Alta mundial no preço dos alimentos: contextualização e repercussões, por PET – iREL UnB

1. Objeto de análise: busca das causas e conseqüências do aumento do preço dos alimentos em nível global, analisando as diferentes variáveis envolvidas e os diversos impactos resultantes de tal processo. 

2. Informações de referência 

      2.1 Palavras-chave

- Produção de alimentos; Produção de biocombustíveis; Segurança alimentar; Demanda x Oferta; Biotecnologia; Sustentabilidade; Mudança Climática; Agricultura; Saúde; Instituições e Organismos Internacionais.

      2.2 Conceitos 

Segurança Alimentar - O conceito foi definido na declaração da World Food Summit, convocada pela FAO em 1996: “Existe segurança alimentar quando as pessoas têm, a todo momento, acesso físico e económico a alimentos seguros, nutritivos e suficientes para satisfazer as suas necessidades dietéticas e preferências alimentares, a fim de levarem uma vida activa e sã”.  

      2.3 Regime Institucional 

FAO – Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (1945)

  •  
    • Cúpula Mundial sobre a Alimentação (Roma, 1996)
    • Programa Especial para a Segurança Alimentar
    • Fundo Fiduciário para a Segurança Alimentar e a Inocuidade dos Alimentos
    • 34º  Conferência da FAO
    • Conferência de Alto Nível sobre a Segurança Alimentar Mundial: os Desafios da Mudança Climática e da Bioenergia (Roma, 3-5 de Junho de 2008).
      • Reuniões de Especialistas
      • Reuniões Regionais

IAASTD – Avaliação Internacional do Conhecimento, da Ciência e da Tecnologia no Desenvolvimento Agrícola.

WFP – World Food Program

FIDA – Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola 

      2.4  Cronologia  

  • Segundo Semestre de 2007 – Alta generalizada no preço dos alimentos
  • Janeiro de 2008 – “Revolta da tortilha” no México; o aumento médio de 40% no preço da tortilha em poucos meses gera insatisfação popular.
  • Fevereiro de 2008 – O Egito, que é um grande importador de trigo, tem elevada alta nos preços do pão.
  • 18 a 20 de Fevereiro – Reunião de Especialistas da FAO: “Perspectivas globais sobre segurança alimentar e energética”.
  • 11 de abril de 2008 – O presidente de Bird diz que os biocombustíveis da Europa e dos Estados Unidos são os responsáveis pela alta dos preços alimentares.

    Lula diz que o aumento dos preços é uma “inflação boa”, o que indicaria maior capacidade da população mundial de ter acesso a alimentos.

    A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação alerta sobre a possibilidade de o aumento dos preços dos alimentos criar situação de emergência em 37 países pobres.

  • 13 de abril de 2008 – O presidente do Bird e o diretor do FMI, defendem a adoção de medidas urgentes para conter a atual inflação de alimentos.
  • 14 a 18 de Abril de 2008 – Conferência Regional da FAO para América Latina e Caribe (Brasília)
  • 14 de abril de 2008 – Jean Ziegler, relator especial da ONU para o direito ao alimento, afirma que a produção de biocombustíveis é um crime contra a humanidade, uma vez que representa um importante fator no aumento dos preços alimentares.
  • 15 de Abril de 2008 – IAASTD lança relatório
  • 18 de abril de 2008  – Celso Amorim diz que, em vez de combater os biocombustíveis, os organismos internacionais deveriam reduzir os subsídios agrícolas.

    O FMI afirma que possivelmente manifestações em países pobres se agravarão devido à alta nos preços.

  • 19 de abril de 2008 – Lula critica o uso de milho como biocombustível nos Estados Unidos.
  • 20 de abril de 2008  – Jean Ziegler, relator especial da ONU para o direito ao alimento, afirma que o aumento de produção de biocombustíveis, a especulação no mercado de commodities e os subsídios para exportação agrícola da União Européia estão na base do aumento mundial de preços de alimentos.

