Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, por ocasião da visita ao Festival Tropicália, no Barbican Centre – Londres, Inglaterra, 08/03/2006

Participar de uma festa da cultura brasileira fora do país é sempre uma experiência especial. Nos sentimos mais brasileiros, mais identificados com nossa pátria, com nossas raízes.

Foi com esse sentimento que visitei o Pavilhão projetado por Oscar Niemeyer aqui em Londres, durante a minha primeira viagem presidencial a este país.

Aqui no Barbican, a cultura brasileira está presente em suas mais diversas formas. O movimento tropicalista coincidiu com um período de agudos enfrentamentos políticos e culturais no Brasil. Foi uma expressão de resistência, de inconformismo. Uma forma de enfrentar o clima de repressão e de intolerância que dominava o país. Olhando retrospectivamente, vejo que cada um resistiu à sua maneira. Eu dava meus primeiros passos na luta sindical. Muitos que hoje integram meu governo resistiam na clandestinidade. Os tropicalistas, questionando costumes, regras e valores artísticos.

Este Festival Tropicália consegue agora reunir várias expressões daquele movimento. Na música, na dança, no teatro, no cinema, enfim, em todas essas manifestações vemos a força e a natureza criativa da arte brasileira.

A Tropicália evoluiu e hoje continua a influenciar novas gerações. Não é um movimento parado no tempo. Ao contrário, conseguiu transmitir a sua mensagem para esses rapazes e essas moças que hoje formam o AfroReggae.

O AfroReggae é uma experiência bem sucedida nas artes e também da conscientização social. Com o José Junior à frente, contagia as pessoas que dele participam e inspira diversos projetos de caráter cultural e social. Seus integrantes venceram uma vida difícil, usando a arte como instrumento de mobilização, de transformação, de inclusão. Essa é uma das funções da arte: construir identidades, criar cidadania, dar a homens e mulheres uma visão superior sobre seu mundo e seu tempo.

O Festival Tropicália mostra que estavam certos os artistas daquela época, não apenas Gil, Caetano, Tom Zé, Gal Costa, mas também Hélio Oiticica, Joaquim Pedro de Andrade e tantos outros. Estavam certos em pesquisar, questionar e redescobrir o Brasil. Buscar as raízes profundas do país, investigar cada aspecto do brasileiro, os seus ritmos, os seus gostos, a sua forma de ser.

Por tudo isso, quero manifestar meu reconhecimento ao Reino Unido e à cidade de Londres por terem sempre apoiado a cultura brasileira. Hoje, ao recepcionar o Festival. No passado, quando deram abrigo àqueles artistas que não se conformavam com a censura e que aqui puderam cantar um Brasil mais livre.

O Festival Tropicália, no Barbican, representa uma nova mensagem de hospitalidade e de generosidade da cidade de Londres. Este é um Festival não apenas de arte, mas de solidariedade.

O ministro Gilberto Gil me falou dos anos em que passou nesta cidade, que agora o recebe como patrono das artes do Festival Tropicália. Ele volta à sua Londres como Ministro, mas também como artista que é. Vem assistir a consagração internacional do movimento do qual fez parte.

Coube à Embaixada do Brasil em Londres papel importante neste evento pelo apoio que deu à sua organização.

Encerro com um agradecimento e homenagem especiais a toda a equipe do Barbican Center por ter nos proporcionado este momento privilegiado de celebração da arte do Brasil num ambiente de encontro das duas culturas.

Muito obrigado.

Ainda sem comentários... Seja o primeiro a responder!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Gravatar
WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 1.200 other followers