A aproximação das Olimpíadas e a questão tibetana: um novo fôlego para a conquista de direitos e liberdades no teto do mundo, por Wilson Tadashi Muraki Junior

2008 Março 31
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by Equipe PET - iREL-UnB

Em março de 1959 um levante de tibetanos contrários ao domínio comunista chinês sobre a sua terra marca o início de um novo tempo para o Tibete: as constantes disputas com Beijing no que se refere a garantia de liberdades, tolerância com relação à cultura, à religião, à língua e à própria manutenção de um estilo de vida desse povo não são mais guiadas por um líder essencialmente tibetano. É exatamente após tal levante que o Dalai Lama e seus seguidores fogem para Dharamsala, Índia, onde instalam a sede do governo tibetano no exílio. Quarenta e nove anos depois, em março de 2008, conflitos violentos eclodem em Lhasa, capital da Região Autônoma do Tibete (sob jurisdição chinesa) poucos meses antes do início dos jogos olímpicos de Beijing, momento em que a atenção do mundo ficará fortemente direcionada para a China. Parece ser considerável a idéia de que esta é a oportunidade que as lideranças tibetanas esperavam para dar um último suspiro na luta em busca de autonomia para o Tibete; justamente antes do momento em que toda a região seja fatalmente engolida pela voracidade de uma potência em ascensão, uma cultura seja extinta e, suas memórias e tradições, eternamente esquecidas.
A Região Autônoma do Tibete dá à China uma posição geopolítica beneficiada sobre a Ásia central, uma vez que sem ele o país não faria fronteira com Butão, Nepal ou Índia. No platô tibetano nasce grande parte dos grandes rios que fertilizam as planícies chinesas. Além disso, há muitos recursos minerais e florestais disponíveis na região.
O atual domínio no Tibete tem início em 1950, quando tropas chinesas anexam o Tibete ao seu território. As conversações entre os líderes do povo e Beijing não produzem resultados e, em meio a muita insatisfação popular, os levantes de 1959 são levados a cabo, mas não obtêm sucesso. Assim, para que se mantivesse a integridade da representação tibetana, e, principalmente do líder espiritual – o Dalai Lama – a solução encontrada foi o refúgio em um país estrangeiro.
A década de 1960 vê muito da cultura tibetana sendo perdido em meio à Revolução Cultural que balança toda a China. Na prática, isso representou a destruição de muitos templos e símbolos religiosos – marcas da cultura tibetana – e a banalização de práticas espirituais. Já durante a década de 1970 milhares de chineses de etnia Han, que é o grupo étnico majoritário no país, começam a instalar-se na área, sob os auspícios de Beijing. A afluência desse novo contingente populacional tinha como objetivo “diluir” os aspectos culturais próprios da região por meio da miscigenação e, também, disseminar os valores, costumes e modo de vida do restante do país, buscando, assim, uma “homogeneização cultural”.
Por fim, a questão tibetana ganha repercussão internacional (especialmente no ocidente) após 1989, quando o Dalai Lama é gratificado com um prêmio Nobel por sua luta pacífica pela causa tibetana. A partir disso, o líder vem empreendendo viagens a vários países em busca de apoio, mas sempre enfrentando a diplomacia implacável da República Popular da China (RPC), que condena os países e, principalmente, os governos que se dispõem a recebê-lo.
Casos como a busca de autonomia do Tibete, os conflitos na província de Xinjiang e o movimento no sentido de independência em Taiwan são tidos como internos pela RPC. Assim, ingerências externas não são aceitas, e o país dispõe de meios para manter uma posição bastante categórica no cenário internacional: se o seu peso econômico, militar ou político não são suficientes para persuadir a ação de outros, um sistema de compensações e represálias é acionado, fazendo nações e instituições pensarem muito o seu modo de agir no tratamento de questões sensíveis aos interesses chineses.
No Tibete, assim como em outras províncias com grande número de minorias, é interessante para Beijing que a identificação com uma cultura própria, com tradições e língua que não o mandarim não seja tão forte. Esse menor apego tende a enfraquecer os movimentos que buscam uma autonomia de fato e reduzem a insatisfação geral na região. Assim, a China busca mostrar-se como uma grande potência em ascensão, que pode trazer reais ganhos para as minorias do país. Apesar de que menos de 10% da população no país não seja Han, há que se considerar que, num universo de 1,3 bilhão de pessoas, essa parcela representa um número que gira em torno de 130 milhões de habitantes.
