O hipotético projeto para investir-se contra o Irã parece seguir o mesmo aplicado ao Iraque: primeiramente, apresentar o país como uma ameaça militar além da esfera regional, o que desencadearia a necessidade de a comunidade internacional mobilizar-se, a princípio por intermédio da Organização das Nações Unidas.
Ainda que não houvesse indícios substantivos para que o plenário onusiano subscrevesse uma intervenção bélica imediata, uma cominação seria dirigida pelo governo norte-americano ao seu público – com natural repercussão global – com vistas a afirmar que a segurança do país seria assegurada, sem depender da eventual leniência de organismos internacionais.
Ao mesmo tempo, manifestar-se-ia a preocupação com a sociedade de lá, ao anunciar-se a sua libertação do duradouro jugo ditatorial, paralelamente à eliminação do perigo militar, de maneira que finalmente um regime democrático se conjugaria com a estabilidade local. Grupos desterrados auxiliariam a remodelar o país, ao atrair investimentos externos, mão-de-obra capacitada e tecnologia de ponta. Todavia, implicações relacionadas com a principal fonte de sustentação econômica do país em comento – no caso, petróleo e, em menor escala, gás – seriam anteriormente mencionadas de forma discreta, visto que questões imateriais sobrepor-se-iam a elas.
No Iraque, o roteiro falhou, não obstante a propaganda inicial da liberação da população local, com o país esfacelado atualmente em uma guerra civil sem vislumbre de interrupção próxima, com reflexos na política interna da Turquia, por causa dos curdos, e na do Irã, por causa dos xiitas.
No plano econômico, a desastrada intervenção contribuiu, sem dúvida, para o reajuste brusco do petróleo. Curiosamente, no dia 13 de setembro último, o Presidente George Bush vinculou a ocupação do país à necessidade de proteger fontes energéticas de extremistas, ou seja, terroristas.
Entretanto, o infortúnio no Iraque não arrefeceu nem o ânimo, nem a imaginação fértil dos formuladores neoconservadores, cuja ascensão intelectual havia-se desencadeado em meados dos anos 70, de sorte que se cogita ainda uma intervenção no Irã, apesar do relatório do início do mês de dezembro dos organismos de informação e análise desqualificando a vertente militarizada do programa nuclear pérsio – interrompida há quatro anos.
Acrescente-se que Teerã não ameaçou até o momento invadir eventualmente o Iraque, em solidariedade à população xiita local, ou interromper o fluxo cotidiano de fornecimento de petróleo, ainda que se mantenha de modo inamistoso perante Israel.
Na prática, uma força naval estadunidense situa-se próxima do estreito de Ormuz, por onde se encaminha diariamente 1/5 da produção mundial petrolífera, com o fito de apenas supostamente acautelar medidas intempestivas do governo iraniano.
Apesar dos recentes avanços tecnológicos sobre biocombustível – confronte o caso do etanol – a dependência extrema no que concerne a petróleo e gás perdurará por muitos anos, de maneira que naturalmente se evoca à mente o período em que o consumo – hoje, próximo de 85 milhões de barris por dia – superará a produção. As previsões atuais estimam entre 2015 e 2020 o declínio da extração do produto.
Nesse sentido, diante do cabedal de solidariedade acumulado pelos republicanos em decorrência do ataque terrorista de setembro de 2001 e desperdiçado a partir de março de 2003 quando da invasão do Iraque, qual seria a postura dos democratas perante o Oriente Médio, visto que as eleições presidenciais aproximam-se?
No tocante à região médio-oriental, os democratas poderão modificar o meio de atuar, mas não o fim, isto é, o assegurar recursos energéticos por meio de um aparato unilateralmente militar, conforme determinado pelo Presidente Jimmy Carter no final de seu mandato em 1980.
Observe-se que – conquanto detenham a maioria no Congresso – os democratas não chegam sequer a um consenso sobre a retirada de tropas do Iraque ou sobre investigar no parlamento a ineficiente condução da guerra, onde, dentre outros aspectos negativos, afluem denúncias de maus tratos a prisioneiros locais.
É possível que uma presidência sob condução democrata não apurasse as responsabilidades pretéritas, a fim de não enfraquecer o combate ao terror. Há um recente precedente: no início da gestão Clinton, apontou-se para dirigir a Central Intelligence Agency (CIA) James Woolsey, democrata neoconservador, aceito politicamente por vários setores republicanos. Além do mais, Clinton não se esforçou para levar a um bom termo as investigações relativas ao comércio secreto de armamentos com o Irã e com o Iraque durante as administrações Reagan e Bush.
Paradoxalmente, a crescente militarização da política externa norte-americana naquela área não trouxe consigo os investimentos externos para dimensionar de forma adequada a infra-estrutura petrolífera e de gás. Assim, o Iraque tornou-se do ponto de vista propagandístico um péssimo exemplo, porém isso não desanima os ‘publicitários’ da política externa republicana a formular campanhas similares.
Ainda que não houvesse indícios substantivos para que o plenário onusiano subscrevesse uma intervenção bélica imediata, uma cominação seria dirigida pelo governo norte-americano ao seu público – com natural repercussão global – com vistas a afirmar que a segurança do país seria assegurada, sem depender da eventual leniência de organismos internacionais.
