O Campo Tupi e a Revolução do Perfil Energético Brasileiro, por Evandro Farid Zago

A busca pela auto-suficiência energética foi, historicamente, marcante na história brasileira. No ano de 2006, contudo, a marca foi atingida, pois novas reservas de petróleo passaram a ser exploradas na Bacia de Campos, localizada no litoral do Rio de Janeiro. Uma recente descoberta, por outro lado, levou a auto-suficiência, antes tão almejada e, diversas vezes, tida como patamar impossível de ser alcançado, a ser considerada parte do passado. No dia oito de novembro de 2007, a Petrobrás anunciou o fim de testes no Campo de Tupi, que integra a Bacia de Santos, no litoral paulista. O que se comprovou foi a descoberta de uma reserva que abriga de cinco a oito bilhões de barris de petróleo, uma quantidade que extrapola em muito a auto-suficiência brasileira e posiciona o país entre os maiores detentores do material no mundo.
Esta análise de conjuntura é, então, guiada pela redefinição do perfil energético do Brasil, tendo por objetivo mostrar os impactos domésticos, regionais e globais da descoberta de Tupi. Parte-se, inicialmente, de uma exposição do atual quadro de exploração de energia no Brasil. Em seguida, as características do novo campo são elencadas. Designa-se, posteriormente, os novos arranjos globais e continentais decorrentes da descoberta, passando-se, finalmente a possíveis quadros futuros relacionados ao tema.
Atualmente, a energia brasileira provém de fontes diversas. O país não depende de, exclusivamente, nenhuma delas, como é o caso de diversos países do mundo. A predominância nacional é a da energia advinda de usinas hidrelétricas, que corresponde a 37% do consumo interno. Essa preponderância faz com que a provisão de energia no país seja particularmente sensível a variações climáticas, já que longos períodos de estiagem tendem a diminuir a capacidade produtiva dessas usinas. Em segundo lugar, encontram-se os combustíveis derivados do petróleo, dentre eles gasolina e óleo diesel, com 32% do abastecimento doméstico. Lenha e bagaço de cana aparecem em seguida, com percentuais de, respectivamente, 9 e 7%. O álcool encontra-se em quinto lugar, respondendo por 4% do consumo, sendo acompanhado pelo carvão mineral – 3% – e pelo gás natural – 2%. Outras fontes contabilizam os 6% restantes.
O achado da Petrobrás representa uma das maiores descobertas de petróleo dos últimos vinte anos. O volume, calculado entre cinco e oito bilhões de barris de óleo mais uma notável quantidade de gás natural, deve elevar em cerca de 50% o nível das reservas nacionais. O país, que já possuía um total de 12 bilhões de barris, eleva esse número para uma soma de 17 a 20 bilhões. Dessa forma, o Brasil é lançado para o grupo das nações possuidoras das maiores reservas do mundo: passa da 17ª colocação para algo entre 8ª ou 9ª, posicionando-se entre Nigéria e Venezuela. Há, ainda, esperança de que se descubra mais reservas na região, visto que a área na qual se localiza Tupi – uma extensão de 800 km entre os litorais do Espírito Santo e de Santa Catarina – ainda pode oferecer mais surpresas aos prospectadores brasileiros.
Destaque também deve ser dado ao fato de que o petróleo encontrado é de qualidade superior ao normalmente explorado no Brasil. Isso se deve ao perfil da nova reserva, que se encontra abaixo do leito do oceano e de uma espessa camada de sal. O usual é que o material seja encontrado acima desta camada. O processo de emersão para além do sal, contudo, faz com que o petróleo seja misturado com impurezas, diminuindo seu valor de mercado. No caso do campo de Tupi, o óleo não teve contato algum com a camada salina, fazendo com que seja mais limpo e leve. Conseqüentemente, o processo de seu refino é mais barato, o que eleva o valor da reserva.