Assim, tem-se buscado atenuar a cultura tibetana, disseminar o ateísmo e fazer que a religião perca força nos ditames da vida cotidiana (na verdade, o governo do país também tem tentado apropriar-se da liderança do budismo, controlando, por exemplo, a linha de sucessão dos Lamas). Além disso, o alto crescimento econômico impulsionado por investimentos governamentais na província seria um meio a mais para aumentar a aceitação de Beijing entre a população local.
Já os tibetanos e as lideranças que os representam denunciam não só desejo da RPC de destruir os caracteres regionais, o que seria um “genocídio cultural”, mas também os meios como isso vem ocorrendo. Desde a invasão e anexação de 1950, várias pessoas que têm sido contrárias ao regime político foram presas e muitas reclamam de maus tratos. Há denúncias, também, de desaparecimento de insurgentes e lideranças políticas, inclusive monges budistas, e de tortura, dentre outras violações de direitos humanos.
Apesar de a liberdade religiosa ter sido garantida a partir da década de 1980, o que se nota é um certo controle sobre os monges e sobre as liberdades individuais. Não se pode, por exemplo, cultuar imagens de Tenzin Gyatso, o atual Dalai Lama.
Politicamente, as reclamações dos tibetanos seguem no mesmo sentido: apesar de ser uma região autônoma, a representação política fica a cargo do Partido Comunista. Assim, os tibetanos não se sentem representados, e, de fato, dificilmente seus interesses são considerados antes da tomada de decisões políticas.
Além disso, ao fato de que a economia tem crescido a mais de 12% anualmente, as lideranças tibetanas respondem que os ganhos econômicos têm beneficiado somente os Han, que dominam os negócios e ocupam os melhores postos de trabalho.
Assim, o Tibete encontra-se num equilíbrio bastante instável: Beijing esforça-se para impor-se na região, ao mesmo tempo em que os nativos lutam por direitos e liberdades que garantam a própria existência do que hoje distingue os tibetanos dos outros povos da China.
Desse modo, por trás dos últimos confrontos em Lhasa (e que também se espalharam por outras províncias em que há grandes populações de tibetanos, como Gansu e Qinhai) existe uma tensão constante. Acredita-se que a população, juntamente com os monges, saiu às ruas logo após denúncias de que muitos dos que participaram das manifestações que relembraram 49º aniversário do levante de 1959 estariam sendo presos pelo exército chinês. Não se pode deixar de lado, contudo, que muitos jovens tibetanos têm sido tomados por um sentimento de ceticismo com relação aos meios não-violentos de contestação. Desse modo, mais do que fator mono-causal para o início dos enfrentamentos, as manifestações de março passado parecem ser o agravante de uma instável ordem imposta pela RPC, que estavam impedindo forças antagônicas de se enfrentarem de forma tão intensa desde 1989.
O exército chinês tem procurado e aprisionado os manifestantes que são identificados pelas imagens dos conflitos ou que são simplesmente denunciados. É importante ressaltar que a RPC pode condenar com pena capital crimes caracterizados como relacionados a “traição nacional” ou desintegração territorial. Beijing considera a Região Autônoma do Tibete, assim como qualquer outra província do país (inclusive Taiwan), uma parte inalienável do território. Assim, os “insurgentes” (termo pelo qual são designados os protagonistas dos protestos violentos) são normalmente retratados como terroristas e ameaçadores da estabilidade social. Beijing busca, dessa forma, conquistar legitimidade total perante a comunidade internacional no tratamento com os manifestantes, uma vez que o terrorismo é um tema atual, e a contenção ao mesmo é algo que recebe grande respaldo.
No entanto, a restrição à imprensa e a informações independentes enfraquece a credibilidade chinesa. Não se sabe ao certo, por exemplo, quantos são os mortos e feridos durante os confrontos, pois, neste momento, estrangeiros não são permitidos no Tibete. Há pouco tempo, canais de televisão estrangeiros que veiculassem informações relativas aos conflitos em Lhasa eram temporariamente tirados do ar em todo o território nacional chinês. Ainda hoje, algumas páginas da internet que tratam a questão de forma a prejudicar o governo estão bloqueadas no país. Desse modo, conclui-se que a RPC busca um controle total das informações: não permite nem que entrem ou que saiam informações que vão de encontro aos seus interesses.
