Uma coisa interessante aqui, na hora em que eu vi o Donato assinando o protocolo com o Celso Amorim. Não sei se o Donato teve a mesma sensação que eu tive, ou seja, quando a gente é oposição a gente nunca pensa em chegar ao governo. Eu conheci o Donato tanto tempo na oposição italiana, e ele me conheceu tanto tempo na oposição brasileira, e finalmente o nosso sonho se tornou realidade.
Excelentíssimo Senhor Romano Prodi, Presidente do Conselho de Ministros da República Italiana,
Senhoras e senhores integrantes das delegações da Itália e do Brasil,
Senhoras e senhores jornalistas,
Minhas amigas e meus amigos,
Minhas primeiras palavras são de boas-vindas ao Primeiro-Ministro da Itália, meu amigo Romano Prodi, em sua primeira visita às Américas depois de haver assumido a chefia do governo italiano.
Brasil e Itália partilham tradições de tolerância e pluralismo que remontam a uma rica história de amizade e colaboração.
Somos unidos por laços de sangue e cultura, mas também pelo compromisso com valores fundamentais: respeito aos princípios democráticos e aos direitos humanos, fortalecimento do multilateralismo, defesa da paz e da segurança internacionais, promoção do desenvolvimento com justiça social.
O Mecanismo de Consultas Políticas que estamos lançando hoje nos permitirá acompanhar de perto o cumprimento de compromissos assumidos e, ao mesmo tempo, renovar metas de ação conjunta em temas da agenda bilateral e internacional.
Queremos dar prioridade à ciência e tecnologia na nossa cooperação para o desenvolvimento. Daremos ênfase aos setores de microeletrônica, tecnologia da comunicação e inclusão digital, com destaque para a educação. Vamos implementar o acordo bilateral que assinamos nessa área.
Vejo com satisfação que nossos esforços em multiplicar as trocas bilaterais deram resultado. Entre 2003 e 2006, a corrente de comércio pulou de 3,9 bilhões para 6,4 bilhões de dólares. Mas ainda está muito aquém do que a Itália e o Brasil podem fazer.
No ano passado, o “Tavolo Brasile” realizou sua primeira reunião em Roma. Para a próxima reunião, no Brasil, convido os empresários italianos a virem conhecer de perto as novas oportunidades que se abrem com o Plano de Aceleração de Crescimento, para ampliar investimentos em projetos de infra-estrutura.
Comentei com o Primeiro-Ministro a ênfase que estamos dando, no âmbito do Mercosul e da Comunidade Sul-Americana de Nações, à integração energética e infra-estrutura. As possibilidades de negócios para as empresas italianas nesse domínio são enormes.
Estou seguro de que mensagem semelhante foi dada ao Primeiro-Ministro e à sua delegação pelos empresários brasileiros no recente contato que mantiveram em São Paulo. Não tenho dúvida de que o volume e a diversidade de negócios entre nossos países vão crescer e muito. O acordo assinado ontem entre o Banco do Brasil e a SACE é um passo importante nessa direção. As pequenas e médias empresas têm um papel fundamental nisso. Conhecemos sua contribuição decisiva para o que muitos chamaram de milagre econômico italiano. Admiramos essa capacidade de combinar inovação tecnológica, eficiência administrativa e geração de empregos.
A presença em Brasília do Presidente do Conselho de Governo, que coordena a cooperação descentralizada na Itália, ressalta a importância da articulação entre os governos regionais italianos e brasileiros para o relançamento de nossas relações bilaterais. Para avançarmos nessa promissora direção, será necessário constituir uma comissão permanente para a cooperação descentralizada, envolvendo estados e municípios brasileiros, regiões e entes locais italianos, que já desenvolvem projetos comuns há muitos anos.
Senhoras e senhores,
Nossa parceria poderá ser igualmente fecunda na esfera internacional. Compartilhei com o Primeiro-Ministro Prodi o desejo do Brasil de engajar a Itália como parceiro no projeto de ampliar a participação dos biocombustíveis na matriz energética mundial. Estaremos assim dando resposta a um dos grandes desafios deste século: desenvolver fontes de energia limpas e renováveis, capazes de assegurar a prosperidade de nossos povos sem agredir o meio ambiente.
O memorando que a Petrobrás e a ENI acabam de firmar revela um enorme potencial de cooperação desde agora. A experiência brasileira com o programa do etanol pode contribuir para que a Itália reduza sua dependência de petróleo.
Queremos promover projetos trilaterais que incorporem países mais pobres à revolução do etanol e do biodiesel. Ao ajudar a expandir o cultivo da cana e de outras biomassas tropicais nesses países, Itália e Brasil estarão contribuindo para combater a fome e a pobreza. Teremos mais empregos, mais proteção da natureza, maior diversificação das atividades agrícolas e industriais.
Meus amigos e minhas amigas,
Para vencer a luta contra a miséria, estamos empenhados na criação de mecanismos inovadores, capazes de financiar o combate a pandemias que afligem os mais pobres, como a Aids, a tuberculose e a malária.
A segurança duradoura e o bem-estar das populações em regiões conflagradas requerem mais do que medidas temporárias de estabilização militar. A comunidade internacional deve engajar-se solidariamente em missões de verdadeira construção da paz e da cooperação para o desenvolvimento sustentável.
