A Revolução Democrata? As Opções Táticas Neocons: O Esvaziamento da “Terceira Onda”, por Cristina Soreanu Pecequilo

O primeiro grande erro foi justamente a não correção de rumos do Iraque e a negativa em negociar soluções possíveis para estabilizar o país, à medida que o DOD encabeçado por Rumsfeld considerava que o cenário estava perfeitamente sobre controle. O acúmulo de mortes e tensões que era percebido pelo público não foi reconhecido pela Casa Branca que apenas buscou uma aceleração das eleições e mudanças de governo no Iraque, mesmo que sem lideranças com legitimidade localmente ou controle militar pleno da situação. A associação entre Iraque e Vietnã como situações de atoleiro intensificou-se, levando à perda de popularidade de Bush e ao distanciamento do eleitorado (nem mesmo a recente condenação de Saddam Hussein à morte aumentou a popularidade republicana). O segundo erro refere-se às novas leis de imigração que estavam sendo discutidas nos EUA e à construção do Muro (cerca) separando a fronteira do país com o México como forma de conter o fluxo de ilegais.

Com relação às leis de imigração, as mais duras propunham não só a deportação dos imigrantes ilegais, como a sua criminalização, o que provocou a convocação de marchas e greves por direitos civis. Diante destes protestos, as leis foram retiradas da pauta, justamente para não prejudicar as pretensões eleitorais em Novembro, mas o mesmo não aconteceu com o Muro, com Bush recentemente aprovando sua construção. Os republicanos perderam a chance de solidificar seus avanços no campo hispânico, no qual vinham conquistando relevante capital político, levando esta população a voltar aos democratas (a população hispânica é a que mais cresce nos EUA e pode tornar-se majoritária na próxima década). Por fim, o terceiro erro tático foi a subestimação de alguns fatores fundamentais: ignorar o impacto que escândalos de natureza sexual e de corrupção estavam tendo na base neoconservadora mais à direita (que já apresentava desconfianças com relação a Bush pois ele não estaria promovendo as mudanças sociais e legais desejadas mais rapidamente, com alguns o chamando de um “falso neocon”), o desgaste do público em geral e a retomada da ofensiva dos moderados, tanto republicanos quanto democratas, enquanto os neocons consideravam o pleito como ganho. Como já mencionado. apesar de se consistir mais em críticas a Bush do que em propostas, esta ofensiva foi capaz de levar os democratas à vitória e permitir que os moderados republicanos passassem a ter influência na atual administração. Mesmo assim, anunciou-se o nascimento da revolução democrata. Mais uma Onda? As Perspectivas 2006/2008 Aceitando a derrota de seu partido e o renovado quadro político, Bush recebeu Nancy Pelosi, futura líder da maioria na Câmara, reafirmando a importância da construção de uma América bipartidária. Em um ato que pode ser visto tanto como uma disposição por ajustes como uma tentativa de preservar espaços, foi indicada a rápida e imediata renúncia de Donald Rumsfeld. Rumsfeld, cuja saída já vinha sendo pedida desde 2004, e era considerado como um dos membros menos populares da administração, diretamente responsável pelo fracasso no Iraque, foi substituído por Robert Gates. Gates, ex-diretor da CIA de 1991/93, na presidência Bush pai, revela a retomada de espaço citada acima dos republicanos moderados (nomes como James Baker e Brzezinski já vinham se mostrando ativos na discussão de propostas para a resolução do problema iraquiano). Adicionalmente, estes republicanos moderados são acompanhados por democratas que buscam o estabelecimento do consenso bipartidário, e dentro de seu partido, uma agenda mais equilibrada e de novas propostas que recupere o terreno perdido e crie uma nova identidade. Levando em consideração este elemento percebe-se, portanto, que talvez a suposta revolução democrata de 2006 não seja algo concreto. Na realidade, foi dada a oportunidade aos democratas para que construam esta revolução e a sua realização ou não dependerá da maneira como o partido efetivamente se reorganizar diante dos desafios estratégicos, econômicos e sociais dos EUA. Desta capacidade dependerá, inclusive, a sustentação de pretensões para 2008, cuja corrida presidencial já apresenta uma aceleração. No lado democrata, Hillary Clinton, Barack Obama e John Edwards buscam seu espaço, uma mulher (e ex-primeira dama), um negro e um representante do Sul pobre, no republicano, John McCain e Rudi Giuliani destacam-se, com Rice perdendo espaço. Porém, 2007 será o ano definidor de todas estas pretensões: Irã, Coréia do Norte, o Iraque guiarão a agenda, enquanto que moderados e neocons continuarão se chocando nos temas sociais e morais. E, quanto ao Iraque, a saída ideal seria caminhar no sentido da “iraquização” do conflito, ou seja, uma sinalização de retirada das tropas norte-americanas, amparadas pelo fortalecimento das forças políticas e de segurança locais, promovendo a reaproximação dos EUA com seus aliados e com os países muçulmanos (ver Brzezinski, 2006, e sua estratégia de quatro pontos para o Iraque. Entrevista a National Public Radio em 10 de Julho de 2007, transcrita pelo site www.democracyrising.us). Mas, como dita a prudência e a experiência, nem sempre as opções de equilíbrio e consenso são escolhidas em momentos de disputas políticas acirradas. Não é possível descartar, por exemplo, que os democratas e republicanos moderados não fechem posições, ou que ambos levem a presidência Bush a situações de perda de governabilidade e paralisia. Em 1994, este foi o caminho de Gingrich contra Clinton, em 2004, esta foi a premissa de Bush, ao afastar-se ainda mais dos críticos e fortalecer seu círculo, o que levou à presente derrota. Tenso, o ambiente político, fornece aos democratas (e mesmo aos republicanos) estas duas opções, e a chance de renovar-se e atualizar-se. Mais do que a nação das revoluções, a América é, hoje, o país das oscilações.

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