Implicações da redução das tropas britânicas envolvidas no Iraque e manutenção do apoio à Guerra contra o Terror, por Diogo Mamoru Ide

O anúncio do Primeiro-Ministro Gordon Brown de que retirará, até meados de 2008, metade das tropas britânicas empregadas no Iraque, proferido no dia 8 de outubro, constitui o principal objeto de estudo desta análise. Essa escolha se justifica pela relevância das implicações que tal fato enseja para o cenário internacional, seja a partir do território iraquiano e da Grã-Bretanha ou do plano mais amplo da Guerra contra o Terror. O objetivo da análise é lançar luz sobre essas implicações de tal modo que se torne possível oferecer uma visão abrangente das reações desencadeadas pela redução das tropas. Para tanto, cabe apresentar primeiramente uma breve contextualização da renúncia e uma interpretação dos fatores que contribuíram com ela. A argumentação também refuta a interpretação de que há o afastamento entre as políticas externas britânica e norte-americana decorrente da ascensão de Brown ao cargo de Primeiro-Ministro.
A chegada de Gordon Brown à liderança do Reino Unido, em junho de 2007, ocorreu após sua confirmação como líder do Partido Trabalhista, majoritário na Câmara dos Comuns. Brown assumiu o cargo do Primeiro-Ministro após 12 anos de governo Tony Blair, político também do Partido Trabalhista, cujo governo se caracterizou no âmbito internacional pelo apoio aos EUA e à Guerra contra o Terror.
A decisão de Brown de retirar parte significativa do contingente que atua no Iraque suscita questionamentos sobre um possível novo rumo da política externa da Grã-Bretanha. O recolhimento em questão revela um enfraquecimento do apoio dado pelo maior aliado norte-americano na Guerra contra o Terror ou não reflete qualquer descompromisso ou tipo de oposição a essa aliança?
É fato a crescente oposição pública à ocupação iraquiana. Parte significativa dos britânicos se opõe à ocupação do Iraque, pois a enxerga como uma empreitada já fracassada. Entretanto, a oposição pública não oferece margem para afirmação de que há uma debilitação do apoio dado aos EUA. Isso porque no Afeganistão, território cuja ocupação também é justificada pela Guerra contra o Terror, haverá, no curto prazo, um crescimento do número de militares britânicos envolvidos, totalizando 7.700 soldados. A diferença crucial é que nesse caso a população britânica ainda acredita num possível êxito militar, ou seja, numa possível estabilização do país capaz de justificar as perdas civis de seu exército.
A diminuição dos soldados em território iraquiano deve ser entendida muito mais por meio de fatores políticos internos do que por fatores internacionais. A decisão de Brown é motivada, em primeira instância, pela pressão da população em favor da retirada das tropas no Iraque, pressão essa que diminuiu a popularidade Blair ao final de seu mandato. Logo, a decisão não caracteriza uma nova guinada na política externa do Reino Unido, pois visa apenas acalmar os ânimos da população, diminuir a dissensão política interna e, dessa forma, melhorar a governabilidade de Brown.
Além disso, os números apresentados durante o anúncio de Brown estavam equivocados. Dos 2500 soldados que, segundo o Primeiro-Ministro, retornariam ao Reino Unido, 500 já haviam sido anunciados anteriormente e 270 já se encontravam em casa. Esse “engano” contribui com a perspectiva de que o anúncio de Brown visa muito mais agradar ao eleitorado britânico contrário à ocupação iraquiano do que seguir um novo rumo na política externa.
No tocante ao Iraque, a grande questão fica por conta dos reflexos que o anúncio de Brown terá sobre a malograda tentativa de estabilização do país. Muito embora o pretexto usado por Brown para legitimar a retirada das tropas seja o calmo momento vivido na região de Basra, onde se concentra a maior parte dos soldados britânicos, é patente que a situação nessa região não corresponde a dito grau de tranqüilidade. A visão predominante dentro do Iraque é que as tropas britânicas não logram obter bons resultados e vêm sendo derrotadas por milícias xiitas. O próprio governo iraquiano reconhece que ainda precisa de ajuda externa no sul do país.
