Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de encerramento do Fórum Brasil-Itália: Relações Bilaterais – São Paulo – SP, 29/03/2006

Senhor Cláudio Scajola, Ministro para Atividades Produtivas da Itália,

Ministro Luiz Fernando Furlan,

Ministro Fernando Haddad,

Ministro Dulci,

Embaixador Michele Valencise, Embaixador da Itália no Brasil,

Embaixador Adhemar Bahadian, Embaixador do Brasil na Itália,

Meu caro Presidente da Confindústria,

Meu caro Presidente da Fiesp,

Empresários brasileiros e empresários italianos,

Meus amigos e minhas amigas,

Convidados, jornalistas,

Toda vez que eu venho aqui eu sou o último a falar. Eu ouço o Furlan, ouço o Paulo Skaf, ouço outros convidados e vou percebendo que cada um vai falando um pouco das coisas que estão no meu discurso escrito. Toda vez que eu chego aqui eu me deparo com a dificuldade de ler um discurso que já foi lido em parte e que vai tornando vocês mais cansados, prestando menos atenção ao que a pessoa está falando, e saindo do Brasil com uma má impressão do Brasil. Se um líder empresarial pôde vir aqui fazer um discurso de improviso, como Confindústria, por que eu não posso, como político, falar no meu improviso?

Na verdade, eu não queria e não quero fazer um discurso. Eu quero fazer uma conversa com vocês. Uma conversa de um dirigente de uma nação que compreende que só falta uma definição para que nós saiamos da eternidade de ser um país emergente, para nos transformarmos numa grande nação. E o que falta somos nós, brasileiros e brasileiras, acreditarmos que esse passo depende única e exclusivamente de nós. Não depende de ninguém, depende de nós.

E vou dizer o porquê. Logo que eu resolvi ser candidato a Presidente da República, em 2002, eu disse a vocês, eu disse aqui, disse na CNI, numa grande reunião, que eu tinha o desejo de criar uma Secretaria Especial de Comércio Exterior que tivesse um ministro como se fosse um mascate. Aquele mascate que sai de manhã com pacotes de produtos embaixo do braço, que anda batendo palma de casa em casa e que volta à noite, sem nenhum dinheiro, mas com um monte de recibos de dinheiro para o futuro.

Por coincidência foi aqui, nesta casa, que eu encontrei o companheiro Furlan. Depois de conversar com o Furlan um tempo eu falei: puxa vida, como Deus é generoso comigo. Me deu um ministro e um mascate ao mesmo tempo. Então, eu penso que a gente vai conseguir fazer negócio.

A primeira viagem que eu fiz, de grande impacto, foi à Espanha, tivemos uma reunião com os empresários, eu ousei desafiar os empresários brasileiros a não terem medo de ser empresários multinacionais. Para minha surpresa, alguns setores da imprensa brasileira viram aquilo como uma crítica, dizendo que eu estava criticando os empresários brasileiros, quando eu estava desafiando os empresários brasileiros a não terem medo de virar empresários multinacionais.

Depois, eu fiz alguns desafios em várias outras federações das indústrias no Brasil e dentro da sede da CNI, de que era preciso que nós definíssemos uma estratégia para saber quais os mercados que o Brasil iria querer disputar, com quem iríamos disputar e que nós saíssemos para cativar esse mercado.

Quando fomos aos Países Árabes e gastamos lá, por volta de 500 mil dólares, num processo de promoção que culminava com uma Semana Brasileira nos Países Árabes, ao invés de as pessoas esperarem o resultado daquilo que nós estávamos fazendo, as pessoas criticavam os 500 mil dólares sem saber quantos 500 mil dólares nós íamos ganhar por conta daquele evento. E o resultado é que na trajetória de todas as caminhadas que nós fizemos, ou antes da minha chegada, nós tínhamos tido grupo de empresários viajando, ou tínhamos grupos de empresários viajando conosco ou depois, da nossa volta, um grupo de empresários, ora com o Furlan, ora com o Roberto Rodrigues, ora com o Celso Amorim, visitando aqueles países e aquela região.