O fato de ser o petróleo de Tupi mais leve, entretanto, também tem desdobramentos problemáticos. Como acima destacado, as características dos novos poços devem-se a sua localização: abaixo de uma espessa camada de sal. Assim, a profundidade em que se encontra o óleo é maior do que a normalmente recorrente no Brasil. Tupi está enterrado debaixo de 4,5 a 7 mil metros de água, terra e sal, enquanto os campos prospectados atualmente localizam-se a, em média, 2,7 mil metros de profundidade. Portanto, tecnologias inovadoras são necessárias para a exploração do novo campo. Por “inovadoras” deve-se entender também “dispendiosas”. Estima-se que o custo da prospecção será de, no mínimo, três vezes o valor usual.
O anúncio das dimensões de Tupi fez com que, no mesmo dia, as ações da Petrobrás subissem mais de 14%. Seu valor de mercado, além disso, atingiu o pico notável de 385 bilhões de reais. A alta das ações conseguiu, inclusive, contrariar a tendência de queda da Bovespa, que, na semana do anúncio, sofria pressões negativas por parte da bolsa de Dow Jones. A relevância do achado também se refletiu em políticas governamentais. O governo federal, que havia programado um leilão de blocos da área para petroleiras de todo o mundo, decidiu pelo cancelamento das vendas. Alegou, para isso, que haveria interesse nacional na posse da região, o que inviabilizou a ocorrência dos citados leilões.
O Estado brasileiro, atualmente, já possui um destaque global na utilização de energia proveniente de biocombustíveis e de hidrelétricas, que são duas fontes renováveis para o abastecimento doméstico. A descoberta do campo de Tupi adiciona petróleo aos pontos de destaque do perfil energético nacional. Assim, o Brasil passa a figurar, no cenário internacional, como uma verdadeira potência energética. Abre-se, então, a possibilidade para que a nação deixe para trás a já confortável posição de auto-suficiência em petróleo para o vantajoso patamar de exportador do material. Além disso, já integra os planos da política externa brasileira a participação na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Com a colocação de nona maior reserva de petróleo do mundo, seria legítimo que o país ocupasse um lugar entre seus novos pares. O campo Tupi confere maior peso ao Brasil no cenário internacional, de forma que existe uma tendência de que seus posicionamentos externos angariem mais relevância. A possibilidade de se tornar um global player, dessa forma, torna-se mais factível. Dinâmicas multilaterais também tendem a ser mais benéficas para os brasileiros. O país, que já vinha obtendo êxitos em negociações internacionais embalado pelo crescimento econômico dos últimos anos, deve adquirir uma postura ainda mais relevante.
No âmbito regional, o Brasil também antevê um horizonte mais positivo. Em se tratando do continente americano, com a descoberta de Tupi, o país ultrapassa Canadá e México em níveis de reserva, ficando atrás apenas de Venezuela e EUA. Destarte, novas perspectivas em relação a exportadores de energia na região são estabelecidas. Países como Venezuela e Bolívia passam a ser ameaçados por um poder de barganha crescente no que diz respeito tanto à competição econômica quanto à arena política. Aumenta, assim, o poderio brasileiro frente aos petrodólares venezuelanos e a esquerda moderada do Partido dos Trabalhadores ganha espaço frente ao extremismo de Hugo Chávez e Evo Morales.
A ocasião do anúncio do campo de Tupi é considerada propícia. Isso se deve a uma recente tendência de queda de lucros na Petrobrás e a acentuadas dificuldades na provisão de gás natural para consumo doméstico. Tal dificuldade insere-se, em grande parte, na quase nacionalização, em maio de 2006, das reservas da estatal brasileira em território boliviano. O processo, levado a cabo pelo Presidente do país, acabou por deixar o Brasil na atual situação crítica referente ao fornecimento de gás para o mercado interno, em especial na região Sudeste. Crises energéticas relacionadas a gás natural também têm ocorrido na Argentina e no Chile. Tupi, dessa forma, torna possível uma redefinição das dinâmicas exportadoras da região, visto que o Brasil pode passar não só a suprir a demanda interna de gás, como também a preencher as necessidades argentinas e chilenas.
