Eu queria dizer para vocês que esta reunião da Cúpula América do Sul e África é mais uma coisa que eu considero histórica nas nossas relações internacionais. Foi assim com a criação do G-4, foi assim com a criação do IBAS, foi assim com a criação do G-20, foi assim com a criação da Comunidade Latino-Americana de Nações, e é assim agora com a criação dessa aliança entre países sul-americanos e africanos. E foi assim com o encontro entre o Brasil e os Países Árabes.
Assim, se nós formos analisar do ponto de vista simplesmente comercial, nós vamos perceber que, depois de nossa viagem, nossas nações, em alguns casos, triplicaram, em outros casos, duplicaram, e aqui, na África, foi 110% de incremento que aconteceu nas nossas relações comerciais. Mas, como nós não estamos pensando apenas nisso, nós estamos pensando que é preciso que os países do terceiro mundo, os países em desenvolvimento e os países pobres, estabeleçam entre si regras de relacionamento que possam permitir que cada um descubra o potencial de coisas que nós poderemos fazer juntos, de coisas que nós poderemos comercializar, da nossa afinidade cultural, da nossa afinidade política, mas, sobretudo, uma coisa que eu considero extremamente importante, que é a gente descobrir que, por mais pobre que seja um país, ele tem potencial de vender alguma coisa, de comprar alguma coisa.
Os países maiores do nosso Continente precisam aprender a ver aquilo que os países europeus fizeram na década de 50, o que os Estados Unidos fazem há um século com os países pobres – política de investimentos, política de implantação de acordos científico-tecnológicos –, para que os países possam se desenvolver. Quanto mais eles se desenvolverem, mais serão países industrializados, mais serão países consumidores, e você cria uma dinâmica no comércio internacional, onde, efetivamente, todos possam participar.
No caso da África, o Brasil está implantando um centro da Embrapa, em Gana, para que a gente possa trazer para o continente Africano aquilo que foi o conhecimento tecnológico que levou à revolução da agricultura brasileira nos anos 70, nos 80 e nos anos 90.
E mais ainda. Eu, toda vez que falo no biodiesel, vocês sabem que eu sou um apaixonado pelo biodiesel, porque eu acho que será a matriz energética do século XXI, e ela pode gerar os milhões de empregos que nós precisamos, pode dinamizar a agricultura de vários países, e pode criar a independência e a soberania de vários países. Toda vez que eu penso no biodiesel, eu penso na África. Eu não penso apenas no semi-árido nordestino, não penso apenas no Vale do Jequitinhonha, não penso apenas na soberania energética do Brasil, eu penso também nos países africanos que, durante séculos, em um primeiro momento serviram os países ricos, e o Brasil foi um beneficiário disso, de escravos, de trabalho escravo. Depois, serviram de seus minérios, de suas pedras preciosas, do seu petróleo.
E eu penso que o biodiesel é a possibilidade dos países ricos terem uma relação igual, mais justa, com os países africanos, em que eles podem produzir as oleaginosas, eles podem fazer o primeiro óleo bruto dentro de cada país, que pode ser refinado dentro da África ou no país que vai consumi-lo. É uma coisa extraordinária, do ponto de vista de criar oportunidades para que os países pobres tenham chance. Se vocês atentarem, para cada trabalhador que trabalha numa fábrica de transesterificação, ou seja, numa fábrica que vai transformar a oleaginosa em óleo combustível, você vai perceber o quê? Vai perceber que, para cada trabalhador na fábrica, precisa de mil no campo. Se você imaginar que no Brasil, em apenas dois anos, nós já conseguimos contratar 220 mil famílias que estão produzindo girassol, que estão produzindo mamonas, que estão produzindo soja, que estão produzindo pinhão manso, que estão produzindo algodão, imagina o potencial de desenvolvimento que isso pode trazer ao mundo africano.
Eu, na semana passada, fui a uma festa dos 50 anos da Mercedes-Benz. Lá eu conversava com a direção da Mercedes-Benz sobre a necessidade de que a Mercedes-Benz possa, com a tecnologia que ela tem, produzir motor 100% biodiesel. Ou seja, por quê? Porque esse motor tanto pode ser utilizado nos países que podem produzir biodiesel, como o motor mundial pode continuar a ser utilizado no mercado que precisa utilizar o óleo diesel.
Se não bastasse isso, a Petrobras fez um pouquinho mais que o biodiesel, ela fez o H-Bio, que é a mistura direta do óleo vegetal ao óleo diesel, refinado diretamente da refinaria, que dá um óleo diesel sem enxofre, que é o que o mundo inteiro precisa para despoluir.
