Na presente campanha presidencial nos Estados Unidos, debate-se bastante sobre qual seria a melhor forma – além do momento mais conveniente – de retirada das tropas da aliança anglo-americana do território iraquiano. No entanto, pouco se menciona sobre o turbulento legado já entregue, saliente-se, à população local. Independentemente do momento de retorno dos efetivos transatlânticos, a guerra civil no Iraque permanecerá por muito tempo.
É possível especular sobre a orientação secessionista a ser adquirida após a saída das forças armadas estadunidenses. Chefes militares ou líderes locais traçarão novas fronteiras, influenciados pelas quantidades disponíveis de campos petrolíferos. Assim, os habitantes de áreas desprovidas de recursos naturais, a fim de escapar da pobreza, poderão ampliar o número de deslocados, principalmente para as desapercebidas Síria e Jordânia, incapazes de prover mais recursos para auxiliar os emigrantes recém-chegados. Em menor escala, Egito e Líbano acolheriam também número expressivo de refugiados.
Antes do inicio da guerra, a identidade nacional no Iraque sobrepunha-se à religiosa – muçulmana com sunitas e xiitas, cristã com católicos ou sincrética com iaziditas – ou étnica – curdos e árabes – aspecto político necessário para a consolidação e viabilidade administrativa, especialmente a partir da Guerra Irã-Iraque nos anos 80.
Assim, havia pouco espaço para afirmações sectárias, acompanhadas com atenção pelo aparato ditatorial do Partido Baath, de caráter secular. Nesse sentido, alguns grupos xiitas buscariam refúgio, após a destituição do Xá Reza Pahlavi, junto ao Irã – retornariam, após a deposição de Saddam Hussein, fortalecidos em decorrência do apoio de Teerã.
Na fragilidade administrativa em que está imerso o Iraque, a degradação da infra-estrutura e dos serviços públicos faz com que milícias religiosas ou étnicas controlem parte deles como, por exemplo, escolas. Nos três primeiros anos de ocupação, os Estados Unidos chegaram a investir na recuperação de milhares de colégios, com a doação de mobiliário e de material escolar, mas, com o agravamento dos problemas de segurança, interromperam o projeto.
A ocupação, a partir de março de 2003, incentivou o afloramento de visões étnicas ou religiosas, ao trabalhar, desde o anúncio do confronto, com a visão de que se derrubaria uma ditadura sunita, não uma secular. Curiosamente, nas primeiras semanas de guerra, a coligação anglo-americana distribuiu um baralho com os 55 nomes mais importantes do regime defenestrado a serem capturados para julgamento – destes, 36 eram xiitas. Recorde-se de que um dos vice-presidentes, Tariq Aziz, pertencia à minoria cristã – Igreja Católica Caldéia.
No compasso em que está a tensão política, reverberada nos conflitos militares, é factível o desdobrar do Iraque na formação de ao menos uma zona autônoma: ao norte, a faixa curda transformar-se-ia em um protetorado sob acompanhamento dos Estados Unidos com vistas a assegurar o acesso aos recursos petrolíferos por meio de parcerias ou de privatizações puras, a despeito da desaprovação da Turquia, preocupada com a repercussão em seu próprio território.
Sem a responsabilidade de ser uma força de paz ou de estabilização, os Estados Unidos procuram vincular-se politicamente a determinados grupos para legitimar a sua permanência posterior até como fiadores com relação a questões de segurança. Naturalmente, nas considerações do Departamento de Estado, a participação de organismos multilaterais como a própria Organização das Nações Unidas tem peso secundário.
O discurso imediato de Washington volta-se realmente para o seu público interno, ainda mais em ano eleitoral, ao relacionar a segunda Guerra do Golfo com o retrocesso da ação terrorista no mundo todo. No médio prazo, estipula-se uma retirada militar, possível tão-somente após o governo local firmar-se e, portanto, legitimar-se politicamente perante o mosaico emergente do pós-março de 2003.
No transcorrer do processo de estabilização, efetivos – incluam-se os da Aeronáutica – conservar-se-iam com o objetivo de primeiramente contrapor-se ao terrorismo, ainda que eventualmente latente; guarnecer instalações físicas norte-americanas e mesmo internacionais; por último, habilitar forças policiais e militares iraquianas, como em Bassorá, por exemplo. Na prática, há a formação de grupos paramilitares para uma justificada manutenção mínima da ordem, sem subordinação administrativa plena.
No conjunto, isto justificaria a presença por anos de tropas estrangeiras, a fim de evitar que o Iraque submergisse no caos. No entanto, parece pouco crível, no presente momento, que as Nações Unidas sejam em breve incorporadas de fato ao processo de reedificação do país, de sorte que o fardo dos iraquianos perdurará indefinidamente.
