A recente visita do enviado diplomático chinês Tang Jiaxuan à Pyongyang não somente persuadiu o líder norte-coreano Kim Jong Il a desistir do segundo teste nuclear, mas reduziu sobremaneira as tensões entre os governos das duas Coréias – após o primeiro teste nuclear em nove próximo passado – estendendo os efeitos de sua conquista ao Japão, aos demais países asiáticos e, inclusive, aos Estados Unidos, com a possibilidade de retorno das negociações envolvendo Washington e Pyongyang.
Neste primeiro momento, sem maiores traumas e sem um embargo comercial abrangente, a Resolução votada pelo Conselho de Segurança da ONU 1.718 de 14 do corrente, apenas instituía proibição às importações de artigos de luxo, equipamentos militares considerados essenciais para a tecnologia de mísseis e para a elaboração de armas de destruição em massa. A medida, considerada preliminar, não afasta a Coréia do Norte de sua principal movimentação comercial com a China, o Japão e alguns países do Ocidente, não afetará seriamente as pessoas no curto prazo, mas poderá antecipar crises de abastecimento ao atingir as importações de grãos, de medicamentos, de commodities e de insumos para a sua combalida agricultura, cuja baixa produtividade é um dos principais responsáveis pelas sucessivas crises de abastecimento. Mas, de imediato, reflete apenas o êxito da reação dos EUA e de seus aliados ao primeiro teste nuclear.
A participação da China nas negociações preliminares com Pyongyang não deve ser vista apenas como ensaio amistoso para com os EUA. O regime chinês – com um poderio militar crescente – além de antigo protetor do regime norte-coreano por mais de meio século, é o seu principal parceiro comercial, responsável por um nível de transações superior a US$ 1 bilhão, que inclui exportações de petróleo para 90% da energia norte-coreana. As relações bilaterais com a China parecem, portanto, garantir o não isolamento de Pyongyang, não obstante as incursões contrárias da Secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, do Ministro das Relações Exteriores sul-coreano, Ban Ki-Moo e do novo Primeiro Ministro do Japão, Taro Aso. A tendência momentânea já não é a da extensão de ameaças com novas sanções, mas a da negociação e, ao que tudo parece, a China deverá ser o interlocutor do que poderá ser o esperado interlúdio asiático na transfiguração da atual política externa norte-americana, para o que resta de significativo do bloco socialista na Ásia, sobrevivente ao fim da Guerra Fria.
São por demais conhecidos no Ocidente os interesses da China, da Coréia do Sul e do Japão – principais produtores de commodities na Ásia – numa possível e nova abertura comercial norte-coreana, que poderá disponibilizar excedentes de mão-obra a baixos salários, recursos naturais estratégicos e de forma adicional um mercado consumidor de baixa agressividade. Desta forma, a paz torna-se mais do que necessária e, quanto mais cedo terminar a crise, melhor para os países exportadores de manufaturados, bens de capitais essenciais à indústria de ponta e, principalmente, de capitais líquidos para investimentos, pois o PIB da Coréia do Norte é letárgico, dezoito vezes menor do que o PIB sul-coreano, de US$ 527 bilhões, correspondente ao valor per capita de US$ 9,8 mil.
Ao contrário da Coréia do Norte, a do Sul situa-se entre as 10 maiores economias do mundo, onde prevalece parcerias entre o estado e o setor privado, uma elevada intermediação financeira, um mercado de trabalho ágil, com grande mobilidade e elevada participação dos salários no PIB, além de restrições a importações competitivas. Entretanto, em termos de poderio bélico é consideravelmente inferior à Coréia do Norte, cujo efetivo militar de 1,2 milhões de homens, correspondentes a 5,4% da população total 22,3 milhões de habitantes, além de contar com mísseis de médio alcance, com potência destrutiva de 20 quilotons, idêntica à da bomba atômica lançada pelos EUA em Hiroshisma em 1945.
A etapa posterior a dos testes atômicos será a dos testes dos mísseis, preocupantes para os EUA e ameaçadores para a Coréia do Sul e para o Japão, exigindo do clube atômico reações que vão além de sanções econômicas pelo Conselho de Segurança da ONU (CSNU), como a suspensão imediata do programa nuclear por Pyongyang, aceitação dos dispositivos do Tratado de Não Ploriferação de Armas Nucleares (TNP), firmado em 1970 e ratificado em 2002 por 188 países e, inclusive, pela Coréia do Norte e a não hipotética anuência do CSNU a uma possível corrida armamentista nuclear japonesa, como um escudo bem próximo à intolerância norte-coreana, repetindo-se o apoio logístico do Japão durante a Guerra da Coréia (1950-1953).
A opção norte-coreana para chamar a atenção da comunidade internacional, com vistas à salvação do seu regime totalitário abriu fendas na esfera do poder nuclear, onde a China tem um peso considerável, não obstante ser responsabilizada pelo Ocidente pela sobrevivência do regime de Kim Jong II. O posicionamento da China como o único país capaz de resolver a crise dos testes nucleares, defendido pelo diário londrino The Times é ratificado pela proximidade das eleições parlamentares dos EUA, onde os republicanos defendem o recrudescimento das sanções como um marketing de votos, além da mudança de comando da ONU para um sul-coreano. Por outro lado, segundo os chineses, a postura republicana pode levar a Coréia do Norte a um maior isolamento, acelerando em contrapartida os testes dos mísseis.
Resta agora, após o fiasco no Afeganistão e no Iraque, que a nomeação de James Baker – ex-Secretário de Estado de George Bush pai e atual presidente da Comissão Bipartidária para conselhos sobre a guerra – consiga convencer o presidente Bush, que a negociação, mesmo sob a interlocução da China, reveste-se como a melhor opção para gerenciar a crise. Caberá à China, portanto, além de apaziguar os falcões mediante a suspensão imediata dos testes nucleares norte-coreanos e, ao mesmo tempo, fazer prevalecer as diretrizes do TNP, motivar a retomada das negociações para uma possível unificação da península coreana, ainda que a longo prazo, retomar as negociações propostas pelos EUA no espaço do Grupo dos Seis (EUA, as duas Coréias, China, Japão e Rússia), promover, em termos compensatórios, uma gradual convergência do Ocidente para economia norte-coreana.
José Ribeiro Machado Neto é Doutor em História das Relações Internacionais e professor de Formação Política e Econômica da América Latina e do Brasil; professor voluntário do curso de Relações Internacionais e pesquisador colaborador do Centro Integrado de Ordenamento Territorial – CIORD da Universidade de Brasília – UnB (machadoneto@br.inter.net).

27/11/2006



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