E nós fomos nos apresentando ao mundo com a nossa cara, com o nosso jeito, e fomos percebendo que tínhamos um espaço enorme para crescer. Eu fui a Angola, fui a muitos países africanos, e muita gente no Brasil fala: “mas o Presidente, viajando para a África? O Presidente teria que viajar para a Itália, para a Alemanha, mas para a África?” E quando eu chegava em um país desses e via um carro japonês – nada contra o carro japonês – eu perguntava: puxa vida, não poderia ser um carro japonês produzido no Brasil, com mão-de-obra brasileira, ou um carro italiano, ou um carro francês? Nós estamos tão próximos. Temos uma identidade com muitos e muitos países, o que está faltando? Na verdade, nós tínhamos lá, também, o comprador do carro, o que faltava era o Brasil se apresentar e dizer: “eu vim aqui para vender carro, eu quero competir”. E fazer a disputa política neste mundo em que ninguém dá nada a ninguém, neste mundo globalizado, onde cada palavra, cada gesto vale um bom negócio ou um bom fracasso.

Da mesma forma, meu caro Montezemolo, eu fui criticado porque tomei a decisão de reconhecer a China como economia de mercado. E tomei essa decisão porque tenho consciência de que, ou nós colocamos a China no âmbito da OMC e passamos a envolvê-la nas discussões que faz o resto do mundo, ou nós deixamos a China de lado e ela vai ocupando os espaços que ocupa sem pedir licença a quem quer que seja. É preciso, portanto, colocá-los dentro dos foros em que nós decidimos as nossas coisas para que a gente possa comprometê-los como queremos comprometer todos os países e a nós mesmos, brasileiros, porque se não for a discussão nos foros internacionais que nós criamos, a coisa começa a acontecer em paralelo às decisões que nós fazemos.

E hoje, no mundo dos negócios, nós temos duas grandes novidades que temos que levar a sério: de um lado, a China, de outro lado, a Índia. Juntos, são quase 2 bilhões e 400 milhões de habitantes, mais de um terço da população mundial que, nos últimos 20 anos, deixaram de ser marginais da Humanidade e passaram a ocupar um espaço importante, a ponto de ser um Presidente americano que restabeleceu, não apenas a relação com a China, mas reconheceu a China como parceiro preferencial e estratégico dos Estados Unidos.

O que nós estamos fazendo aqui? Neste momento em que recebemos a visita do ministro da Itália, de uma delegação importante de empresários da Itália chefiada pela Confindustria, que se encontram com um conjunto importante de empresários brasileiros, o que nós queremos fazer, concretamente? Apenas estabelecer um acordo entre alguma empresa brasileira ou alguma empresa italiana, ou nós temos que pensar um pouco maior e pensar do ponto de vista estratégico o que nós queremos, enquanto empresários italianos e empresários brasileiros, produzir de efeito no mundo da indústria e no mundo dos negócios nos próximos 15 ou 20 anos, porque se são 60 milhões de habitantes, e se somos quase 190 milhões de habitantes, se somado o nosso potencial tecnológico, se somado o potencial do nosso PIB, nós teremos muito mais força para negociar em qualquer foro internacional.

E nós temos que ousar dizer, claramente, o seguinte: se nós, brasileiros, fomos tão generosos no século XIX para receber, não investidores, mas pobres italianos que vinham a este canto do mundo à procura de uma oportunidade que lhes faltava na Itália, e aqui foram tão bem recebidos e construíram o patrimônio que construíram neste país, cultural, econômico, político, nós, agora, não temos que fazer mais do que fizemos naquela época. Nós temos que dizer aos empresários italianos que, da mesma forma, que os nossos irmãos brasileiros, no século XIX, receberam os italianos aqui de braços abertos, nós, no século XXI, no começo de um novo século, estaremos recebendo vocês de braços abertos para dizer a vocês que queremos construir uma parceria de longo prazo, queremos que as empresas brasileiras cresçam junto com as empresas italianas, queremos que empresas italianas e brasileiras ganhem mercados internacionais, queremos disputar, juntos, parcelas de mercado em outras partes do mundo em parceria com a Itália. Tudo isso pode ser construído se houver disposição de construir.

