Mumbai continua uma festa! Após os dez dias de celebração do Ganesha, em outubro, aos quais me referi na coluna anterior, trata-se, em novembro, de comemorar o Diwali, uma espécie de Natal hinduísta. Durante cinco dias, portanto, estará sendo marcado, na Índia, o “festival das luzes”, por cinco diferentes razões.
Em Mumbai, o principal motivo de comemoração é o retorno de Lord Rama ao Reino de Ayodhya, com sua esposa Sita e seu irmão Lakshmana, após a vitóra sobre o “Rei Demônio Ravana”, de dez cabeças, há cerca de três mil anos. Além disso, na rica história indiana, existem outros motivos para a “iluminação” deste longo feriado. Assim, celebram-se, também: a derrota de Indra, a perigosa deusa do trovão e da chuva, por Krishna; o sucesso da esposa deste, sobre a entidade do mal Narakasura; o término de período de retiro espiritual da deusa Shakti; e o retorno anual à Terra, do Deus Bali.
Nada supera, no entanto, nesta cidade, o fervor com respeito ao retorno de Rama a seu reino. O tema, ademais, foi motivo de contorvérsia política recente. Isto porque, no mês passado, a “Archeological Survey of India” emitiu parecer, no qual afirma que : “o conteúdo do Ramayana, mesmo se admitindo que o texto faça parte importante da antiga literatura indiana, não existe registro histórico para provar, de forma incontroversa, a existência dos personagens e ocorrência dos fatos relatados”. O parecer técnico – que permitiria a construção de um canal que facilitaria a navegação do Leste a Oeste da Índia, sem o contorno do SriLanka – foi considerado, pelos hinduístas fundamentalistas como tremenda afronta a suas crenças mais sagradas.
O Ramayana, a propósito, é um dos textos mais antigos da Índia e, tendo sido escrito há mais de três mil anos, permanece imensamente popular. A saga de Rama tem fascinado inúmeras gerações (encarnações) indianas. Não resta dúvida, quanto ao mérito literário da obra, que justifica, em parte, sua sobrevivência. O mais impressionante, no entanto, é o profundo impacto que vem produzido, nestes últimos três milênios, no imaginário da população deste país e em vizinhos do Sul e Sudeste Asiático, sem discriminação de casta, posição social ou nível intelectual.
Da mesma forma que em outras epopéias, o foco é uma sequência de incidentes na vida do herói da narrativa: Rama. Existe, no texto, ademais, enorme riqueza de personalidades e eventos, bem como fantasias do tipo de carruagens que voam, macacos, aves e outros animais que falam, dramas como o sequestro da esposa de Rama, Sita, e o fato de o Rei ter que determinar o exílio de seu filho querido.
Acima de tudo, o Ramayana representa a celebração de emoções e ideais. Assim, ressalta-se o profundo amor filial de Rama, a devoção de sua esposa a ele, a aliança incondicional de seu irmão Lakshmana. Tais sentimentos fortes têm afetado os leitores, através dos sucessivos momentos de turbulência e incertezas que afetaram a longa história da Índia.
Em resumo, o enredo do poema desenvolve-se em período durante o qual dois poderosos reinos, o dos Kosalas e o dos Videhas, predominavam no Norte da Índia, entre os séculos XII e X A.C. Segundo a narrativa, o Rei Dasaratha, dos Kosalas, tinha quatro filhos – com diferentes esposas – o mais velho dos quais, Rama, é o herói da história. De sua parte, o Rei Janak, dos Videhas, tinha uma filha, Sita, que se torna a heroína da trama.
Então, o Rei Janak, para escolher entre os pretendentes à mão de sua bela filha Sita, determinou que apenas aquele capaz de empunhar um arco cravado no chão seria o eleito. Como esperado, o heróico Rama realizou a proeza e, portanto, casou com Sita. Nada sendo perfeito, grande intriga foi urdida por uma das esposas do Rei Dasaratha – pai de Rama – obrigando o monarca a coroar, como seu sucessor, não o filho mais velho – Rama – mas um de seus irmãos mais moços – Bharata .
Ademais, a referida Sra. obteve a promessa real de que Rama seria enviado ao exílio, durante quatorze anos. Obediente à ordem paterna – como deve ser um bom hinduísta, destinado a servir de exemplo de subserviência filial por milênios do porvir – nosso herói partiu para a floresta, acompanhado por Sita e pelo irmão Lakshmana.