O futuro da reserva de Tupi ainda é algo a ser discutido. Optando o Brasil por exportar petróleo, passa, então, a integrar a dinâmica internacional da OPEP e a participar dos relevantes fluxos de óleo do mundo. Os excedentes da produção nacional teriam como destino o mercado externo. Assim, um papel de destaque pode também ser ocupado pelo país no que concerne à política externa norte-americana, visto que compradores em potencial para a energia brasileira são os Estados Unidos. Tanto petróleo quanto etanol poderiam ser vendidos para o país. Esta estratégia, além de economicamente vantajosa, também é estrategicamente lucrativa para os EUA. O país deixaria de depender de recursos energéticos de países que considera “hostis”, como Venezuela e algumas nações árabes, para negociar com um país mais amigável – no caso, o Brasil. A mudança de foco na importação de petróleo destina-se a diminuir a dependência dos EUA em relação a Estados que, potencialmente, estariam interessados em desequilíbrios no âmbito doméstico americano.
O Brasil, por outro lado, também pode questionar o quão positivo seria exportar as reservas de gás e petróleo recém-descobertas. A euforia ocasionada pelo recente descobrimento do campo de Tupi seria, assim, substituída pelo debate governamental em relação a seu destino. Dúvidas quanto à exportação das mesmas ou sua reserva estratégica para futuras necessidades domésticas, a exemplo do que fazem os EUA, são pertinentes. A decisão em favor do consumo interno poderia ser fomentada pela firme tendência, atestada nos últimos anos, de crescimento da economia brasileira. Dessa forma, o Brasil não passaria a ser exportador de recursos energéticos e sim a portador de reservas para uso próprio. O parque industrial e a infra-estrutura nacional seriam fatores essenciais a serem preservados e estimulados; e tal estímulo envolve processos nos quais a abundância de energia é imprescindível.
Questiona-se, por fim, a viabilidade da exploração do campo de Tupi. Elevações e quedas no preço do petróleo são recorrentes no mercado que o negocia globalmente. Desde a década de 1970, marcada por duas graves crises energéticas, altos preços foram sucedidos por outros menores. Seria provável, então, que o atual momento de valorização petroleira, caracterizado por preços extremamente elevados, seja substituído por outro de menores cotações. Posto que, como já foi destacado, o valor do investimento a ser despedido com a exploração do petróleo do campo de Tupi é alto – dada sua destacada profundidade, nunca antes alcançada para prospecção – o elevado custo de sua exploração seria inviabilizado por um barril cotado num valor mais barato no futuro. Conseqüentemente, o preço da unidade não compensaria o investimento total e a exploração de Tupi poderia ser protelada ou, até mesmo, cancelada.
A descoberta da reserva de petróleo de Tupi, na Bacia de Santos, envolve, como pôde ser visto, conseqüências diversas e variáveis abundantes. Uma elevação no poder global de barganha do Brasil, contudo, já pode ser tido como um fato. Uma economia emergente que se qualifica como nona detentora de campos petroleiros no mundo tem, certamente, sua presença no panorama externo considerado pelos demais atores da política internacional. A viabilidade e a possibilidade do Brasil se tornar um grande exportador, por outro lado, são pontos que ainda devem ser questionados. O crescimento nacional e o alto valor da prospecção trabalhariam nesse sentido. O alto volume das reservas de Tupi, no entanto, aponta para um futuro no qual brasileiros colocam-se como exportadores de energia. Poderíamos, dessa forma, como diria Hugo Chávez, já considerar o Presidente Lula um “magnata do petróleo”.
Evandro Farid Zago é Membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (evandrofz@yahoo.com.br).

