Para Buda pensar em Relações Internacionais, por Tiago Wolff Beckert

2008 março 31
by Equipe PET - iREL-UnB

Setembro de 2007, Myanmar. Uma série de manifestações convocadas pela Aliança de Todos os Monges da Birmânia levou 300 mil pessoas às ruas do país para protestar contra a junta militar que está no governo há 40 anos. Esses foram os maiores agrupamentos de manifestantes nos oito anos de recorrentes protestos. A despeito do fato de que as passeatas iniciaram-se com o objetivo de exigir que o governo se desculpasse pela agressão realizada contra vários monges, elas tornaram-se um clamor pela liberdade política do país. Em 1991, Aung San Suu Kyiem, líder de oposição ao governo de Myanmar, recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Desde 2003, no entanto, ela vive em prisão domiciliar no seu próprio país. Sua aparição pública, na porta da casa em que habita, reuniu e emocionou muitos manifestantes, dando ímpeto extra aos protestos. Nenhuma manifestação anterior realizada no país esteve tão presente no debate internacional.
Março de 2008, Tibete. O décimo dia desse mês marca o início de uma seqüência de manifestações com repercussão internacional. Nesse dia, monges budistas saem às ruas para lembrar os 49 anos de rebelião que levou Tanzin Gyatso, o 14º Dalai Lama, ao exílio na Índia, país em que vive até os dias atuais. A despeito do tópico em aberto sobre a intenção de realmente lembrar o movimento de 1959 ou de aproveitar o contexto atual favorável, qual seja a proximidade dos Jogos Olímpicos de Beijing e a atenção da comunidade internacional voltada para a China, o fato é que o debate internacional acerca do caso tibetano tornou-se mais difundido e politizado. Seu líder espiritual, o 14º Dalai Lama, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1989, portanto dois anos antes da líder de Myanmar.
Os casos de Myanmar e do Tibete guardam, entre si, tanto semelhanças quanto diferenças. Entre as semelhanças, destacam-se a autoridade moral exercida pelos monges budistas nos dois territórios; o reconhecimento dado aos líderes dos dois movimentos em 1989 e em 1991 devido ao trabalho realizado por ambos para a construção da paz; a falta de liberdade dada a ambos os líderes em seus próprios territórios-base; o descontentamento de grande parcela da população com relação à situação política, econômica, social e cultural do local em que habitam; e a forma autoritária com que, tanto birmaneses quanto tibetanos, são tratados pelos respectivos governos, a Junta Militar no caso de Myanmar e o Governo comunista da China, no exemplo do Tibete.
Entre as grandes diferenças notadas nos dois casos, destacam-se três. A primeira delas dá-se pelo status diferenciado entre as duas partes, representadas por uma nação soberana no primeiro caso e por uma província “autônoma” no segundo. A segunda diferença (se bem que, nesse ponto, alguma semelhança pode ser localizada) dá-se em relação às reivindicações que estão em jogo, quais sejam a maior liberdade política de Myanmar e a maior autonomia em relação à China por parte do Tibete. Em Myanmar não se exige autonomia nem independência política, mas flexibilização do regime imposto pela junta militar, e futura troca do mesmo. É a primeira vez em 40 anos que o movimento budista de Myanmar consegue romper as fronteiras do próprio país e atingir repercussão mundial – diferentemente do movimento budista tibetano, há tempos conhecido mundialmente. Por sua vez, desde 1950, quando o Tibete foi anexado à China de Mao Zedong, o movimento budista local desistiu de reivindicar independência. Entretanto, as demandas surgem pelo fato de que a autonomia do controle político regional, em teoria dada pelo Partido Comunista Chinês ao Tibete, não é verificada na prática.
A terceira diferença, entretanto, é a que enseja reter a maior atenção do leitor nesse texto. Ela se refere às escolas do budismo predominantes nas duas partes: Theravada em Myanmar e Mahayana no Tibete. É por meio dessa diferença que se tentará analisar, a seguir, o espanto com que a explosão das manifestações em Myanmar foi recebida pela comunidade internacional, por um lado, e a sensação de “ressurgimento” de tensões que já eram conhecidas por todos nas relações entre Tibete e China, por outro lado.
O budismo Theravada, majoritário em Myanmar, tem como filosofia a crença no fato de que a vida terrena é apenas um dos estágio antes de se obter o nirvana, e enfatiza que o caminho religioso dos indivíduos na busca da redenção deve se dar mediante a renúncia das coisas materiais. É, portanto, uma escola do budismo conservador, pouco adaptável às transformações do mundo. Apesar de residir nessa resistência a permissão para reivindicar o status de portadora do budismo original, a pouca atratividade exercida por essa corrente diminui as possibilidades de que os problemas sociais e políticos de Myanmar atinjam o grande público internacional, ao contrário do que acontece no caso tibetano.
No interior do budismo, a antítese da escola Theravada chama-se Mahayana. Diferentemente do que se passa na escola predominante em Myanmar, o budismo tibetano apresenta inclusividade e adaptabilidade. Ele descreve um caminho desejável na busca da iluminação, rejeitando a salvação pessoal que não seja como fim último da alma e, portanto, apresentando um caráter menos individual.