    Ban Ki-Moon afirma que se não for contido o aumento dos preços, o crescimento e a segurança do mundo podem ser afetados, e faz apelo à comunidade internacional: “não podemos esperar mais. A comunidade internacional deve adotar ações urgentes para evitar conseqüências políticas e de segurança ainda mais graves”.

  • 23 de abril de 2008 – O Brasil declara que as exportações de arroz estão suspensas, numa tentativa de se evitar a elevação do preço do produto internamente.

3. Contextualização e repercussão 

      3.1 Informações gerais

- O preço do trigo dobrou em menos de um ano, alcançando a maior cotação em 28 anos.. A soja e o milho estão bem acima da média de preços da década de 1990. O arroz tem o maior preço em 19 anos.

- Países como Estados Unidos, Brasil, Argentina, Canadá estariam se beneficiando dos altos preços das commodities, enquanto os maiores afetados seriam os habitantes de grandes cidades de países pobres.

- Grave obstáculo para os programas de erradicação da fome e pobreza em países em desenvolvimento. 

      3.2 Causas 

Várias causas são apontadas para o aumento do preço de alimentos básicos, que se manteve relativamente estável por um período de aproximadamente trinta anos.

  1. Aumento da demanda.
  2.       - Aumento populacional;

          - Aumento da renda;

          - Mudanças no padrão de consumo de alimentos (maior consumo de carne bovina na China e de frango nos países latino-americanos, em especial).

  3. Redução da oferta.
  4.       - Redução dos estoques públicos e privados de alimentos;

          - O aumento produtivo esperado para este ano não é suficiente nem para repor os estoques mundiais.

  5. Uso de terra para a produção de biocombustíveis.
  6.       - Uso de milho, nos Estados Unidos, e beterraba, na Europa, reduzindo a oferta desses alimentos nesses países.

  7. Problemas com o clima
  8.       - Mudanças climáticas (que fazem aumentar a demanda por biocombustíveis nos países ricos);

          - Desertificação crescente na China e na África;

          - Mudança no regime de chuvas (secas na Argentina, Austrália, Cazaquistão e Ucrânia);

          - Enchentes freqüentes (Canadá e Europa).

  9. Especulação financeira.
  10.                - Compra de fundos de commodities.

  11. Aumento dos fatores de produção.
  12.                - Forte aumento do preço do barril de petróleo. 

      3.3 Dinâmicas envolvidas: 

  •  
    • Econômicas:
    • Agricultura – importância dos produtores; políticas e instituições; uso sustentável dos recursos naturais
    • Tecnologia – biotecnologia; organismos genéticamente modificados; risco de perda da biodiversidade e aumento de vulnerabilidade às pragas e doenças; 
    • Comércio – prejuízos ao pequeno produtor e ao consumidor; favorecimento do grande produtor; imposição de barreiras para o controle de preços; subsídios EUA, Europa e Japão;
    • Energia – Bioenergia e biocombustíveis (prós e contras); debate alimentação x combustíveis;
    • Mercado Financeiro – Especulações
    • Países em Desenvolvimento
    • Sociais:
    • Saúde – Desnutrição e Subnutrição; Obesidade e doenças crônicas; presença de pesticidas, hormônios, aditivos, antibióticos. 
    • Cultura – conhecimento tradicional; sustentabilidade; padrões de consumo.
    • Gênero – menores salários e piores condições de trabalho para as mulheres;
    • Desigualdade social – pobres são os que mais sofrem com a alta dos preços.
    • Ambientais
    • Água
    • Biodiversidade
    • Mudança Climática – impactos da mudança climática sobre a agricultura; debate sobre biocombustíveis
    • Sustentabilidade

      3.4 Repercussões: 

  • Organismos Multilaterais: ONU; FAO; OMC; FMI; Banco Mundial; G8
  • Países:

- Egito: maior importador de trigo do mundo, tem sofrido com o forte aumento do preço do produto, refletindo-se diretamente na capacidade da população de comprar produtos básicos, como o pão, o que gerou protestos e manifestações em fevereiro deste ano. O país tem taxado as exportações de arroz.