É possível especular sobre a orientação secessionista a ser adquirida após a saída das forças armadas estadunidenses. Chefes militares ou líderes locais traçarão novas fronteiras, influenciados pelas quantidades disponíveis de campos petrolíferos. Assim, os habitantes de áreas desprovidas de recursos naturais, a fim de escapar da pobreza, poderão ampliar o número de deslocados, principalmente para as desapercebidas Síria e Jordânia, incapazes de prover mais recursos para auxiliar os emigrantes recém-chegados. Em menor escala, Egito e Líbano acolheriam também número expressivo de refugiados.
Antes do inicio da guerra, a identidade nacional no Iraque sobrepunha-se à religiosa – muçulmana com sunitas e xiitas, cristã com católicos ou sincrética com iaziditas – ou étnica – curdos e árabes – aspecto político necessário para a consolidação e viabilidade administrativa, especialmente a partir da Guerra Irã-Iraque nos anos 80.
Assim, havia pouco espaço para afirmações sectárias, acompanhadas com atenção pelo aparato ditatorial do Partido Baath, de caráter secular. Nesse sentido, alguns grupos xiitas buscariam refúgio, após a destituição do Xá Reza Pahlavi, junto ao Irã – retornariam, após a deposição de Saddam Hussein, fortalecidos em decorrência do apoio de Teerã.
Na fragilidade administrativa em que está imerso o Iraque, a degradação da infra-estrutura e dos serviços públicos faz com que milícias religiosas ou étnicas controlem parte deles como, por exemplo, escolas. Nos três primeiros anos de ocupação, os Estados Unidos chegaram a investir na recuperação de milhares de colégios, com a doação de mobiliário e de material escolar, mas, com o agravamento dos problemas de segurança, interromperam o projeto.
A ocupação, a partir de março de 2003, incentivou o afloramento de visões étnicas ou religiosas, ao trabalhar, desde o anúncio do confronto, com a visão de que se derrubaria uma ditadura sunita, não uma secular. Curiosamente, nas primeiras semanas de guerra, a coligação anglo-americana distribuiu um baralho com os 55 nomes mais importantes do regime defenestrado a serem capturados para julgamento – destes, 36 eram xiitas. Recorde-se de que um dos vice-presidentes, Tariq Aziz, pertencia à minoria cristã – Igreja Católica Caldéia.
No compasso em que está a tensão política, reverberada nos conflitos militares, é factível o desdobrar do Iraque na formação de ao menos uma zona autônoma: ao norte, a faixa curda transformar-se-ia em um protetorado sob acompanhamento dos Estados Unidos com vistas a assegurar o acesso aos recursos petrolíferos por meio de parcerias ou de privatizações puras, a despeito da desaprovação da Turquia, preocupada com a repercussão em seu próprio território.
Sem a responsabilidade de ser uma força de paz ou de estabilização, os Estados Unidos procuram vincular-se politicamente a determinados grupos para legitimar a sua permanência posterior até como fiadores com relação a questões de segurança. Naturalmente, nas considerações do Departamento de Estado, a participação de organismos multilaterais como a própria Organização das Nações Unidas tem peso secundário.
O discurso imediato de Washington volta-se realmente para o seu público interno, ainda mais em ano eleitoral, ao relacionar a segunda Guerra do Golfo com o retrocesso da ação terrorista no mundo todo. No médio prazo, estipula-se uma retirada militar, possível tão-somente após o governo local firmar-se e, portanto, legitimar-se politicamente perante o mosaico emergente do pós-março de 2003.
No transcorrer do processo de estabilização, efetivos – incluam-se os da Aeronáutica – conservar-se-iam com o objetivo de primeiramente contrapor-se ao terrorismo, ainda que eventualmente latente; guarnecer instalações físicas norte-americanas e mesmo internacionais; por último, habilitar forças policiais e militares iraquianas, como em Bassorá, por exemplo. Na prática, há a formação de grupos paramilitares para uma justificada manutenção mínima da ordem, sem subordinação administrativa plena.
No conjunto, isto justificaria a presença por anos de tropas estrangeiras, a fim de evitar que o Iraque submergisse no caos. No entanto, parece pouco crível, no presente momento, que as Nações Unidas sejam em breve incorporadas de fato ao processo de reedificação do país, de sorte que o fardo dos iraquianos perdurará indefinidamente.
Virgílio Arraes é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – iREL-UnB (arraes@unb.br).

