Excelentíssimo senhor Jacques Chirac, presidente da República Francesa,
Senador Renan Calheiros, presidente do Senado Federal,
Deputado Aldo Rebelo, presidente da Câmara dos Deputados,
Meus companheiros ministros Celso Amorim e sua esposa Ana, Furlan e sua esposa Ana,
Demais ministros,
Governador do estado do Amapá,
Ministros da França,
Ministros do Brasil,
Meus amigos e minhas amigas,
Eu combinei com o meu amigo Jacques – ele não quer que eu o chame de presidente Chirac – que não iríamos fazer discursos, porque já conversamos muito sobre negócios. Mas eu não poderia deixar de dizer ao presidente Chirac e ao meu amigo Jacques, o carinho que nós, brasileiros, temos pela França. Muitos companheiros do meu governo já viveram na França, já estudaram na França. A Revolução Francesa é um marco na história da humanidade, é o símbolo da conquista da democracia nesses tempos de sociedade moderna e, sobretudo, a deferência e o carinho com que fomos recebido na França no ano passado, quando participamos das comemorações da Independência e do ano do Brasil na França.
Naquela oportunidade, eu fiz um discurso na Casa do Governo Francês, quando participávamos de uma atividade que tinha muita gente. Naquele dia, eu descobri que a relação de governo para governo e de Estado para Estado não tem compromisso ideológico. E que quando um Estado se relaciona com outro Estado o que vale, na verdade, é o tratamento entre as duas Nações, os compromissos entre as duas Nações. Eu, que visito a França há muito tempo, desde 1980, quando era dirigente sindical, tive, no tratamento do presidente Chirac, o tratamento de uma pessoa diferenciada, de uma pessoa que sabia, antes de tudo, exercer o papel de chefe de Estado e dar um tratamento a uma pessoa que ele nem conhecia, que certamente ele sabia que era sindicalista, portanto, de uma origem diferenciada, como poucas vezes eu recebi esse tratamento em qualquer momento da minha vida na Presidência da República.
A vinda do presidente Chirac ao Brasil, eu fiz questão de recebê-lo na minha casa. Não no Palácio de Governo, mas na morada do Presidente da República, para dizer ao presidente Chirac que a relação do Brasil com a França é uma relação muito forte, não apenas na questão comercial, mas na questão política e na questão cultural, onde a França tem muito a ensinar ao Brasil, o Brasil tem muito a aprender com a França e também ensinar um pouco dos nossos 500 anos de história, mas, sobretudo, eu quis demonstrar ao presidente Chirac, o respeito, o carinho e a amizade pessoal que eu tenho por ele e que eu tenho pela França.
França e Brasil podem fazer muito mais, nós somos gratos por toda a compreensão que a França tem do papel do Brasil no mundo, e essa amizade só tende a crescer. O Brasil deseja ter uma participação na política mundial mais exitosa. Temos consciência da nossa importância na América do Sul, temos consciência do papel que podemos exercer no mundo com muita humildade, mas, ao mesmo tempo, com muita altivez.
Eu digo sempre, aqui no Brasil, que sou filho de uma mãe analfabeta, de pai analfabeto, que nasceram e morreram analfabetos. Meu pai se dava ao luxo de comprar jornal todo dia e ir trabalhar fingindo que estava lendo o jornal, mas não sabia diferenciar uma única letra do jornal, mas comprava o jornal todo dia. Foi desse casal e, sobretudo da minha mãe, que eu aprendi a grande lição: andar de cabeça erguida, respeitar-se para ser respeitado. E durante muito tempo, essa imensa Nação chamada Brasil não se respeitou. Muitas vezes já íamos para uma reunião como se fôssemos cidadãos de segunda classe, e foi o presidente Chirac que me deu a primeira chance.
Eu tinha alguns dias de governo quando fui convidado para ir a Evian. Foi o meu primeiro encontro com os mitos da política mundial. Estavam lá o Koisume, Jacques, Bush, Tony Blair, Hu Jintao, o presidente Fox, o presidente da Índia, da época. E eu me perguntava o que um metalúrgico fazia no meio de tanta gente importante. Aí, eu me dei conta de que eu era tão importante quanto aqueles mitos, de que eu também era presidente de um país não menor do que nenhum que estava lá. E comecei a me sentir mais igual, venci mais preconceitos e passei a perceber que o Brasil poderia ser mais respeitado no mundo, que o presidente do Brasil poderia ser mais respeitado no mundo, e que os funcionários do Brasil que viajassem o mundo deveriam se fazer respeitar.
Ainda recentemente eu participei do Dia do Diplomata. E disse aos jovens diplomatas brasileiros: se vocês querem ser respeitados, respeitem-se, porque nenhum interlocutor respeita quem não se respeita. Andar de cabeça erguida é uma conquista que eu aprendi de uma mãe analfabeta, que é o maior legado que o ser humano pode receber. E foi numa reunião em Evian que eu aprendi que o Brasil não era menor do que ninguém, mas também não era melhor, de que nós éramos iguais, cada um representando a sua Nação, cada um representando o seu povo, cada um vivendo os seus problemas.
Por isso, a vinda do presidente Chirac ao Brasil é muito importante. É uma visita que marca as visitas de tantos chefes de Estado que recebemos aqui, nesses 43 meses de governo. Portanto, eu sou muito grato à relação da França com o Brasil, ao tratamento especial que os franceses dão ao Brasil, ao tratamento carinhoso e generoso do presidente Chirac. Só não gostei do beijo que ele deu na mão da Marisa, porque não trouxe a sua esposa aqui para que eu retribuísse o beijo.
Mas de qualquer forma, presidente Chirac, fique certo de que o respeito e o carinho que nós, brasileiros, temos pela França, e o respeito e o carinho pessoal que eu tenho por Vossa Excelência merecem que eu possa convidá-los, de pé, a fazer um brinde ao presidente Chirac e ao povo francês.
Muito obrigado.

25/05/2006



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