Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, por ocasião do almoço oferecido pelo presidente da República de Botsuana, Festus Mogae – Gaborone-Botsuana, 11/02/2006

Excelentíssimo senhor Festus Mogae, presidente da República de Botsuana,
Senhores ministros brasileiros,
Ministros de Botsuana,
Embaixadores,
Empresários,
Jornalistas e convidados,

É uma honra visitar este belo país, com o qual o povo brasileiro se sente profundamente irmanado. Minha vinda a Botsuana – a primeira de um Presidente brasileiro – dá seguimento ao gesto de Vossa Excelência, que visitou meu país no ano passado. Sua presença no Brasil deu impulso às nossas relações, que agora queremos aprofundar.

Brasil e Botsuana são países que compartilham valores e afinidades políticas. Enfrentamos problemas semelhantes com a mesma coragem e determinação. Já cooperamos no plano multilateral em favor da paz e do desenvolvimento. Devemos agora estender essa cooperação nos planos nacional e regional.

Senhoras e senhores,

Em Botsuana encontramos uma síntese das condições necessárias para a construção de um futuro melhor para os povos da África. Esta é uma nação próspera e socialmente coesa, com uma democracia vibrante que vem realizando as aspirações de seus habitantes.

A estatura internacional de Botsuana se mede por sua notável estabilidade política e econômica, pela qualidade de suas lideranças políticas, por uma administração pública transparente, por um saudável ambiente de negócios. Os resultados se vêem no crescimento econômico consistente de várias décadas.

Botsuana é modelo para o continente africano. O Brasil deseja que a parceria que está sendo construída aqui também possa ser um exemplo de cooperação solidária entre nações, de dois continentes, que estão unidas na determinação de alcançar o desenvolvimento e o bem-estar de seus povos.

Senhor Presidente,

Com base no Acordo-Quadro de Cooperação Técnica que assinamos quando da viagem de Vossa Excelência ao Brasil, avançamos em diversos projetos de interesse direto para nossas populações.

O instrumento que assinamos em matéria de combate ao vírus do HIV/AIDS sinaliza a importância da parceria que estamos desenvolvendo. Unindo as experiências bem sucedidas de Botsuana e do Brasil no combate ao vírus da AIDS, ofereceremos um modelo de cooperação para outros países africanos. Antecipamos o dia em que medicamentos anti-retrovirais possam ser distribuídos gratuitamente para amplas camadas da população, preservando vidas e reacendendo esperanças.

O segundo ato que assinamos hoje também tem como objetivo criar oportunidades para nossa juventude, por meio da cooperação esportiva, com repercussões nos planos dos serviços sociais e profissionais.

Queremos fundar nossa parceria em bases econômicas firmes. A realização, ontem, aqui em Gaborone, de importante encontro de homens de negócios atesta esse potencial. Estou seguro de que nesse evento foram identificadas importantes oportunidades de investimentos brasileiros no promissor mercado de Botsuana.

Temos o desafio de elevar o nível ainda muito modesto de nossas trocas comerciais. A tecnologia e os produtos brasileiros, por serem mais adaptados às condições do mercado africano, podem ajudar Botsuana a diversificar seu parque industrial, sobretudo no campo de couros, calçados e processamento de carne.

Estou convencido de que nossas iniciativas muito se beneficiariam de uma aproximação entre a Comunidade Sul-Americana de Nações e a Comunidade de Desenvolvimento da África Meridional. Ambas organizações se voltam para a coordenação política e a integração regional como indutores de desenvolvimento econômico e social. Na qualidade de sede da Comunidade da África Meridional, quero encorajar o governo de Botsuana a tomar a dianteira nesse processo de aproximação entre países do Sul.

Outro elemento que facilitará nossa tarefa será a criação de uma futura área de livre comércio entre o Mercosul e a SACU. A assinatura de um acordo de preferências comerciais foi um primeiro passo nessa direção.

Nossa parceria econômica também se estende ao campo das negociações multilaterais de comércio. No âmbito do G-20, o Brasil e outros países em desenvolvimento vêm combatendo os subsídios agrícolas, que resultam no empobrecimento de nossas populações.

O compromisso de Botsuana com a democratização dos mecanismos multilaterais explica por que seu país, senhor Presidente, foi escolhido pela União Africana para negociar a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas. O Brasil é profundamente agradecido pelo apoio de Botsuana à sua candidatura a membro permanente do Conselho.

Contamos, também, com o apoio de Botsuana à iniciativa “Ação contra a Fome e a Pobreza”, lançada há cerca de um ano e meio em Nova York.

Senhoras e senhores,

É uma honra visitar o país de Seretse Khama, líder do processo de independência e Presidente que soube compreender o profundo apego de seus concidadãos pela democracia e pela concórdia. Esses são valores que compartilhamos e que dignificam a aliança que estamos celebrando.

Estamos determinados a construir uma ponte de solidariedade e cooperação entre a África e a América do Sul. Esta idéia-força ganha contornos mais concretos com a proposta do presidente Obasanjo, da Nigéria, de organizar encontro dos Chefes de Estado e de Governo da América do Sul e da África.

Convido nossos parceiros africanos a engajarem-se na viagem de descoberta mútua que me trouxe hoje a Botsuana e já me levou, nos últimos três anos, a 16 outros países do continente africano.

Meu caro presidente Festus Mogae,

Senhores ministros,

Cada vez que embarco em uma viagem para a África é como se estivesse voltando para a minha própria casa. Estamos trabalhando para construir uma consciência do nosso povo de que somos devedores ao povo africano. Não devedores de dinheiro, porque não teremos como pagar, mas devedores da nossa riqueza cultural, devedores da alegria do nosso povo, da nossa ginga, da nossa dança e devedores da beleza do nosso povo. A mistura de brancos, negros e índios produziu, (inaudível) mas quero dizer para vocês que, modéstia à parte, uma parcela dos seres humanos mais alegre e mais bonita do que (inaudível).

E quando falamos de integração, logo olhamos o Oceano Atlântico. Me parece impossível estarmos tão perto, com tanta água salgada e profunda pela nossa frente. Entretanto, meus amigos, o ser humano não é medido por quilômetros. As distâncias, às vezes, (inaudível) medidas por quilômetros, porque não há mar e não há distância que possa separar dois povos e dois continentes quando as suas consciências e os seus corações estão irmanados em torno de um objetivo.

Podemos morar em Botsuana ou morar no Brasil, mas todos nós trabalhamos para criar um mundo mais justo, mais solidário, em que (inaudível), em que homens e mulheres sejam tratados com a dignidade que aquele que nos criou espera que sejamos tratados.

Quero terminar, senhor Presidente, com uma frase que transmiti ao povo do Benin. Durante muitos anos no século XX, o Brasil virou as costas para a América do Sul e olhava para a Europa e para os Estados Unidos sem enxergar a África. Às vezes, queria até enxergar o Japão sem querer enxergar a África.
Tenho um compromisso de vida que, possivelmente, não possa ser cumprido por um governo, possivelmente, por algumas gerações. É o compromisso de que nunca mais o Brasil olhará o mundo sem enxergar o continente africano.

Com essas palavras, quero pedir a todos que comemoremos essa nossa passagem por Botsuana com um brinde em homenagem ao presidente Mogae e ao povo de Botsuana.

Muito obrigado.

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