Visita de Condoleezza Rice ao Golfo Pérsico e ao Iraque, por PET – iREL UnB

“Ba’ad gharab Al-Basra (after the demolishment of Basra). It means when somebody does something too late. Ironically this proverb is hundreds of years old but it fits the situation in Basra right now and the US effort to get the Sunni Arab states more involved in Baghdad.” (Badrya Darwish, jornalista) 

1. Objeto de análise: visita de Condoleezza Rice ao Golfo Pérsico e ao Iraque, tendo em vista a perspectiva de retirada de 20 mil tropas ainda este ano e a tentativa norte-americana de angariar apoio dos países árabes na reconstrução de um Iraque unido.

2. Informações de referência 

      2.1 Palavras-chave

Guerra contra o terror, terrorismo, guerra civil, segurança internacional, Estado multiétnico, Oriente Médio, Irã, EUA, Reino Unido, Nações Unidas. 

      2.2 Cronologia 

2003 
 
20 de março: Início da operação “Liberdade do Iraque” com ataques contra Bagdá e entrada das forças terrestres americanas e britânicas pelo sul do país. 
9 de abril: Entrada dos americanos em Bagdá marca a queda do regime de Saddam Hussein.
 
16 de maio: O americano Paul Bremer, nomeado administrador civil do Iraque, proíbe aos membros do Partido Baath (Renascença) acesso a funções públicas. 
22 de julho: Os filhos de Saddam Hussein, Uday e Qusay, são mortos
em Mossul. 
19 de agosto: O brasileiro Sérgio Vieira de Mello, representante Especial das Nações Unidas no Iraque, junto aos membros de sua equipe, morre em um atentado contra a sede da ONU em Bagdá. 
3 de setembro: primeiro governo pós-Saddam. 
2 de outubro: David Kay, chefe do Grupo de Inspeção no Iraque (ISG), reconhece que não foram encontradas armas de destruição em massa (ADM), principal argumento para a invasão americana. 
16 de outubro: Resolução 1511 da ONU, que prevê a presença de uma força multinacional. 
13 de dezembro: Captura de Saddam Hussein perto de Tikrit.

 
2004 
 
1 de fevereiro: Duplo atentado suicida contra as dependências dos principais partidos curdos em Erbil (norte), deixando mais de cem mortos. 
2 de março: Mais de 170 mortos em atentados antixiitas na cidade sagrada de Kerbala (centro) e numa mesquita de Bagdá. 
4 de abril: Início dos enfrentamentos entre a coalizão e os partidários do clérigo xiita Moqtada Al-Sadr. 
8 de abril: Início dos seqüestros de estrangeiros, entre os quais o do engenheiro brasileiro João José de Vasconcellos. Mais de 30 reféns de um total de várias centenas serão assassinados. 
18 de abril: A Espanha decide retirar suas tropas. 
28 de abril: Difusão de imagens de presos iraquianos humilhados por militares americanos na prisão de Abu Ghraib, perto de Bagdá. 
28 de junho: A coalizão passa o poder ao governo interino iraquiano.

 
2005 
 
30 de janeiro: Na primeira eleição pluripartidária em 50 anos, boicotada pelos sunitas, os xiitas obtém maioria absoluta diante dos curdos. 
28 de fevereiro: Um atentado em Hilla (centro), reivindicado pelo chefe da Al-Qaeda no Iraque, Abu Mussab al-Zarqawi, custa a vida de 118 pessoas. 
4 de março: A libertação da jornalista italiana Giuliana Sgrena custa a vida do agente secreto Nicola Calipari, baleado por soldados americanos. 
6 e 7 de abril: Eleição do curdo Jalal Talabani como presidente. Em 7 de abril, o xiita Ibrahim Jaafari é nomeado primeiro-ministro. 
31 de agosto: Explosão numa ponte de Bagdá deixa quase mil mortos, em sua maioria peregrinos xiitas. 
15 de outubro: Referendada a Constituição permanente, federalista, com 78% dos votos. 
19 de outubro: Começa o julgamento de Saddam Hussein pelo massacre de Dujail (148 xiitas mortos em 1982 depois de uma tentativa de atentado contra sua comitiva presidencial). 
15 de dezembro: Vitória legislativa da lista xiita conservadora, a Aliança Unificada Iraquiana (128 cadeiras em 275). Participação sunita em massa.