Justamente pela adaptabilidade inerente ao caráter do budismo tibetano é que se dá o maior interesse mundial por ele, em relação ao budismo Theravada. É essa atração exercida pelo Mahayana – análoga a uma espécie de soft power – que permite ao movimento budista tibetano maior visibilidade mundial. Por outro lado, é o fato de estar encravado em território chinês que dificulta a evolução essencial de visibilidade para ajuda na causa defendida, devido ao controle e à repressão exercidos pelo governo central. Nesse caso específico, a cultura budista tibetana tem sido seguidamente atacada por políticas vindas de Beijing, com o claro objetivo de homogeneização cultural da população chinesa, em torno da cultura e dos valores da etnia han, majoritária no país. A proximidade dos Jogos Olímpicos apresenta-se como uma variável a mais, que nesse caso dá ao movimento maior possibilidade de expressar suas demandas.
O maior acompanhamento do caso, articulado pela comunidade internacional, joga mais luzes sobre o posicionamento dos grandes atores do sistema. Mesmo aqui, o caso Tibete – China revela suas idiossincrasias. De um lado, as pressões por respeito aos direitos humanos emanam da sociedade civil e das populações que realizam protestos, favorecidos pela sociedade em rede e pelas tecnologias de informação. Nesse sentido, a China figura como alvo das críticas internacionais. Por outro lado, tais críticas dificilmente partem de governos nacionais. Seria delírio imaginar que grandes Estados Nacionais – portanto, grandes parceiros comerciais da China – arriscariam suas relações econômicas com o gigante asiático devido a uma questão política que, em princípio, é de ordem interna chinesa. Tanto o jogo internacional funciona assim que os EUA, até o momento, sequer manifestaram-se sobre o Tibete – em um contexto de crise do sistema financeiro internacional, seria muito arriscado para o país norte-americano ensaiar algum protesto contra a China, que continua comprando títulos da dívida estadunidense. Vislumbra-se, aqui, a contradição existente entre os movimentos do governo Bush contra o desrespeito aos direitos humanos no Iraque e a inação quanto ao mesmo problema em território chinês. Conseqüentemente, um cenário de boicote aos Jogos Olímpicos ou à cerimônia de abertura dos mesmos (proposta ventilada nos corredores da União Européia), com caráter político, dificilmente pode ser esperado. No âmbito da ONU, outro ator internacional importante, pouco ou quase nada acontecerá. A única declaração de Ban Ki-moon, Secretário-Geral da Organização, expressou a “preocupação” do sul-coreano com a situação tibetana – mas o Conselho de Segurança está congelado devido à presença chinesa na mesa de discussão.
As portas mais abertas para a resolução do impasse encontram-se na figura do Dalai Lama. A China, porém, mantém a política de fazer do líder espiritual um inimigo pessoal, ao invés de buscar a aproximação com o canal mais direto de ligação e de flexibilização com o Tibete. Esse direcionamento não trará nada de benéfico para a situação, apenas dando mais ímpeto aos protestos que se espalham pelo mundo e ganham audiência com a passagem da tocha olímpica por vários países. Espera-se que o governo chinês flexibilize, ao menos superficialmente, a sua posição – objetivando garantir o sucesso das Olimpíadas e a manutenção da imagem de um país próspero. Essa suposta negociação não altera em nada a situação política do Tibete, que dificilmente vislumbrará, em um futuro próximo, a maior autonomia desejada. Devemos sempre ter em mente que a China possui princípios confucionistas, que pensam o coletivo, e não o individual. Com isso em perspectiva, autonomia a alguma das regiões não está na pauta de negociação chinesa. De todo modo, ao menos momentaneamente, as repressões deverão diminuir. Aos poucos, os focos de tensão pararão de ser destaques no noticiário. Apesar do fato de que isso indicará, sim, redução nos enfrentamentos, não representará uma China flexível e realmente aberta ao diálogo. Essa forma de conciliação ilusória deverá ser gestada no decorrer dos próximos dias.
Em conclusão, ressalta-se que a atratividade (soft power) exercida pelo budismo tibetano é fonte de preocupação internacional com relação ao contexto sóciopolítico no país. Certamente existem, no jogo, fatores muito mais diversos e mais importantes do que esse que aqui foi analisado – já que o objetivo do texto não foi esgotar as causas das tensões entre Tibete e China, mas esboçar um quadro analítico diferenciado para o tema. O budismo tibetano é a “ficha extra” que está nas mãos de seus líderes, se comparado a Myanmar. No entanto, o Mahayana por si só não é capaz de gerar alterações substanciais num ambiente regulado por um ator hegemônico, tal como a China. A estratégia racional a ser utilizada, nesse caso (ausência de hard power suficiente para fazer valer sua influência), é a criação de tumultos (sem sentido pejorativo) no momento em que os olhos de todo o mundo estão voltados para o país. É uma pena que, mais uma vez, a ilusão de alguma alteração substancial prevalecerá sobre o império do otimismo.

Tiago Wolff Beckert é Membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (tiagobeckert@uol.com.br).

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