Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, após assinatura de Atos entre Brasil e Uruguai – Estância Presidencial de Anchorena – Uruguai , 26/02/2007

Senhores ministros de Estado do Uruguai,
Senhores ministros brasileiros, que me acompanham nesta viagem ao Uruguai,
Caros companheiros embaixadores do Uruguai no Brasil e do Brasil no Uruguai,
Assessores,
Companheiros jornalistas uruguaios e jornalistas brasileiros,

Eu quero crer que os acordos assinados pelo ministro Celso Amorim, em nome do governo brasileiro, e pelo ministro Silas Rondeau, em nome do Brasil, demonstram claramente uma afirmação que eu fazia ainda no primeiro mandato de Presidente da República. Eu dizia que, no âmbito da política internacional, o primeiro mandato é um aprendizado, em que a gente descobre que, muitas vezes, não basta o discurso, muitas vezes não basta a vontade política, é preciso que utilizemos uma espécie de destravamento das normas que a burocracia histórica de cada país criou no tempo em que não tínhamos um mundo globalizado e aberto como temos hoje.
A minha vinda ao Uruguai, o encontro com o companheiro Tabaré – companheiro que eu conheço antes de ser Presidente e que me conhece antes de eu ser Presidente –, o encontro com companheiros uruguaios que, historicamente, mantêm relação com o Brasil, seja nos dando solidariedade em momentos difíceis, seja recebendo solidariedade em momentos difíceis. Durante a década de 70 e uma boa parte da década de 80, não tinha um uruguaio ou um brasileiro que não houvesse participado da vida política dos nossos países, que não tivesse estado num ato de solidariedade ao povo uruguaio, de um lado, e ao povo brasileiro, de outro.
Hoje estamos aqui, não apenas em nome dessa velha amizade, em nome dessa relação extraordinária que eu tenho com o povo uruguaio desde o tempo em que era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, e que mantinha uma relação excepcional com os companheiros da PIT-CNT. Nós estamos aqui, hoje, numa condição diferenciada. Estamos aqui como chefes de Estado do Uruguai e do Brasil para assinar acordos e fazer discussão política sobre o futuro do povo uruguaio, o futuro do povo brasileiro e, sobretudo, o futuro da integração definitiva da América do Sul e a consagração do Mercosul. Mercosul que, muitas vezes, tem sido vítima de incompreensões. Mercosul que, muitas vezes, é criticado sem que façamos uma análise histórica da política do nosso Continente e da política dos nossos países. Mercosul que, muitas vezes, é olhado como se fosse algo insignificante e, por conta desse olhar, não se percebe o quanto já avançamos nessa relação entre os países que compõem o Mercosul.
Precisamos avançar mais? Precisamos. E muito mais, sobretudo se países de economias maiores, se países de populações maiores, se países de macroindustrialização levarem em conta que uma integração latino-americana, uma integração asiática ou uma integração européia só vai se consolidar quando os acordos propostos forem justos para ambos os países. Política internacional é sempre uma via de duas mãos, é preciso que a gente venda, mas, sobretudo, é preciso que a gente compre. O comércio exterior importante não é aquele em que um país tem uma grande vantagem na balança comercial contra o outro, ou aquele em que o país é altamente desenvolvido e o outro não é altamente desenvolvido. A relação exterior, o comércio exterior importante é aquele em que temos um equilíbrio, que a gente possa vender, que a gente possa comprar e as duas partes se dêem por satisfeitas e felizes com o tipo de relação que estamos tendo. Se houver imposição de uma economia sobre a outra, se não se levar em conta as assimetrias existentes entre os países que compõem o Mercosul. É por isso que a União Européia levou quase 50 anos para chegar onde chegou, e para chegar onde chegou teve que gastar bilhões e bilhões de marcos, de dólares, para que pudessem equilibrar os países mais pobres. É importante lembrar o que foi feito com Portugal, o que foi feito com a Grécia, o que foi feito com a Espanha, o que está sendo feito agora com os irmãos mais pobres da Europa, que estão entrando agora para fazer parte da União Européia. Porque se não houver a decisão de garantir o equilíbrio, não haverá Mercosul, não haverá União Européia e não haverá nenhum acordo internacional.
