Divisão Democrata, Unidade Republicana?, por Cristina Soreanu Pecequilo
19/02/2008
Intenso, o mês de Fevereiro de 2008 representou uma mudança significativa no perfil da corrida presidencial para a Casa Branca, solidificando tendências dispersas que já vinham sendo percebidas desde o começo do ano (e que foram abordadas neste site em As Eleições 2008 nos EUA: Das “Primeiras” Primárias à Super Terça). Representativas das oscilações bruscas e polarizações que têm marcado a política interna norte-americana na última década, estas tendências podem ser resumidas no enfraquecimento dos antigos favoritos internos de cada partido à sucessão de George W. Bush e uma inversão de posições entre democratas e republicanos, o que produziu desistências e realinhamentos de ambos os lados.Mais do que em propostas, os candidatos que obtém a “liderança” de seus campos, sustentam sua campanha em uma mistura de carisma, populismo e o que a imprensa dos Estados Unidos vem chamando de “O Momento”, demonstrando a volatilidade dos embates intra e entre partidários. Esta situação produz alguns exageros nas previsões eleitorais, em meio à permanência dos empates técnicos nas pesquisas internas e nacionais, e à dispersão do eleitorado nas primárias que tanto esconde quanto revela as dinâmicas de unidade e fragmentação dos partidos. Tendo como ponto de partida a Super Terça (05/02) e, dependendo do partido, como ponto final, talvez somente sua Convenção Nacional (25-28 de Agosto para Democratas e 1-4 de Setembro para Republicanos), cabe analisar estas movimentações.
Começando pelo campo republicano, as primárias de Fevereiro, em particular a Super Terça e as Primárias do “Potomac” (Virginia, Maryland e a capital federal Washington, DC em 12/02), representaram a solidificação da candidatura, descartada em 2007, de John McCain à sucessão de Bush filho como representante do partido republicano. Em 2007, McCain sofreu um profundo esvaziamento de seu nome ao longo do percurso, pressionando pelo avanço de Mitt Romney, cujo orçamento de campanha era muito maior que o seu, e pela presença de Rudy Giuliani com o qual disputava a mesma base de votos de conservadores mais moderados e eleitores independentes. Igualmente, McCain encolhia diante da ala mais conservadora e religiosa do partido por sua posição em temas sociais e imigração, observando-se o avanço de Huckabee, Romney e Thompson. Ciente desta dispersão de candidatos, e das próprias limitações financeiras de sua campanha, a tática de McCain foi concentrar esforços nas primárias de Janeiro, o que já tentara em 2000 sem sucesso quando disputara a indicação com o atual presidente Bush.
Entretanto, desta vez os resultados foram positivos devido à dispersão do eleitorado, somado aos erros táticos de seus demais oponentes no avanço das campanhas em particular Romney e Giuliani. McCain beneficiou-se da fórmula republicana de primárias que, na maioria dos estados, atribui ao vencedor do pleito todos os delegados da convenção nacional, o que lhe permitiu abrir uma importante vantagem sob seus adversários. Por sua vez, a fórmula democrata é mais complexa: as primárias dividem os votos proporcionalmente entre os candidatos o que, como será analisado, está levando ao “empate” Hillary Clinton e Barack Obama. McCain sagrou-se vitorioso não só nas “primeiras primárias”, como gerou “momento” para a sua campanha, que se solidificou com as desistências de seus oponentes. O primeiro a sair da corrida republicana foi Fred Thompson, seguido por Rudy Giuliani e, depois, Mitt Romney. Por enquanto, Huckabee continua na disputa (18/02), mas já dá sinais de buscar uma negociação interna para desistir, restando Ron Paul, representante da ala libertária. Em números de 18/02, fornecidos pela rede CNN, McCain possuí 830 delegados, contra 286 de Romney (que já desistiu como indicado, mas que apoiou McCain) e 217 de Huckabee, sendo necessários 1191 para a sua indicação.
Aqui se observa a mais importante inversão desta campanha eleitoral: a da decisão antecipada e sem prolongamento do candidato à presidência. Em 2007, as previsões indicavam que os republicanos provavelmente chegariam divididos à Convenção Nacional, enquanto os democratas já teriam definido, em Fevereiro, a candidatura da favorita Hillary Clinton à presidência, tomando à frente da campanha. O que ocorreu foi justamente o contrário: enquanto os republicanos já possuem seu candidato, preparando-se para reafirmar sua unidade, começando, inclusive, a discutir, a formação da chapa de McCain, os democratas dispersaram-se, polarizando-se em torno de Hillary e Obama.