O Brasil, e eu posso dizer isso aos empresários italianos, vive hoje um momento auspicioso da sua vida. Obviamente que temos muitas deficiências ainda, mas podem procurar qualquer analista econômico, e nós vamos poder lhes afirmar que em poucos momentos da história do Brasil nós tivemos uma posição tão sólida como nós temos hoje. Primeiro, porque não estamos dispostos a fazer mágica em economia. Não existe mágica, existe tomada de posição e seriedade. Segundo, porque não vamos permitir que a inflação volte para resolver os problemas de caixa de alguns e do próprio Estado brasileiro. Terceiro, porque nós acreditamos piamente que a credibilidade conquistada pelo Brasil ao longo dos últimos anos e a solidez da nossa política de comércio exterior e a solidez da nossa macroeconomia permitem dizer a vocês, empresários italianos, que se em momentos em que a gente não tinha todas essas condições favoráveis, vocês acreditaram no Brasil, agora, meus caros, vocês precisam aportar definitivamente neste país. Aportar com projetos, com disposição política, e que a mesma disposição política que vocês demonstrarem aqui, que os nossos empresários demonstrem quando forem visitar a Itália e conhecer a região da Emilia Romana e ver como aquilo chegou ao ponto em que chegou. E a gente só consegue chegar a esse ponto se a gente pensar de forma positiva, se a gente acreditar que é possível, porque muitas vezes nós temos um prato de comida para comer, com tudo bem feito, tempero bom e, ao invés de agradecermos a Deus por aquele prato, a gente prefere ficar reclamando do que não tem no prato.

Eu, durante muito tempo, fiz reuniões e mais reuniões com os mais importantes economistas deste país. De vez em quando, eu saía da reunião e dizia: “espere aí, acho que eu estou sendo enganado.
Essas pessoas querem que eu seja candidato e colocam a situação do Brasil na situação que está, ou seja, aquela história de que o Brasil acabou.” Eu falava: então para que eu vou ser candidato, se o Brasil acabou? Eu descobri que este país é tão grande, este país tem uma dinâmica tão própria que não há análise negativista que possa fazer com que deixe de acontecer aquilo que está para acontecer neste país.

Da mesma forma que, muitas vezes, nós conversamos com muitos empresários, aqui tem muitos com quem já me reuni muitas e muitas vezes, e nós estamos sempre cobrando alguma coisa que falta e nós sabemos que a vida inteira é assim mesmo, a gente vive se cobrando. É o filho que cobra do pai, é o pai que cobra da mãe, é a mãe que cobra do avô, vocês estão sempre procurando alguém para cobrar alguma coisa e é bom que seja assim a Humanidade.

Eu poderia dizer: “é assim que caminha a Humanidade”, mas isso não pode evitar que a gente construa os projetos necessários a serem construídos ontem e hoje, e não apenas o que nós vamos construir para um futuro longínquo. O Brasil está preparado em vários ramos da atividade econômica para receber os empresários italianos.

Você, meu caro Montezemolo, pode conhecer na Fiat o que é a qualidade da mão-de-obra brasileira, você pode conhecer na Fiat o que é a criatividade do povo brasileiro. Por muito tempo nós aceitamos a idéia de que éramos um país apenas exportador de produtos in natura. Às vezes eu ia a um debate e a gente falava: nós somos o maior exportador de soja, o maior exportador de suco de laranja, o maior exportador de minério de ferro e a gente esquecia que exportava avião porque a nossa cabeça ainda não tinha chegado no avião, estava nos produtos primários.

Nós somos tudo isso que foi mostrado aqui no filme, aliás, meus parabéns, Paulo, pelo documentário, você me disse que está em todas as línguas, você vai perceber como a gente vai exportar muito mais na medida em que a gente não ficar esperando que eles venham aqui para ver. Nós temos que colocar para as nossas embaixadas convidarem empresários de todos os países do mundo e mostrar essas coisas, porque a embaixada do Brasil, lá fora, não pode ser mais uma embaixada de reflexão, ela tem que ser uma embaixada de produção. Produção política, produção econômica, produção cultural, porque depende só de nós. Esse é o meu convencimento e os resultados estão aí para todo mundo ver.