É essa a mensagem que o governo Prodi e o meu estão levando a nossos parceiros nas Américas, na África e no Oriente Médio. Concretamente, no Líbano, a Itália organizou conferência sobre o processo de pacificação nacional e tem um papel de liderança nas Forças das Nações Unidas. O Brasil tem multiplicado, dentro de suas possibilidades, suas ações de cooperação. Itália e Brasil partilham também a convicção de que é preciso reformar as Nações Unidas, de forma a transformá-la em instrumento eficaz e representativo da vontade coletiva da Comunidade de Nações.
Nossos dois países estão empenhados no êxito das negociações da Rodada de Doha. Temos de corrigir as injustiças de um modelo de liberalização comercial que ainda não trouxe os benefícios, tantas vezes prometidos, para a maioria dos membros da OMC.
Por essa razão, solicitei o empenho do governo Prodi para que a Itália continue a atuar na formulação de uma posição negociadora européia que nos leve a um acordo justo, sobretudo para os mais pobres.
Também expressei o interesse do Brasil em fechar, o quanto antes, um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Européia. Além do seu significado estratégico, esse acordo teria um efeito econômico extraordinário para as duas regiões.
Senhoras e senhores,
Em visita à Itália, em 2005, cheguei no dia em que a coligação de partidos que hoje governa o país realizava prévia nacional para decidir seus candidatos. Isso não impediu que os líderes dessa coligação fossem à Embaixada do Brasil em Roma para se encontrarem comigo. Foi um gesto de apreço e de consideração que se renova na deferência do amigo Romano Prodi ao visitar o Brasil nos primeiros meses de seu governo.
Pode estar seguro, meu caro Prodi, de que conta com o apoio dos muitos amigos que a Itália tem no Brasil para fazer avançar nossa agenda comum. Aqui terá sempre um parceiro para essa nossa tarefa de construir um mundo melhor.
Meu caro Primeiro-Ministro Prodi,
Eu penso que na noite de ontem em São Paulo, o Primeiro-Ministro teve uma noção dos interesses dos empresários brasileiros em fazer negócios com os empresários italianos. Faço questão de reafirmar, aqui, uma convicção que trago desde o primeiro dia em que assumi a Presidência.
Quando eu digo desejo dos empresários brasileiros, não é apenas o de receber investimentos italianos no Brasil mas, também, o de promover investimentos das empresas brasileiras na Itália, afinal de contas, políticas comercial e industrial se fazem como se fosse uma via de duas mãos, não apenas querendo receber, mas também querendo doar alguma coisa.
A segunda coisa importante é que, apesar dos grandes investimentos italianos no Brasil, e poderia simbolizá-los falando da Fiat, poderia simbolizá-lo como o primeiro da família Matarazzo, eu diria que de um tempo para cá alguns países importantes que tiveram relações com o Brasil e com a América do Sul, possivelmente pelo nervosismo da construção da União Européia, voltaram-se muito mais para a construção da União Européia, o que é um feito histórico notável e que começou na Itália há 50 anos, e deixaram de olhar um pouco para o Brasil e outros países da América do Sul.
É importante lembrar que, para esta nossa terra tão extraordinária, os primeiros italianos e italianas foram chegando aqui por volta de 1875, portanto, no final do século XIX. Quando o Primeiro-Ministro Prodi viajar por algumas cidades brasileiras, por alguns bairros brasileiros, certamente ele terá dúvida se estará fora do seu país, tal é a grandeza, tanto do ponto de vista populacional quanto do ponto de vista de inserção na cultura brasileira, na culinária brasileira, na indústria brasileira, na confecção brasileira que têm os italianos, ou seja, certamente existem várias cidades e vários bairros que parecem a própria Itália. Isso, meu caro Primeiro-Ministro, reforça a nossa responsabilidade.
Dizia o Primeiro-Ministro Prodi para mim que, se nós quisermos dar dimensão à relação histórica que existe entre Itália e Brasil, as afinidades na língua, até no futebol a Itália já está se aproximando do Brasil na conquista de títulos. Mas dizia o Primeiro-Ministro para mim que chega a ser quase inexplicável como é que o Brasil e a Itália têm uma balança comercial tão pequena. Ele me dizia que talvez a Itália tenha com a Sérvia, com apenas dois milhões de habitantes, ou com a Eslovênia, mais comércio do que com o Brasil. E eu queria dizer que o Chile também tem bem menos habitantes que a Itália, e o Brasil tem com o Chile um comércio maior do que com a Itália.
Eu penso que agora nós poderemos entrar numa outra era. Eu acho que Itália e Brasil podem, nestes próximos anos, duplicar, triplicar a nossa balança comercial, duplicar ou triplicar as nossas parcerias e fazer uma parceria extraordinária, que pode ajudar o mundo a ser menos poluído nos próximos 20 anos, com a parceria na área de biodiesel. Sobretudo se Brasil e Itália tiverem a generosidade e a grandeza política de fazer parceria para produzir biodiesel em alguns países pobres da África porque, assim, nós estaremos gerando riqueza, renda e emprego para as pessoas que, se não tiverem opção, terão no terrorismo, na criminalidade ou na morte precoce a única alternativa.
Quero lhe dizer, Primeiro-Ministro, da minha alegria de recebê-lo no Brasil. A nossa relação com a Itália é muito antiga, é uma relação, eu diria, das mais civilizadas, já estabelecidas entre dois países e eu queria aproveitar este momento para que Vossa Excelência, Primeiro-Ministro, e eu, Presidente da República do Brasil, pudéssemos, juntos, o meu governo e o seu governo, construir, não apenas uma parceria estratégica, mas consolidar uma relação muito mais sólida entre os nossos dois países.
Muito obrigado pela sua visita e parabéns.

27/03/2007



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