Os festejos, são realizados, na Índia, apenas em Goa, a partir do século XVIII, sob influência dos portugueses – que, como se sabe, governaram aquele atual estado indiano, por 500 anos. As celebrações lá são também dedicadas ao “Rei Momo” e se iniciam no “Sábado Gordo”, coincidindo com o calendário brasileiro, por obedecer a período de quarenta dias antes da Páscoa.
As festas goenses, no entanto, absorveram influências hindus – que coincidiram com o hábito de celebrar dançando nas ruas de cidades – e africanas, devido à presença de escravos moçambicanos, no período colonial lusitano. Narra-se, por exemplo, que, no século XIX, “senhores” portugueses brincavam com seus escravos, durante o Carnaval, jogando farinha sobre estes que, em troca, imitavam o jeito europeu de seus proprietários. Criou-se, então o hábito, sempre preservado dentro dos limites sociais estabelecidos pelos escravocratas, de danças entre os colonizadores brancos, os escravos negros e os habitantes locais indianos (“Origin of Goa Carnival”, www.goavacationguide.com).
Daí, a iniciativa do Consulado-Geral do Brasil em Mumbai, que, pela primeira vez, lavando em consideração, a título de “softpower” nossa, a herança cultural de três grupos étnicos distintos, contando com a colaboração de 20 cidadãos brasileiros, residentes em Mumbai e Goa, e de 40 nacionais indianos, que participaram ensaios conjuntos de danças.
O enredo foi o “Descobrimento do Brasil” e o lema “Herança Comum, Cooperação no Futuro”. Buscou-se introduzir um “jeito brasileiro”, no “jeitão do carnaval deles”, ao contrário de promover um Carnaval brasileiro em Goa. Isto é, o principal era provocar uma “fusão cultural”, na qual todos nós nos sentíssemos celebrando de forma cada vez mais semelhante, diferentes aspectos de heranças em comum, sem impormos um ou outro estilo.
Antes dos desfiles, durante meses que os precederam, foram feitos “workshops”, discussões sobre mitologia em comum – incluindo entre lendas de nossos nativos e crenças hinduístas, tais como a de que, segundo certas tribos brasileiras e parte da população indiana acreditarem ter sua origem nas águas – alegorias, fantasias, danças e até a composição de música, tudo sob o rótulo de “Brasíndia” – abreviando a idéia de cooperação entre os dois países.
As inovações foram: um enredo – que não costuma lá ser apresentado, pois o desfile se resume à apresentação de pessoas sentadas sobre caminhões, empunhando propagandas de empresas e produtos; e passistas no chão, com alas de nativos e de “baianas” dançando e imitando ondas que levariam a caravela de Pedro Alvarez Cabral, carro alegórico principal. O segundo exibia a influência africana no Brasil, com uma imagem de Iemanjá esculpida e uma moça indiana fantasiada como esta “entidade” reverenciada na Bahia. Tudo começou, exatamente no dia 2 de fevereiro reservado, à celebração da “Deusa do Mar”, em Salvador e outras cidades brasileiras.
Contamos com a famosa cantora indiana Belinda, natural de Goa, que, também no segundo carro, acompanhada por sua banda, entoava “a Brasíndia (cooperação entre os dois países) chegou e chegou para abafar, é a Brasíndia falada, que chegou para ficar; ela divulga cultura e o comércio também, opá, ela traz alegria e muita emoção, opá, é a Brasíndia falada que trago guardada no meu coração, Opá, Opá, Opá.”
Tamanho foi nosso cuidado em respeitar costumes conservadores indianos que a imprensa local referiu-se, sempre de forma elogiosa, aos adereços da cabeça das passistas – brasileiras e indianas. Acredita-se que nunca se havia notado tanto esta parte do corpo das mulheres, durante o Carnaval no Brasil.
Autoridades de turismo e imprensa de Goa concordaram que introduzimos novos parâmetros de desfile e fantasias, com perfil brasileiro. Contribuímos, assim, para reavivar o Carnaval naquele estado indiano, enquanto, conforme já mencionado acima, resgatamos um atraso de 500 anos nas relações diretas entre brasileiros e indianos.
Para 2009, já foi iniciada a discussão sobre renovada presença nossa, desta feita com o tema “Monteiro Lobato e suas Fábulas” , tendo em vista projeto maior de procurar heranças em comum.. Isto porque, enquanto o tema do Descobrimento chama, ainda, atenção, em Goa e, menos, em Mumbai, para o resto da Índia é indiferente.
Quando se fala em histórias infantis, no entanto, cabe recorrer ao texto do Professor Dilip Loundo, “A presença do Pancatantra nos contos populares do Brasil” (“Diálogos Tropicais – Brasil e Índia”, Editora UFRJ, Coleção Economia e Sociedade, Rio de Janeiro, 2003), na qual o autor e atual Leitor brasileiro na Universidade de Goa, disserta sobre possíveis influências da “Pancatranta”, obra milenar, escrita em sânscrito, “literalmente, tratado em cinco volumes ou capítulos, que é criação literária composta de contos, fábulas e epigramas” em narrativas orais e escritas na Europa, na Idade Média, vindo, até mesmo, a impregnar a prosa infantil no Brasil.
O próximo enredo buscará, portanto, pontos em comum existentes entre nossas culturas, apresentando figuras de contos infantis indianos e de Monteiro Lobato. Da mesma forma que ocorreu, com os preparativos para o desfile de o “Descobrimento do Brasil”, quando reeditamos e quadrinizamos este fato histórico em revista preparada por artista indiano, com a introdução do imaginário deste país, pretendemos publicar, no mesmo formato e recursos a idéias locais a obra de Monteiro Lobato, desde que tenhamos a autorização de direitos autorais pertinentes. Cabe esclarecer que revistas em quadrinho são amplamente utilizadas, na Índia, como recursos didático, a nível colegial e universitário, tamanha a complexidade da própria história do país, com seus contos épicos sobre o Ramayana, Krishna e Mahabharata.

18/02/2008



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