Cuba: o início do fim, por José Flávio Sombra Saraiva

O gesto de renúncia do líder cubano Fidel Castro, depois de quase meio século no poder, não é isolado e solitário. É gesto calculado e compõe moldura mais ampla das transformações mais abrangentes que ocorrem naquele país caribenho. Corresponde ao movimento desencadeado há quase dois anos, quando de sua licença por motivos médicos. Inicia-se uma transição: do fim do regime político que emergiu no contexto da Guerra Fria para uma nova tessitura política de adaptação ao mundo no qual vivemos.
A renúncia tem significado relevante e não pode ser classificada apenas como ato cosmético ou pantomímico. Em primeiro lugar, tem impacto na vida dos cubanos que habitam a ilha. Fidel é líder carismático, apesar dos reparos que muitos cubanos podem fazer ao papel de liderança vertical imposta pela Revolução Cubana. Sua saída formal da gestão do Estado foi, aos milímetros, calculada para não matar o totem, mantendo-o como força espiritual de uma transição espinhosa que se avizinha.
A transição de regime fica refém do líder carismático e do grupo político que a maneja, na lógica da mudança de dentro para fora, igualmente pacífica e adaptativa aos novos tempos. Há uma liderança jovem, de funcionários do Estado e das empresas públicas cubanas, que percorreram o mundo nos últimos anos e acompanham as transformações globais. Sabem que não há sobrevivência econômica do regime atual sem aggiornamento político. É em favor dessas lideranças, fiéis a Fidel e criadas nas últimas décadas do regime, que a transição se fará. E na migração de poder político carismático para o estamento burocrático, a figura de Fidel segue tendo um peso expressivo na balança.
Em segundo lugar, há sinalização valiosa da renúncia para o vizinho complicado, os Estados Unidos. Indica Fidel às lideranças de Washington que a transição deverá ser conduzida com capacidade decisória nacional, sem intervenções ou defecções políticas que contaminem as relações Cuba-Estados Unidos além do nível que elas já alcançaram em outros tempos.
A maneira em torno da qual o cronograma de transferência gradual do poder se faz em Cuba sugere a máxima geiseliana da transição gradual. É também forma de administrar, em parte, os contenciosos com os Estados Unidos. É deixar claro ao gigante que o pequeno não quer desafio à sua soberania e à sua capacidade de conduzir, a bom termo, não apenas a transição de agora, mas seu próprio futuro como nação adaptada ao século 21. Reconcilia-se, assim, o ideário romântico e nacionalista cubano, um vetor histórico da ilha, mesmo antes da Revolução Cubana, com os desafios do futuro da cooperação necessária com os Estados Unidos.
Para completar o quadro, o gesto realiza-se no momento da elucidação dos pontos de vista dos candidatos às prévias republicanas e democratas na luta pela Casa Branca. Sugere Fidel ao futuro vencedor da contenda nos Estados Unidos, e para seu eleitorado, que há uma possibilidade de avançar agenda mais cooperativa, desde que o embargo seja reconsiderado.
Em terceiro lugar, e finalmente, há uma forte sinalização para a sociedade internacional no gesto do longevo líder cubano. No início do novo século, no qual uma revolução subterrânea encerrou, em parte, os sonhos solidários do século 20 (do qual o socialismo fez parte, no leque de proposições filosóficas, políticas e econômicas), Fidel rende-se à necessidade de maior adaptação às regras do jogo internacional e à economia política da globalização.
Normalizar relações com a comunidade internacional, sair do isolamento auto-imposto pelas circunstâncias duras da Guerra Fria, avançar uma agenda no campo da liberalização política, encaminhar melhor o espinhoso tema dos direitos humanos, aceitar melhor as polarizações políticas legítimas internas, são aspectos da nova agenda internacional de Cuba. A nova diplomacia cubana, mais jovem e encarnada em rósea idéia de revisão dos velhos paradigmas, confere esperança à transição que se inicia nos dias de hoje na ilha caribenha.
Acompanhar a transição cubana nos próximos tempos é exercício de futurologia incerto. Mas certas verdades já se fazem notar: os ganhos sociais e cidadãos acumulados não serão jogados na lixeira da história, mas redesenhados na forma da inclusão da ilha no sistema democrático moderno, na sociedade global, mas a manter o patrimônio do “ser cubano”. Este “ser”, ao explicitar forma de agir e desafiar o grande, tem todas as condições de ser recriado na ilha não mais apenas de Fidel.
José Flávio Sombra Saraiva é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – UnB, diretor-geral do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais – IBRI e pesquisador do CNPq.

