Há pelo menos, meio século um grande e denso debate ronda as Ciências Humanas, em particular, e as Ciências, em geral: é o debate acerca das questões entre modernidade e pós-modernidade. De forma alguma é meu interesse entrar em seus complexos e infindáveis meandros. Eles são demasiadamente densos e dotados de tantas nuances que o espaço aqui disponível não conseguiria dar conta sequer de uma síntese. Meu objetivo é, portanto, apresentar como encaro tal debate, partindo, primeiro, da apresentação de minha visão acerca das noções de modernidade e de pós-modernidade e suas tensões e, segundo, da relação de seus dilemas históricos e epistemológicos com os problemas e desafios da disciplina de Relações Internacionais na contemporaneidade.
Antes de mais nada, temos de ter em mente que os problemas em torno dos quais gira aquele debate dizem respeito aos problemas referentes ao pensamento ocidental. Eles dizem respeito ao modo como os ocidentais interpretaram questões relativas a Deus, ao Homem, à Natureza, à Sociedade e à História, ao longo da história. O pensamento expresso em termos de modernidade e de pós-modernidade é, portanto, um pensamento de matriz essencialmente ocidental embora, de forma alguma, exclusivamente alimentado e direcionado aos dilemas desta civilização.
Partindo-se desta primeira ressalva, podemos compreender a modernidade como uma fase específica das perenes crises entre os campos de força da totalidade e da desagregação que permeiam o pensamento ocidental deste a Grécia Antiga. A partir dos séculos 12 e 13, devido, principalmente, ao desenvolvimento das universidades, os dogmas expressos na Idade Média começaram a ser gravemente questionados. Estes questionamentos aumentaram com o desenvolvimento da ciência e com a descoberta do Novo Mundo, pois abriram novos horizontes na imaginação européia como um todo. A partir deste movimento de emancipação da consciência do mundo, os europeus passaram a ver seu mundo e a si mesmos de forma mais complexa e rica; eles passaram a se ver como donos de seus destinos e donos de suas consciências; eles passaram a ver o mundo em sua infinitude. Este movimento secular do plano de imanência entrou em choque com as estruturas políticas e religiosas da época, desafiando as autoridades secularmente estabelecidas. A conseqüência deste choque entre o plano de imanência e da emancipação com o plano da transcendência e da ordem, gerou graves crises religiosas, políticas e culturais que podem ser percebidas na exacerbação da Inquisição durante e após a Reforma, no surgimento do Estado absolutista, na Guerra dos Trinta Anos. Ao final desta guerra, o plano de transcendência saiu vitorioso: as forças da ordem e da autoridade, do poder centralizado e dos dogmas religiosos se fortaleceram. As noções de soberania e sujeito que herdamos até hoje foram, em grande medida, cunhadas pelo pensamento desta época, notadamente nas obras de Thomas Hobbes e René Descartes. Mas o germe da imanência não estava morto.
Ao longo dos séculos 17 e 18, o Iluminismo reivindica a Razão e o poder do indivíduo. O Iluminismo coloca em cheque a autoridade e a ordem feudais personificadas nos Reis Absolutos. A partir do Iluminismo podemos perceber que o poder da consciência – derrotado na primeira fase da modernidade – volta à cena como um novo tipo de poder imanente e que reivindica para si o fundamento da Verdade. O Iluminismo, portanto, pode ser lido como uma fase de transcendentalização da imanência. Ao longo dos séculos 18 e 19, é a noção de razão herdada do Iluminismo que perpassa o fazer científico no pensamento ocidental. A partir da razão a humanidade poderia atingir o progresso e a felicidade eterna. Praticamente todas as ideologias deste período – desde o liberalismo até o marxismo, passando pelo anarquismo e o positivismo – são perpassadas por esta noção teleológica de que a partir da tomada de consciência individual e da busca racional por objetivos é possível se atingir o progresso e a felicidade.
Contudo, a Primeira Guerra Mundial viria a debilitar seriamente esta crença míope no progresso e na razão. Afinal: como europeus educados e autoproclamados donos da Verdade Universal puderam se jogar em tamanha carnificina entre 1914 e 18? A Primeira Guerra Mundial é, sem dúvida alguma, o mais fantástico marco do colapso da crença no espírito ocidental. O primeiro conflito mundial, portanto, já ocorre dentro do período que poderíamos interpretar como pós-moderno.
