A renúncia do Primeiro-Ministro do Japão: Causas e Repercussões, por PET – iREL UnB

1. Objeto de análise:

                Shinzo Abe, então Primeiro-Ministro do Japão, anuncia, no dia 12 de setembro, sua renúncia ao cargo. Um governo que acumulava histórico de corrupção, gafes, crise previdenciária e derrotas em eleições parlamentares chega ao fim em meio a uma crise política de dimensões que, há tempos, não se presenciava no Japão.

 

2. Informações de referência:

                                    

            2.1. Palavras-chave:

             – Sudeste asiático,

             – Japão,

             – corrupção,

             – Constituição pacifista,

             – anti-terrorismo,

             – Afeganistão,

             – crise do Executivo,

             – renúncia,

             – vácuo de poder.

           

            2.2. Cronologia:

            26 de setembro de 2006 – Shinzo Abe ganha a liderança do Partido Liberal-Democrata (PLD) e se torna Primeiro-Ministro do Japão. Sua alta popularidade devia-se à grande maioria obtida pela coalizão do PLD na Baixa Câmara do Parlamento Japonês (Dieta), herança do ex-Primeiro-Ministro Junichiro Koizumi, e pelos bons níveis econômicos.

            29 de setembro de 2006 – Abe organiza um plano para revisar a Constituição pacifista e para enfatizar o patriotismo dentro do Japão. Além disso, mostra-se disposto a estreitar laços com países vizinhos, como China e Coréia do Sul.

            21 de dezembro de 2006 – O membro do governo responsável pelo gerenciamento dos impostos, Masaaki Homma, demite-se após denúncias de que sustentava uma amante com dinheiro público.

            27 de dezembro de 2006 – O ministro para reforma administrativa, Genichiro Sata, renuncia após alegações de irregularidades em sua gestão.

            5 de março de 2007 – Shinzo Abe afirma não haver provas de que o exército ou o governo japonês seqüestrou mulheres na II Guerra Mundial para prostituição (“Comfort Women”).

            28 de maio de 2007 – O Ministro da Agricultura, Toshikatsu Matsuoka, comete suicídio após alegações de que teria desviado verba pública.

            3 de julho de 2007 – O ministro da Defesa, Fumio Kyuma, renuncia após afirmações controversas sobre os ataques norte-americanos ao Japão na II Guerra Mundial. Para ele, tais ataques não poderiam ter sido evitados.

            13 de julho de 2007 – A popularidade de Abe se encontra em níveis extremamente baixos: 25,7%.

            29 de julho de 2007 – O PLD perde o controle da Alta Câmara do Parlamento pela primeira vez na História.

            1 de agosto de 2007 – O Ministro da Agricultura, Norihiko Akagi, renuncia após acusações de irregularidades financeiras.

            27 de agosto de 2007 – Abe redistribui seu gabinete numa tentativa de aumentar o apoio ao seu governo e de superar os escândalos do passado.

            3 de setembro de 2007 – O Ministro da Agricultura, Takehiko Endo, renuncia após apenas uma semana  no cargo. Endo admite envolvimento em operações ilegais. O vice-Ministro de Negócios Estrangeiros também renuncia por motivos de irregularidades financeiras.

            9 de setembro de 2007 – Abe toma posições fortes quanto ao apoio à missão dos EUA no Afeganistão. O apoio japonês acontece não por meio de tropas, mas pelo abastecimento de navios militares. Abe afirma não ter intenção de se manter como líder caso o Parlamento bloqueie a extensão desse apoio.

            12 de setembro de 2007 – Shinzo Abe renuncia e mantém sua posição anterior sobre a guerra ao terrorismo. Em sua palavras, “I believe that my resignation will let Japan continue to fight against terrorism under a new prime minister”.

            13 de setembro de 2007 – O ex-primeiro-ministro é hospitalizado com problemas gastrointestinais.

 

3. Contextualização e repercussão:

 

            3.1. Global:

           A renúncia de Shinzo Abe ao cargo de Primeiro-Ministro da segunda maior economia do mundo apresentou uma repercussão negativa já esperada nos mercados mundiais. Ainda no dia 12 de setembro, data do anúncio do abandono do cargo, a Bolsa de Valores de Tóquio retroagiu e o iene desvalorizou. Tais fatos devem ser compreendidos como fruto da incerteza global em relação ao mercado japonês, o que acaba por desencorajar investidores a aplicar capital no Japão. No entanto, dadas a pujança interna e a confiança internacional já consolidadas da economia japonesa, essas tendências foram contrariadas nos dias seguintes à renúncia. Além disso, a segurança de que o vácuo de poder deixado por Abe seria rapidamente preenchido fez com que a fuga de investidores fosse minimizada.

