Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de abertura do 25º Encontro Nacional do Comércio Exterior – ENAEX – Rio de Janeiro-RJ, 23/11/2005

Meu caro Luiz Furlan, Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior,

Meu caro Luiz Marinho, Ministro do Trabalho e Emprego,

Meu caro Márcio Fortes, Ministro das Cidades,

Senhores secretários estaduais,

Deputado Júlio Lopes,

Senhor Benedito Fonseca Moreira, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil,

Senhoras e senhores representantes das empresas agraciadas com o Prêmio Destaque de Comércio Exterior,

Empresários,

Empresárias,

Meus amigos, minhas amigas,

Jornalistas aqui presentes,

Eu tenho sempre um discurso, Furlan, por escrito, mas o problema é que os números que eu vou citar, aqui, acho que todos vocês têm na cabeça. O Benedito já citou alguns, amanhã o discurso do Furlan deverá estar recheado de números. Eu queria falar um pouco de outras coisas com vocês. Faz de conta que eu li o discurso.

O Furlan disse uma coisa, aqui, que precisa ser encarada como uma coisa muito séria: política de comércio exterior, para o Brasil, deixou de ser um campeonato de surf para ser uma política pública do governo brasileiro.

Acabou o tempo em que as exportações eram coisas ocasionais. Acabou aquele momento em que o governo decidia incentivar a exportação e resolvia matar o mercado interno, ou quando resolvia fortalecer o mercado interno, matava as exportações. Acabou.

A política de comércio exterior do Brasil é uma política perene, e ela precisa crescer cada vez mais. E vai crescer cada vez mais quando, cada vez mais, governo, empresários e sociedade brasileira assumirem a responsabilidade de fazer as coisas com muita competência.

Os nossos empresários, de vez em quando, fazem críticas. E eu queria registrar aqui, para vocês, que aproveitem o meu governo para fazer crítica. Aproveitem porque, certamente, com uma boa crítica vocês serão convidados para uma boa reunião e, quem sabe, a gente tenha uma boa solução. Duro é quando vocês não criticam, quando não tem a reunião, quando não tem a solução e quando diminuem as exportações.

Nós temos uma legislação muitas vezes superada. Eu me lembro que na primeira vez em que fomos discutir política cambial, que introduzimos algumas mudanças na nossa política de comércio exterior, nós tínhamos lei de 1940, lei de 1950, lei de 1937.

E obviamente que você tem instituições do Estado brasileiro, como a Secretaria da Receita ou outros departamentos do governo que, como já estão habituados a trabalhar com aquela legislação, é mais fácil ficar do jeito que está. Todo mundo tem medo do novo.

Por isso que quando nós falamos em reforma e começamos a fazer reforma, aparece muita gente contra. Gente que até você pensava que era favorável, mas que é contra, o cara tem medo. As pessoas pensam: “mas eu já estou há 40 anos assim, eu já estou há 50 anos assim, para que mudar?”

E nós precisamos adequar o Brasil ao século XXI. Precisamos dar ao Brasil as mesmas condições que os nossos competidores têm. E precisamos dar ao Brasil uma legislação tão moderna quanto moderna é a nossa cabeça, quando pensamos em exportação.

Por isso, Furlan, não tenha nenhuma preocupação de instituir quantos grupos de trabalho forem necessários para que a gente possa ver o que está atrapalhando, o que está dificultando, para a gente, dentro das nossas possibilidades, dentro da capacidade que teremos de convencer o Congresso Nacional, fazer as mudanças que nós precisamos fazer.

Afinal de contas, nós tomamos uma decisão de afirmar, de forma muito categórica, que nossa política de comércio exterior é prioridade, e não é incompatível com o crescimento interno, e não é incompatível com as brigas que fazemos com a OMC, porque no Brasil tem um tipo de gente que leu algum manual, em algum momento da história, e ele acha que aquele manual é irreversível, que aquilo não muda nunca, que não pode mudar. Por exemplo, quando nós tomamos posse tinha uma briga ideológica sobre a questão da Alca. Então, a Alca, que era uma coisa eminentemente comercial, virou um debate ideológico. Quem era contra era de esquerda, quem era favorável, era de direita. Um debate maluco. Se o Brasil não fizer a Alca o mais rápido possível, o Brasil vai criar problema com os Estados Unidos. Então, é preciso fazer a Alca.