A pós-modernidade pode ser lida como a expressão mais contemporânea da intensa e perene luta entre aqueles mesmos dois campos de força que perpassam o pensamento ocidental: os planos de transcendência e de imanência, de positivação e de negativização. Na pós-modernidade, o plano de força transcendental (o plano de transcendência do imanente transcendente da modernidade iluminista) é paulatinamente posto em causa. Ele é relativizado e fragilizado a partir de mudanças radicais nas estruturas sócio-históricas e culturais a partir das décadas finais do século 19. A pós-modernidade pode ser notada nas considerações de Nietzsche, Freud, Heidegger e Kafka, entre tantos outros que destruíram e desconstruíram as fundações e as metanarrativas, sobre as quais se assentavam as certezas modernas. A fragilização das metanarrativas modernas não acontece apenas no plano do pensamento – como se este fosse independente da realidade material. Assim como na crise da modernidade, a crise que marca o início da pós-modernidade também acontece a partir de novas perspectivas intelectuais proporcionadas por novas tecnologias e novas descobertas. Tal é o caso da intensificação dos contatos de europeus com a África e a Ásia durante a fase imperialista proporcionados pelo telégrafo e o rádio. A grande imprensa já era capaz de produzir até mesmo três edições de jornais diários para um público ávido por informações rápidas e precisas, ao final do 19. Enfim, as noções de distância, de dentro e fora, estruturadas e fortalecidas ao longo da modernidade com os conceitos de soberania e fronteira se fragilizam decisivamente.
Assim como na crise da modernidade dos séculos 16 e 17 a Inquisição e o Absolutismo apareceram como reações radicais ao plano de imanência, na transição do 19 para o 20 os totalitarismos de direita e de esquerda surgiram como respostas à fragmentação do pensamento e à relativização das perspectivas como um todo. O hitlerismo e o stalinismo sendo suas expressões mais radicais.
A pós-modernidade assim compreendida aparece como um longo período de crise que se estende século 20 adentro entre aqueles planos de transcendência e de imanência. O século 20 pode, portanto, ser percebido como um século no qual o plano de imanência, o plano da consciência que desafia as autoridades, a rigidez e o estabelecimento de fronteiras, tende a superar o plano de transcendência. Contudo, o século 20 ainda veria mais uma forte expressão do plano de transcendência sobre o plano de imanência: a Guerra Fria. O período conhecido como Guerra Fria pode ser compreendido – no que diz respeito ao plano das idéias e das imaginações políticas e epistemológicas – como um período no qual as noções de soberania e de território voltaram com força total e invadiram as percepções de mundo de intelectuais e estadistas. Durante a Guerra Fria, pensamos o mundo dividido em dois pólos (capitalismo e comunismo); pensamos em inimigos territorializados em estados-nações (Estados Unidos e União Soviética); pensamos em soluções calcadas em verdades absolutas (liberalismo ou socialismo),e por aí adiante. A Guerra Fria foi, portanto, um período em que nossas imaginações políticas e epistemológicas foram tomadas por noções de soberania e de fronteira calcadas, em grande medida, pela modernidade transcendental. Ao final da Guerra Fria, nada mais normal que pensarmos que entrávamos num período pós-moderno, como muitos crêem. Na realidade, a pós-modernidade – se pensada em termos de idéias e das potencialidades da imaginação – já havia se apresentado. A Guerra Fria foi, tão somente, um interregno dramático que reviveu, também dramaticamente, formas de ver e interpretar o mundo já um tanto ultrapassadas.
Assim sendo, de que forma podemos, então, relacionar as questões que giram em torno do debate modernidade/pós-modernidade e os dilemas da disciplina de Relações Internacionais? Podemos relacionar aquele debate com os dilemas de nossa disciplina na medida em que a nossa disciplina está fundada sobre a principal noção em torno da qual gira não apenas aquele debate, mas boa parte do pensamento ocidental: a noção de soberania. A partir da noção de soberania moderna são estruturadas nossas noções de dentro e fora, de tempo e espaço, de identidade e diversidade. Estas mesmas noções perpassam nossa disciplina com uma força tão incrível que seria irresponsável de nossa parte não pensarmos em nossos dilemas epistemológicos os tomando com a seriedade que merecem. Afinal, não é o mundo globalizado um mundo no qual o dentro e o fora se relacionam de forma cada vez mais densa e problemática? Não é o mundo globalizado um mundo no qual a noção de guerra herdada da modernidade (e que também é perpassada pela noção de soberania) está cada vez mais confusa e mesclada com a noção de guerra civil e guerra privada? De que formas pensarmos os problemas das fronteiras rígidas da modernidade e a necessidade de desfrutarmos da biodiversidade em termos humanos e não nacionais? Epistemologicamente, de que forma pensarmos nossa disciplina como uma disciplina que pode viver de si e para si, longe dos contatos mais do que nunca necessários com outras disciplinas e outras perspectivas? Em suma, o debate modernidade/pós-modernidade traz desafios e problemas para a disciplina de Relações Internacionais que não podem ser ignorados. As noções de soberania, fronteira e guerra que permeiam densa e ricamente nossa disciplina são também centrais a este debate. Acredito ser nossa obrigação enquanto intelectuais tomar este debate em todas suas potencialidades epistemológicas para o refinamento e aprimoramento de nossa disciplina. Só assim poderemos compreender e problematizar os sérios dilemas que a contemporaneidade nos apresenta.
Hugo Arend é Mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e professor de Estudos Sociais Brasileiros da Escola Pan-Americana de Porto Alegre (hugoarend@yahoo.com).

27/11/2006



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