2 Respostas para “Cuba: o início do fim, por José Flávio Sombra Saraiva”

  1. Qualquer líder escolhido para substituír el comandante ou das eleições estadunidenses, terão uma responsabilidade considerável no futuro das relações entre estas nações.
    Os acontecimentos na Europa, China e África do Sul e por consequência noutras regiões, permitiram colocar em prática a Globalização e aparecimento ou reforço de áreas de influência impensáveis à poucas décadas. No início do século XXI, a classe dirigente cubana é conhecedora de que não poderá ter o ritmo de progresso e desenvolvimento que as nações mais desenvolvidas estão a ser sujeitas.
    Qualquer cubano deseja ser independente, principalmente dos EUA. Todavia quando se dirige às praias do norte pensa no irmão, tio, primo, filho e amigos que não vê por causa de uma disputa ideolóliga que teima em perdurar e sem se ter coragem de discutir publicamente.
    As reformas económicas com uma classe dirigente jovem e com formação podem ser a primeira fase. A abertura política deve ser continuidade da primeira.
    Todos temos conhecimento do atraso cubano não só económico, mas é essencialmente este último o mais evidenciado. Esta disputa entre Havana e Washington não favorece nem o primeiro nem o segundo, pelo contrário. Cuba tem continuidade nos estados do sul dos EUA sob os pontos de vista cultural, religioso, social e outros, o mesmo se pode referir à génese dos EUA no círculo geográfico considerado.
    Esta disputa entre os dois é responsável pelos atrasos estruturais de Cuba e de estados minúsculos das caraíbas que terminam por não favorecer os EUA e provocar desiquilibrios e atritos evidenciados.
    A globalização combate esta situação e se existirem obstáculos à sua concretização, fomenta situações delicadas, nomeadamente correntes emigratórias para os países mais desenvolvidos com as consequências que muitos do norte já começaram a sentir.

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  1. Cuba: o início do fim « Meridiano 47 - 20/02/2008

    [...] Cuba: o início do fim O gesto de renúncia do líder cubano Fidel Castro, depois de quase meio século no poder, não é isolado e solitário. É gesto calculado e compõe moldura mais ampla das transformações mais abrangentes que ocorrem naquele país caribenho. Corresponde ao movimento desencadeado há quase dois anos, quando de sua licença por motivos médicos. Inicia-se uma transição: do fim do regime político que emergiu no contexto da Guerra Fria para uma nova tessitura política de adaptação ao mundo no qual vivemos. A renúncia tem significado relevante e não pode ser classificada apenas como ato cosmético ou pantomímico. Em primeiro lugar, tem impacto na vida dos cubanos que habitam a ilha. Fidel é líder carismático, apesar dos reparos que muitos cubanos podem fazer ao papel de liderança vertical imposta pela Revolução Cubana. Sua saída formal da gestão do Estado foi, aos milímetros, calculada para não matar o totem, mantendo-o como força espiritual de uma transição espinhosa que se avizinha. A transição de regime fica refém do líder carismático e do grupo político que a maneja, na lógica da mudança de dentro para fora, igualmente pacífica e adaptativa aos novos tempos. Há uma liderança jovem, de funcionários do Estado e das empresas públicas cubanas, que percorreram o mundo nos últimos anos e acompanham as transformações globais. Sabem que não há sobrevivência econômica do regime atual sem aggiornamento político. É em favor dessas lideranças, fiéis a Fidel e criadas nas últimas décadas do regime, que a transição se fará. E na migração de poder político carismático para o estamento burocrático, a figura de Fidel segue tendo um peso expressivo na balança. Em segundo lugar, há sinalização valiosa da renúncia para o vizinho complicado, os Estados Unidos. Indica Fidel às lideranças de Washington que a transição deverá ser conduzida com capacidade decisória nacional, sem intervenções ou defecções políticas que contaminem as relações Cuba-Estados Unidos além do nível que elas já alcançaram em outros tempos. A maneira em torno da qual o cronograma de transferência gradual do poder se faz em Cuba sugere a máxima geiseliana da transição gradual. É também forma de administrar, em parte, os contenciosos com os Estados Unidos. É deixar claro ao gigante que o pequeno não quer desafio à sua soberania e à sua capacidade de conduzir, a bom termo, não apenas a transição de agora, mas seu próprio futuro como nação adaptada ao século 21. Reconcilia-se, assim, o ideário romântico e nacionalista cubano, um vetor histórico da ilha, mesmo antes da Revolução Cubana, com os desafios do futuro da cooperação necessária com os Estados Unidos. Para completar o quadro, o gesto realiza-se no momento da elucidação dos pontos de vista dos candidatos às prévias republicanas e democratas na luta pela Casa Branca. Sugere Fidel ao futuro vencedor da contenda nos Estados Unidos, e para seu eleitorado, que há uma possibilidade de avançar agenda mais cooperativa, desde que o embargo seja reconsiderado. Em terceiro lugar, e finalmente, há uma forte sinalização para a sociedade internacional no gesto do longevo líder cubano. No início do novo século, no qual uma revolução subterrânea encerrou, em parte, os sonhos solidários do século 20 (do qual o socialismo fez parte, no leque de proposições filosóficas, políticas e econômicas), Fidel rende-se à necessidade de maior adaptação às regras do jogo internacional e à economia política da globalização. Normalizar relações com a comunidade internacional, sair do isolamento auto-imposto pelas circunstâncias duras da Guerra Fria, avançar uma agenda no campo da liberalização política, encaminhar melhor o espinhoso tema dos direitos humanos, aceitar melhor as polarizações políticas legítimas internas, são aspectos da nova agenda internacional de Cuba. A nova diplomacia cubana, mais jovem e encarnada em rósea idéia de revisão dos velhos paradigmas, confere esperança à transição que se inicia nos dias de hoje na ilha caribenha. Acompanhar a transição cubana nos próximos tempos é exercício de futurologia incerto. Mas certas verdades já se fazem notar: os ganhos sociais e cidadãos acumulados não serão jogados na lixeira da história, mas redesenhados na forma da inclusão da ilha no sistema democrático moderno, na sociedade global, mas a manter o patrimônio do “ser cubano”. Este “ser”, ao explicitar forma de agir e desafiar o grande, tem todas as condições de ser recriado na ilha não mais apenas de Fidel. Comentar este artigo e interagir com o seu autor [...]

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