Primeiro, companheiro Evo, quero dizer que o fato de fazermos uma reunião de presidentes numa região do interior do país não só é gratificante pela divulgação da região do país mas, sobretudo, porque a aprendemos com isso e o povo do interior, muitas vezes, é mais carinhoso que o das grandes cidades. Penso que o carinho que todos recebemos aqui, em Cochabamba, foi uma demonstração de que, embora o povo boliviano tenha suas necessidades, sofra os seus problemas sociais, a amizade e o respeito que eles demonstraram ontem à noite, por todos os presidentes e pelo encontro aqui comprovam que a integração já está na cabeça da gente de Cochabamba.
Segundo, quero me dirigir a todos os presidentes aqui, lamentando que Tabaré tenha viajado e que Alan Garcia já tenha saído. De vez em quando vejo recaída nas nossas reuniões. De vez em quando vejo que ficamos desesperados porque as coisas não acontecem. Isso acontece com cada dirigente político todo dia no seu país. Tenho certeza que tem dia que cada um de nós levanta, fica se perguntando por que somos presidente? Está tudo muito difícil, está tudo muito complicado. E depois a gente, no dia-a-dia vai percebendo a importância das coisas que estamos fazendo.
Primeiro, reconheço a inquietude que todos nós temos; e alguns países de menor poder de desenvolvimento têm que ter mais angústia. E, portanto, penso que é importante que todas as vezes que nos reunamos, os presidentes possam dizer claramente o que estão pensando. Aliás, o espaço é para isso mesmo. Agora, o fato de nós querermos mais, o fato de nós termos mais ambição não nos obriga a negar os avanços que nós temos. Seria de todo muito mal se a gente achasse que apenas as coisas boas que vão acontecer são as coisas do futuro. E a gente não perceber que há avanços no cotidiano da nossa relação.
Há pouco tempo, o presidente da Bolívia não conversava com o presidente do Chile. Eu lembro que um dia juntei o presidente da Bolívia e o presidente do Chile e falei: não é possível que vocês estejam “peleando” por um problema do século XIX e não estejam pensando no século XXI.
Há pouco tempo, teve um problema entre Peru e Chile, por um pedaço do mar, um triângulo na divisa do Chile e Peru. E eu dizia aos companheiros, ainda Lagos presidente, e ainda o Toledo presidente, que não era possível que a gente transformasse essas divergências numa verdadeira declaração de guerra, porque partia do Congresso Nacional, quando a gente deveria, da forma mais civilizada possível, encontrar uma solução. E as soluções são difíceis, elas são difíceis numa simples greve de trabalhadores numa fábrica, elas são difíceis numa simples greve de funcionários públicos com o governo, elas são difíceis num movimento social quando ocupa uma terra, quando ocupa um bairro, o fato é que nós temos que ter a paciência de tentar solucionar esses problemas com muita delicadeza.
Vejam, ontem, eu e o Chávez conversávamos sobre o problema da Argentina e Uruguai. O problema das papeleiras. Para mim, que estou no Brasil, é um problema fácil de solução. Para o Chávez, que está na Venezuela, é um problema fácil de solução. Mas, na prática, ele não é fácil, tem um componente que já extrapolou a política e somente com muita paciência e muita maturidade nós vamos chegar a um acordo sobre aquilo ali. Agora, esse tema foi proibido de discutir na mesa porque nós sempre queremos respeitar a sensibilidade de cada um.
E, mesmo assim, eu vejo de vez em quando no jornal: “Kirchner acaba de fazer um acordo com Evo Morales para aumentar o preço do gás.” Aí, no dia seguinte: “Índios da Bolívia fecham o gás que vai para a Argentina.” A imprensa vende aquilo como se fosse uma verdadeira guerra, quando, na verdade, certamente um telefonema entre os dois presidentes resolvesse o problema. E temos que fazê-lo sem massacrar os índios que fecharam. Temos que fazê-lo da forma mais sensível possível, sem criar animosidade com aqueles que estão fazendo esse movimento, porque estão querendo defender os seus direitos.
Eu atravessei uma fase muito difícil com a Bolívia, e o Evo sabe disso, porque à direita brasileira e à imprensa brasileira só faltava pedir que eu declarasse guerra à Bolívia. Entretanto, em todo o período, inclusive em época eleitoral, eu jamais deixei de defender a razão de a Bolívia ser dona do seu gás, ser dona das suas riquezas minerais, nunca. E vou continuar fazendo porque eu acho que é isso que deve acontecer nos países que vão conquistando governos mais democráticos, governos mais comprometidos na área social, e governos que tenham orgulho de defender a soberania de seu país.