O governo do país prefere, além de condenar os manifestantes, também acusar o Dalai Lama de estar por trás desses confrontos. Normalmente, referem-se aos tibetanos que se confrontaram com o exército e a polícia como o “conluio” ou “bando” do Dalai. No entanto, Tenzin Gyatso já condenou publicamente a violência na região e ameaçou deixar o próprio cargo de liderança caso a mesma não cesse. Mostrou-se disposto, também, a negociar com Beijing. No entanto, o governo somente aceita algum tipo de negociação desde que o líder tibetano reconheça que tanto o Tibete quanto Taiwan são partes inseparáveis da RPC.
Contudo, não se vislumbra algum tipo de negociação, mesmo porque não é de interesse da China aceitar qualquer reivindicação das lideranças do povo representado pelo Dalai Lama. Mesmo o “caminho intermediário”, que, em vez de defender a independência, representa uma alternativa para a conquista de autonomia para a província, é visto com desconfiança. Mesmo se houvesse somente autonomia para o Tibete, o governo do país questiona-se sobre a possibilidade de que uma liderança política se fortaleça e defenda os interesses do povo, tendendo para a busca de maior soberania.
O atual momento faz surgir um novo elemento que passa a influenciar o jogo político: em agosto deste ano ocorrerão em Beijing os Jogos Olímpicos, evento muito esperado pelo país e que o governo está disposto a fazer que seja impecável, usando como uma vitrine de uma China moderna, harmônica e progressista. O perigo que se corre, e não era isso o que se pretendia quando o país ganhou o direito de sediar tal evento, é que o mesmo seja uma forma de mostrar exatamente o oposto de uma sociedade harmônica e progressista: os protestos que devem ocorrer (e que já vêm ocorrendo) devem colocar em evidência problemas como o tratamento aos tibetanos, violações de direitos humanos e democráticos, degradação ambiental, etc. É possível que os jogos tornem-se uma enorme dor de cabeça para a RPC.
Muitos setores da comunidade internacional têm se manifestado no sentido de condenar a violação de direitos humanos e a restrição à liberdade de imprensa. Além de organizações, como a Human Rights Watch e a “Repórteres sem fronteira”, lideranças políticas de vários países têm condenado o tratamento chinês na questão. Uma possibilidade que desponta para os que mais condenam Beijing é o boicote aos Jogos de agosto.
São poucos os que defendem um boicote total, incluindo a não-participação de atletas. O mais plausível é o boicote à cerimônia de abertura, o que já representa um sério golpe para a diplomacia chinesa. A ausência de grandes lideranças políticas de vários países chamaria a atenção do mundo de uma forma que não agradaria o país.
Desse modo, parece que as lideranças tibetanas e os próprios tibetanos entendem a situação atual e a enxergam como uma possibilidade de diminuição das restrições e agressões impostas por Beijing devido a pressões internacionais. Este é um momento favorável para os que defendem maior autonomia para a Região Autônoma do Tibete e o seu povo, apesar de parecer improvável que ganhos significativos sejam alcançados, uma vez que isso abriria precedentes para outras regiões do país que vivem uma situação semelhante e fortaleceria as lideranças regionais, tornando-as perigosas para o projeto chinês de unificação e harmonia nacionais.
No entanto, apesar de todo o peso que a China tenha, é pouco provável que a comunidade internacional simplesmente ignore os conflitos no Tibete nos momentos que antecedem os Jogos Olímpicos. Nesse sentido, é interessante para o país que a harmonia social prevaleça no Tibete, ao menos durante esse período. O que Beijing está disposta a fazer para que isso aconteça é uma incógnita. O provável é que a fórmula ‘repressão, violação de direitos humanos e restrição à liberdade e ao acesso de informações’ é perigosa especialmente neste momento.