O que aconteceu, na verdade? Faz dois anos que nós não falamos em Alca e não aconteceu nada no mundo. Pelo contrário, os Estados Unidos, que eram o maior interessado, hoje estão mais com a nossa posição do que já esteve em qualquer outro momento. Por quê? Porque como os Estados Unidos têm uma estratégia de comércio exterior muito antiga e muito forte, eles só fazem aquilo que eles entendem que pode ajudar o seu comércio exterior.

Então, para evitar esse debate ideológico alucinado que estava no Brasil, quando os Estados Unidos nos procuram e dizem o seguinte: “olhem, todos os temas sensíveis nós vamos para a OMC, o que não for sensível, nós negociamos”. O que é que eles nos permitiram? Dizer para eles o mesmo: “olhem, então, os temas sensíveis do Brasil nós vamos para a OMC e negociamos o restante”. Nem os Estados Unidos se expressaram mais, nem nós fizemos mais discurso ideológico e, no momento certo, nós vamos sentar e vamos estabelecer as nossas negociações, sempre levando em conta que, antes de atender os interesses de outros países, nós temos que defender os nossos interesses comerciais, a sobrevivência das nossas empresas, a sobrevivência dos nossos empregos e a sobrevivência do crescimento em nosso país.

A partir daí, nós então negociaremos como gente adulta. E uma negociação é simples: senta-se à mesa, coloca-se a oferta do lado, regateia-se daqui ou dali, e você sai com uma boa vantagem ou sai com empate. Derrotado, eu penso que dificilmente nós sairemos enquanto o Furlan estiver no Ministério do Comércio Exterior.

E essa política tem dado certo porque todos os investimentos que nós fizemos nas nossas relações internacionais – eu, até hoje, não recebi nenhum título de doutor honoris causa, eu quero ver se vou receber quando eu deixar de ser presidente para ver se eles são mantidos, porque me oferecer título quando eu sou presidente, é fácil. Quero saber quando eu não for mais nada, se vão manter os títulos.

Bom, nós temos viajado, a verdade é esta, como mascate mesmo, sem ter vergonha de vender os nossos produtos, sem ter vergonha de dizer o que nós produzimos, sem ter vergonha de fazer as pesquisas que já fizemos. Nós já fizemos pesquisas até para saber o que o mundo pensa do Brasil. E a imagem que o mundo tem do Brasil, é uma imagem de um país alegre, de um país colorido, de uma coisa leve. Nós é que somos pesados, porque muitas vezes vendemos muito pessimismo. Eu, de vez em quando, vejo cada artigo escrito por especialistas contra a nossa política externa que eu não consigo acreditar que estou vivendo no mesmo planeta que o cidadão que escreveu aquilo. Porque o que as pessoas estão percebendo é que o mundo globalizado permitiu que o Brasil deixasse de ser colônia, permitiu que o Brasil pudesse viajar o mundo tentando se oferecer enquanto qualidade de mão-de-obra e de produto, para vender para o mundo. E o resultado tem sido extraordinário.

Eu não acho que deveria ser muito mais do que já está, porque também é preciso que a gente vá crescendo de acordo com a nossa capacidade de ir atendendo tanto às nossas necessidades internas quanto às nossas necessidades externas porque senão a gente desbalanceia e, muitas vezes, vamos vender coisas que faltam para nós ou vamos consumir o que nós temos que vender. Vamos equilibrar isso. Não precisamos ir com muita sede ao pote. Quantos de vocês, aqui, imaginavam que nós chegaríamos, com 34 meses de governo, a 115 bilhões de dólares de exportação? Os mais especialistas aqui? Ninguém acreditava, essa era a verdade.
E hoje, que engraçado, nós estamos crescendo as exportações e estamos crescendo as importações. Porque, Furlan, é preciso dizer que em 2003, 2002, a gente teve um superávit comercial de 13 bilhões, porque a gente diminuiu as importações em 11 bilhões. No fundo, no fundo, se não tivessem diminuído as importações, nós estaríamos com 2 bilhões de superávit. Então nós estamos, agora, aumentando as importações que já estão em quase 74 bilhões, saímos de 47. E o que nós estamos importando? Bens de capitais. O que significa isso? Que as nossas empresas estão apostando que o amanhã será muito melhor do que o hoje. Estão apostando nisso. E por isso estou otimista, Furlan, que logo, logo, estaremos falando de 150 bilhões em exportação.