O desafio para nós é um desafio econômico, mas, sobretudo, é um desafio de compreensões políticas que ainda falamos com muita facilidade no discurso mas que, na prática, acontecem de forma muita mais demorada.
Eu vim aqui, hoje, para dizer ao presidente Tabaré, para dizer aos seus ministros, para dizer aos ministros brasileiros e à imprensa do Brasil e do Uruguai, que o Brasil tem que assumir a sua responsabilidade de maior economia do Mercosul e, portanto, o Brasil, sem fazer nenhum favor, precisa criar as condições para que o comércio seja o mais equilibrado possível e para que o desenvolvimento também seja o mais equilibrado possível. Se nós quisermos vender ônibus ao Uruguai é preciso criar condições para que uma parcela, uma partícula desses ônibus seja produzida aqui no Uruguai. Se nós queremos criar TV digital junto com o Uruguai é preciso que parte desse processo se dê com a participação uruguaia. Se nós quisermos fazer com que o biodiesel se transforme numa matriz energética na área de combustível é preciso partilharmos isso com os nossos irmãos uruguaios. Se nós quisermos que o Uruguai participe do Mercosul, Paraguai, Venezuela, Bolívia e todos os países em igualdade de condições, nós precisamos fazer com que os nossos empresários também compreendam que eles precisam fazer parcerias, sobretudo naqueles setores em que nós precisamos dinamizar os nossos conhecimentos tecnológicos, para que tenha sentido os blocos que estão sendo criados no mundo.
Eu disse ao presidente Tabaré que o primeiro mandato foi um aprendizado, um segundo mandato é para concretizar as coisas que eu acredito. E as coisas que eu acredito são as coisas em que ele acredita, são as coisas em que Kirchner acredita, são as coisas em que qualquer país do mundo acredita nas suas relações internacionais. É preciso criar condições para que as oportunidades se dêem em todos os países. É preciso tomarmos consciência de que um país da dimensão do Brasil precisa comprar dos países menores e facilitar a vida desses países menores, levando em conta as assimetrias existentes entre nós. Se não for assim, iremos apenas disputar as grandes economias do mundo e as menores ficarão afastadas do processo.
É importante levar em conta o que o Uruguai já representou na economia deste continente e, sobretudo, como foi conhecido o Uruguai na década de 60. Eu me lembro que eu ainda ouvia falar da Suíça da América Latina, tal era o poder econômico deste Estado, que tinha uma renda per capita comparada com a renda per capita de outros países. E, como no Brasil e em qualquer outro país da América do Sul, por políticas desajustadas de ex-dirigentes nossos, o nosso povo, nas últimas duas décadas, sofreu muito e está padecendo até hoje.
O nosso papel, neste instante, é fazer os acordos que possam começar a ser uma espécie de reviravolta numa relação difícil, que sempre existiu na maioria dos países, até porque nós todos, na América do Sul, éramos voltados apenas para os Estados Unidos ou para a União Européia, e nos esquecíamos de discutir o potencial de trocas entre nós. Não discutíamos com muita facilidade a integração física, a integração política, a integração cultural, a nossa relação, eu diria, até uma relação emocional que existe entre brasileiros e uruguaios, brasileiros e argentinos, brasileiros e paraguaios, brasileiros e chilenos, brasileiros e bolivianos.
Eu estou convencido, presidente Tabaré, ministros uruguaios e ministros do Brasil, de que saio daqui com a convicção de que os protocolos que assinamos significam um passo extremamente importante para que a gente possa, daqui a algum tempo, dar passos ainda mais ousados. Eu sei que tem muita gente que não acredita nisso, mas sei, também, que esses que não acreditam, acham que todos nós deveríamos estar subordinados apenas às grandes potências quando se trata de comércio. Eu acho que é preciso olhar o que aconteceu com as nossas economias e com o nosso povo no século XX para que a gente não erre no século XXI. O século XXI pode ser transformado, por nós, no século das oportunidades, pode ser transformado por nós no século da responsabilidade, para que façamos aquilo que não sabíamos fazer algum tempo atrás. Eu tenho dito publicamente: a relação que o Brasil pretende ter no Mercosul, na América do Sul e na América Latina, nunca será uma relação de hegemonia, mas uma relação de parceria, onde prevalecerá a nossa relação democrática, o respeito à soberania de cada povo, mas, sobretudo, a certeza de que essa soberania estará subordinada à esperança que nós conseguimos produzir na cabeça de cada homem e de cada mulher dos nossos países de que o que estamos fazendo será melhor para o nosso povo.
