1. Objeto de análise: Recentes protestos e tumultos iniciados em Lhasa, mas que já se espalharam para outras províncias chinesas, têm sido duramente reprimidos pelo exército do país, gerando uma grave questão diplomática que Beijing deve resolver a poucos meses do início dos Jogos Olímpicos em agosto.
2. Informeções de referência
2.1 Palavras-chave
- Questão tibetana; Dalai Lama; “Genocídio cultural”; Integridade nacional; Jogos Olímpicos; China.
2.2 Cronologia
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1912 – O Tibete obtém independência da China.
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1950 – A China comunista invade e anexa o Tibete ao seu território.
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1959 – Após a derrota de um levante contra o domínio chinês, o Dalai Lama (Tenzin Gyatso) e seus seguidores fogem para a Índia.
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1966 – A Revolução Cultural chega ao Tibete e milhares de templos e artefatos religiosos são destruídos.
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Década de 1970 – A migração de chineses Han ao Tibete é intensificada.
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1995 – Gedhun Choekyi Nyima, uma criança de seis anos é identificada como sucessora de Tenzin Gyatso na liderança do budismo. O governo chinês indica uma outra criança à mesma época e transfere Gedhun Choekyi Nyima à China, que nunca mais é visto.
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1989 – o Dalai Lama recebe o Prêmio Nobel da paz;
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1999 – Início de uma campanha do governo chinês para difundir o ateísmo no Tibet (tal atitude é tida como “genocídio cultural” por muitos tibetanos e analistas).
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Julho de 2006 – Inaugurada a ferrovia que liga o Tibete ao restante da China.
- Outubro de 2007 – O Dalai Lama encontra-se com George W. Bush em Washington e recebe a Medalha de Ouro do Congresso, a maior agremiação civil concedida pelo órgão.
- Dezembro de 2007 – Tibetanos tem o pedido de participação independente da China nas Olimpíadas de Beijing negado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).
- Janeiro de 2008 – Em apoio à causa tibetana, o príncipe Charles declara não ir à abertura dos Jogos Olímpicos de Beijing.
- 04 de março de 2008 – A cantora Björk dedica sua canção “Declare Indepence” ao Tibete em show em Shanghai, gerando constrangimento.
- 10 de março de 2008 – Manifestação pacífica de monges tibetanos lembra os 49 anos da fracassada rebelião liderada pelo Dalai Lama em 1959.
- 14 de março de 2008 – Início das ondas de violência devido à repressão por parte do governo chinês de monges. Centenas saem às ruas.
- 15 de março de 2008 – Lhasa é sitiada pelo exército chinês, e Beijing dá ultimato a manifestantes para que se entreguem e cessem os protestos acabem.
– Massacre de estudantes na Praça da Paz Celestial, em Beijing;
– A questão do Tibete ganha repercussão internacional.
– Taiwan condena ofensiva chinesa no Tibete.
- 16 de março de 2008 – O presidente do Comitê Olímpico Alemão afirma que alguns atletas do país planejam não ir às Olimpíadas em agosto devido às repressões no Tibete.
- 17 de março de 2008 – Ban Ki-moon pede ao governo chinês contenção na resposta aos protestos no Tibete, ao passo que o governo chinês afirma que vai buscar assegurar seu direito territorial sobre o Tibete.
- 18 de março de 2008 – O chanceler francês, Bernard Kouchner, considera “interessante” a proposta da organização “Repórteres sem Fronteira” de boicotar a cerimônia de abertura dos jogos olímpicos de Beijing e promete levar a idéia aos demais membros da União Européia.
- 19 de março de 2008 – Condoleezza Rice faz apelo ao governo chinês para que mantenha um diálogo aberto com tibetanos.
- 20 de março de 2008 – O Dalai Lama mostra-se disposto a negociar com autoridades chinesas com o objetivo de buscar o fim da violência no Tibete. O governo chinês demonstra disposição de manter conversas, desde que o Dalai Lama reconheça que o Tibete faz parte da China.
- 21 de março de 2008 – O governo francês pede à China que reabra o Tibete à imprensa.
