Palavras do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, por ocasião da cerimônia de encerramento do Seminário Empresarial Brasil-Reino Unido – Londres, Inglaterra, 08/03/2006

Minhas primeiras palavras são de saudação a esta reunião de empresários britânicos e brasileiros. Os empresários são importantes atores no processo de geração de riqueza e dos empregos no Brasil. Tenho confiança e otimismo nas perspectivas da economia brasileira e na parceria entre o Brasil e o Reino Unido. Meu otimismo se explica. Nunca se reuniram no Brasil condições tão favoráveis – internas e externas – para darmos um salto qualitativo nos fluxos de comércio e de investimentos entre nossos dois países.

O Brasil está ingressando em um novo ciclo de vigoroso desenvolvimento econômico e social. Esse processo veio para ficar. Meu Governo tem demonstrado compromisso inequívoco com a estabilidade macro-econômica e a responsabilidade fiscal. Reduzimos a inflação para os menores níveis desde 1998. Diminuímos a relação dívida pública/PIB e recuperamos nossas reservas internacionais.

Reduzimos substancialmente nossa vulnerabilidade externa e geramos um superávit sustentado de nossa conta corrente, levando o risco-país à taxa mais baixa de nossa história. Coroamos esse processo com o pagamento antecipado de nossa dívida com o FMI. Não mais necessitamos renovar o acordo com o Fundo. O país encontrou o caminho do desenvolvimento autônomo e auto-sustentado, sem tutelas e sem condicionalidades.

Mas a estabilidade e o crescimento não são objetivos em si mesmos. São apenas instrumentos – mesmo que indispensáveis – para viabilizar políticas de longo prazo voltadas para nossa promessa de lutar pela melhoria das condições de vida do povo brasileiro. Já estamos vendo os resultados: crescimento econômico sustentado significa geração de empregos e efetiva distribuição de renda.

Os números confirmam o que a população já sente no dia-a-dia. Foram criados mais de três milhões e setecentos mil postos de trabalho nos últimos três anos. São empregos formais, de qualidade e duráveis. Implementamos o maior programa de transferência de renda já feito no Brasil, beneficiando 8 milhões e setecentas mil famílias. Mais trabalho significa maior poder de compra dos brasileiros, crescimento da poupança interna e expansão vigorosa do mercado interno. Estamos vendo um círculo virtuoso de aumento das oportunidades para todos, especialmente para vocês, empresários.

Não esquecemos, em todo esse esforço, a necessidade de aprimorar o ambiente de negócios no Brasil e diminuir o custo do capital, inclusive para o investidor estrangeiro, que hoje vê suas aplicações no Brasil desoneradas. Aprovamos novo modelo de Parcerias Público-Privadas, que abre possibilidades de investimentos em grandes obras de infra-estrutura, física e energética. Muito resta por fazer e por isso seguiremos impulsionando as reformas necessárias para diminuir o “custo Brasil”, com prioridade para a reforma fiscal.

O resultado desse esforço é que, pela primeira vez em muitas décadas, o Brasil não está “atrapalhando” o Brasil. No passado, quando a economia doméstica dava sinais de dinamismo, com aumento do consumo e geração de empregos, faltavam produtos para exportar e o déficit comercial obrigava a reduzir a atividade interna. Quando as condições eram favoráveis para a exportação, a falta de produtos no mercado interno gerava pressões inflacionárias que obrigavam as autoridades financeiras a conter o consumo.

Hoje, ao contrário, o mercado externo e a economia doméstica se reforçam mutuamente. As amplas reservas externas permitem exportar sem prejudicar o consumo e o crescimento.

Ao mesmo tempo, o aumento da produção não inibe as exportações para atender à demanda doméstica. O crescimento das exportações gera empregos domésticos, enquanto o aumento da renda interna estimula investimentos externos para ampliar nosso parque produtivo.

Minhas amigas e meus amigos,

Todas essas condições explicam porque o nosso comércio exterior dobrou nesses 3 últimos anos e passou de 13% do PIB, nos anos 90, para cerca de 26% hoje. Em 2005, exportações e importações alcançaram o nível histórico de 192 bilhões de dólares. Tivemos um superávit de quase 45 bilhões de dólares. Junto com os ministros Furlan e Amorim, tenho me dedicado a promover os produtos e serviços brasileiros no exterior.