            A relação Japão – EUA também é digna de destaque no que toca à crise política nipônica. Os japoneses são um dos maiores aliados dos americanos nas questões relevantes da política global. Nesse contexto, um dos movimentos atuais mais importantes dos ianques no meio internacional insere-se de maneira decisiva na problemática japonesa: a intervenção militar norte-americana no Afeganistão. Dentre as causas da renúncia de Shinzu Abe está a persistência do estadista em manter o apoio, no Oceano Índico, das Forças de Autodefesa do Japão à empreitada dos EUA. A maior parte da opinião pública, assim como partidos de oposição, eram contrários à posição de Abe. Dessa forma, o ex-Primeiro-Ministro teve um dos pontos mais relevantes de sua política externa contrariados, o que, juntamente com outros fatores, culminou em sua renúncia ao cargo. Quanto à opinião dos prováveis futuros ocupantes do cargo de Premier japonês, há unanimidade na defesa da manutenção da missão do Japão no Índico.

 

            3.2. Regional:

           No nível regional, devem-se analisar as relações do Japão com os demais países asiáticos, destacando-se aí as duas outras grandes economias do continente: China e Coréia do Sul. O breve governo de Shinzo Abe foi de notável relevância para a melhoria do relacionamento japonês com ambos os países. O estadista tomou posse numa época em que as relações com os chineses passavam por um período problemático, visto que, no mandato anterior ao de Abe, o então Primeiro-Ministro Junichiro Koizumi não havia sido hábil na harmonização do tratamento para com a China. Shinzo Abe, então, visitou o país vizinho e recebeu uma visita em troca, instaurando uma dinâmica positiva nas relações bilaterais entre ambos. Além disso, ele se recusou a freqüentar um templo japonês que homenageia soldados nipônicos que morreram lutando pelo país. Nesse local, estão enterrados alguns criminosos de guerra que protagonizaram ações contra a China e a Coréia. Dessa forma, esses países consideram ofensiva a visita de estadistas japoneses ao local. Não prestar homenagem a tais militares mortos em combate foi uma forma de amenizar algumas ações de Koizumi que haviam sido interpretadas como ofensivas pelos vizinhos.

            A renúncia de Abe coloca em dúvida a continuação de melhorias no relacionamento do Japão com a China e a Coréia do Sul.

 

4. Cenários:

 

            A renúncia do Premier japonês não significa que a crise política enfrentada pelo país chegará ao fim. A mera substituição de um membro do PLD por outro não indica que a situação terá melhorias substanciais. Problemas, como a crise da previdência pública, são de difícil resolução.

           A perspectiva de queda continuada nos índices da Bolsa de Valores de Tóquio deve ser seriamente considerada. A incerteza e o vácuo político são fortes fatores de desestabilização. Além disso, num país como o Japão, onde 55% do PIB é representado pelo consumo interno, quedas na bolsa podem reduzir o poder de compra do consumidor e, conseqüentemente, ter efeitos drásticos na economia nacional.

            O nome de Yasuo Fukuda já é tido como certo para ocupar o cargo de Premier do Japão. O veterano e antigo colaborador de Junichiro Koizumi coloca-se como a esperança para a solução de uma crise que, para os padrões japoneses, já atingiu níveis inesperados. O otimismo é reforçado pela defesa, por parte de Fukuda, na continuação e intensificação do processo de melhoria das relações com a China e a Coréia do Sul. Ele defende uma política externa menos centralizada na figura dos EUA, e mais atenta ao âmbito regional.

            A economia japonesa é bem estruturada o suficiente para não sucumbir em decorrência dos efeitos de uma crise política passageira. O país apresenta notável independência entre os ramos econômico e político. Gastos públicos são pouco relevantes para o mercado do Japão e a participação do Estado nos negócios nacionais vem caindo de maneira crescente. Portanto, a desvinculação é ponto favorável para a “blindagem” da economia nipônica frente à crise política.

 

5. Leituras sugeridas:

 

http://www.iht.com/articles/2007/09/14/asia/14japan.php

http://www.nytimes.com/2007/09/13/world/asia/13japan.html?partner=rssnyt&emc=rss

http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2007/09/12/AR2007091202263.html

http://noticias.uol.com.br/ultnot/afp/2007/09/12/ult34u189334.jhtm

http://noticias.uol.com.br/ultnot/reuters/2007/09/12/ult27u62796.jhtm

http://noticias.uol.com.br/economia/ultnot/efe/2007/09/13/ult1767u102600.jhtm

http://noticias.uol.com.br/ultnot/reuters/2007/09/16/ult27u62862.jhtm

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