Novas diretrizes da política exterior norte-americana para a América Latina em relação ao combate ao narcotráfico, por PET – iREL UnB

 

1. Objeto de análise:

             

             A prisão, no Brasil, do colombiano Juan Carlos Ramírez Abadía, um dos chefes do cartel de drogas de Norte del Valle, e o significado desse fato dentro do análise da luta contra o narcotráfico na América Latina que tem sido uma das novas diretrizes da política exterior dos EUA para o continente, especialmente desde 11 de setembro de 2001.

 

 

2. Informações de referência:

 

2.1. Palavras-chave:

 

-Abadía;

-Chupeta/Lollipop;

-Colômbia;

-América Latina;

-narcotráfico;

-cartel Norte del Valle;

-EUA.

 

2.2 Cronologia:

 

  • 1948: Tem início na Colômbia o período conhecido como La Violencia, marcado por embate político, atentados e outras formas de violência entre membros e simpatizantes do partido Liberal e membros e simpatizantes do Partido Conservador;
  • 1953: O General Gustavo Rojas Pinilla assume o poder por meio de um golpe de Estado. Liberais e conservadores passam à oposição;
  • 1958: Rojas renuncia devido à pressão da opositora Frente Nacional, formada por uma união entre liberais e conservadores. Esses dois partidos passam a se alternar no poder a partir desse ano, excluindo do poder qualquer outro grupo político;
  • 1964: Com o apoio dos comunistas colombianos, surgem as FARC (Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia), movimento de guerrilha contrária à Frente Nacional. Nesse mesmo período, surgem diversos outros grupos, como o ELN (Ejército de Liberación Nacional) e o M-19 (Movimiento 19 de abril);
  • Década de 1970: Surgem os Cartéis de narcotráfico de Medellín e de Cali – aquele, sob o comando de Pablo Escobar, e este, liderado pelos irmãos Rodríguez Orejuela. Ambos os cartéis dedicavam-se, a princípio, ao comércio da maconha, mas, com a queda do preço desta no mercado internacional, ambos passaram a dedicar-se ao tráfico da cocaína;
  • Década de 1980: Lutas e atentados entre membros do Cartel de Medellín e do Cartel de Cali; 
  • 1985: Cerco ao Palácio de Justiça colombiano por guerrilheiros do M-19; suspeita-se que o ataque tenha feito parte da estratégia dos cartéis para intimidar os magistrados colombianos sobre as leis de extradição sendo negociadas com os Estados Unidos, segundo a qual envolvidos com o narcotráfico poderiam ser extraditados para aquele país e lá julgados;
  • 1987: Alguns grupos guerrilheiros, como o EPL, as FARC e o M-19, organizam-se na chamada Coordinadora Guerrillera Simón Bolívar, em busca de coordenação de suas atividades;
  • 1989: O Cartel de Medellín declara “guerra” ao governo colombiano, conduzindo atividades terroristas contra alvos civis e do governo;
  • Década de 1990: Surgimento do Cartel Norte del Valle, comandados por Diego León Montoya Sánchez e Juan Carlos Ramírez Abadía, ambos figurantes da lista dos mais procurados do FBI;
  • 1991: Pablo Escobar, chefe do Cartel de Medellín, entrega-se à polícia sob o acordo de não ser extraditado. É preso em La Catedral, prisão de onde continuou liderando o narcotráfico e comandando atentados e crimes;
  • 1992: Ao descobrir a respeito de planos para transferi-lo de cadeia, escapa facilmente de La Catedral. O restante do ano é marcado por um verdadeiro banho de sangue entre a milícia de Escobar e seus opositores;
  • 1993: Com o apoio logístico dos EUA, o governo fecha o cerco contra Escobar, que acabo morto pela polícia colombiana;
  • 1995: Desmantelamento do Cartel de Cali, com a prisão de seis de seus principais líderes, entre eles os irmãos Orejuela;
  • 1997: criação da AUC – Autodefensas Unidas de Colombia, federação paramilitar de direita cujo objetivo é o de proteger interesses econômicos e políticos de grupos dominantes do país. Suas atividades contra-revolucionárias são financiadas, em grande escala, pelo tráfico de drogas, o que faz da AUC uma “organização terrorista” para os EUA e a União Européia;
  • 1998: O presidente Andrés Pastrana cria uma zona desmilitarizada (chamada zona de distensão) para possibilitar negociações de paz com grupos guerrilheiros;
  • 2001: O governo Álvaro Uribe adota posicionamento mais duro com relação aos grupos dissidentes e lança o Plano Patriota, de intensificação de combate à guerrilha; após os atentados de 11 de setembro, os EUA passam a adotar uma posição muito mais enfática em seu apoio ao combate ao narcotráfico na América Latina, associando-o ao terrorismo. Em declaração oficial, o governo estadunidense afirma que “o grupo terrorista internacional mais perigoso em nosso continente são as FARC”.
  • 2003: Conflitos de facções dentro do Cartel Norte del Valle após extradição de alguns membros para os Estado Unidos; dá-se início a guerras de gangues notadamente no departamento colombiano de Valle de Cauca. Entre esse ano e o seguinte, mais de mil pessoas foram mortas nesse contexto, razão pela qual o governo dedica especial atenção a esse caso, no qual conta ainda com a ajuda do FBI e da DEA (Drug Enforcement Administration);
  • 2007: Juan Carlos Ramírez Abadía, o Chupeta/Lollipop, é preso pela PF brasileira em São Paulo. Abadía era um dos chefes do Cartel Norte del Valle, e o segundo homem mais perigoso do mundo segundo a lista do FBI; Abadía admite que juntou uma fortuna de US$ 1,8 bi graças ao tráfico, afirma que a PF brasileira só o capturou porque teve ajuda da DEA norte-americana e tenta negociar uma redução em sua pena caso delate policias comprados e outros envolvidos nos crimes do qual participou.