- 22 de março de 2008 – Hans-Gert, presidente do parlamento europeu, ameaçou incentivar o boicote às Olimpíadas de Beijing devido à forte repressão chinesa contra manifestantes tibetanos e exigiu que o país negociasse com o Dalai Lama.
- 24 de março de 2008 – Protestos marcam a saída da tocha olímpica na cidade de Olímpia, na Grécia.
- 25 de março de 2008 – O Conselho de Direitos Humanos da ONU pede à China que diminua a violência infringida contra manifestantes no Tibete e as restrições de informação e de entradas na província.
– A China suspende vistos a turistas estrangeiros no Tibete.
– Forças armadas chinesas buscam casa por casa os manifestantes em Lhasa.
– O Dalai Lama denuncia “um tipo de genocídio cultural” no Tibete, mas expressa apoio à plena realização dos Jogos Olímpicos.
– Milhares de tibetanos protestam no norte da Índia contra a repressão de Beijing às manifestações no Tibete.
– O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, acusou o Dalai Lama de incentivar a violência no Tibete.
– O Dalai Lama ameaça deixar o cargo de líder tibetano caso isso ajude a reduzir os distúrbios na região.
– Centenas de tibetanos protestam em frente ao COI, na Suíça, pedindo a condenação à repressão do governo chinês e o cancelamento da passagem da tocha olímpica pelo Tibete. No entanto, o COI declarou que não haveria mudanças com relação ao trajeto da tocha.
– Governo chinês e grupos pró-Tibete trocam acusações com relação aos recentes acontecimentos na província: enquanto Beijing afirma que a situação está normalizando-se, tibetanos afirmam ser cada vez mais difícil obter informações independentes na região.
– Agências pró-Tibete dizem ser alvos de ataques cibernéticos, e alguns sites (como o youtube e o do jornal britânico The Guardian) são bloqueados na China.
– A Human Rights Watch, organização de defesa de direitos humanos, exige que Beijing dê abertura a observadores independentes no Tibete.
– Willi Lemke, assessor especial do secretário-geral da ONU, pede cautela em relação a boicote aos Jogos Olímpicos.
– O governo chinês afirma que mais de 100 manifestantes entregaram-se às autoridades chinesas; líderes tibetanos negam. Beijing prometeu “clemência” aos que se entregassem.
– Beijing protesta contra a cobertura estrangeira no Tibete, que estaria distorcendo os fatos.
– Autoridades chinesas admitem que os protestos espalharam-se para além do Tibete, afetando também as províncias de Sichuan, Gansu e Qinghai
– Beijing envia grandes contingentes militares ao Tibete para conter revoltas.
– Bernanr Kouchner, chanceler francês, volta atrás e declara que “quando se lida com relações internacionais com países importantes como a China, obviamente são tomadas decisões econômicas à custa dos direitos humanos”, descartando a possibilidade de boicote da abertura dos jogos olímpicos. No entanto, não houve manifestações semelhantes dos demais membros da União Européia.
– O governo norte-coreano aprova as recentes atitudes de Beijing contra as manifestações no Tibete, que seriam “manobras montadas pelos desonestos”.
– A China expulsa os dois últimos jornalistas estrangeiros no Tibete.
– A China admite pela primeira vez o uso de armas contra manifestantes tibetanos, alegando “defesa própria”.
– Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, reúne-se com o Dalai Lama e critica a repressão do governo chinês às manifestações no Tibete. Além disso, Pelosi destacou a importância de uma investigação independente e da participação internacional no caso.
– Nicolas Sarkozy considera a possibilidade de boicotar a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos e pediu a autoridades chinesas maior responsabilidade no Tibete.
– Governo tibetano no exílio aponta em 140 o número de mortes no Tibete desde o início dos protestos.