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  1. O Campo Tupi e a Revolução do Perfil Energético Brasileiro « Meridiano 47 - 31/01/2008

    [...] dezembro 15, 2007 por Evandro Farid Zago A busca pela auto-suficiência energética foi, historicamente, marcante na história brasileira. No ano de 2006, contudo, a marca foi atingida, pois novas reservas de petróleo passaram a ser exploradas na Bacia de Campos, localizada no litoral do Rio de Janeiro. Uma recente descoberta, por outro lado, levou a auto-suficiência, antes tão almejada e, diversas vezes, tida como patamar impossível de ser alcançado, a ser considerada parte do passado. No dia oito de novembro de 2007, a Petrobrás anunciou o fim de testes no Campo de Tupi, que integra a Bacia de Santos, no litoral paulista. O que se comprovou foi a descoberta de uma reserva que abriga de cinco a oito bilhões de barris de petróleo, uma quantidade que extrapola em muito a auto-suficiência brasileira e posiciona o país entre os maiores detentores do material no mundo. Esta análise de conjuntura é, então, guiada pela redefinição do perfil energético do Brasil, tendo por objetivo mostrar os impactos domésticos, regionais e globais da descoberta de Tupi. Parte-se, inicialmente, de uma exposição do atual quadro de exploração de energia no Brasil. Em seguida, as características do novo campo são elencadas. Designa-se, posteriormente, os novos arranjos globais e continentais decorrentes da descoberta, passando-se, finalmente a possíveis quadros futuros relacionados ao tema. Atualmente, a energia brasileira provém de fontes diversas. O país não depende de, exclusivamente, nenhuma delas, como é o caso de diversos países do mundo. A predominância nacional é a da energia advinda de usinas hidrelétricas, que corresponde a 37% do consumo interno. Essa preponderância faz com que a provisão de energia no país seja particularmente sensível a variações climáticas, já que longos períodos de estiagem tendem a diminuir a capacidade produtiva dessas usinas. Em segundo lugar, encontram-se os combustíveis derivados do petróleo, dentre eles gasolina e óleo diesel, com 32% do abastecimento doméstico. Lenha e bagaço de cana aparecem em seguida, com percentuais de, respectivamente, 9 e 7%. O álcool encontra-se em quinto lugar, respondendo por 4% do consumo, sendo acompanhado pelo carvão mineral – 3% – e pelo gás natural – 2%. Outras fontes contabilizam os 6% restantes. O achado da Petrobrás representa uma das maiores descobertas de petróleo dos últimos vinte anos. O volume, calculado entre cinco e oito bilhões de barris de óleo mais uma notável quantidade de gás natural, deve elevar em cerca de 50% o nível das reservas nacionais. O país, que já possuía um total de 12 bilhões de barris, eleva esse número para uma soma de 17 a 20 bilhões. Dessa forma, o Brasil é lançado para o grupo das nações possuidoras das maiores reservas do mundo: passa da 17ª colocação para algo entre 8ª ou 9ª, posicionando-se entre Nigéria e Venezuela. Há, ainda, esperança de que se descubra mais reservas na região, visto que a área na qual se localiza Tupi – uma extensão de 800 km entre os litorais do Espírito Santo e de Santa Catarina – ainda pode oferecer mais surpresas aos prospectadores brasileiros. Destaque também deve ser dado ao fato de que o petróleo encontrado é de qualidade superior ao normalmente explorado no Brasil. Isso se deve ao perfil da nova reserva, que se encontra abaixo do leito do oceano e de uma espessa camada de sal. O usual é que o material seja encontrado acima desta camada. O processo de emersão para além do sal, contudo, faz com que o petróleo seja misturado com impurezas, diminuindo seu valor de mercado. No caso do campo de Tupi, o óleo não teve contato algum com a camada salina, fazendo com que seja mais limpo e leve. Conseqüentemente, o processo de seu refino é mais barato, o que eleva o valor da reserva. O fato de ser o petróleo de Tupi mais leve, entretanto, também tem desdobramentos problemáticos. Como