Não somente organizações internacionais começam a cobrar uma solução democrática para o caso do Tibete, mas também a opinião pública mundial passa a acompanhá-lo de perto. O que faria a RPC, por exemplo, se manifestações pró-Tibete, como as que ocorreram em várias cidades do mundo, aconteçam em Beijing durante os Jogos? Poderia a polícia repreendê-las, prender os manifestantes, inclusive atletas e turistas estrangeiros, que nela se engajassem? Como os correspondentes estrangeiros retratariam a imagem da China? Algum tipo de censura seria tolerado pela comunidade internacional?
Movimentos pró-Tibete apostam nesse momento para pressionar o governo do país. Além disso, a tocha olímpica passará pela região e será levada ao ponto mais elevado do planeta, o Monte Everest. Seguramente um forte esquema de segurança terá de ser desenvolvido e, talvez, o espírito olímpico que esse símbolo representa por alguns instantes será ofuscado por imagens que lembrem uma operação de guerra. No entanto, o mais provável é que tais imagens nunca sejam veiculadas de fato.
Por fim, é tarefa difícil vislumbrar uma solução verdadeiramente benéfica para o povo e a cultura própria do Tibete a longo prazo. As Olimpíadas devem passar e, com ela, as últimas esperanças do povo tibetano de conquistar direitos básicos como representatividade política, liberdade religiosa e possibilidade de manutenção das tradições devem se esvanecer. O descaso da comunidade internacional será o último sinal de que a verdadeira extinção de um povo com cultura, língua e modo de vida próprios seja consumada para sempre.

Wilson Tadashi Muraki Junior, membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL  e do Laboratório de Análise de Relações Internacionais – LARI (murakitadashikun@hotmail.com).

2 Responses leave one →
  1. 2008 Agosto 16

    A questão do Tibete parece ser de fácil resolução na actualidade para muitos leitores deste artigo. Porém, o autor do mesmo, revela nas frases que escreve que este assunto pode causar o chamado efeito dominó na região e outras consequências, nomeadamente na diplomacia com outros muito afastados geogréficamente.
    Também o Curdistão, a Ossétia e outras regiões integradas em determinados países, nomeadamente a segunda, são discussão quase que diária para os mais atentos. A integração de Hong Kong e Macau, assim como a exigência dos nacionalistas em relação a Taiwan, informa uma ONU que não está nas suas previsões abrir excepções relativamente a Lassa e outras que há imagem desta última seguiriam o exemplo e como alguns já defenderam seria a divisão do território Chinês em países independentes. Não nos esqueçamos que a República Chinesa têm acento permanente no Conselho de Segurança e há partida vetaria qualquer acção contrária aos seus interesses neste domínio. Tomando em consideraçâo este e outros acontecimentos internacionais, seria bom referir que a actual constituição do Conselho de Segurança e dos moldes como se orienta, é impotente para resolver atenpadamente e da forma mais correcta este tipo de acontecimentos, Outro aspecto a considerar é o da receptividade da diplomacia chinesa na região, consequência do desenvolvimento de muitos países, fortemente dependentes do desenvolvimento deste país. Quebrar o impeto de desenvolvimento ou algo análogo contra a China, será também contrário ao progresso e desenvolvimento das economias de muitos países asiáticos e de empresas do Ocidente. O Tibete está como se pode depreender da análise do documento nas estratégias a médio e longo prazo de Beijing. Riquezas ainda por apurar no domínio do subsolo, mas já evidênciadas, espaço pouco habitado e por isso necessário à construção civil e possivelmente zona habitacional de muitos no futuro, de outras regiões. Localização de nascentes de rios que vão irrigar os solos aráveis em grande parte dos percursos e água que no futuro será preciosissíma para abastecer as populações chinesa e de outros países. Um bem que começa a escassear em algumas regiões do globo. Região com importância geoestratégica muito importante para Beijing relativamente ao Sudoeste asiático. Estas e outras razões, acabam por ser mais importantes para as autoridades chinesas, independentemente dos actos hostis orientados por Dalai Lama ou que as tradições e a lígua de um povo sejam relegadas para segundo plano. Aproveitar um acontecimento que São os jogos olímpicos parece não ser correcto, por ser um acto universal onde devem estar representadas todas as nações e em que em poucos segundos ou minutos, um atleta estravassa o seu sacrifício de anos de investimento e trabalho.
    O artigo também faz referência há União Indiana. A questâo do Tibete para ser resolvida terá que ter a concordância de Nova Deli. Parte do território tibetiano está integrado neste último país.

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