Ao mesmo tempo, manifestar-se-ia a preocupação com a sociedade de lá, ao anunciar-se a sua libertação do duradouro jugo ditatorial, paralelamente à eliminação do perigo militar, de maneira que finalmente um regime democrático se conjugaria com a estabilidade local. Grupos desterrados auxiliariam a remodelar o país, ao atrair investimentos externos, mão-de-obra capacitada e tecnologia de ponta. Todavia, implicações relacionadas com a principal fonte de sustentação econômica do país em comento – no caso, petróleo e, em menor escala, gás – seriam anteriormente mencionadas de forma discreta, visto que questões imateriais sobrepor-se-iam a elas.
No Iraque, o roteiro falhou, não obstante a propaganda inicial da liberação da população local, com o país esfacelado atualmente em uma guerra civil sem vislumbre de interrupção próxima, com reflexos na política interna da Turquia, por causa dos curdos, e na do Irã, por causa dos xiitas.
No plano econômico, a desastrada intervenção contribuiu, sem dúvida, para o reajuste brusco do petróleo. Curiosamente, no dia 13 de setembro último, o Presidente George Bush vinculou a ocupação do país à necessidade de proteger fontes energéticas de extremistas, ou seja, terroristas.
Entretanto, o infortúnio no Iraque não arrefeceu nem o ânimo, nem a imaginação fértil dos formuladores neoconservadores, cuja ascensão intelectual havia-se desencadeado em meados dos anos 70, de sorte que se cogita ainda uma intervenção no Irã, apesar do relatório do início do mês de dezembro dos organismos de informação e análise desqualificando a vertente militarizada do programa nuclear pérsio – interrompida há quatro anos.
Acrescente-se que Teerã não ameaçou até o momento invadir eventualmente o Iraque, em solidariedade à população xiita local, ou interromper o fluxo cotidiano de fornecimento de petróleo, ainda que se mantenha de modo inamistoso perante Israel.
Na prática, uma força naval estadunidense situa-se próxima do estreito de Ormuz, por onde se encaminha diariamente 1/5 da produção mundial petrolífera, com o fito de apenas supostamente acautelar medidas intempestivas do governo iraniano.
Apesar dos recentes avanços tecnológicos sobre biocombustível – confronte o caso do etanol – a dependência extrema no que concerne a petróleo e gás perdurará por muitos anos, de maneira que naturalmente se evoca à mente o período em que o consumo – hoje, próximo de 85 milhões de barris por dia – superará a produção. As previsões atuais estimam entre 2015 e 2020 o declínio da extração do produto.
Nesse sentido, diante do cabedal de solidariedade acumulado pelos republicanos em decorrência do ataque terrorista de setembro de 2001 e desperdiçado a partir de março de 2003 quando da invasão do Iraque, qual seria a postura dos democratas perante o Oriente Médio, visto que as eleições presidenciais aproximam-se?
No tocante à região médio-oriental, os democratas poderão modificar o meio de atuar, mas não o fim, isto é, o assegurar recursos energéticos por meio de um aparato unilateralmente militar, conforme determinado pelo Presidente Jimmy Carter no final de seu mandato em 1980.
Observe-se que – conquanto detenham a maioria no Congresso – os democratas não chegam sequer a um consenso sobre a retirada de tropas do Iraque ou sobre investigar no parlamento a ineficiente condução da guerra, onde, dentre outros aspectos negativos, afluem denúncias de maus tratos a prisioneiros locais.
É possível que uma presidência sob condução democrata não apurasse as responsabilidades pretéritas, a fim de não enfraquecer o combate ao terror. Há um recente precedente: no início da gestão Clinton, apontou-se para dirigir a Central Intelligence Agency (CIA) James Woolsey, democrata neoconservador, aceito politicamente por vários setores republicanos. Além do mais, Clinton não se esforçou para levar a um bom termo as investigações relativas ao comércio secreto de armamentos com o Irã e com o Iraque durante as administrações Reagan e Bush.
Paradoxalmente, a crescente militarização da política externa norte-americana naquela área não trouxe consigo os investimentos externos para dimensionar de forma adequada a infra-estrutura petrolífera e de gás. Assim, o Iraque tornou-se do ponto de vista propagandístico um péssimo exemplo, porém isso não desanima os ‘publicitários’ da política externa republicana a formular campanhas similares.
Virgílio Arraes é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (arraes@unb.br).

21/12/2007


Se o leitor atento à realidade do Médio Oriente adicionar os últimos acontecimentos do Paquistão, compreenderá que se a situação era péssima, passou a ser medonha. A política externa dos EUA têm sido amplamente criticada, mesmo internamente e não deve servir esta região para efeitos eleitorais internos. É compreensível a tomada de posição dos EUA face a esta região. Porém, intervenções deste vulto serão consequência de dossiers bem estudados, ou devidamente informados por quem os elabora e os conduz aos centros de decisão das administrações Republicana ou Democratas? Intervenções ao preço do saldo podem conduzir a situações extremas e conduzir a situações delicadas para todos nós sob os pontos de vista que todos estamos a imaginar. As Nações Unidas tardam com frequência em tomar resoluções cruciais. Neste tipo de acções, devem ser conjugadas forças com países que por diversas razões têm interesses na região ou que já marcaram a sua presença efectiva no passado e que devido a essa situação são ainda respeitadas.