planeta, pensando no bem da humanidade. Isso vale para a Amazônia, isso vale para a água doce do mundo, isso vale ou deveria valer, para o petróleo, isso vale para a água dos oceanos, isso vale, inclusive, para o conhecimento científico e tecnológico, dos quais os países mais ricos são detentores.
A Amazônia é, de fato e de direito, da inteira responsabilidade da soberania nacional. Agora, não somos nenhum troglodita para não entender que a preservação da Amazônia não pode ser apenas de interesse do Brasil. Nós queremos partilhar a riqueza da biodiversidade ainda inexplorada na Amazônia com os cientistas do mundo inteiro, e poderemos partilhar isso. Queremos partilhar os benefícios que a Amazônia pode oferecer, enquanto floresta em pé, aos seis bilhões de seres humanos no mundo. Mas é preciso que a gente também tenha a clareza de que se manter a floresta em pé é uma coisa tão importante para o mundo, é importante que o mundo também compreenda que isso tem um custo, porque lá moram 25 milhões de habitantes que querem ter acesso a casa, querem rodovias, querem ter acesso a televisão, a computadores, querem ter os benefícios que, no fundo, no fundo, são o desejo de todo ser humano. Afinal de contas, nós não nascemos para ficar chorando a vida inteira. A gente nasce para virar criança, virar adolescente, virar adulto, começar a trabalhar e receber as benesses do desenvolvimento de cada país.
De forma que o Brasil tem toda a disposição de discutir as questões sobre a Amazônia com o mundo inteiro, como também gostaria que um país que descobrisse um remédio para enfrentar o câncer não fizesse disso uma mercadologia individual, mas transformasse num benefício para a humanidade, porque ao se transformar em mercadologia, nós já sabemos que os ricos irão ter acesso e os pobres irão morrer na véspera. É essa a discussão, muito serena e muito madura, que eu penso que o mundo vai enfrentar no século XXI. As coisas não podem continuar como foram no século XX, muito menos como foram no século XIX. E no século XXI, nós precisamos começar a pensar o que vai ser do mundo no século XXII. E passa, sobretudo, pela mudança de comportamento, pela mudança do perfil de consumo e pela mudança da dominação dos que têm mais riqueza sobre os que têm menos riqueza.
Por isso, o Brasil tem claro – não apenas a Amazônia brasileira, a Amazônia peruana, a Amazônia venezuelana, a Amazônia colombiana – que nós poderemos repartir a socialização dos benefícios que a floresta pode oferecer, tendo como contrapartida políticas que nos incentivem a ter um programa como o que lançamos anteontem, de desenvolvimento sustentável para a Amazônia, cuidando corretamente do manejo da floresta, mas criando condições para que o povo da Amazônia seja tratado como cidadão de primeira categoria, como todos nós gostamos de ser tratados.

Como este jornalista nunca mais vai fazer uma pergunta para mim, deixe-me abusar para responder. Quem sabe, a imprensa brasileira escreve alguma coisa. Eu disse à Primeira-Ministra que o Brasil tem disposição de fazer com que esse debate sobre a questão das mudanças climáticas, sobre a questão da preservação ambiental, sobre a questão da produção de biocombustíveis ou produção de alimentos, se dê da forma mais civilizada possível. Que os cientistas do mundo inteiro, que as ONG’s do mundo inteiro e que os empresários do mundo inteiro sejam provocados ao debate, para ver se a gente consegue produzir, como subproduto desta discussão, uma proposta para melhorar a qualidade de vida da Humanidade. O que nós não podemos aceitar é que esta seja uma discussão truncada, com meias-verdades, em função de interesses eminentemente comerciais. Não é justo, não é politicamente correto e não é socialmente correto.
Por isso é que o Brasil está convocando para os dias 20 e 21 de novembro uma conferência internacional sobre a questão dos biocombustíveis, a questão climática, a questão de alimentos. Queremos convidar todos aqueles que querem discutir seriamente o assunto a participarem no Brasil. Da parte do Brasil, nós estaremos dispostos a participar, em qualquer fórum do mundo, para debater. Eu acho que o mundo precisa desse debate.