acima destacado, as características dos novos poços devem-se a sua localização: abaixo de uma espessa camada de sal. Assim, a profundidade em que se encontra o óleo é maior do que a normalmente recorrente no Brasil. Tupi está enterrado debaixo de 4,5 a 7 mil metros de água, terra e sal, enquanto os campos prospectados atualmente localizam-se a, em média, 2,7 mil metros de profundidade. Portanto, tecnologias inovadoras são necessárias para a exploração do novo campo. Por “inovadoras” deve-se entender também “dispendiosas”. Estima-se que o custo da prospecção será de, no mínimo, três vezes o valor usual. O anúncio das dimensões de Tupi fez com que, no mesmo dia, as ações da Petrobrás subissem mais de 14%. Seu valor de mercado, além disso, atingiu o pico notável de 385 bilhões de reais. A alta das ações conseguiu, inclusive, contrariar a tendência de queda da Bovespa, que, na semana do anúncio, sofria pressões negativas por parte da bolsa de Dow Jones. A relevância do achado também se refletiu em políticas governamentais. O governo federal, que havia programado um leilão de blocos da área para petroleiras de todo o mundo, decidiu pelo cancelamento das vendas. Alegou, para isso, que haveria interesse nacional na posse da região, o que inviabilizou a ocorrência dos citados leilões. O Estado brasileiro, atualmente, já possui um destaque global na utilização de energia proveniente de biocombustíveis e de hidrelétricas, que são duas fontes renováveis para o abastecimento doméstico. A descoberta do campo de Tupi adiciona petróleo aos pontos de destaque do perfil energético nacional. Assim, o Brasil passa a figurar, no cenário internacional, como uma verdadeira potência energética. Abre-se, então, a possibilidade para que a nação deixe para trás a já confortável posição de auto-suficiência em petróleo para o vantajoso patamar de exportador do material. Além disso, já integra os planos da política externa brasileira a participação na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Com a colocação de nona maior reserva de petróleo do mundo, seria legítimo que o país ocupasse um lugar entre seus novos pares. O campo Tupi confere maior peso ao Brasil no cenário internacional, de forma que existe uma tendência de que seus posicionamentos externos angariem mais relevância. A possibilidade de se tornar um global player, dessa forma, torna-se mais factível. Dinâmicas multilaterais também tendem a ser mais benéficas para os brasileiros. O país, que já vinha obtendo êxitos em negociações internacionais embalado pelo crescimento econômico dos últimos anos, deve adquirir uma postura ainda mais relevante. No âmbito regional, o Brasil também antevê um horizonte mais positivo. Em se tratando do continente americano, com a descoberta de Tupi, o país ultrapassa Canadá e México em níveis de reserva, ficando atrás apenas de Venezuela e EUA. Destarte, novas perspectivas em relação a exportadores de energia na região são estabelecidas. Países como Venezuela e Bolívia passam a ser ameaçados por um poder de barganha crescente no que diz respeito tanto à competição econômica quanto à arena política. Aumenta, assim, o poderio brasileiro frente aos petrodólares venezuelanos e a esquerda moderada do Partido dos Trabalhadores ganha espaço frente ao extremismo de Hugo Chávez e Evo Morales. A ocasião do anúncio do campo de Tupi é considerada propícia. Isso se deve a uma recente tendência de queda de lucros na Petrobrás e a acentuadas dificuldades na provisão de gás natural para consumo doméstico. Tal dificuldade insere-se, em grande parte, na quase nacionalização, em maio de 2006, das reservas da estatal brasileira em território boliviano. O processo, levado a cabo pelo Presidente do país, acabou por deixar o Brasil na atual situação crítica referente ao fornecimento de gás para o mercado interno, em especial na região Sudeste. Crises energéticas relacionadas a gás natural também têm ocorrido na Argentina e no Chile. Tupi, dessa forma, torna possível uma redefinição