Uma passagem para a Índia – ou a Índia pede passagem, por Paulo Antônio Pereira Pinto

O livro “Uma Passagem para a Índia” (Foster, E.M. – “Uma passagem para a Índia” – Editora “Globo”. 2005) era considerado leitura obrigatória, para os que, até recentemente, procurassem entender os exotismos indianos. Na obra, E.M. Foster descreve sua experiência, na década de 1920, com o desencontro entre dois mundos distintos: o dos ocupantes ingleses e o dos nativos do país. Hoje, com o clima de Carnaval no Brasil, seria mais conveniente, para o observador em Mumbai, usar a expressão “A Índia pede Passagem”, como forma de refletir o ufanismo que prevalece neste maior centro financeiro indiano. Aqui está sendo previsto um crescimento de 9% da economia, em 2007. “India Poised ( A Índia está a postos)  – Make 2007 the Year of India” é o “mantra” repetido em anúncios da imprensa escrita e falada e em cartazes expostos nas ruas.
Diante de tais manifestações, cria-se a expectativa, no resto do mundo de que, realmente, estaria sendo criada uma “marca”, chamada Índia, destinada a redefinir parâmatros globais.
Os seguidores desta corrente de pensamento chegam a formular neologismos como o de que empregos nos EUA estão sendo “Bangalored”, no sentido de que foram tranferidos para aquela cidade indiana. Tornou-se moda, entretanto, contar com a concorrência indiana em qualquer grande disputa por companhias européias, principalmente no setor siderúrgico. A parceria de Nova Delhi em reivindicações quanto à rodada de Doha, na OMC, é obrigatária. Washington e Moscou oferecem grandes negócios na área de energia nuclear à Índia.

Que tipo de potência, no entanto, estaria a Índia “poised”, “a postos”, “destinada” a ser? Do ponto-de-vista econômico, cabe reconhecer que o país conta, ainda, com 260 milhões de pobres, vivendo com o equivalente a menos de US 1 por dia. Metade das crianças morrem antes dos cinco anos. A infra-estrutura lamentável e o ensino deficiente, mesmo considerando os centros de excelência existentes, não facilitam a inclusão da população rural no processo de crescimento tão alardeado nas áreas urbanas.
Em Mumbai, no entanto, a maior cidade, centro financeiro e comercial, onde residem cerca de 17 milhões de pessoas, estima-se que a metade viva em favelas ou nas ruas…
É necessário, portanto, definir de que Índia se fala, quando são feitas projeções de uma potência  emergente. Os filmes produzidos em Bollywood não podem ser considerados como representativos do país. São um espetáculo. A riqueza dos casamentos exibidos nas películas e a alegria de suas danças não refletem a realidade da população. O que está sendo projetado no exterior é uma caricatura.
Talvez a Índia estivesse emergindo em função de sua “Soft Power”, para recorrer ao pensamento de Joseph Nye (Nye, Jr. Joseph S. “Soft Power: The Means to Success in World Politics”. Public Affairs, 2004),  que descreve tal poder como “a habilidade de obter o que você quer, atraindo e persuadindo os outros a seguirem objetivos seus”.
Nesse sentido, a Índia estaria bem equipada, tendo em vista suas instituições democráticas, a convivência entre distintas culturas, raças, religiões, castas e línguas, proporcionando a convivência entre civilizações antigas e herança artística valiosa.
Quando se diz que a Índia está a postos, trata-se do reconhecimento de que existe um momento psicológico.  Hoje, as pessoas encontram-se orgulhosas de serem indianas – pela imagem favorável de seu país, por razões do crescimento econômico e, não, por vitória em campeonato mundial desportivo. A chamada “espiritualidade indiana”, com sua promessas de atingir o Nirvana,  já atraiu, como se sabe, os Beatles e “elites” norte-americanas e européias. A propósito, o muito reverenciado Guru local Jaggi Vasudev, em entrevista recente ao Jornal “Times of India”, citou que “quando Mark Twain visitou a Índia em, 1896, afirmou que “qualquer coisa que possa jamais ser criada por Deus ou feita pelo homem, foi produzida nesta terra”. Mas em toda esta conversa sobre espiritualidade, detalhes sobre a humanidade foram esquecidos. Em cada esquina foram construídos templos, mas, não banheiros públicos. A vontade de urinar é mais importante e compulsiva do que a de rezar.”
Na prática, entre as várias realidades indianas, há setores que procuram avançar no sentido que o resto do mundo parece indicar-lhe, com os adjetivos favoráveis que lhe são agraciados.  Esta seria a Índia que se livra de amarras, buscando dinamizar sua gente. Todos os obstáculos, referentes à falta de energia, reformas na agricultura, transportes, saúde, educação e meio ambiente, entre outros, seriam superados. Não haveria mais restrições às compras de bens do exterior. Agora, trata-se de comprar empresas em outros países.
Longe desta cumplicidade,  situam-se camadas mais preocupadas com rupturas bruscas, que venham a romper o frágil equilíbrio social, acomodado pela superposição de sucessivas migrações e imposição de castas. Para esta Índia, caberia avaliar melhor o limite consensual para que se continue a criar expectativas de ascensão das centenas de milhões de pobres, em função, apenas, do desenvolvimento de indústrias de serviço.
Nesta antiga civilização, mas jovem país – independente em 1947 – não existem os entraves impostos, pela força, como acontece na China, por exemplo, no caso de reivindicações consideradas excessivas, pelo Governo central. Aqui, o “estar a postos” significa um consenso da sociedade civil e, não, uma retórica ditada por um “Grande Líder”. Como reverter processo que faça acreditar ser a riqueza um direito de todos os indianos, é algo difícil de imaginar.
Esteja a Índia de passagem por uma fase de otimismo ou “pedindo passagem”, cabe ressaltar a originalidade da principal frase de sua propagando turística: “Incredible India” – isto é, para o observador em Mumbai, não é possível ainda acreditar numa “marca” indiana que reflita, com segurança, algo mais do que sua incrível multiculturalidade e multilinguismo.

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