A Vitória Democrata e a Política Externa Americana, por Gunther Rudzit

2006 Novembro 29

A vitória do partido democrata nas eleições parlamentares de meio de mandato, no início de novembro, muda o jogo na política americana. A conquista da maioria na câmara dos deputados já era mais do que esperada, mas a vitória também no senado, na qual os republicanos perderam seis cadeiras, indica uma derrota gigantesca e histórica por parte dos conservadores. Contudo, não se pode dizer que foi uma vitória dos Democratas, mas sim, mais um referendo das políticas adotadas pela administração George W. Bush, já que muitos candidatos do atual partido de oposição fizeram campanhas com propostas muito próximas as dos conservadores, enquanto que muitos republicanos se afastaram do presidente para não se prejudicar eleitoralmente. No entanto, o mais importante é avaliarmos quais os impactos que poderão ocorrer na política externa norte-americana.

O papel do Congresso dos Estados Unidos não está limitado às leis, ele é fundamental na definição do orçamento. Assim, o poder que os democratas conquistaram, está ligado muito mais a assuntos internos do que externos, e mesmo nesse caso, por pressão indireta que eles poderão exercer sobre o executivo. No que se refere às políticas internas, os democratas têm uma grande lista de visões opostas às dos republicanos, como controle da natalidade, pesquisa com células-tronco e aumento do salário mínimo e, acima de tudo, as renúncias fiscais. Como o ano fiscal americano difere do ano calendário, somente quando o executivo enviar a nova proposta de orçamento é que as diferenças surgirão com mais força. Dentro desse debate, é quase certo que o partido democrata pressione por um orçamento equilibrado, o mesmo que o republicano fez com a administração de Bill Clinton. Com isso, o presidente Bush terá que defender publicamente suas idéias, fato que ele conseguiu evitar nos oito anos de maioria no legislativo, marcando o início da corrida presidencial que ocorrerá daqui a dois anos.
Ainda por essa lógica, os democratas devem conseguir influir indiretamente na política externa do atual governo. Como muito já se falou, o impacto mais direto será na provável não renovação do Trade Promotion Authority (TPA), já que dentro da “reciprocidade” aos anos Clinton, o Congresso democrata não deve dar autorização ao presidente para negociar livremente acordos comerciais. Com isso, a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) pode ser considerada finalmente morta, assim como o fim da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). Não somente pela percepção tradicional de que o partido democrata seja mais anti-livre comércio por ser ligado aos sindicatos de trabalhadores (mesmo que hoje os trabalhadores das indústrias representam ao redor de somente 11% da mão de obra total), mas também porque até os republicanos já estavam com posições menos pró-livre comércio. Além do mais, dos novos deputados, dezesseis democratas foram eleitos com plataformas contra o livre comércio e vão substituir republicanos que tinham posições opostas.
Mas o ponto que mais tem atraído debate sobre possível mudança na política externa é a guerra no Iraque. Este conflito virou um pesadelo político devido ao caos que tomou conta daquele país após o fim dos combates e, depois de três anos de ocupação, a situação só piorou, fazendo com que a comparação com o Vietnã surgisse. Essa comparação não é importante pelo número de soldados mortos, já que no conflito do sudeste asiático morreram ao redor de cinqüenta e oito mil americanos, e hoje ao redor de três mil. O impacto é pela realidade política, pois no conflito vietnamita ficou claro que não havia como conquistar uma vitória militar e, assim, a política teve que se render a essa realidade e, sob impacto da mudança na opinião pública, fazer a retirada dos soldados americanos. Assim, começa-se a admitir que não haverá como ganhar também no Iraque.
Na verdade, vitória militar até que poderia ser conseguida, mas a estrutura militar americana atual não conseguiria suprir essa demanda e nem apoio político haveria para essa opção. Analistas civis americanos defendem que para efetivar a ocupação do Iraque e estabilizar a situação, seriam necessários aproximadamente quinhentos mil soldados em campo, o que implicaria levar o exército americano ter outros quinhentos mil para fazer a rotação a fim de evitar a fadiga dos efetivos. Além disso, seriam necessários homens para cobrir os compromissos militares no resto do mundo, o que levaria o efetivo necessário chegar aos números do período da guerra fria. Assim, essa hipótese não é possível, política e militarmente, fazendo com que restem, hoje, duas opções para a administração Bush filho.
A primeira seria retirar as tropas o mais rápido possível, mas essa alternativa também não é viável. Este tipo de ação levaria o Iraque a mergulhar de vez na guerra civil étnica, o que traria impacto negativo não só ao governo norte-americano, como para toda a região, principalmente porque o Irã sairia fortalecido politicamente. Tanto que o primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Mailiki já afirmou à imprensa internacional que as tropas americanas ainda são necessárias, já que a polícia e o exército iraquianos ainda não estão suficientemente fortes e treinados para assumirem todas as tarefas de segurança.
A segunda opção é manter as tropas em solo iraquiano e buscar uma alternativa política. Propostas surgiram de um diálogo direto entre o governo americano e os governos sírio e iraniano. Essa idéia não deve prosperar, já que isso seria a admissão, por parte da administração Bush, de uma total derrota de sua política, e indiretamente, dar status de potência regional ao Irã. Além do mais, não há nenhum indicativo de que Teerã queira esse diálogo, já que hoje a situação está a seu favor. Recentemente o presidente americano instalou uma comissão interna de diversos departamentos, que trabalhará paralelamente ao Grupo de Estudos para o Iraque, mais conhecido como Comissão Baker-Hamilton, e que deverá apresentar propostas alternativas a fim de evitar a deterioração da situação iraquiana. Esta ação demonstra a intenção da administração Bush de buscar alternativas às dos democratas, e diminuir a pressão pela implementação das recomendações da comissão bipartidária que possam não ser do interesse governamental.
Assim, a saída mais provável para o presidente George W. Bush, e para os democratas, deve ser a busca de um novo primeiro-ministro iraquiano que peça a retirada das tropas americanas. Contudo, o timing para esse pedido novamente deverá opor os dois lados, já que para o presidente seria ótimo acontecer antes das eleições, enquanto que para os futuros candidatos democratas à presidência, só depois de 2008, afinal esse ainda deve ser um tema de campanha que enfraquecerá o atual ocupante da Casa Branca e seu partido.

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