 

3. Contextualização e repercussão:

 

3.1    Colômbia:

- O país passa a se comportar e ser visto como forte aliado dos EUA, permitindo a intervenção deste país em alguns de seus assuntos internos;

- Fechamento do cerco contra grupos guerrilheiros, principalmente contra as FARC; outros grupos, como o ELN, ensaiam acordos com o governo de Uribe, que também faz vista grossa à atuação das AUC, uma vez que compartilha com este o objetivo de eliminar os grupos guerrilheiros do país;

- Redução da instabilidade interna que marca o país há décadas;

- Fortalecimento da imagem do presidente Uribe, que possui índices de aprovação interna muito elevados e uma boa imagem no contexto internacional geral.  

 

3.2 Bilaterais (EUA e Colômbia):

- Estados Unidos passam a classificar os narcotraficantes como terroristas, e a associar ambos os movimentos;

- EUA ressaltam a debilidade das Forças Armadas colombianas, e passam a ajudar o governo deste país não apenas financeiramente (“Plano Colômbia”), mas também logisticamente, como parte da “Iniciativa Andina”;

- EUA conseguem que se diminuam restrições relacionadas à proteção dos direitos humanos na Colômbia, de forma a facilitar as investidas contra os narcotraficantes;

- Continuidade do processo de aproximação entre o governo norte-americano (Bush) e o colombiano (Uribe), especialmente no relativo à intervenção indireta norte-americana no país;

- Com a prisão de Abadía, é abalado o Cartel Norte Del Valle, responsável pelo envio de mil toneladas de cocaína aos EUA.

 

            3.3 Regionais e Mundiais:

- Desde 11/09, EUA mudam profundamente sua política para com a América Latina; passam a ser mais duros em relação à questão dos imigrantes latinos e à dos movimentos de guerrilha sul-americanos; a ALCA passa ao segundo plano na agenda norte-americana para o Sul;

- Também a União Européia passa a identificar, por pressão norte-americana, os movimentos de guerrilha latino-americanos como “terroristas”;

- Colocação em evidência do caráter quase intervencionista dos EUA para com os países latino-americanos, no tangente ao combate ao crime organizado internacional;

- Divulgação internacional do êxito na captura de Abadía, com o apoio das polícias do Uruguai, da Espanha, da Argentina e dos EUA, como exemplo bem-sucedido de possibilidade de cooperação entre corpos estrangeiros de polícia;

 

 

4. Cenários:

 

- Com vistas aos sucessos recentes, o governo norte-americano deve continuar seu programa de apoio indireto – e por vezes direto – ao combate ao crime organizado na América Latina. De forma recíproca, espera-se que os países latino-americanos sigam, ainda que em menor intensidade, o exemplo colombiano, permitindo tal “intervenção”. Um cenário otimista traria, após o desenvolvimento desse projeto de cooperação, o fim da grande maioria dos grupos guerrilheiros, paramilitares, etc, e o desmantelamento completo do Cartel Norte del Valle e todos as outros principais organizações relacionadas ao narcotráfico na América Latina, especialmente na Colômbia.

 - Um cenário menos otimista prevê uma relutância de vários governos a aceitar qualquer tentativa de cooperação internacional neste sentido, em virtude do temor de possível perda de soberania ou autoridade interna. Desta forma, ficariam travados os processos em andamento, e a situação dos movimentos guerrilheiros e paramilitares e a do narcotráfico continuariam vigentes.

- Um cenário mais pessimista seria o de que qualquer tentativa de apoio norte-americano para a América Latina passasse a ser vista pela maioria dos governantes e seus povos como intentos claros de interferir e intervir nesses países, violando sua soberania. Governos esquerdistas e os contrários aos EUA poderiam passar a boicotar qualquer tentativa da DEA e órgãos afins, o que seria especialmente conveniente aos grupos em questão. Se convencida desse ponto de vista, a população de vários países, inclusive a colombiana, poderia passar a eleger novos governantes oficialmente contrários a qualquer interferência norte-americano – governos estes que seriam potencialmente pouco comprometidos com a continuidade do processo em vigor de combate ferrenho ao narcotráfico no continente.

 

 

5. Referências:

 

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2002/020909_gamarrars.shtml – Estratégia dos EUA para Colômbia revive Guerra Fria – 09 de setembro, 2002 – Publicado às 19h11 GMT

 

http://en.wikipedia.org/wiki/Norte_del_Valle_Cartel – Norte del Valle Cartel

 

http://es.wikipedia.org/wiki/Historia_de_Colombia – Historia de Colombia

 

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2002/020831_analisehugors.shtml  - ‘Guerra ao terror’ afastou os EUA da América Latina

 

http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u318462.shtml – Traficante colombiano preso em SP é suspeito de 300 mortes – 08/08/2007 – 07h48

 

http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u319441.shtml  - Traficante diz que só foi preso devido à ajuda dos EUA – 12/08/2007 – 09h58

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