Oficialmente, a campanha de reeleição de Bush foi lançada a partir dos meses de Abril/Maio de 2003 quando os republicanos anunciaram o término das principais operações militares no Iraque. A definição de sucesso para avaliar se a operação estaria ou não finalizada era, justamente, a deposição de Saddam Hussein e a derrota do exército iraquiano por meio da tática do Choque e do Terror (Shock and Awe) defendida por Rumsfeld. Consistindo de operações militares rápidas e decisivas, com poucos efetivos, diante de forças armadas iraquianas inexistentes, esta vitória militar norte-americana foi claramente rápida e decisiva, mas, efetivamente, não preparou o terreno para o processo posterior de estabilização local e transição política.
Várias avaliações equivocadas colocaram-se na operação e sua ação posterior: a de que haveria apoio local à presença das tropas, que os nomes apresentados pelos EUA como futuros governantes do Iraque seriam aceitos (como do exilado Chalabi) e que a segurança seria rapidamente restabelecida. O cenário, contudo, foi justamente o oposto: um Iraque fragmentado politicamente, ausência de legitimidade das forças que deveriam conduzir a transição e a dificuldade em estabilizar o país relacionada à falta de tropas americanas suficientes no pós-guerra, que desde o segundo semestre de 2003 passou a caminhar para um guerra civil. Quadro similar parecia apresentar-se no Afeganistão tanto no que se refere às operações militares quanto às iniciativas políticas, com a diferença central de que nesta nação, pelo menos, os EUA contavam com apoio internacional. No Iraque, o único aliado de peso era, e continua sendo, a Grã-Bretanha de Tony Blair, que, em 2007, já anunciou que deixará o cargo de Primeiro Ministro, o que certamente impactará as políticas britânicas.
Não cabe aqui retomar toda a situação iraquiana, mas apenas destacar que, de fato, os neocons não se demonstraram preparados para etapa posterior de construção nacional. A razão para este despreparo reside na lógica desta corrente que atribui baixa prioridade a estas iniciativas, focando-se nos elementos militares (ver Rice, 2000, em Foreign Affairs, 79(1). Esta dissociação pode ser percebida na disparidade entre as posições pré-guerra do Departamento de Defesa (DOD- que foram as escolhidas) e as do Departamento de Estado (DOS), que contava, na época com Collin Powell. O DOS avaliava a campanha como de alto risco do ponto de vista político-diplomático, uma vez que o pós-guerra revelaria um país fragmentado e que consumiria inúmeros esforços norte-americanos, locais e internacionais para se estabilizar, enquanto, como já destacado, o DOD apresentava um cenário bem mais favorável (ver Daalder and Lindsay, 2003, America Unbound).
A situação do Iraque deteriorou-se rapidamente no período 2003/2004, havendo acúmulos de controvérsias sobre o tratamento dado a prisioneiros em Guantanamo e Abu Graib pelos norte-americanos, e de suspeitos de terrorismo em geral. Também revelou-se que, a despeito do que fora anunciado ao público e congresso, o Iraque não possuía ADMs e nem Hussein ligações com Osama Bin Laden, dois fatores usados para justificar a guerra. Além disso, observou-se um aumento geral da instabilidade global, pois a Doutrina Bush gerou o que se pode definir como estratégias preventivas globais: o investimento em instrumentos militares de poder que possam garantir aos demais Estados poder de barganha e proteção (Coréia do Norte e o Irã são o exemplo mais bem acabado desta situação, e mesmo potências “confiáveis” como o Japão, que passaram a gastar mais no setor bélico).
Alguns membros da oposição democrata começaram a acreditar na possibilidade de reconquista da presidência e do Legislativo em 2004. Porém, a somatória da incapacidade democrata em apresentar propostas concretas, de atitudes firmes na guerra contra o terror e a escolha de um candidato marcado por contradições, John Kerry, favoreceu a renovação da capacidade republicana. Bush não somente conseguiu ser reeleito como ampliou sua maioria no Legislativo e governos estaduais, o que legou o controle pleno do sistema, mesmo que em uma América quase dividida pela metade.
Tal apoio, mais sustentado no medo de novos atentados do que em uma aceitação incondicional das políticas de Bush, contudo, foi interpretado de forma equivocada pelos republicanos, que o enxergaram como uma plena legitimação de iniciativas. O resultado desta percepção, associado a uma acomodação natural ao poder do partido que se considera único, levou a uma sequência de erros táticos dos neocons que lhe custou as eleições de 2006.
Cristina Soreanu Pecequilo é Professora de Relações Internacionais Universidade Estadual Paulista – UNESP (Campus Marília), e Pesquisadora Associada ao Núcleo de Estratégia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (crispece@gmail.com).

10/11/2006



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