- México:

- Haiti: país com mais de 80% da população vivendo abaixo da linha de pobreza, o Haiti teve a sua estabilidade social prejudicada ainda mais com o aumento do preço dos alimentos (a saca de 50 kg de arroz, por exemplo, subiu de 35 dólares para 70 em poucos meses).

- Bangladesh: o consumidor padrão de classe baixa teria que gastar metade da sua renda diária para obter um saco de 2 kg de arroz.

- Coréia do Norte: problemas com enchentes no ano passado agravariam a capacidade do governo de racionar a comida à população de forma apropriada.

- Índia: registro de aumento de 11% do preço do leite, 40% do óleo comestível, 20% do arroz e 18% do de lentilhas. Controle da exportação de arroz.

- Argentina: protestos criados a partir do decreto do governo de taxar a exportação de alguns produtos agrícolas, com o objetivo de controlar a inflação no país.

- China: aumenta o temor de que o país não consiga alcançar a meta de inflação este ano devido à disparada dos preços dos alimentos (no primeiro trimestre, registrou-se um aumento de 21%). Controle da exportação de arroz.

- Vietnã: proibição da exportação de arroz.

- Paquistão e Tailândia: o exército vigia a produção e estocagem de alimentos.

- Iêmen: o aumento generalizado do preço de alimentos tem gerado protestos que já mataram dezenas de pessoas.

- Brasil: aumento da inflação, que se dá principalmente sobre produtos de demanda inelástica. Portanto, o aumento da taxa de juros (que tende a afetar o consumo de produtos a longo prazo) não seria um meio eficaz de reduzir o aumento generalizado de preços.

      - O etanol da cana-de-açúcar (que é produzido em 10% das terras agriculturáveis do país), mais eficaz que norte-americano derivado do milho, não provocaria desmatamento da Amazônia, uma vez que é produzido essencialmente no Paraná, em São Paulo, em Minas Gerais, em Goiás e no Mato Grosso do Sul. Um problema ecológico seria os danos causados ao cerrado.

      - O álcool diminuiria a dependência energética com relação à Bolívia.

      - Aumento das estimativas de produção de grãos para 2008 (139,6 milhões de toneladas).

      - Previsão de mais investimentos na produção de biocombustíveis: alcoolduto, aumento da produção, mecanização. 

4. Cenários

      Deve-se lidar com o fato de que a demanda por comida no planeta dobrará nos próximos 25 a 50 anos. Portanto, os cenários possíveis que podem ser desenhados são os relacionados à capacidade do planeta de suprir, de forma eficiente e integral, as demandas que surgirão. De forma mais otimista, espera-se que a cooperação entre as nações e as regulamentações e intervenções de organismos internacionais ofereçam a capacidade de se lidar com a fome no planeta, a escassez de água e terras cultiváveis, mudança climática, etc. Nesse sentido, o comprometimento com um bem geral deveria ser garantido. Por outro lado, pode-se pensar que as nações dificilmente conseguirão criar acordos implantáveis que garantam cooperação na área de segurança alimentar. As falhas de mercado, problemas meteorológicos e políticas econômicas erradas fariam o problema da elevação de preços tornar-se uma constante no meio internacional.

      A curto prazo, no entanto, algo bastante factível é esperar-se que o desequilíbrio entre oferta e demanda tenderia a desaparecer, simplesmente pelo fato de que agricultores poderiam aumentar e intensificar o plantio de plantas que resultem em elevação da oferta, uma vez que o seu preço encontra-se em alta. Maior oferta, portanto, resultaria numa situação em que houvesse menores preços. No entanto, não se deve esquecer que grande parte das reservas mundiais de alimentos estão em queda, e isso impediria que a queda generalizada de preços viesse a acontecer. 

