Teoria e História no estudo das Relações Internacionais

No último número do periódico International Affairs, há um artigo de resenha muito importante para os interessados na interação da teoria e história na análise das relações internacionais. A referência é de autoria de Ian Hall e é uma resenha dos livros de Niall Ferguson, Paul Kennedy e Marc Trachtenberg.

Antes de comentar o artigo de resenha, devo salientar que não li os dois primeiros, mas o trabalho de Trachtenberg é primoroso. O autor procurou desenhar um guia prático para os que desejam estudar a política internacional utilizando uma abordagem histórica – voltado principalmente para os que atuam na área de ciência política. Começando nos métodos de análise de fontes, o autor vai evoluindo até as considerações sobre a redação do trabalho final de pesquisa. Para os leitores brasileiros, o texto pode parecer um pouco complicado, notadamente pelo autor colocar sua própria experiência de pesquisa sobre a entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial para exemplificar seus métodos interpretativos – é necessária, ao meu ver, alguma noção sobre a historiografia do período para aproveitar as lições do autor.

Não gostei do retrato do ensino de metodologia da área de história desenhado no primeiro capítulo. Afirmar que os historiadores quase não possuem treinamento metodológico formal e são enfeitiçados por um culto às fontes é uma caricatura que deixa muito a desejar, considerando o estágio metodológico contemporâneo da área. O saldo do livro, no entanto, é altamente positivo: o autor conseguiu trazer ensinamentos de mais de quinze anos de ensino de métodos para um nicho relevante e particularmente cedento por orientação.

Voltando para a resenha, acredito que as avaliações sobre os livros, em si, pouco acrescentam para os que desejam se inteirar do diálogo entre história e teoria das relações internacionais. As duas primeiras seções e a conclusão, contudo, guardam gratas surpresas: trazem uma boa revisão das idéias da escola inglesa (principalmente Martin Wight), comparando-as com o trabalho de Trachtenberg. Essa ponte traz uma visão muito bem articulada de como está ocorrendo uma mudança de um quadro de rivalidade e desconfiança para a construção de um sistema mais sofisticado de colaboração entre os dois campos. É, portanto, mais um passo em um caminho virtuoso para a derrubada de barreiras bizantinas e desnecessárias entre essas duas áreas. Para os interessados em aprofundar a discussão do tema, o volume dos Elmans de 2001 é um importante capítulo dessa produtiva interação.

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