2006 
 
22 de fevereiro: O atentado com dinamite contra o mausoléu xiita em Samarra (norte de Bagdá) provoca violências intercomunitárias, causando mais de 450 mortes. 
13 de março: Reino Unido anuncia a retirada de 800 soldados até maio, 10% de suas tropas no Iraque. 
22 de abril: Talabani é reeleito presidente. O xiita Nuri al-Maliki é encarregado de formar um novo governo. 
7 de junho: Al-Zarqawi morre em um ataque americano no norte de Bagdá. 
15 de junho: Morre o soldado americano de número 2.500 no Iraque. 
21 de agosto: Tem início o segundo julgamento contra Saddam Hussein pelo genocídio de 180.000 curdos nas campanhas de Anfal de 1987 e 1988. 
11 de outubro: Conversão do Iraque em Estado federal. 
5 de novembro: Saddam Hussein é condenado à morte por enforcamento pelo processo de Dujail. 
23 de novembro: 202 mortos nos atentados à cidade Sadr, reduto xiita em Bagdá. 
30 de novembro: Descobertos os corpos de mais de 90 vítimas de execuções. Segundo as Nações Unidas, foram mortos mais de 13.000 civis entre julho e outubro. 
6 de dezembro: A “Comissão Baker” entrega a Bush um relatório que recomenda uma mudança da política americana no Iraque. 
30 de dezembro: Saddam Hussein é executado na forca.

 
2007 
 
7 de janeiro: morre o soldado americano número 3.000 (AFP). 
10 de janeiro: Bush anuncia envio de reforço de 21.500 soldados. 
15 de janeiro: execução de Barzan al-Tikrit e Awad al-Bandar, colaboradores de Saddam. 
16 de janeiro: 70 pessoas, entre as quais se encontravam estudantes, professores e funcionários da Universidade de Mustansiriya (leste de Bagdá), morreram, em dois atentados que deixaram 169 feridos. 
22 de janeiro: 88 mortos e mais de 160 feridos em duplo atentado com carro-bomba em Bagdá. 
1 de fevereiro: Um duplo ataque suicida contra o mercado de Hilla deixa 73 vítimas fatais. 
3 de fevereiro: Pelo menos 127 pessoas morrem e 305 ficaram feridas em um atentado suicida com um caminhão-bomba em um mercado de Bagdá. 
18 de fevereiro: Pelo menos 60 mortos num duplo atentado com carro-bomba num bairro de maioria xiita do leste de Bagdá. 
6 de março: 117 peregrinos xiitas mortos em um atentado em Hilla. 
20 de março: execução do ex-vice-presidente Taha Yasin Ramadan.

Agosto: O principal bloco político sunita no Iraque deixa o cabinete, causando uma crise no governo iraquiano. Os líderes curdos e xiitas formam uma aliança para sustentar o governo do PM Maliki, mas falham na tentativa de trazer de volta os líderes sunitas. O clérigo xiita Moqtada Al-Sadr declara cessar-fogo, prometendo não atacar o governo ou soldados estrangeiros.

13 de setembro: Presidente Bush endossa recomendações do comandante das forças norte-americanas no Iraque, general David Petraeus, anunciando a redução de 20 unidades militares norte-americanas no Iraque para 15 até julho de 2008, o que equivale a cerca de 30 mil combatentes. O contingente voltará, com essa redução das tropas, ao patamar de dez meses atrás, de 130 mil soldados.

14 de setembro: Casa Branca encaminha ao Congresso norte-americano relatório de avaliação do progresso da situação iraquiana. O relatório faz críticas ao governo iraquiano, mas conclui que a estratégia presente dos EUA está conseguindo começar a estabilizar o Iraque.

Outubro: Parlamento turco autoriza operações militares no norte do Iraque com vistas a capturar rebeldes curdos do PKK. O número de mortes civis e militares decai, bem como a freqüência de ataques aéreos.

Dezembro: Turquia realiza incursão aérea no norte do Iraque. Reino Unido entrega segurança da província de Basra para forças iraquianas, marcando efetivamente o final de quase cinco anos de controle britânico no sudeste do Iraque. 

2008 

Janeiro: Parlamento aprova legislação permitindo antigos oficiais do partido Baath, de Saddam Hussein, retornar à vida pública.

Fevereiro: Ataques suicidas matam mais de 50 pessoas em Bagdá. Forças turcas organizam uma ofensiva terrestre contra o PKK no norte do Iraque.

Março: Visita sem precedentes do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. PM Maliki ordena campanha de repressão às milícias em Basra, iniciando confronto com a Armada Mehdi, de Moqtada Sadr. Essa operação se espalha para Bagdá e outras áreas xiitas, envolvendo diretamente forças dos EUA e do Reino Unido.

