“Aqueles que pensam que a Índia é governada de modo ruim deveriam se maravilhar com o fato de que é governada de alguma forma.”
Richard Nixon
1. Objeto de análise:
60 anos do fim da colonização inglesa sobre a Índia.
2. Informações de referência:
2.1 Palavras-chave:
Índia;
Paquistão;
hindus;
muçulmanos;
Caxemira;
potências nucleares;
2.2 Informações:
O que se inveja:
- Premiê indiano, Manmohan Singh: “Unidade na diversidade” – erradicação da pobreza e inclusão de todos os setores sociais em um projeto de nação comum.
- “O sucesso de uma democracia secular com 1 bilhão de pessoas é visto com admiração pelo resto do mundo.”
– Nenhum outro país abarca tamanha quantidade de grupos étnicos, línguas incompreensíveis entre si, religiões, práticas culturais, variações topográficas, climáticas, e níveis de desenvolvimento econômico.
– Homogeneidade versus pluralismo
- Manteve-se uma democracia, mesmo que por vezes corrupta e ineficiente;
- Os pais dessa nação (inclua Mahatma Gandhi e Jawaharlal Nehru) eram convictos democratas e imputaram em seu povo os hábitos democráticos;
- Dominadas por edifícios comerciais modernos, cafés e academias e abarrotadas de executivos de companhias financeiras e de informática usando Blackberrys, partes de cidades indianas como Bangalore, Hiderabad e Gurgaon lembram centros de cidades americanas e européias. Eleições regulares e mercados livres em expansão fazem a Índia parecer um exemplar de globalização econômica mais convincente que a China, que adotou o capitalismo sem abraçar a democracia liberal.
-A democracia na Índia era um experimento político extraordinariamente ambicioso. Ao declararem a Índia uma república soberana, socialista, secular e democrática, os arquitetos da Constituição indiana pareciam tomar a idéia de liberdade, igualdade e fraternidade mais seriamente que mesmo suas contrapartes européias e americanas. Os afro-americanos conseguiram o direito ao voto apenas em 1870, quase um século depois da estruturação da Constituição americana, e as mulheres americanas só em 1920. Mas todos os indianos adultos, desprezando-se classe, sexo e casta, gozaram do direito ao voto desde 1950, quando a Índia formalmente se tornou uma república.
Problemas:
- Existência de conflitos entre castas, ameaças separatistas, problemas entre grupos de línguas diferentes.
– Muitos outros aspectos da Índia hoje fazem a descrição da Foreign Affairs da ” gritante história do sucesso capitalista” do país parecer um pouco otimista. Mais da metade das crianças com menos de cinco anos da Índia está subnutrida; quebras de safras e dívidas levaram mais de 100 mil fazendeiros ao suicídio na última década. O crescimento econômico mal distribuído e as resultantes desigualdades lançaram novos desafios para a estabilidade política e para a democracia da Índia. Uma reportagem recente da International Herald Tribune adverte: “As taxas de criminalidade estão crescendo nas maiores cidades, um bando de rebeldes de inspiração maoísta está bombardeando e saqueando em sua rota através de uma ampla faixa da Índia central, e violentos protestos contra projetos de industrialização estão estourando de costa a costa.”
– A filósofa Martha Nussbaum, que está engajada em uma apaixonada tentativa de pôr fim à “ignorância americana sobre a história e a situação corrente da Índia”, faz da “violência genocida” contra os muçulmanos no Gujarat o “ponto focal” de suas reflexões perturbadoras sobre a democracia na Índia.
- Um medo generalizado e uma desconfiança em relação aos muçulmanos entre a classe média hindu do Gujarat ajudaram o BJP a vencer as eleições estaduais de dezembro de 2002 com uma larga vantagem.
– Ela destaca a “habilidade de cidadãos bem informados em se voltarem contra o nacionalismo religioso e se mobilizarem em torno de valores de pluralismo e igualdade”.
– Insistindo na utilidade prática da filosofia, Nussbaum tem atacado freqüentemente o feminismo teórico da academia americana. “O movimento das mulheres da Índia”, ela argumenta, “tem um bocado a ensinar ao movimento mais academicista das mulheres da América”. Ela está convencida de que, a partir da Índia, “nós, americanos, podemos aprender bastante sobre a democracia e seu futuro, enquanto tentamos agir responsavelmente em um mundo perigoso”.