Então, quando eu venho a uma reunião como esta e consigo juntar, a convite do presidente Obasanjo, esta quantidade de presidentes africanos, eu saio convencido de que nós estamos dando um passo importante, um passo que pode levar cinco anos, pode levar dez anos, pode levar cinqüenta. As coisas demoram, quando se trata de política internacional. Vejam que a União Européia ficou trinta anos para tentar chegar ao ponto que chegou, e ainda tem problemas sérios, e isso vai se resolvendo com o tempo.
Eu penso que o que o Brasil fez com o Oriente Médio, o que o Brasil fez com a América do Sul e o que o Brasil está fazendo com a África é uma demonstração inequívoca de que nós poderemos mudar a geografia comercial do mundo, na medida em que sejamos ousados, na medida em que tenhamos propostas, na medida em que queiramos construir parcerias além daquelas que, historicamente, nós construímos.
Ou seja, obviamente que todo mundo quer vender para os Estados Unidos, ou todo mundo quer vender para a Europa, para os países mais ricos ou para o Japão. Acontece que o potencial de compras desses países também tem limitação, eles também têm que produzir, também têm que vender. Então, o que nós precisamos, é brigar para criar outros mercados potenciais, que vão comprar dos europeus, que vão comprar dos Estados Unidos, mas que vão, entre si, fazer as trocas comerciais, que podem fazer a diferença dentro das necessidades econômicas de cada país.
Bem, além dessa questão da agricultura, eu acho que o Brasil pode dar uma contribuição inestimável aos países mais pobres. Nós somos um país que exporta tecnologia de ponta, como os aviões, por exemplo, da Embraer. Temos tentado convencer as pessoas de que o avião da Embraer é muito importante, inclusive aqui, na Nigéria. Estive na Argélia, que está precisando comprar avião. Se vocês andarem por vários países da África, vocês vão encontrar ônibus da Marcopolo desfilando pelas estradas existente nesses países E mais ainda, vocês vão perceber que nós poderemos, não apenas ensinar aquilo que nós aprendemos do ponto de vista tecnológico, colocar mais tecnologia, como nós poderemos vender parte dos alimentos que o Brasil produz. Eu vou dar um exemplo para vocês: quando os Estados Unidos resolveram aumentar a produção do etanol e utilizar o milho como matriz para produzir etanol, o que aconteceu? Eles tiraram alguns milhões de toneladas de milho do mercado. Isso fez com que outros países que produzem milho já estejam, como o caso de alguns produtores do Brasil, vendendo o milho que vão plantar em 2008, ou seja, não é nem o que plantou em 2006, nem o que vai plantar agora em 2007, é o que eles vão plantar em 2008, ou seja, vendendo, fazendo “hedge” e, portanto, garantindo a tranqüilidade da sua produção de milho. Isso pode acontecer com o equilíbrio que o biodiesel pode criar na agricultura mundial, que é garantir que na hora em que você tenha déficit de produção, você utilize determinadas oleaginosas na produção de biodiesel, sem precisar colocá-las no mercado a um preço que não importa ao produtor.
Aconteceu, mais ou menos, com o que aconteceu com o álcool no Brasil. Todo mundo sabe que o álcool no Brasil aconteceu por acaso, ou seja, nós vendemos muito açúcar, o açúcar estava mil e 200 dólares no mercado internacional e, de repente, o açúcar despenca e todo mundo tinha plantado cana, o que vai fazer? Toca álcool. Um programa que agora se auto-definiu com políticas públicas corretas, com políticas industriais corretas, na medida em que quase 75% dos carros vendidos no mercado interno são flexil, em que as pessoas podem utilizar qualquer tipo de combustível, seja álcool ou seja gasolina.
Bem, nós achamos que esta é a oportunidade, uma das grandes oportunidades para o continente africano, ou seja, é a necessidade da geração de empregos e da produção de coisas que possam garantir uma melhoria da qualidade de vida. Eu digo sempre para todos os dirigentes da América Latina e da África que encontro, que nós precisamos sempre olhar o século XX para a gente medir o que deu certo, o que não deu certo, para que a gente faça algo diferente no século XXI, para que a gente possa pensar alguma mais estruturante, e não aquelas políticas voluntaristas. De repente, um país rico cria uma política de incentivo à compra do remédio tal, que tem uma continuação até o presidente estar no mandato. Quando ele sai, como não é política de Estado, acabou. Então, nós precisamos criar políticas estruturantes que sejam definitivas, que independam de quem esteja na presidência da República dos países, que possam fazer com que o continente Africano tenha no século XXI as oportunidades que ele não teve no século XX, no século XIX, no século XVIII e no século XVII. Então, a minha gratificação de poder ter participado desta reunião é exatamente essa.

30/11/2006



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