Início da retirada de unidades militares norte-americanas do Iraque gera dúvidas sobre a capacidade de as tropas restantes conseguirão manter a segurança.

19 de abril: O confronto iniciado em Basra alastrou-se, e o clérigo xiita Sadr ameaça romper o cessar-fogo e declarar “guerra aberta até a libertação”, caso a campanha governamental não cesse. Os homens de Mehdi deixaram as ruas após 6 dias de combate e não depuseram suas armas, aparentemente não houve acordo com o governo, de forma que existe a informação que Sadr teria seguido conselhos do Irãuyeneral David Petraeus relata ao Congresso norte-americano seu plano de retirada de tropas devido aos frágeis ganhos de segurança no Iraque.

20 de abril: Condoleezza Rice, no Oriente Médio para conferências com os países do Golfo, visita inesperadamente o Iraque: urgindo sobre a necessidade de sustar operações contra Sadr e que espera maior reconciliação entre os grupos do Iraque.

22 de abril: No encontro de Bahrain, Condoleezza Rice tentou convencer os países do Golfo a apoiar a reconstrução do Iraque por meio de alívio dos débitos iraquianos e abertura de embaixadas. Entretanto, os países árabes mostraram-se críticos diante das decisões passadas norte-americanas, que ignoraram o equilíbrio de forças interno e externo do país, e pouco se dispuseram a cooperar.

23 de abril: Tropas americanas matam 15 iraquianos de milícia nas áreas xiitas de Bagdá. A batalha de Basra pode ser interpretada de várias formas: que o exército iraquiano está conseguindo conter as revoltas de seu próprio território; mas a magnitude da mobilização também demonstra a força das milícias no país.

3. Contextualização e repercussão 

      3.1 Globais

      - Aumento dos protestos e crític.as realizados ao redor do mundo e sua veiculação pelas grandes agências de notícias, principalmente devido ao quinto aniversário da guerra no Iraque.

      - As companhias de segurança privadas no Iraque, que já contam com 48 mil empregados, se transformaram na segunda maior força da coalizão que ocupa o país. Elas estão atrás apenas dos Estados Unidos, e à frente do Reino Unido, segundo um relatório divulgado em março de 2007, por um grupo de especialistas da ONU. “A coalizão (liderada pelos EUA) parecer ter preferido ceder mais e mais responsabilidades de segurança ao setor privado”, indica o estudo, que assinala que as referidas empresas “costumam atuar sem controle, sem visibilidade e com total impunidade”.

      - Plano de desenvolvimento econômico do Iraque é discutido no âmbito das Nações Unidas. É a seqüência lógica de um Contrato Internacional de objetivos para o Iraque (ICI, sigla em inglês), sustentado pelo Banco Mundial, que pretende reativar a economia iraquiana no espaço dos próximos cinco anos.  

      3.2 EUA 

      - A Guerra do Iraque é considerada o maior erro estratégico dos EUA, tendo criado um vácuo político e institucional que teria então possibilitado a infiltração da Al-Qaeda, bem como atrasado qualquer tipo de reconstrução societal e estatal. Além disso, a guerra teria modificado o equilíbrio de poder interno – relativo aos grupos xiitas, sunitas e curdo –, e externo, permitindo a emergência do Irã como maior potência local.

      - A reputação norte-americana, seu exército e finanças públicas encontram-se em um momento crítico, de forma que é provável que o próximo presidente buscará uma revisão da política externa relativa ao mundo árabe e islâmico.

      - Ainda no mandato de Bush, prevê-se a retirada de 20 mil tropas até julho, restando cerca de 140 mil para serem administradas pelo próximo governo, o que coloca a questão do Iraque como um dos centros das campanhas presidenciais. A questão reside no prazo e ritmo de retirada, mas também em quais objetivos o então governante considera que os EUA estabeleceram como determinantes de sucesso.

      - Após as recomendações do General Petraeus, os candidatos manifestaram-se: Hillary Clinton chamou pelo início de uma retirada ordenada das tropas; Barack Obama sugeriu uma solução diplomática, envolvendo diálogo com o Irã, mas também urgindo pela retirada; e John McCain mostrou-se mais receoso e contra uma retirada que resultasse em “genocídio”.

      - A visita de Rice para angariar apoio dos países árabes procura, por um lado, conter a crescente influência iraniana e, por outro, construir um ambiente mais favorável para a retirada de tropas norte-americanas. 

      3.3 Regionais 

      - O balanço ambiental da guerra continua (e se torna sempre mais) péssimo. Essa tendência iniciou-se na guerra contra o Kuwait, e prosseguiu durante todos os conflitos do país nos últimos anos, apesar dos bilhões de dólares sempre investidos na reconstrução.