Quantas vezes eu levantei de manhã e tinha manchete: “Brasil e Argentina divergem”, “Kirchner proíbe importação de tal produto”. Eu nunca dei uma declaração contestando a Kirchner. Eu dizia: a Argentina tem razão, porque a Argentina precisa se industrializar. O seu parque industrial foi demolido em tantos anos, que agora precisa se industrializar. E assim a nossa experiência com cada país, com cada companheiro, nas divergências que nós temos, nas angústias que nós temos. Agora, pensem uma coisa, o que eram as relações políticas na América do Sul há dez anos? Há dez anos, na América do Sul, a coisa mais importante era saber quem era mais amigo do Presidente dos Estados Unidos. Era saber se era Menem ou se era Fernando Henrique Cardoso que ia ser convidado, para ir para aonde mesmo? Para Camp David. Era saber quem recebia mais títulos “Dr. Honoris Causa”. Não tinha grandes divergências. Tinha o Ministro da Fazenda da Argentina que achava que era melhor do que o do Brasil; o do Brasil que achava que era melhor do que o da Argentina e cada um ficava brigando quem controlava mais a inflação.
Agora, vamos ver o que aconteceu na América Latina e na América do Sul nesses dez anos. Primeiro, Chávez eleito presidente da Venezuela. Dois anos depois tomou um golpe pela cabeça; depois, o Brasil me elege. Depois a Argentina elege Kircnher; depois o Paraguai elege Nicanor; depois eu conheci Uribe; depois elegemos outros presidentes. O Lucio Gutiérrez no Equador, naquele momento, era um homem que vinha de um movimento social. Agora temos Rafael Correa, temos o Daniel Ortega, temos a eleição do Peru com Alan Garcia, o Uribe está reeleito. Nós temos tudo para lamentar que não estamos fazendo tudo o que precisamos fazer e o que podemos fazer. Temos tudo para lamentar, mas temos o direito de reconhecer que nós construímos um novo patamar político neste continente. Nós temos que reconhecer. E não podemos negar as coisas que nós já fizemos.
Por exemplo, meu companheiro Alan Garcia não está aqui. Eu posso ter crítica a isso, mas eu não posso negar isso e dizer que a educação é a solução de tudo. Porque até para as pessoas estudarem precisa de rua, de estrada, precisa de transporte; ou seja, eu preciso fazer as duas coisas. Eu preciso fazer a infra-estrutura de energia, eu preciso fazer a infra-estrutura de “carretera”, fazer as pontes que temos que fazer e tem que cuidar da educação. Uma coisa não nega a outra. Não é possível.
Eu acho que não é a primeira vez que eu participo de uma reunião que o clima está para baixo. Eu quero dizer para vocês que eu continuo acreditando que nós não temos saída se não fizermos a integração política, física, cultural, educacional, de saúde da América do Sul. Não tenho nenhuma dúvida disso. Nós vivemos o século passado inteiro dependendo da compra que os Estados Unidos faziam ou da União Européia. O século inteiro, não foi um dia, foram 100 anos. Nós agora estamos apenas há seis anos no novo século. Ou seja, se você imaginar que o Chávez é o presidente mais antigo do nosso grupo, agora, e tem oito anos, e que eu sou o segundo mais velho do nosso grupo e tenho apenas quatro anos. Quatro anos, num processo histórico, não é nada. Eu não quero tirar o direito de as pessoas ficarem angustiadas; é importante que fiquem, é importante que demonstrem de vez em quando a sua indignação com a demora, com a morosidade das coisas. Mas eu não aceito, em hipótese alguma, a negação das coisas que nós já fizemos.
E sabem os meus companheiros aqui, Nicanor, que eu viajo com ele, converso muito com ele e o Chávez, e de vez em quando eu sou angustiado. De vez em quando sou eu que estou angustiado, de vez em quando sou eu que estou criticando tudo e todos. De vez em quando eu digo ao Celso que não vou mais participar de reunião, porque eu prefiro ficar em casa a vir a uma reunião. Agora, eu não tenho o direito, enquanto presidente de um país, de faltar a uma reunião, que se não der nenhum fruto, só o fato de eu conviver por pouco tempo com vocês já valeu a pena a reunião, porque isso é fazer política, isso é integração.
Vejam o que aconteceu ontem. Todo mundo imaginava que poderia ter uma guerra entre Venezuela e Peru por causa das declarações na época eleitoral. O que aconteceu? Se não fosse essa reunião, Chávez e Alan García não teriam estabelecido esse diálogo, porque isso não se faz por telefone, isso se faz pessoalmente quando a gente tem oportunidade de conversar. E nós sabemos que o contato político é imprescindível. Não existe política sem contato pessoal.
Então, eu queria dizer para os companheiros o seguinte: eu penso que esta reunião de hoje nos leva a uma reflexão um pouco mais profunda do que fizemos até agora e acho que é normal que façamos uma reflexão do que fizemos até agora e do que podemos fazer daqui para a frente.