5. Referências Bibliográficas

http://www.youtube.com/watch?v=pmcEC7N9L_M&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=B-0B4Z-7A4s&feature=related – ingles

http://www.youtube.com/watch?v=4OR1j94I9rA&feature=related – espanhol

http://www.agassessment.org/docs/IAASTD_leaflet_final.pdf

http://www.fao.org/newsroom/common/ecg/1000808/en/FAOEBRD.pdf

http://www.agassessment.org/index.cfm?Page=Press_Materials&ItemID=11

ftp://ftp.fao.org/docrep/fao/010/ai465e/ai465e00.pdf

http://news.bbc.co.uk/2/hi/in_depth/7284196.stm

http://www.reuters.com/news/globalcoverage/agflation

http://www.ft.com/foodprices

http://www.ft.com/cms/s/0/d8184634-07cc-11dd-a922-0000779fd2ac,dwp_uuid=a955630e-3603-11dc-ad42-0000779fd2ac.html?nclick_check=1

http://media.ft.com/cms/s/2/f5bd920c-975b-11dc-9e08-0000779fd2ac.html?from=textlink

http://www.fao.org/worldfoodsituation

http://www.rlc.fao.org/es/larc/larc08/prensa.htm

ftp://ftp.fao.org/docrep/fao/meeting/012/k1042e.pdf

http://www.fao.org/foodclimate/home1.html?no_cache=1&L=7

http://news.bbc.co.uk/2/hi/in_depth/7284196.stm

http://www.fao.org/statistics/ 

6. Apêndice 

    Países em crise que precisam de ajuda externa em alimentação
    Países Causas da crise alimentar
    Afeganistão conflitos e insegurança
    Bangladesh enchentes e ciclones
    Bolívia enchentes
    Burundi conflitos civis e refugiados
    Chade conflitos e refugiados
    Coréia do Norte problemas econômicos e efeitos de enchentes
    Costa do Marfim conflitos civis
    Eritréia crise econômica
    Etiópia questões de segurança e problemas locais em safras
    Federação Russa (Tchetchênia) conflitos civis
    Gana seca e enchentes
    Guiné refugiados
    Guiné-Bissau questões de segurança
    Haiti enchentes anteriores
    Indonésia deslizamentos, enchentes e terremotos
    Iraque conflitos e insegurança
    Lesoto secas
    Libéria período de recuperação após conflitos
    Mauritânia secas
    Moldova secas e falta de acesso a recursos para safras de inverno
    Nepal difícil acesso aos mercados, conflitos e enchentes
    Nicarágua enchentes anteriores
    Paquistão insegurança e enchentes anteriores
    Quênia conflitos civis e clima adverso
    República Centro-Africana refugiados
    República do Congo movimentos de desabrigados
    República Democrática do Congo conflitos civis
    República Dominicana enchentes anteriores
    Serra Leoa período de recuperação após conflitos
    Somália conflitos e clima adverso
    Sri Lanka conflitos
    Suazilândia secas
    Sudão conflitos civis
    Timor-Leste movimentos de desabrigados, secas e enchentes
    Uganda conflitos civis no norte do país
    Zimbábue Crise econômica, seca e enchentes recentes

(Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u372087.shtml) 

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The inescapable interconnectedness of agriculture’s different roles and functions 

The cost of food: facts and figures

Explore the facts and figures behind the rising price of food across the globe.

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Rising oil prices and fears over climate change have seen a massive rise in the use of maize to make bio-fuels, pushing up food prices

 

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There will be billions more mouths to feed by 2050, making an increased demand for food a long-term trend

 

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Rising prices will improve the trade balance of major food exporters, but major importers stand to see a greater deficit 

(Fonte: http://news.bbc.co.uk/2/hi/in_depth/7284196.stm)

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