1. Objeto de análise:
Myanmar (também “Mianmar” ou “Mianmá”, país ainda tratado oficialmente por alguns governos estrangeiros por seu antigo nome, Birmânia – em inglês, Burma) é o estado menos desenvolvido do Sudeste Asiático, imerso em uma forte estagnação econômica e governado há décadas por uma ditadura militar.
Manifestações populares ocorrem esporadicamente ao longo dos anos, recebendo forte repressão do governo. As manifestações e repressões se tornam cada vez mais intensos, e em setembro de 2007, milhares de monges budistas dão início à maior manifestação da história recente do país, sendo apoiados por grande número de civis, mas reprimidos duramente pelo governo. O conflito toma proporções cada vez maiores, atingindo repercussões a nível mundial.
2. Informações de referência:
2.1 Palavras-chave:
– instabilidade;
– instituições políticas;
– budismo;
– violações dos direitos humanos;
– manifestações;
– ditadura;
– refugiados;
– minorias étnicas;
– crise econômica, política e humanitária.
2.2 Cronologia:
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1962: Golpe militar liderado pelo General Ne Win instaura ditadura na Birmânia e implementa diversas políticas sob a denominação de “the Burmese way to socialism”, iniciando um processo de isolamento do país e nacionalização da maior parte de empresas privadas. O general fica 26 anos no poder.
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1974: Militares reprimem violentamente manifestações anti-governo no funeral do birmanês U Thant, terceiro Secretário Geral da ONU.
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1987: Diante de uma crise econômica, governo decide desvalorizar moeda, gerando grande insatisfação popular.
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08 de Agosto de 1988: Centenas de milhares de pessoas saem às ruas e descontentes com a situação econômica e opressão dos militares, pedem a troca de governo. As manifestações são reprimidas pelas Forças Armadas, deixando mais de três mil mortos.
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1988: Após massacres, o General Saw Maung assume o poder por outro golpe de Estado e forma o Conselho de Estado para a Restauração da Ordem e da Lei (SLORC). Diante da crise econômica e suas repercussões, os militares decidem abrir o mercado, mas não deixam os principais cargos do setor.
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1989: Militares mudam a versão oficial em inglês do nome do país de Burma para Myanmar. O novo nome passa a ser reconhecido pela ONU e por diversos países, mas não o é até hoje pelos EUA e pelo Reino Unido, por considerarem ilegítimo o governo que realizou tal mudança.
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Maio 1990: Pela primeira vez em trinta anos são realizadas eleições livres no país. A Liga Nacional para a Democracia vence, elegendo Aung San Suu Kyi por mais de 80% dos votos parlamentares. Porém, as eleições são anuladas pelo SLORC, que se recusam a sair do poder.
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9 de Janeiro de 1993: tem início a Convenção Nacional com o objetivo de criar uma nova constituição, o que não ocorreu até a presente data.
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1996: União Européia bane venda de armas e corta ajuda humanitária ao país.
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1997: Estados Unidos proibem investimentos em Myanmar.
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1997: O Conselho de Estado para a Restauração da Ordem e da Lei (SLORC) é renomeado Conselho de Estado para a Paz e Desenvolvimento (SPDC).
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23 de Junho de 1997: Myanmar é admitida na Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN).
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2003: EUA banem importações e transações em dólar.
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27 de Março de 2006: Junta militar governante transfere a capital nacional de Yangon para Pyinmana.
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Janeiro de 2007: Rússia e China vetam resolução do Conselho de Segurança crítica aos governantes de Myanmar.
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22 de Fevereiro de 2007: um grupo pequeno de indivíduos protestam contra os preços de mercadorias no país. Foi o primeiro protesto de rua visto em dez anos. Nove pessoas foram presas.
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15 de Agosto de 2007: Governo decide eliminar subsídios aos combustíveis e aumenta o preço da gasolina e óleo diesel em 500% para cobrir dívida interna. O aumento acaba refletindo nos preços dos alimentos.
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19 de Agosto de 2007: Manifestantes saem às ruas para protestar contra o aumento do preço do combustível. O movimento é reprimido e vários ativistas são presos.
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22 de Agosto de 2007: Em um pronunciamento, Estados Unidos condenam prisão de dissidentes.
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05 de Setembro de 2007: Tropas do governo reprimem demonstração pacífica e ferem três monges. Estes exigem pedido de desculpa até dia 17 de setembro, mas o governo recusa fazê-lo. Os monges budistas, que possuem grande estima perante a sociedade miamarense, passam a se envolver nas manifestações.
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21 de Setembro de 2007: Monges fazem um pronunciamento descrevendo o governo militar como “inimigo do povo” e prometem lutar até a retirada dos militares do poder.
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22 de Setembro de 2007: Mais de 10 mil monges participam de manifestações em todo o país.
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25 de Setembro de 2007: Manifestantes são ameaçados pelas forças militares. Civis fazem corredor de proteção aos monges.