Os republicanos ganharam um tempo fundamental para reordenar o partido e, como indicado, reafirmar sua unidade. Talvez seja cedo para indicar se esta unidade poderá ser efetivamente construída ou se será duradoura uma vez que apesar de ter ganho em muitos estados, e principalmente em centros progressistas e com grande peso no colégio eleitoral nacional como Nova Iorque e Califórnia, McCain perdeu para Romney e Huckabee, em particular para este último, nos estados mais pobres e mais conservadores (como Arkansas, Alabama, Geórgia), não possuindo apoio da base religiosa. E, nas últimas eleições presidenciais, os estados que foram decisivos acabaram sendo não os grandes colégios (conquistados em 2000 e 2004 pelos democratas) mas estes estados de pequeno a médio porte, o que cria um impasse para a candidatura: aproximar-se mais desta parcela por meio da escolha de um vice próximo a este pensamento e arriscar perder moderados de centro e independentes? Ou apostar somente nestes moderados e independentes?
A solução mais equilibrada é, como vem sendo feito, tentar conciliar estas duas vertentes, unindo McCain a um conservador mais “light” como Thompson ou Romney, afastando Huckabee. Esta fórmula poderia unificar forças republicanas sem necessariamente perder votos conservadores, ainda que não responda plenamente aos anseios neocons. Todavia, esta exclusão não necessariamente seria definitiva, uma vez que a capacidade de mobilização republicana contra os democratas não deve ser subestimada, principalmente se a campanha nacional começar a pender excessivamente para os liberais (aplicando-se o cálculo para estes grupos de “antes um conservador moderado do que um democrata liberal”). Ou seja, mesmo sem uma plena unidade republicana, a situação parece ser melhor do que a democrata com mais margem de manobra para preparar a disputa.
Enquanto isso, no campo democrata, a polarização e a fragmentação tornaram-se a regra com o avanço de Barack Obama, levando a campanha de Clinton a um encolhimento relativo e a trocas de comando interno. Entre os democratas, até mais do que entre os republicanos, a “síndrome do momento” parece ser a regra, com ambos os competidores, principalmente aquele que parece estar “com o momento”, fazendo uso dos instrumentos de mídia e mobilização partidária para tentar maximizar sua posição. Isso já aconteceu com Hillary, a favorita de 2007, e agora ocorre com Obama, o de 2008, ainda que ambos estejam tecnicamente empatados nas pesquisas internas do partido e não exista uma diferença significativa em número de delegados conquistados.
Embora nas “Primárias do Potomac” Obama tenha tido vantagem, na Super Terça o eleitorado estava dividido. Segundo os mesmos dados da CNN, Obama possui hoje 1262 delegados contra 1213 de Hillary, sendo que Hillary possui mais superdelegados (que não são escolhidos em primárias e representam figuras chave do partido como ex-presidente) do que seu adversário e se mantém na frente nas pesquisas das próximas primárias de Texas e Ohio em 4 de Março, tentando se aproximar de Obama em Wisconsin (são necessários 2025 delegados para a indicação). Além disso, Hillary conquistou vitórias significativas em Florida e Michigan, mas cujas primárias foram excluídas deste cálculo pelo partido, o que é contestado pela candidata, enquanto Obama recusa a sua inclusão pedindo a realização de novas rodadas nos estados em forma de caucus e não de primárias, pois neste sistema tem obtido vantagem. A inclusão destes delegados tiraria a vantagem de Obama e ampliaria a de Hillary.
Porém, é bastante questionável se esse tipo de ajuste resolverá a disputa ou se as primárias de 04 de Março serão decisivas, Hillary obrigatoriamente tem que ganhar no mínimo em Texas e Ohio com vantagens significativas para manter suas chances (e segundo seus estrategistas estes estados são seus firewalls, suas barreiras de resistência). Da mesma forma, nem mesmo uma decisão pode levar os democratas a uma reconciliação. Como já indicado, a fórmula democrata garante a divisão proporcional dos delegados nos estados, o que permite que mesmo o candidato derrotado agregue apoio e não somente o vencedor. Se nas disputas republicanas as linhas de fratura interna estão mais claras, conservadores moderados (ou verdadeiros, como prefere McCain) X neocons, as democratas estão mais embaralhadas: Hillary ganhou nos maiores colégios como McCain (Nova Iorque e Califórnia) e em primárias abertas, com votos de eleitores mais velhos (acima de 40, homens e mulheres) e de classe média, mas também não perdeu completamente os votos dos mais pobres (Arkansas) e conquistou a maioria dos latinos, porém Hillary sofreu perdas importantes entre parte dos sindicatos, jovens (homens e mulheres), pobres e entre o eleitorado negro.
O padrão que parece existir é que não há necessariamente um padrão nacional, mas sim linhas de fratura estaduais, que indicam a permanência de um país em crise, polarizado por questões diversas como economia, faixa de renda, religião, raça e gênero, o que dificulta a unidade democrata para mobilizar suas bases contra os republicanos em Novembro. Assim, temos slogans maiores como “Sim, podemos” e “Mudança em que podemos acreditar” de Obama e “Experiência” associada à idéia de “Responsabilidade e Consistência” de Hillary que tentam aplicar-se com variações a cada perfil destes eleitores
Esta tarefa Obama tem conseguido realizar com mais facilidade dado seu maior apelo carismático e populista e um viés até pacifista (mas que pode esconder um arriscado intervencionismo e protecionismo devido ao apoio de sindicatos, setores menos produtivos e grupos sociais). Também se ressalta a atração pelo desconhecido, que se revela na fluidez de suas propostas e na ausência de uma carreira de longa data em Washington (que também lhe ajuda a firmar-se como outsider). Outro movimento que Obama tem realizado com qualidade é a aproximação com John Edwards, o terceiro nome democrata mais relevante e que desistiu, buscando apresentar um discurso similar de preocupação com as classes média baixa e baixa, assim como de reconciliação entre classes, raça e ideologias. Até agora, nem Edwards ou Gore declararam seu apoio formal.