No capítulo seguinte, o Rei Dasharatha – pai de Rama – falece, arrependido de ter tratado seu primogênito daquela forma, e o trono deve passar para o filho Bharata, que reconhece sua incompetência para administrar os assuntos de Estado e resolve apelar para que Rama assuma todos aqueles problemas. Este – no espírito de preservar a obediência ao desejo paterno, já assinalado acima, sem saber do arrependimento final do pai – recusa, afirmando que iria cumprir a tal punição de quatorze anos. Bharata, então, decide levar consigo as sandalhas de Rama, como símbolo de respeito ao irmão mais velho.
Começa, então, uma alegoria digna a fazer inveja aos desfiles de Escolas de Samba no Rio de Janeiro. Entra em cena uma tribo de demônios, que se relacionam com um Rei de dez cabeças, Ravana, desfilam uma ave e um veado que falam. Sita é sequestrada. Torna-se, então, como mencionado no início desta coluna, símbolo da fidelidade e devoção que uma esposa indiana deve ter, como exemplo para as gerações (encarnações) futuras.
Felizmente, entra em cena um reino de macacos falantes, que ajudam Rama a resgatar Sita. Nesse processo teria sido criada a controvertida ponte que liga a Índia ao atual SriLanka, objeto atual de discórdia política. A apoteose ocorre com combate final, entre Rama e Ravana, que, cada vez que tinha uma cabeça cortada, lhe nascia uma outra, até que nosso herói descobre um ponto vital, no pescoço do monstro e lhe atinge com uma flecha. Assim encerrada a tragédia, Rama e Sita retornam ao Reino de Ayodhya.
Então, em função, principalmente, deste retorno triunfal, é celebrado em Mumbai, e outras cidades indianas, o “Festival das Luzes” ou Diwali. Neste contexto, são louvadas virtudes de devoção familiar (dharma) e submissão ao destino (kharma).
Para os críticos da devoção a Rama, fica o argumento de que todo o sistema de castas indianos seria justificado pela narrativa. Isto porque, a legitimização do poder monárquico, como forma de governança, na Índia e no Sudeste Asiático, teria sido a principal função do Ramayana. Assim, quando Rama retorna à capital de seu reino, prontamente retoma a forma absolutista de governar.
Segundo, a propósito, a concepção histórica do Estado indiano – em análise reconhecidamente simplificada – o reinado não tem origem divina, de “mandato celestial”, como na China antiga. Pelo contrário, o Estado era uma demonstração e reflexo de poder pessoal do próprio rei – isto é, uma personalidade forte capaz de unificar regiões díspares, de forma tirânica, sempre sob a ameaça de desintegração. Tudo o que era exigido era uma determinação de talento superior, capaz de manter o indivíduo no poder.
Em contrapartida, o Imperador chinês, por exemplo, foi, durante séculos, reverenciado como o “Filho do Céu”(tíen-tse) e era suposto personificar os princípios da realeza, através de rituais religiosos. Tratava-se do mediador entre o céu e a terra. Caso houvesse derrota, fome ou catástrofes, e ele mesmo fosse derrubado, isto seria atribuído à perda do Mandato Celestial, decorrente de alguma deficiência pessoal. O usupardor do poder, então, a seu turno, passaria a reivindicar tal mandato, a ser herdado por sua nova dinastia.
Os Reis Hindus não contavam com tal mandato. Apenas uma deusa, de menor estatura, Sri Lakshmi , era tida como protetora do sucesso e continuação do poder. Ela escolheria seu protegido e, temporariamente, reencarnaria em sua pessoa. Fosse este derrotado, ela, chorosa, passaria a proteger o novo vencedor. Sri Laksmi nada tinha a ver com a virtude. Apenas com a política e a evolução cíclica dos tempos. A filosofia dos reis e poderosos, na Índia, portanto, era fatalística, cética e realista.
Registra-se, finalmente, que um agora controvertido projeto chamado “Sethusamudram Ship Channel” tem como objetivo fornecer canal de navagação entre as costas Leste e Oeste da Índia, sem o contorno pela ilha do SriLanka. No momento, a região de pouca profundidade e a chamada “Adam’s Bridge” que – segundo a saga de Rama, fora construída pelo tal exército dos macacos – demandam tal prolongamento. O projeto em questão criaria canal de 167 km e reduziria a viagem em 780 km ou 30 horas.
Mas, trata-se de atentar contra estrutura sagrada, que liga o Sul da Índia ao SriLanka. Afetaria parte do que é sagrado no Ramayana, pois foi o caminho percorrido pelo herói, com o auxílio da engenharia dos monos, para vencer o monstro de dez cabeças e salvar sua querida Sita. “Nem pensar”, dizem os hinduístas mais convictos. Pensando em eleições, os atuais governantes hesitam em implementar o projeto, que, contra eles, poderia polarizar grande número de votos.
Cabe, portanto, apenas desejar a todos um Feliz Diwali, com muitas luzes.

07/11/2007



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