3. Contextualização e repercussão
3.1 Locais
- Os protestos lembram a insatisfação dos tibetanos com relação ao domínio chinês na área, que não afeta somente o campo político, mas também o econômico e o cultural. Os tibetanos afirmam que os resultados econômicos alcançados somente beneficiam os chineses de etnia han, que já constituem a maioria da população no Tibete, dominam a economia e ocupam os melhores cargos públicos. O predomínio han na população também seria, de acordo com os tibetanos, uma maneira de o governo chinês “dissipar” os atributos próprios do Tibete na cultura local;
- Províncias com grandes populações de tibetanos (como Sichuan, Gansu e Qinghai) também registram conflitos;
3.2 Regionais
- Tibetanos no norte da Índia protestam contra o governo chinês. A Índia, que abriga em Dharamsala o governo tibetano no exílio, prendeu manifestantes que seguiam em direção à fronteira com o Tibete, no intuito de evitar a criação de conflitos diplomáticos com a China;
3.3 Globais
- Uma das grandes preocupações do governo chinês é assegurar que as Olimpíadas de Beijing, em agosto, ocorram normalmente e ainda sirvam para divulgar a imagem de uma China unida, pacífica e progressista. Nesse sentido, os conflitos entre o exército chinês e os tibetanos podem prejudicar a imagem que o país tenta construir. Assim, o governo chinês tem tentado empreender uma grande campanha de isolamento ao Tibete, restringindo a entrada de estrangeiros e a saída de informações. Aliado a isso, Beijing vem buscando divulgar que a situação na região já se estaria normalizando, e que os “insurgentes” liderados por Dalai Lama e que tentavam desestabilizar socialmente o país já estariam sendo presos. Contudo, parte da comunidade internacional exige do governo chinês mais informações independentes e respeito aos direitos humanos. Protestos contra a China foram registrados nos Estados Unidos, na França, no Reino Unido, na Alemanha, em Portugal e na Austrália, dentre outros países. A possibilidade de boicote às Olimpíadas de agosto é algumas vezes considerada por alguns países, mas totalmente rejeitada por outros.
- O governo dos EUA ainda não se manifestou sobre a situação, da mesma forma que a maioria dos países de grande economia e que dependem fortemente de relações econômicas e comerciais com a China. A atual crise do sistema financeiro internacional cria grandes empecilhos ao posicionamento dos mesmos (utilizemos como exemplo os EUA, país dependente do dinheiro vindo da compra chinesa de títulos da dívida pública estadunidense);
- Ventila-se na União Européia a possibilidade de boicote à cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. Tal proposta foi sugerida pela França, e pode transformar-se em grande arma de protesto contra a China;
- No âmbito da ONU, Ban Ki-moon disse estar “preocupado” com o conflito. Entretanto, pouco poderá se esperar de atuação de um Conselho de Segurança no qual q China possui poder de veto.
4. Cenários
- Uma vez que os tibetanos querem aproveitar o momento em que as atenções estão voltadas para a China para reivindicar maior liberdade cultural e política (em vez de uma declaração de independência pouco realizável), esperando que a China provavelmente não reprimiria radicalmente as manifestações, infringindo direitos humanos e tentando manter a região longe do alcance dos olhos da comunidade internacional a poucos meses dos Jogos Olímpicos, é de se supor que haveria neste momento maior disposição de Beijing a negociar com líderes do povo tibetano, talvez até mesmo com o Dalai Lama.
- Para não permitir que as manifestações no Tibete conquistem alguma vantagem e que sirvam de exemplo a outras regiões que buscam maior autonomia e/ou soberania (como Taiwan e Xinjiang), Beijing pode controlar com maior dureza as manifestações na região e sufocar focos de insurgência, mantendo a política atual de transformar Dalai Lama, provavelmente uma das figuras mais populares do mundo, em inimigo. Isso poderia prejudicar a imagem internacional do país e prejudicar o sucesso dos Jogos Olímpicos.
- Não se constata possibilidade alguma de que o Tibete conquiste alguma autonomia. A política chinesa possui princípios confucionistas (que não permitem nem que falemos em direitos humanos). Tais princípios pensam o coletivo, e não o individual. Dessa forma, não se vislumbra alguma brecha para que se dê autonomia a alguma das regiões. De todo modo, a repressão aos tibetanos terá que diminuir, em face da pressão internacional que ameaçará o sucesso dos Jogos Olímpicos e a manutenção da imagem de prosperidade associada atualmente à China. Para isso, alguma forma de conciliação, mesmo que apenas ilusória, deve surgir nos próximos dias por parte do governo chinês.

31/03/2008



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