Digo isso porque na próxima semana o presidente Tabaré estará recebendo o presidente Bush, e eu estarei almoçando com ele, em São Paulo. Certamente, o presidente Tabaré vai discutir os interesses do Uruguai com relação aos Estados Unidos, e eu, particularmente, quero discutir os problemas dos biocombustíveis com o presidente Bush. A relação do Mercosul não impede que isso aconteça. É preciso que cada país cuide de seus interesses, levando em conta que nós temos regras que nos obrigam, enquanto Mercosul, a ter determinado procedimento, mas sem tolher a liberdade de cada país de fazer os negócios de acordo com os interesses soberanos desse país.
É assim que o Brasil negocia com a China, é assim que o Brasil negocia com a União Européia, é assim que o Brasil negocia com os Estados Unidos, é assim que o Brasil negocia com o Uruguai e o Uruguai negocia com o Brasil. Essa soberania, para ser mantida, tem que ser imbuída de uma coisa extraordinária, que é a nossa relação democrática, a nossa relação política e, sobretudo, a nossa relação cultural.
Saio daqui, companheiro presidente Tabaré, convicto de que, nestes próximos quatro anos, como presidente do Brasil, irei contribuir muito mais do que contribuí nos quatro anos que passaram, porque já sei onde estão os defeitos das nossas relações internacionais, já sei onde as coisas andam e onde as coisas não andam e, por isso, acho que vamos ter muito mais facilidade. Inclusive, para fazer com que o Congresso uruguaio, o Congresso brasileiro e o Congresso de todos os países que compõem o Mercosul levem em conta que precisam tratar as questões internacionais diferentemente das disputas internas que temos com os projetos nacionais.
O presidente Tabaré sabe que um exemplo que estou dando é a ponte do rio Jaguarão, que já estamos discutindo há muito tempo e que precisa passar ainda pelo Congresso uruguaio e pelo Congresso brasileiro. Cabe a nós dois convencermos os nossos congressistas de que essa ponte é extremamente importante para o futuro promissor da relação entre Uruguai e Brasil. Sabe o presidente Tabaré do nosso interesse de que o Uruguai entre, de uma vez por todas, na política do biocombustível. Eu estou convencido, Tabaré, de que nos próximos 15 ou 20 anos, o mundo inteiro estará tendo mudança na sua matriz energética. E eu penso que o biocombustível para América do Sul e para América Latina é uma coisa extraordinária, sobretudo para ajudar os pequenos e médios produtores dos nossos países.
Mas não falo isso porque acho que somos países agrícolas, penso o mesmo para a TV digital. É por isso que, quando fizemos o acordo com os japoneses, nós colocamos no acordo a necessidade de uma fábrica de semi-condutores no Brasil, para que a gente pudesse partilhar a construção do processo de TV digital com os países que compõem o Mercosul, porque só assim a gente vai fazer com que essa relação seja mais justa, mais igualitária e todos possam usufruir do sucesso que nós obtivermos.
Meus agradecimentos pela oportunidade de conhecer este belo espaço e saber que esta Casa foi doada por um cidadão argentino que aqui veio morar e que, antes de morrer, doou a casa para o governo do Uruguai. Eu, sinceramente, gostaria de ter uma Anchorena no Brasil, que alguém fizesse uma doação desta para que o presidente do meu país pudesse descansar. Fomos tratados aqui com um carinho excepcional e eu espero um dia poder retribuir, quando fizermos outro acordo no Brasil. Nunca vou te oferecer uma casa como esta. No máximo, o conforto e o aconchego da Granja do Torto ou do Palácio do Alvorada, no máximo isso. Mas pode ficar certo de que o meu carinho e o da minha mulher, do povo brasileiro e dos meus ministros será o mesmo que nós recebemos aqui.
Meus parabéns e muito obrigado.

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