Jornalista: Presidente, boa parte da sua agenda, hoje, com a chanceler alemã está voltada para temas ambientais. Ontem, a ministra Marina Silva se desligou da pasta. Eu quero saber, então, se com a saída da Ministra muda algo em relação à política ambiental no Brasil, se o senhor tem algum substituto para o cargo? E para a Chanceler, se a senhora poderia comentar o que representa a saída da Ministra? Obrigada.

Presidente: Primeiro, eu tenho como hábito não discutir assuntos da política brasileira durante uma entrevista com representantes do governo de um outro país. Aprendi isso com o nosso amigo Jacques Chirac. Às vezes, você está dando uma entrevista com outro presidente e o tema se torna nacional, o que não é prudente. Mas em respeito à Angela Merkel, que foi ministra do Meio Ambiente, eu vou fazer uma concessão hoje e responder essa pergunta. Primeiro, eu não sei se vocês já tiveram filhos, que um dia chegam para você e comunicam assim: “Estou saindo, vou morar sozinho ou vou estudar em outro lugar”. E você fica num misto de sofrimento, porque você não quer o filho saia, e fica num misto de alegria, porque quando a pessoa toma uma decisão está pensando que aquilo que ela vai fazer é melhor para a sua própria vida. Eu me senti assim. Ninguém tem dúvida, no Brasil, do carinho que eu tenho pela Marina antes do PT, depois do PT, antes da CUT e depois da CUT, antes de ser presidente e depois de virar presidente. É uma relação de 30 anos, portanto é uma relação… Eu estou casado com a Marisa há 34 anos – completo no dia 23 – e tenho uma relação política com a Marina há 30 anos. Não é uma coisa que aconteceu ontem ou que aconteceu no governo. Obviamente eu fico triste, porque é uma companheira das mais qualificadas no mundo para discutir a questão ambiental. Ela é senadora da República, e na carta que enviou a mim ela disse que iria continuar a sua batalha no Senado.
A política ambiental no Brasil não muda, porque no nosso governo – e até por determinação e um pedido da companheira Marina – nós criamos no Brasil uma palavra mágica, pelo menos para nós, chamada “transversalidade”. Criamos essa palavra para que não tivesse política de ministro, não tivesse política do Ministro do Meio Ambiente, não tivesse política do Ministro das Comunicações, não tivesse política do Ministro da Indústria e Comércio. A palavra “transversalidade” significa colocar todos os atores envolvidos naquela matéria em torno de uma mesa, para que a decisão se transforme em política de Estado e política de governo, e não política de ministro.
Esses dias, eu lancei a política de Ciência e Tecnologia, e o presidente da SPBC – todo mundo que conhece a SBPC sabe que ela não é de elogiar governo – disse, num ato público, que era a primeira vez que o Brasil apresentava uma política de governo, e não uma política de ministro, para a Ciência e Tecnologia. Porque a política de ministro se vai quando se vai o ministro, e a política de Estado e a política de governo continuam, mesmo o ministro saindo. As obras que foram construídas nesse período da Marina continuam. Outras obras já estão previstas no Plano da Amazônia Sustentável, que começa a ser executado agora. E outras obras já estão definidas no programa de governo. Portanto, continuam as mesmas coisas que nós tínhamos determinado na política ambiental.
E eu queria dizer mais: quem participou de todos os atos que eu participei aqui, no Brasil, sabe que para mim a questão ambiental tem que ser tratada com o mesmo carinho com que a gente trata a política social. A companheira Marina que o diga, os companheiros do Ministério que o digam. Quem participa com o governo sabe que nós tratamos com muito carinho, porque não há separação entre a política de desenvolvimento sustentável que nós queremos e a preservação ambiental, também levando em conta esse desenvolvimento sustentável.
Então, a companheira Marina se foi, a política continua. E nós vamos continuar tendo o mesmo cuidado que sempre tivemos. E, graças a Deus, agora a Amazônia começa a ganhar importância no mundo. Em 1988, quando eu era deputado constituinte, a grande discussão era se a gente iria matar todos os jacarés do Brasil ou não, e se ia distribuir motosserra, para que tivesse desenvolvimento na Amazônia. Isso não aconteceu, e hoje o mundo começa a ficar preocupado. Eu acho ótimo, porque o mundo ficando preocupado, nós temos que precificar a possibilidade de os países pobres, e mais pobres do que o Brasil ainda, não terem que desmatar para se desenvolverem. Isso tem um preço para países da América Latina, da América do Sul, da Ásia, tem um preço para a África. Eu acho que todos nós temos que ter competência para contribuir.