Ninguém, na prática, discorda do fenômeno Obama (ou da eficiência da construção de sua imagem como um novo JFK), mas é preciso não maximizar sua figura, assim como seus potenciais de elegibilidade e governabilidade, em uma corrida interna tão acirrada e em uma disputa presidencial na qual McCain mostra-se empatado tecnicamente com os dois possíveis adversários democratas (embora parte da tática de campanha de Obama seja não mencionar estes empates técnicos com o republicano, mas sim a sua vantagem sobre o mesmo, o que não se sustenta- nas últimas pesquisas Obama teria 46,2 contra 42,3 de McCain). O “momento” pode ser de Obama, mas Hillary não pode ser descartada, ou McCain subestimado, pois há uma diferença significativa entre realizar campanhas internas para definir uma pré-candidatura e uma campanha nacional. Para Hillary, como mencionado, Texas e Ohio são decisivos em suas pretensões, mas não necessariamente resolverão a disputa a favor de um ou outro, devido à proporcionalidade dos votos o que leva ao prolongamento dos embates internos na melhor das hipóteses até Junho e, na pior, até Agosto.
A despeito de acusações mútuas trocadas entre Hillary e Obama e da patente polarização intra partidária, por enquanto, os dois candidatos procuram evitar um racha definitivo (objetivo que não necessariamente permanecerá intacto a partir da próxima rodada de debates) e demonstrar uma razoável semelhança programática. Ambos estão comprometidos com a agenda democrática clássica de governo (bem-estar, assistência, direitos civis) e de correção de rumos (repensar Iraque, economia, política externa em geral). Todavia, isto não tem conseguido unificar as bases e os principais grupos que apóiam cada um dos candidatos sinalizam que não votariam no oponente mesmo que isso custe a vitória ao partido mais uma vez.
Dois elementos presentes na estratégia republicana parecem faltar aos democratas: pragmatismo e lideranças que pressionem por alianças de compromisso (como demonstrado, por exemplo, nos apoios que McCain tem recebido à direita e ao centro do partido, de Romney, Giuliani e Bush pai), apesar da perda de alguns setores mais radicais no curto prazo, mas que podem ser cooptados ao longo da campanha presidencial (Huckabee e os neocons). E, na verdade, poder-se-ia acrescentar ainda mais duas variáveis: a identidade partidária e a capacidade de mobilização sustentada das bases em nível nacional que, igualmente, parecem ausentes e menos eficientes do lado democrata.
Para muitos eleitores, os democratas não passaram no teste de 2006 quando lhes foi dada a maioria no congresso, será que em 2008 eles mereceriam esta nova chance mais uma vez? Qual será o custo da disputa Obama e Hillary e de que forma isto afetará um partido que há quase duas décadas procura seu rumo? Maior divisão? Maior unidade? Uma chapa inédita com um candidato (a) já inédito? Ou será que mais uma vez o realismo republicano conseguirá superar as divisões de seus rivais, a despeito de suas fragmentações?
Cristina Soreanu Pecequilo é Professora de Relações Internacionais Universidade Estadual Paulista – UNESP (Campus Marília), e Pesquisadora Associada ao Núcleo de Estratégia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (crispece@gmail.com).
É muito interessante analisar as diferenças entre republicanos e democratas. Ao passo que um lado se encontra praticamente definido, o outro encontra-se num empate técnico. Cristina, você acredita que essa disputa intra-partidária entre Obama e Hillary poderá prejudicar a preparação dos democratas, visto que a definição pode levar algum tempo? Quanto a política externa, qual candidato você acredita que mais agradaria ao Itamaraty?
Prezado André, agradeço seu comentário sobre o artigo e com relação a suas considerações, acredito que o prejuízo democrata será proporcional à demora em definir o nome do candidato e a forma como isso será feito. No dia 4 de Março teremos uma “Segunda Super Terça” com votações em estados chave para Hillary, Texas e Ohio, como indiquei no texto, e caso ela não consiga vitórias significativas pelo menos em um destes estados sua situação tenderá a ficar um pouco mais complicada. Não está afastado o cenário, contudo, que nenhum dos dois pré-candidatos atinja o número suficiente de delegados, legando à tarefa à Convenção Nacional.
Quanto ao Brasil, acredito que o Itamaraty esteja preparando para lidar com qualquer um dos candidatos que for eleito e que a relação se manterá em alto nível político, com as divergências econômicas tradicionais. Voltarei ao tema em um futuro artigo para o site, focando mais especificamente esta questão das relações Brasil e EUA nas eleições 2008.