Para isso, eu concordo com a proposta do Alan Garcia: vamos estabelecer temas, vamos estabelecer que um presidente assuma o compromisso de fazer uma proposta sobre energia, um presidente assuma de fazer uma proposta sobre educação, um outro sobre comércio, e veja, nós não podemos negar que no fundo, no fundo, o resultado de tudo isso é facilitar o crescimento das nossas economias, aumentando o comércio entre nós, ou, entre nós e outros parceiros que não estão aqui, entre o mundo asiático, entre os Estados Unidos ou a Europa. No fundo, no fundo, é isso. Ou o Chávez vende o petróleo dele aqui, ou vende para os Estados Unidos, ou vende para a Ásia ou para a Europa. Ou o Brasil vende a sua soja aqui, ou vende para a Europa ou Ásia, ou não tem comércio. Não tendo comércio não vai ter o crescimento econômico que nós queremos. Esse é um dado concreto e nós não podemos negar.
Então, eu queria fazer uma sugestão: nós estudaríamos fazer, quem sabe, quando tivermos a reunião de energia, que poderemos marcar, ou quem sabe quando for ter a reunião do Mercosul, dia 18 de janeiro. Quem sabe a gente convocasse os presidentes meio dia antes, fora da pauta normal, para que só os presidentes fizessem uma reflexão política do que nós desejamos para o futuro imediato. Meio dia, não precisa mais. Cada companheiro “solito”, sem imprensa, sem ninguém, se a gente pudesse desabafar entre nós o que acontece. Nós participamos da reunião e depois não gostamos dela. Nós decidimos e depois não gostamos. E, muitas vezes, como eu, acusamos a burocracia, mas sem a burocracia nós não chegaríamos sequer a fazer uma reunião como essa. Esse é um dado concreto. E respeitando as coisas de cada país. Cada país tem sua constituição, tem sua legislação, tem suas regras internas. O Brasil tem regras muito mais para impedir do que para ajudar. Então, é preciso tentar mudar.
Uma vez me ligou o presidente do Senegal pedindo um avião para acabar com uma praga de gafanhotos. A praga de gafanhotos já estava próxima, mil ou algumas centenas de quilômetros, e ele precisava do avião. Eu achei que era simples, que era só mandar um avião. Sabe o que aconteceu? Eu pude mandar quatro meses depois, porque teve que passar pelo Congresso Nacional. E como não tinha praga de gafanhoto na fazenda dos senadores, dos congressistas, eles não estavam com o problema que estava o presidente do Senegal. Levou quatro meses.
Eu estou dizendo isso, companheiros, porque eu acho que nós temos que sair dessa reunião com os nossos sentimentos próprios do jeito que a gente quiser sair, mas nós temos que sair dessa reunião com uma cara política para fora. Temos que sair com uma cara para fora. E a cara para fora, meus companheiros Michele, Chávez, Nicanor, a cara para fora é a gente valorizar o trabalho que os companheiros fizeram, aprovar as propostas do documento. E Evo Morales dá uma declaração para a imprensa, dizendo que isso aqui foi o que nós pudemos construir. E vamos construir diferente nas próximas vezes. Vamos nós, presidentes, definir o que nós queremos que nossos assessores trabalhem.
Eu quero dizer que eu acho que a comissão de reflexão fez um trabalho profundo. Obviamente, pode ter faltado um ou outro tema, mas também não é a primeira vez na vida que nós participamos de uma reunião onde um documento não contempla todos os assuntos. Mas eu queria que essa reunião terminasse bem e não que saiamos de uma reunião com a impressão de que tivemos mais divergência do que convergências, que apareçam para a opinião pública apenas as divergências. Não tenho dúvida de que alguns de nós retratam nesta reunião os problemas que a gente vive no nosso país. Eu sei como é que a imprensa de cada país trata as nossas reuniões, eu sei como é que a imprensa de cada país trata as relações bilaterais, trata o Mercosul. E nós não podemos ceder a essa pressão.
Não se fala mais em Alca. Por quê? Porque fomos eleitos. E porque criamos alternativas que precisam ser melhoradas, aperfeiçoadas. Se o Nicanor tivesse acesso aos meus discursos dentro do governo, ele iria perceber que eu sou tão defensor do Paraguai quanto ele. Não imagina o que é a loucura. E é uma tarefa. Eu tenho mais quatro anos de mandato e digo ao Celso Amorim que temos que mudar as coisas nesses próximos quatro anos. Por isso que ontem à noite eu disse que Chávez tem reeleição, eu tenho reeleição, o Uribe tem reeleição, daqui a pouco a Argentina tem reeleição, daqui a pouco a gente vai ter no Paraguai, mas eu não quero no segundo mandato sofrer todas as angústias que eu sofri no primeiro. Eu quero que as coisas andem com maior rapidez. A partir das nossas reuniões.
Por isso, Evo, eu quero, meu irmão, agradecer. Você sabe que eu estou com um problema sério nos aeroportos brasileiros, um movimento “operação padrão” dos nossos controladores nos aeroportos que já dura uns 60 dias, e eu necessito, quem sabe, ter uma reunião, hoje à noite, com o Comando, para ver como resolvemos isso, porque as pessoas estão ficando quatro horas nos aeroportos para poder embarcar num vôo.
Muito obrigado, Evo, e felicidades pela organização e pelo tratamento carinhoso que nos foi dado nesta reunião.

09/12/2006



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