Jornalista: (pergunta em alemão)

Presidente: Eu estou convencido de que a Alemanha e o Brasil já deveriam estar no Conselho de Segurança das Nações Unidas como membros permanentes. Isso é um debate, é uma conquista política. Todo mundo quer mudança na ONU, do presidente dos Estados Unidos até o presidente do menor país que tiver no mundo. Até aí, somos todos iguais. Onde é que começa a divergência? É quem vai entrar. Nós criamos o G-4: Índia, Alemanha, Brasil e Japão e o G-4 tenta fazer influência nos cinco membros permanentes para que eles abram a possibilidade de flexibilizar o Conselho de Segurança. Não é uma tarefa fácil. Você está lidando com interesses importantes. No discurso, tem muita gente favorável. A Inglaterra apóia a abertura, a França apóia a abertura, a China é contra, os Estados Unidos são contra. Agora, eu estou convencido de que esse debate vai levar ainda algum tempo, mas nós vamos conseguir. Quando algum país da América do Sul se opõe ao Brasil, é porque eles gostariam de estar no lugar do Brasil. Quando um país europeu se opõe à Alemanha, é porque gostaria de ir, no lugar da Alemanha. Se fosse ele que estivesse pleiteando, ele não seria contra. Então, eu penso que esse debate político vai levar alguns anos ainda, eu tenho certeza de que nós vamos amadurecê-lo e definir claramente se é um membro por cada continente, se entra a Alemanha, se entra a Índia, se entra o Brasil ou se entra outro país da América Latina, se entra um só da África ou dois da África. A verdade é que a ONU está mal representada, do ponto de vista das forças geopolíticas, geoeconômicas, “geomilitares”. Do ponto de vista do interesse mundial, a ONU está fragilizada. Ela tem uma cara do que aconteceu na década de 40, e não se adaptou para o século XXI. Nós queremos mudar e acho que a Alemanha e o Brasil estão juntos, estamos de bom tamanho e, se Deus quiser, nós vamos conquistar o direito de nossos países serem representados como membros permanentes no Conselho de Segurança da ONU.

Jornalista: Boa tarde, Senhora Chanceler. Senhor Presidente, boa tarde. A minha pergunta é o resultado de consenso dos jornalistas brasileiros e de agências internacionais. À Chanceler Merkel eu pergunto: ao final desta visita o seu governo, a sua administração vai retomar o projeto de aumento da mistura do etano à gasolina, ou a senhora ainda continua com o temor de que os bicombustíveis brasileiros são a causa do aumento dos preços dos alimentos e do desmatamento da Amazônia? Gostaria, ainda, que a senhora comentasse, senhora chanceler, sobre a declaração do presidente Hugo Chávez, recentemente, que a ofendeu justamente no momento em que se organiza a Cúpula União Européia-América Latina. Eu gostaria de saber como a senhora responderia à declaração do presidente Hugo Chávez? E se o presidente Lula poderia agir de uma forma conciliadora nesse episódio?