E por quê estaremos falando isso? Porque eu vou contar alguns exemplos para vocês de coisas importantes. Nós nos abrimos para o mundo, eu visitei mais países, em 35 meses, do que muitos presidentes visitaram em três ou quatro décadas, fui criticado por isso. Estamos exportando nossa inteligência, nossa engenharia. No Brasil há quem diga que quando nós estamos financiando uma rodovia no Peru, nós deveríamos financiar aqui. Não, nós estamos exportando serviço. Quando a Odebrecht fica construindo o metrô de Caracas, nós estamos exportando serviços, a nossa engenharia, peças produzidas no Brasil. E vamos continuar fazendo isso, porque eu acho que a América do Sul é um mercado extraordinário para o Brasil e que a gente não pode abdicá-lo porque ele é mais pobre, em função de tentar conquistar definitivamente a Europa. Quanto mais rico o país, mais limitações nós temos para crescer nossas exportações. Nós temos o mundo a nossa espera.

Dois exemplos que vou contar para vocês – Furlan estava presente. Primeiro o ministro do Japão, Koizumi, eu estava meio cismado porque há 28 anos o Brasil tentava vender manga para o Japão e o Japão tinha uma cisma de dizer que tinha a Mosca da Fruta. Koizumi sentou na minha mesa e começamos a discutir a questão da manga. E vai daqui, o Furlan ficou meio nervoso, tal, eu mandei buscar um prato de manga. Traz, aqui, um prato de manga para o nosso Primeiro-Ministro comer a manga brasileira para saber. Eu não sei se coincidência ou não, isso foi no final do ano, em janeiro já exportamos a primeira carga de manga para o Japão, saída de Petrolina, lá em Pernambuco.

Um outro exemplo foi a Nigéria. Nós tínhamos um problema com a Nigéria, eu estive lá, depois o Presidente … veio para cá, 7 de setembro, e tinha um problema de uma dívida da Nigéria com o Brasil, uma dívida de 20 anos. Uma dívida que era de 30 milhões de dólares, mas que com juros e outros tais já estava em cento e poucos milhões de dólares e que ficava difícil fazer qualquer negócio com a Nigéria se a Nigéria não pagasse aquela dívida, e o pessoal da Nigéria nem queria discutir aquele negócio. Acontece que, nós sentamos à mesa com o presidente Obasanjo, eu falei: Presidente, nós temos um problema a resolver. O Brasil importa quase 3 bilhões e meio de dólares do seu país e exportamos menos que 500 milhões de dólares, é preciso que haja um equilíbrio nessa balança comercial, porque se não nós vamos ter que procurar comprar petróleo de outros países ao invés de comprar só da Nigéria. E também é preciso o senhor acertar uma dividazinha que tem conosco, porque se não acertar fica difícil criar novas linhas de financiamento. Ele, na hora, mandou chamar a ministra da economia dele, que era contra. Na mesa, a gente almoçando, e ele deu ordem: eu quero acertar a dívida do Brasil. Aí o Furlan deu uma idéia engenhosa, que era a de transformar a dívida num crédito. Na hora ele concordou. Sabe onde nós assinamos o acordo? No desfile de 7 de Setembro, no palanque, ninguém nem percebeu. Chegou alguém lá, por de trás de mim com um papel, eu e ele assinamos, o Furlan, e estava resolvido o problema com a Nigéria. E o Brasil não vai vender para a Nigéria se o Brasil não for lá. Tem mais é que ir lá, porque se não eles vão comprar da França, se não eles vão comprar num outro país qualquer.