      - O desafio de reconstrução do Iraque tanto no seu aspecto físico quanto humano, e a repatriação de dois milhões de refugiados e outros 2 milhões de pessoas internamente deslocadas tem-se mostrado quase impossível de ser resolvido pelos EUA. A proposta de Rice, e endossada pelas Nações Unidas, é que os países da região contribuam financeira e diplomaticamente para construir uma estabilidade no Iraque e na própria região.

      - Entretanto, o país que tem demonstrado maior disposição para ajudar é o Irã, o que tem sido visto pelos EUA como um alinhamento xiita e apoio às milícias, bem como auxílio a redes transnacionais terroristas. A relação entre governos iraquiano e iraniano parece, segundo noticiado pela Tehran Times, bastante profícua, em que ambos os governos concordam que nenhuma desculpa justifica a presença de forças estrangeiras no país e que o Irã está disposto a prover assistência política e econômica ao Iraque. 

      3.4 Locais

      - Os iraquianos estão mais pessimistas no que diz respeito à situação. Para eles, a invasão torna-se a cada dia mais prejudicial. Isso indica que os custos de operação no país tornar-se-ão cada vez mais pesados, com a população a contribuir cada vez menos com o processo.

      - O cessar-fogo de Muqtada Sadr, em agosto de 2007, pode ter refletido um cálculo pragmático: deter as hostilidades com o objetivo de restaurar sua credibilidade – uma vez que a Armada Mahdi expandiu-se sem organização prévia e não possuía coerência – e para reorganizar suas forças. A campanha governamental pode estar lidando com uma rede muito mais organizada e detentora do apoio popular com o fim último de expulsar os interventores. Alguns avaliam que o governo iraquiano deveria tolerar e até acomodar as atividades não-militares, o que incluiria educação, mídia, serviços de saúde e religiosos em muitas regiões, bem tentar cooptar miliciantes.

      - Uma das dificuldades, para tanto, é a rivalidade entre as facções xiitas do PM Maliki e a de Sadf. Além disso, a comunidade sunita necessita de um espaço político definido e garantido. Ambas essas negociações possivelmente demandam a mediação do Irã, Arábia Saudita e outros países vizinhos. O grupo curdo também precisa de garantias e certa autonomia nas suas regiões de predomínio, o que envolve forte resistência da Turquia.

      - Um acordo para a exploração do petróleo e a divisão dos recursos oriundos disso entre as diferentes comunidades e regiões também é de prioridade, tarefa que pode requerir auxílio de instituições e agências internacionais. 

4. Cenários  

0. Variáveis de estabilização da situação Iraquiana:

      0.1 Dimensão do apoio dos países do Golfo Pérsico;

      0.2 Relação com o Irã e a repercussão disso nas relações com os EUA;

      0.3 Equilíbrio de forças entre curdos, sunitas e xiitas durante e após a retirada de tropas. 

1. Novo governo dos EUA inicia redução gradual das tropas, mas sem um calendário prévio para a retirada completa. O objetivo é repassar aos poucos cada vez mais responsabilidades para o governo iraquiano, mas sempre de modo condicionado aos resultados alcançados e com planejamento de curto prazo. Adotada essa estratégia:

      1.1 governo iraquiano consegue aos poucos estabilizar o país e avançar no sentido dos objetivos traçados pelos EUA; os EUA prosseguem reduzindo as tropas, até a retirada definitiva, com prazo indefinido;

      1.2 governo iraquiano não avança na estabilização nem na realização dos objetivos; mantêm-se constantes os efetivos dos EUA no Iraque, sem qualquer previsão de redução ou retirada;

      1.3 custos políticos, econômicos e humanos da ocupação do Iraque tornam-se insustentáveis pelos EUA, que passam a retirar tropas independentemente do sucesso alcançado na estabilização do país e na realização dos objetivos da política externa norte-americana. 

2. Novo governo dos EUA fixa prazos para retirada completa das tropas do Iraque. Adotado o cronograma, três hipóteses:

      2.1 EUA cumprem o cronograma de modo rígido, independentemente de sucesso ou fracasso da estabilização do Iraque e da realização de seus objetivos para o país, devido ao alto custo econômico, humano e político da ocupação;

      2.2 EUA cumprem o cronograma devido ao sucesso alcançado pela estratégia  para o Iraque;

      2.3 Cronograma torna-se mero programa ideal abandonado na prática devido às contingências e necessidade de não abandonar o Iraque de forma irresponsável e incongruente com os objetivos da política externa norte-americana.

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