Na hora em que acreditarmos em nós, nós vamos perceber que tem um espaço no mundo, extraordinário, na nossa relação conjunta Itália e Brasil, na relação com a China, na nossa relação com a Índia, na nossa relação com o Oriente Médio, na nossa relação com a África, com a América do Sul. O Furlan, em algum momento, pode te dizer o crescimento que aconteceu no comércio Brasil/América do Sul porque nós acreditamos que Deus… como é possível a Venezuela ficar comprando um carro produzido nos Estados Unidos se pode comprar um carro produzido aqui no Brasil? Até o Fiat italiano ela pode comprar aqui. Agora, se a gente não tiver a desgramada da estrada, o porto, o aeroporto, a telecomunicação, eles preferem ir comprar lá.

Então, de coração, meu caro Montezemolo, meu caro Paulo Skaf, eu acho que isso é um feito inusitado, eu quero dizer para vocês que nessas conversas que vocês vão ter aqui… no meu discurso tinha uma coisa que nós vamos criar as condições para quando um empresário italiano vier ao Brasil, ele já receba lá mesmo, na Itália, todos os documentos necessários… eu vou dizer o que eu ia dizer aqui, que eu vou… por isso é que caiu o risco-Brasil na Itália.

Desejamos que o investidor italiano sinta-se em casa quando chegar aqui. Razão pela qual, ao sair de seu país, ele já terá em mãos um visto de residência para que possa se movimentar e tomar decisões em nosso mercado como se fosse em sua própria terra. Mesmo que nós, brasileiros, quiséssemos tratar o italiano como estrangeiro, em alguns bairros deste país, possivelmente vocês estejam mais em casa do que nós, que somos o estranho naquele bairro.

Nós somos capazes de produzir uma relação que dura quase um século e meio. São 25 milhões de homens e mulheres, neste país, em que correm o sangue italiano e brasileiro nas mesmas veias. Aqui, os italianos se misturaram com japoneses, com espanhóis, com chineses, com índios, com negros. Este é o país multirracial, este é o país sem preconceito, este é o país que conseguiu, desse seu jeito de ser, permitir que os seres humanos não fossem tratados como segunda classe pela cor, pela religião ou pela origem. Não tem lugar do mundo em que árabes e judeus vivam melhor do que no Brasil. Duvido que tenha um país no mundo em que os italianos vivam tão bem como vivem aqui no Brasil.

Em outras, em todas as nações, porque desde que aqui aportou o primeiro italiano, o nosso coração cresceu em generosidade. Nós aprendemos muito a respeitar os italianos. Eu acho que cada um de nós que vai à Itália, desce no aeroporto… até um pouco da bagunça é parecida com a nossa. A gente se sente mais próximo, mais feliz, e eu tenho certeza de que vocês também aqui, até no jeito de falar. Está certo que o Furlan homenageou o Baggio, que perdeu o pênalti, mas eu tenho atravessado o Paolo Rossi, que nos tirou de uma Copa. Nem isso, meus caros, nem isso é motivo para que a gente não possa acreditar nesse ressurgimento das relações, não diplomáticas, das relações políticas, econômicas e comerciais entre Brasil e Itália.

Eu quero te agradecer por ter aceito o desafio que eu fiz em outubro na sede da sua entidade em Roma, e quero te dizer que também acertei quando te disse, e o Paulo Skaf estava presente, que você seria recebido neste país com muito carinho, com muito fervor, com muito entusiasmo e com muita possibilidade de negócios. Este número que você me deu, de que teve 600 encontros bilaterais em Minas Gerais, 1.700 aqui, e não sei quantos mais em Porto Alegre, me obriga a dizer aos empresários italianos: vocês, que na década de 40 e 50, vieram muito para o Brasil e vocês, depois de meio século, tanto dedicado à Europa, vocês agora descobriram que poderiam ter vindo ontem. Não vieram, não tem problema. Venham amanhã e serão tão bem recebidos quanto aqueles que chegaram ontem.
Muito obrigado, bons negócios e boa sorte a todos vocês.

Ainda sem comentários... Seja o primeiro a responder!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Gravatar
WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 1.201 other followers