03/04/2008 

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[...] Iraque: a emergência do conflito civil Na presente campanha presidencial nos Estados Unidos, debate-se bastante sobre qual seria a melhor forma – além do momento mais conveniente – de retirada das tropas da aliança anglo-americana do território iraquiano. No entanto, pouco se menciona sobre o turbulento legado já entregue, saliente-se, à população local. Independentemente do momento de retorno dos efetivos transatlânticos, a guerra civil no Iraque permanecerá por muito tempo. É possível especular sobre a orientação secessionista a ser adquirida após a saída das forças armadas estadunidenses. Chefes militares ou líderes locais traçarão novas fronteiras, influenciados pelas quantidades disponíveis de campos petrolíferos. Assim, os habitantes de áreas desprovidas de recursos naturais, a fim de escapar da pobreza, poderão ampliar o número de deslocados, principalmente para as desapercebidas Síria e Jordânia, incapazes de prover mais recursos para auxiliar os emigrantes recém-chegados. Em menor escala, Egito e Líbano acolheriam também número expressivo de refugiados. Antes do inicio da guerra, a identidade nacional no Iraque sobrepunha-se à religiosa – muçulmana com sunitas e xiitas, cristã com católicos ou sincrética com iaziditas – ou étnica – curdos e árabes – aspecto político necessário para a consolidação e viabilidade administrativa, especialmente a partir da Guerra Irã-Iraque nos anos 80. Assim, havia pouco espaço para afirmações sectárias, acompanhadas com atenção pelo aparato ditatorial do Partido Baath, de caráter secular. Nesse sentido, alguns grupos xiitas buscariam refúgio, após a destituição do Xá Reza Pahlavi, junto ao Irã – retornariam, após a deposição de Saddam Hussein, fortalecidos em decorrência do apoio de Teerã. Na fragilidade administrativa em que está imerso o Iraque, a degradação da infra-estrutura e dos serviços públicos faz com que milícias religiosas ou étnicas controlem parte deles como, por exemplo, escolas. Nos três primeiros anos de ocupação, os Estados Unidos chegaram a investir na recuperação de milhares de colégios, com a doação de mobiliário e de material escolar, mas, com o agravamento dos problemas de segurança, interromperam o projeto. A ocupação, a partir de março de 2003, incentivou o afloramento de visões étnicas ou religiosas, ao trabalhar, desde o anúncio do confronto, com a visão de que se derrubaria uma ditadura sunita, não uma secular. Curiosamente, nas primeiras semanas de guerra, a coligação anglo-americana distribuiu um baralho com os 55 nomes mais importantes do regime defenestrado a serem capturados para julgamento – destes, 36 eram xiitas. Recorde-se de que um dos vice-presidentes, Tariq Aziz, pertencia à minoria cristã – Igreja Católica Caldéia. No compasso em que está a tensão política, reverberada nos conflitos militares, é factível o desdobrar do Iraque na formação de ao menos uma zona autônoma: ao norte, a faixa curda transformar-se-ia em um protetorado sob acompanhamento dos Estados Unidos com vistas a assegurar o acesso aos recursos petrolíferos por meio de parcerias ou de privatizações puras, a despeito da desaprovação da Turquia, preocupada com a repercussão em seu próprio território. Sem a responsabilidade de ser uma força de paz ou de estabilização, os Estados Unidos procuram vincular-se politicamente a determinados grupos para legitimar a sua permanência posterior até como fiadores com relação a questões de segurança. Naturalmente, nas considerações do Departamento de Estado, a participação de organismos multilaterais como a própria Organização das Nações Unidas tem peso secundário. O discurso imediato de Washington volta-se realmente para o seu público interno, ainda mais em ano eleitoral, ao relacionar a segunda Guerra do Golfo com o retrocesso da ação terrorista no mundo todo. No médio prazo, estipula-se uma retirada militar, possível tão-somente após o governo local firmar-se e, portanto, legitimar-se politicamente perante o mosaico emergente do pós-março de 2003. No transcorrer do processo de estabilização, efetivos – incluam-se os da Aeronáutica – conservar-se-iam com o objetivo de primeiramente contrapor-se ao terrorismo, ainda que eventualmente latente; guarnecer instalações físicas norte-americanas e mesmo internacionais; por último, habilitar forças policiais e militares iraquianas, como em Bassorá, por exemplo. Na prática, há a formação de grupos paramilitares para uma justificada manutenção mínima da ordem, sem subordinação administrativa plena. No conjunto, isto justificaria a presença por anos de tropas estrangeiras, a fim de evitar que o Iraque submergisse no caos. No entanto, parece pouco crível, no presente momento, que as Nações Unidas sejam em breve incorporadas de fato ao processo de reedificação do país, de sorte que o fardo dos iraquianos perdurará indefinidamente. Comentar este artigo e interagir com o seu autor [...]