Segundo a mídia, a redução das tropas no sul iraquiano pode incentivar um fortalecimento da influência iraniana na região. Há, inclusive, indícios da existência de milícias islâmicas que atuam dentro da polícia da cidade de Basra e da entrada de armas e dinheiro iranianos essa região. Apesar de o governo de Teerã ser visto como o principal responsável pela morte de diversos soldados ingleses, Brown omite os indícios existentes e justifica sua decisão contra argumentando que o nacionalismo da população xiita do Iraque é superior a qualquer tentativa de aproximação levada a cabo por Teerã. O cenário vislumbrado para o Iraque num curto prazo é pouco otimista, de tal maneira que a escalada da violência na região de Basra parece só uma questão de tempo.
Velha demanda da população britânica, a redução das tropas foi bem acolhida num plano doméstico pela população civil e pelo Partido Conservador, de oposição a Brown. Menos positiva foi somente a reação do Exército, que é a favor do recrudescimento da presença britânica no Iraque. Mesmo assim, a situação de Brown é delicada.
A associação do mesmo à imagem de um político hábil e influente foi fortemente abalada com a descoberta do “equívoco” no número de soldados que retornariam ao Reino Unido. Posteriormente, sua decisão de não convocar eleições gerais para o Parlamento, após previsões de que o Partido Trabalhista teria sua maioria reduzida, dificulta ainda mais uma recuperação da popularidade no curto prazo. Como conseqüência, observa-se o aumento de visibilidade do líder do Partido Conservador, David Cameron, na mídia britânica. Cameron se beneficia do mau momento vivido pelo adversário e ganha cada vez popularidade frente à população. Numa conferência recente realizada pelo Partido Conservador, Cameron foi ovacionado pelos presentes e por parte significativa da mídia britânica.
Em nível regional, um outro político ganha maior destaque. A imagem de Gordon Brown é cada vez mais ofuscada pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy. O apoio francês aos EUA no sentido de censurar e impedir o desenvolvimento do programa nuclear iraniano estreita os laços políticos entre ambos os países. A Grã-Bretanha, por certo, mantêm-se como principal aliado de George W. Bush na Guerra contra o Terror, haja vista a grande discrepância existente entre o total de tropas britânicas e francesas empregadas com tal propósito. Não deve ser negligenciada, no entanto, essa aproximação entre Sarkozy e Bush no que diz respeito ao programa nuclear iraniano.
O apoio à complexa ocupação externa no Iraque se enfraquece inclusive frente à população dos países que a apoiaram, embora os governos de tais países insistam que ainda há possibilidades de êxito. A situação é agravada pelo aumento do envolvimento do Irã na região sul e pelo recrudescimento das tensões no norte com a Turquia.
A redução de tropas no Iraque não vai de encontro à política externa de apoio aos EUA, fortalecida nos tempos de Blair. Não há atualmente um distanciamento entre EUA e Reino Unido, pois ambos continuam comprometidos com a Guerra contra o Terror. O anúncio de Brown deve ser, portanto, compreendido dentro da política interna britânica. Gordon Brown, por meio de seu anúncio, visa essencialmente diminuir dissensões políticas internas sobre uma ocupação até o momento frustrada. e com possibilidades de sucesso tendendo a zero.
A eficácia da decisão de Brown, no entanto, fica abaixo de suas expectativas. A maneira como se deu o anúncio, entremeado por dados equivocados, em si já impede uma maior confiança no atual governo. Essa confiança torna-se ainda mais difícil pela forma como se deu o cancelamento das eleições gerais para o Parlamento recentemente. A imagem de um político com inúmeras habilidades políticas conferida a Brown antes do mesmo ocupar o cargo de Primeiro-Ministro, ao menos no início de seu governo, é improcedente com suas atitudes de até então. Se, por um lado, os motivos que levaram à redução das tropas se encontram no âmbito doméstico, é fato que suas implicações são capazes de influenciar diferentes áreas da esfera internacional. A frustrada tentativa de estabilização do Iraque, principalmente, será afetada na medida em que o principal aliado dos EUA, diante das dificuldades enfrentadas, “desiste” dos compromissos que lhe competem. Mais uma vez, o que se observa é a prerrogativa que os interesses nacionais possuem sobre a definição dos rumos da política externa.

Diogo Mamoru Ide Membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (diogo_ide@hotmail.com).

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