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26 de Setembro de 2007: Recrudescimento da repressão dos protestos. Quatro pessoas são mortas e 300 detidas. Governo inicia toque de recolher.
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27 de Setembro de 2007: Início dos ataques noturnos. Forças armadas iniciam cerco e invasão a templos e monastérios budistas, prendendo mais de 700 monges. Nove civis são mortos, entre eles um repórter japonês. Numa escola primária, mais de 100 pessoas são atingidas por tiros disparados por soldados.
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29 de Setembro de 2007: Manifestações pró-governo no nordeste do país. Há acusações de que pessoas foram forçadas a participar.
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Outubro de 2007: O enviado da ONU ao país, Imbrahim Gambari, entra em contato com diversas autoridades e líderes da oposição.
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1o de Outubro: Transmissões de Internet e celulares são interrompidas.
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02 de Outubro de 2007: O primeiro ministro General Soe Win morre de leucemia, mas fontes alegam que o motivo é falso.
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02 de Outubro de 2007: Conselho de Direitos Humanos discute a situação em Myanmar durante uma sessão especial e aprova uma resolução condenando repressões.
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04 de Outubro de 2007: Fontes afirmam que mais de 10.000 pessoas foram interrogadas nos últimas dias. O general Than Shwe afirma que se encontrará com a líder da oposição, Suu Kyi, se esta deixar de apoiar as sanções impostas ao país pelos Estados Unidos.
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07 de Outubro de 2007: Manifestantes saem às ruas em cidades do mundo inteiro contra violência em Myanmar;
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09 de Outubro de 2007: Partido de Burma rejeita condições impostas pela Junta Militar.
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10 de Outubro de 2007: O membro da Liga Nacional para a Democracia, Win Shwe, é morto durante interrogatório.
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11 de Outubro de 2007: O Conselho de Segurança das Nações Unidas emite uma declaração apoiando o trabalho do enviado da ONU, Ibrahim Gambari e o trabalho do Conselho de Direitos Humanos; condenando o uso da violência contra as manifestações pacíficas; e incentivando as negociações com Aung San Suu Kyi.
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12 de Outubro de 2007: Milhares de pessoas se reúnem em uma manifestação pró-governo. Os grupos dissidentes afirmam que os números são menores do que os divulgados pela Junta e que muitos foram forçados a participar. Quatro ativistas são presos.
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13 de Outubro de 2007: Anistia Internacional afirma que prisões continuam apesar do compromisso feito pelas autoridades miamarenses em cooperar com as Nações Unidas.
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15 de Outubro de 2007: O Primeiro Ministro Gordon Brown pressiona União Européia por sanções mais fortes a Myanmar. Assunto é debatido em reunião em Luxemburgo.
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16 de Outubro de 2007: ASEAN afirma que não suspenderá Myanmar e rejeita qualquer proposta para sanções econômicas. Japão cancela fundo de ajuda humantária devido às ações militares em Burma.
3. Contextualização e repercussão:
3.1 Locais:
- Direitos Humanos;
- Perda de legitimidade do governo;
- Instabilidade interna;
- Opinião pública;
- Minorias;
- Influência Religiosa – budismo;
- Crise econômica – sanções, corrupção, verbas destinadas às Forças Armadas, aumento preço do petróleo;
- Crise Humanitária.
3.2 Regionais:
- ASEAN: Grande influência, pouca pressão;
- Refugiados: Bangladesh;
- Sudeste Asiático.
3.3 Bilaterais:
- Índia: venda de armas, exploração de petróleo;
- China – maior aliado, comércio, Conselho de Segurança, acesso ao Oceano Índico;
- Rússia: construção de reator nuclear; Conselho de Segurança;
- Coréia do Sul: petróleo, exportações;
- França: investimentos,sanções;
- EUA e Reino Unido: sanções, pouca influência direta;
3.4 Globais:
- Democracia x Ditadura: respostas da comunidade internacional;
- ONU: Conselho de Segurança, Conselho de Direitos Humanos, Ibrahim Gambari;
- União Européia: pressões sobre China e Asean;
- Manifestações: opinião pública da sociedade civil;
- Crise humanitária: soberania X intervenção.
4. Cenários:
- Na hora de formular os possíveis cenários para o desenrolar da questão, devem-se levar em conta as seguintes variáveis (listadas em ordem de maior a menor importância):
- Posicionamento da Rússia e da China, considerados os países com maior poder de barganha em relação à Junta Militar miamarense;
- Possíveis ações oficiais da Associação de Nações do Sudeste Asiático, ou de seus membros separadamente;
- Posicionamento oficial e possíveis medidas da ONU, especialmente por meio de seu Conselho de Segurança (na qual a Rússia e a China possuem poder de veto); Pronunciamentos e medidas das potências ocidentais (principalmente Estados Unidos e União Européia).

31/10/2007



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