das dinâmicas exportadoras da região, visto que o Brasil pode passar não só a suprir a demanda interna de gás, como também a preencher as necessidades argentinas e chilenas. O futuro da reserva de Tupi ainda é algo a ser discutido. Optando o Brasil por exportar petróleo, passa, então, a integrar a dinâmica internacional da OPEP e a participar dos relevantes fluxos de óleo do mundo. Os excedentes da produção nacional teriam como destino o mercado externo. Assim, um papel de destaque pode também ser ocupado pelo país no que concerne à política externa norte-americana, visto que compradores em potencial para a energia brasileira são os Estados Unidos. Tanto petróleo quanto etanol poderiam ser vendidos para o país. Esta estratégia, além de economicamente vantajosa, também é estrategicamente lucrativa para os EUA. O país deixaria de depender de recursos energéticos de países que considera “hostis”, como Venezuela e algumas nações árabes, para negociar com um país mais amigável – no caso, o Brasil. A mudança de foco na importação de petróleo destina-se a diminuir a dependência dos EUA em relação a Estados que, potencialmente, estariam interessados em desequilíbrios no âmbito doméstico americano. O Brasil, por outro lado, também pode questionar o quão positivo seria exportar as reservas de gás e petróleo recém-descobertas. A euforia ocasionada pelo recente descobrimento do campo de Tupi seria, assim, substituída pelo debate governamental em relação a seu destino. Dúvidas quanto à exportação das mesmas ou sua reserva estratégica para futuras necessidades domésticas, a exemplo do que fazem os EUA, são pertinentes. A decisão em favor do consumo interno poderia ser fomentada pela firme tendência, atestada nos últimos anos, de crescimento da economia brasileira. Dessa forma, o Brasil não passaria a ser exportador de recursos energéticos e sim a portador de reservas para uso próprio. O parque industrial e a infra-estrutura nacional seriam fatores essenciais a serem preservados e estimulados; e tal estímulo envolve processos nos quais a abundância de energia é imprescindível. Questiona-se, por fim, a viabilidade da exploração do campo de Tupi. Elevações e quedas no preço do petróleo são recorrentes no mercado que o negocia globalmente. Desde a década de 1970, marcada por duas graves crises energéticas, altos preços foram sucedidos por outros menores. Seria provável, então, que o atual momento de valorização petroleira, caracterizado por preços extremamente elevados, seja substituído por outro de menores cotações. Posto que, como já foi destacado, o valor do investimento a ser despedido com a exploração do petróleo do campo de Tupi é alto – dada sua destacada profundidade, nunca antes alcançada para prospecção – o elevado custo de sua exploração seria inviabilizado por um barril cotado num valor mais barato no futuro. Conseqüentemente, o preço da unidade não compensaria o investimento total e a exploração de Tupi poderia ser protelada ou, até mesmo, cancelada. A descoberta da reserva de petróleo de Tupi, na Bacia de Santos, envolve, como pôde ser visto, conseqüências diversas e variáveis abundantes. Uma elevação no poder global de barganha do Brasil, contudo, já pode ser tido como um fato. Uma economia emergente que se qualifica como nona detentora de campos petroleiros no mundo tem, certamente, sua presença no panorama externo considerado pelos demais atores da política internacional. A viabilidade e a possibilidade do Brasil se tornar um grande exportador, por outro lado, são pontos que ainda devem ser questionados. O crescimento nacional e o alto valor da prospecção trabalhariam nesse sentido. O alto volume das reservas de Tupi, no entanto, aponta para um futuro no qual brasileiros colocam-se como exportadores de energia. Poderíamos, dessa forma, como diria Hugo Chávez, já considerar o Presidente Lula um “magnata do petróleo”. Comentar este artigo e interagir com o seu autor  [...]

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