O Brasil tornou-se um dos líderes mundiais no comércio de bens de alto valor tecnológico agregado. Detemos o parque industrial mais moderno e diversificado da América Latina, responsável pela produção de aviões, eletrônicos, automóveis e bens de capital que compõem mais da metade de nossa pauta exportadora. As exportações de carne, soja, café, açúcar, suco de laranja e álcool embutem avanços científicos e tecnológicos notáveis que fazem do Brasil um celeiro do mundo e fonte de muitas das energias renováveis do futuro.

Esse quadro reflete a crescente competitividade das empresas brasileiras, que ganharam melhor presença internacional e rentabilidade. Esses fatores estão refletidos no crescimento significativo de nosso mercado de capitais nesses últimos anos.

A confiança do empresariado internacional no Brasil é clara: 400 das 500 maiores multinacionais do planeta possuem investimentos hoje no país. As oportunidades de negócio que oferecemos não param em nossas fronteiras. Um conjunto ambicioso de projetos de integração da infra-estrutura física está consolidando um espaço econômico unificado na América do Sul. O Brasil torna-se plataforma privilegiada para acesso a um mercado regional de mais de 300 milhões de habitantes, com um PIB superior a 1 trilhão de dólares. E as oportunidades de investimento também estão aqui, no Reino Unido, que pode ser sócio privilegiado para as empresas brasileiras em sua estratégia de expansão internacional.

Caros amigos e amigas,

As trocas comerciais entre o Brasil e o Reino Unido fecharam 2005 no seu nível mais alto, com um crescimento de 14% em relação ao ano anterior. Precisamos, no entanto, com criatividade e ousadia, abrir novas frentes. Na área das fontes de energia renováveis, por exemplo, o Brasil detém hoje a matriz energética mais sustentável do Planeta e é referência na pesquisa e produção de biocombustíveis – e no desenvolvimento de motores “flex” fuel.

Tanto o etanol quanto o biodiesel representam alternativas seguras do ponto de vista energético e ambiental e viáveis economicamente. Devemos trabalhar juntos para promover a utilização dos biocombustíveis em escala global. Podemos ajudar países da África, por exemplo, a utilizar essa tecnologia para superar sua dependência energética e, ao mesmo tempo, gerar empregos e renda.

Essas potencialidades ressaltam a importância de aprofundar nossa parceria em ciência e tecnologia. Investindo em conhecimento, manteremos nossa competitividade e agregaremos valor à nossa produção. O Plano de Ação conjunto que estamos aprovando nesse setor permitirá aproveitar o potencial de nossos institutos de investigação em setores-chave, como nanotecnologia, pesquisa farmacêutica, tecnologia de alimentos e mudança climática.

Senhoras e senhores empresários,

O aproveitamento de todo esse potencial requer avanços nos regimes internacionais que afetam os fluxos de comércio e investimentos. Por isso, o primeiro-ministro Tony Blair e eu estamos pessoalmente empenhados no êxito da Rodada de Doha da OMC. Queremos contribuir para um consenso que destrave as negociações e permita eliminar distorções que afetam a produção e a exportação agrícola dos países mais pobres.

Brasil e Reino Unido também estão empenhados em buscar a pronta conclusão do acordo de associação entre o Mercosul e a União Européia. Estou seguro de que, com vontade política e flexibilidade dos dois lados, poderemos chegar a um acordo mutuamente vantajoso. Em ambas as negociações, nossos empresários podem contribuir para a formação de posições equilibradas. Vocês são importante motor de nossa relação econômica e comercial. Os governos podem preparar o terreno, atuar como facilitadores. Mas quem fecha os contratos são vocês.

Deixo aqui o compromisso de meu governo de continuar trabalhando pelo aperfeiçoamento do ambiente de negócios no Brasil. Deixo também uma mensagem de otimismo e confiança com relação aos rumos políticos e econômicos do país. O Brasil goza hoje de uma solidez institucional que nos permite encarar com tranqüilidade um ano como este, marcado por eleições gerais no país. É a sociedade brasileira, mais do que ninguém, que exige de seus governantes crescimento, justiça social, estabilidade e previsibilidade.

A vocês, cabe a tarefa de aproveitar este momento extremamente favorável desencadeando ações concretas que contribuam para a prosperidade do Reino Unido e do Brasil.
Boa sorte e bons negócios!

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