2.3 Um pouco de história:
O governo trabalhista inglês, vitorioso nas eleições de 1945, acreditou ter chegado a hora de encerrar com o período imperial da Grã-Bretanha. Para tanto enviou à Índia Lord Mountbatten como vice-rei para negociar uma transição pacífica do domínio colonial com os representantes do povo indiano. O anúncio de que os ingleses estavam de partida e a excitação da liderança muçulmana fez com que se iniciassem matanças entre os seguidores das fés rivais. Estima-se em mais de um milhão de vítimas na curta mas mortífera guerra religiosa de 1947-8. Isto convenceu os próprios líderes indianos como Nehru, Patel e mesmo Gandhi, considerado o “pai da nação”, da necessidade de aceitar a partilha da Índia. Muçulmanos e hindus mostraram ser impossível viver sob a mesma bandeira. Iniciava-se o que ficou conhecido como “o maior divórcio da história”. Por ter aceitado a partilha, Gandhi foi assassinado em janeiro de 1948 por um nacionalista fanático.
Acordou-se em que 20% dos bens nacionais ficariam com o Paquistão e os 80% restantes para a Índia. Nas bibliotecas dividiram até os volumes da Enciclopédia Britânica. Artilharam até mesmo os instrumentos das bandas marciais. Muçulmanos radicais exigiram que o palácio de Taj Mahal, construído por um rei mongol, fosse levado pedra por pedra para o Paquistão. Brâmanes indianos por seu lado, queriam que se desviasse o rio Ido, que banhava o Paquistão muçulmano, porque os sagrados Vedas surgiram nas suas margens 2.500 anos antes. Foi um acontecimento incomum na história, um divórcio monstro que envolveu o patrimônio de milhares de anos e que pertencia a uma das mais antigas culturas da terra, com 400 milhões de proprietários.
As relações da Índia com o Paquistão começaram mal e jamais foram amistosas. Para piorar ainda mais a difícil convivência entre ambos, observa-se que a Índia e o Paquistão (separado originalmente em Ocidental e Oriental) nasceram nos princípios da Guerra Fria. O Paquistão inclinou-se a favor dos EUA enquanto a Índia procurou o apoio da URSS.
1757-1858: A Companhia Inglesa das Índias Orientais (British East India Company) expande-se por Bengala. O nababo de Bengala é derrotado na batalha de Plassey em 1757. Início da dominação inglesa no Hindustão com a formação do Governo Permanente (Permanent Settlement). Complexa estrutura de domínio que adota governos indiretos (indirect rule), acordos com marajás e administração direta por parte de funcionários da Companhia, especialmente depois da derrota do Reinou Marata em 1818. Como conseqüência da Revolta dos Cipaios (Sepoy Mutiny) em 1857-8, a Cia cedeu a administração para o governo inglês.
1858-1947: O hindustão transforma-se m vice-reino e a rainha Vitória torna-se imperatriz da Índia. Administração do Indian Civil Service (1500 funcionários). Em 1885 funda-se o Partido do Congresso Indiano (Congress Party) que, a partir de 1917, começa a lutar pela independência. Em 1919 inicia-se a campanha pela desobediência civil liderada por Gandhi. Em 1942 Gandhi propõe ações pacíficas de massas, o Movimento Quiet Índia (Índia clama). Em 1947 ocorre a independência. O subcontinente é partilhado entre hindu (União Indiana) e muçulmanos (Paquistão Oriental e Ocidental).
15/08/1947: após uma partição sangrenta, Índia e Paquistão surgem como novas nações independentes.
Pós-1947: Terríveis conflitos separam as duas comunidades. Matanças entre hindus e muçulmanos. Inicia-se a luta em torno da posse da Província da Caxemira, que conduzirá às Guerras de 1965 e 1971 (esta motivada pelo separatismo do Paquistão Oriental, hoje Bangladesh). Enquanto o Paquistão conhece períodos alternativos de governo parlamentar e de ditaduras, a Índia orgulha-se de ser a maior democracia do mundo (com a alternância dos dois partidos: o Partido do Congresso e o Partido Janata). A Índia fez sua primeira experiência nuclear em 1974 e o Paquistão em 1998. As maiores lideranças pós-independência da Índia foram Nehru e sua filha Indira Gandhi, e Ali Butho pelo Paquistão.

31/08/2007



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