Presidente: Eu acho que nós precisamos, alemães e brasileiros, e todos os seres humanos que estão preocupados com o debate da bioenergia, ter apenas um cuidado. Esse é um debate que envolve interesses econômicos muito fortes.
Eu até fiquei surpreso quando eu vi a primeira manchete nos jornais, de que o preço do alimento estava subindo por causa dos biocombustíveis. E a mesma pessoa que deu a primeira declaração não explicou qual é a importância, no custo do alimento, do preço do petróleo, que saiu de 30 dólares para 124 dólares. Se isso não tiver um custo… Não está explicado o quanto importa no frete do transporte do alimento, no mundo inteiro. E parece que é um tabu. Todo mundo assina o Protocolo de Quioto, todo mundo concorda que é preciso diminuir a emissão de CO2, todo mundo sabe que é advinda do petróleo a maior quantidade de emissões de CO2, e todo mundo faz “ouvido de mercador”. Ninguém quer deixar de utilizar a gasolina e o óleo diesel. Esse é um problema sério, e o mundo vai ter que se debruçar sobre ele. Se você tem alguns países que são responsáveis por 70% das emissões de CO2 na atmosfera, no mínimo deveriam ser responsáveis por 70% da diminuição.
Essa é uma coisa que eu acho que nós vamos ter que debater, e eu acho difícil mudar. Quando eu tinha 18 anos de idade, morava em uma rua que enchia d’água, em uma vila muito pobre, em São Paulo, onde tinha uma empresa chamada Vemag. A toda chuva, enchia d’água. E quando a minha mãe resolveu se mudar, eu era contra mudar, eu não queria me mudar daquela rua que enchia d’água. Hoje, quando a gente vai em uma vila que tem pessoas pobres em área de risco, e você tenta tirá-las, elas não querem em um primeiro momento, porque todo mundo tem medo do novo, todo mundo tem incertezas.
E eu não acho que este debate seja precipitado, as coisas vão ter que acontecer amanhã ou depois de amanhã, não foi assim com nada no mundo. Então, nós precisamos ter clareza de uma única coisa: todos nós temos responsabilidade com o Planeta. Antes, quando a poluição era causada num rio, se fosse na Alemanha, era um problema da Alemanha; se fosse no Brasil, era um problema do Brasil. Mas, à medida em que a poluição está na atmosfera, mudando climas, fazendo verdadeiros, eu diria, malabarismos diabólicos, as intempéries fazendo tudo que têm direito de fazer, todos nós temos mais responsabilidades. Uma coisa mal feita no Brasil, pode prejudicar a China; uma coisa mal feita na China, pode prejudicar o Brasil; uma coisa feita na Alemanha, pode prejudicar a Itália; uma coisa feita na Itália, pode prejudicar a Alemanha. Então, aumentou a nossa responsabilidade, porque a evolução tecnológica permitiu que nós ficássemos mais donos do mundo. E eu estou convencido de que esse debate de biocombustíveis vai ser o debate dos próximos 10, 15 anos. Vai ter os contra, vai ter os a favor, vai ter os fundamentalistas contra, os fundamentalistas a favor e vai prevalecer o bom-senso. O bom-senso é que a humanidade não pode continuar dependendo do petróleo, é que a humanidade não pode continuar construindo carros cada vez mais emitindo CO2. Esse é o problema. E estou falando isso, para que a imprensa alemã compreenda, depois do Brasil ter descoberto muito petróleo. Se vocês vierem daqui a dez anos ao Brasil, vocês vão chamar o presidente do Brasil de Sheik da América do Sul. Mas eu estou com a mesma política determinada para os biocombustíveis porque eu acho que eles são uma alternativa para resolver o problema das mudanças climáticas no mundo.
Com relação a nossa Chanceler e ao Chávez, eu, se conheço bem o Chávez e se conheço bem a Chanceler, eles vão se encontrar, vão tomar um café e a paz voltará a reinar entre Caracas e Bonn.

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