Cada vez que o Furlan fala: Presidente, eu preciso do “sucatão” para levarmos os empresários… – eu espero que vocês não entrem com um processo para receber pela poluição sonora, porque os decibéis são acima de 80. Mas o dado concreto é que eu quero fazer um reconhecimento aqui: “essa história é que durante a campanha eu dizia, na verdade, eu quero criar uma secretaria especial de comércio exterior fora do Ministério do Desenvolvimento, que eu quero um mascate.” A minha tese era essa, eu queria um mascate, eu queria alguém que saísse pelo mundo com um pacote de Brasil embaixo do braço, vendendo. Bom, acontece que, quando eu fui convidar o Furlan, eu falei: “achei. Achei o ministro do Desenvolvimento, da Indústria, do Comércio e o mascate juntos”. Então, não precisa criar duas coisas.

E eu quero fazer justiça aqui. O trabalho do Furlan, o trabalho do Roberto Rodrigues, o trabalho do Celso Amorim, o ministro de Relações Exteriores, e o trabalho dos companheiros do Furlan, dos companheiros do Banco do Brasil, do BNDES, da APEX, todo mundo que trabalha, tem sido extraordinário. Por quê? Porque eles viraram, na verdade, profissionais do comércio exterior. Eles passaram a entender que isso é bom para o Brasil, que não pode ser uma coisa eventual, que não poder ser uma coisa temporã: “ah, o dia que me der na veneta vou tentar vender, o dia em que não me der, eu não vou”. Não, é tornar isso uma política definitiva do Brasil. O Brasil é competitivo, o Brasil pode competir com todos os países.

Veja, o nosso representante de Itajaí, que já tinha feito uma reclamação para o Furlan ali na ponta, que precisa resolver o negócio do Porto de Itajaí. Já recebi a notícia aqui. É o Ministério das Cidades que é o responsável por consertar o Porto de Itajaí, já está começando a consertar o Porto de Itajaí, então ele não vai ter problema logo, logo. Não vai ter problema.

Do aeroporto do Rio Grande do Sul, o avião nunca consegue sair lotado, porque tem um espaço pequeno, ou seja, tinha um problema lá, de duas ocupações de terra – você que é gaúcho, Marco Aurélio – aquilo estava uma eternidade. Pois bem, o Márcio foi lá, agora, resolveu, nós vamos desapropriar a área, vamos aumentar o aeroporto de mil metros e vamos fazer casa para as pessoas em outro lugar.

Ou seja, não tem problema que não tenha solução se você estiver disposto a resolvê-lo, se você acordar todo santo dia com um pouco de otimismo, porque tem gente que acorda e vai dormir azedo, desacreditando.

Eu, muitas vezes, fui até grosseiro com os empresários, quando eu dizia: “vamos parar de chorar e vamos botar a mala embaixo do braço e viajar o mundo. Vamos parar de reclamar”. O Furlan sabe das críticas que eu faço. Tem determinados líderes empresariais que vivem por conta da reunião do Copom, se não existisse Copom não existiria a entidade. Sabem, são trinta anos de mesmo discurso.

O dado concreto é que eu estou ouvindo, desde há um ano e meio: “Ah, não vai conseguir exportar porque o câmbio está ruim. Não vai conseguir exportar”. E todo dia o Furlan me passa a notícia: “melhorou, melhorou, crescemos, melhorou, crescemos, melhorou, crescemos”.

Obviamente que nós temos muito para fazer. E eu acho que nós vamos ter boas e belas surpresas com a nossa política externa. Primeiro porque nós partimos do pressuposto de que a América do Sul é um mercado muito, muito próximo e muito necessitado do Brasil. O Brasil pode.

Eu, quando vou em algum país e vejo um carro japonês na América do Sul, com a gente produzindo a quantidade de carro que produzimos ali, que dá para levar pelo Correio. Agora, para facilitar, nós estamos abrindo algumas estradas. Se Deus quiser, nós vamos terminar este ano financiando pelo menos uma obra de interligação em cada país, porque na hora em que a gente puder transitar livremente, os nossos produtos vão poder transitar.

Eu fiquei abismado porque eu inaugurei a primeira ponte entre Brasil e Bolívia, lá em Brasiléia, no Acre. É uma ponte em que só passa um carrinho, mas é melhor, porque antes não passava nada.

Agora estamos inaugurando, no dia 20 agora, a ponte Brasil-Peru, em Assis Brasil, e Iñapari. E nós, fazendo isso, estamos criando as condições para que os nossos mascates transitem com mais facilidade. E, às vezes, sabe quem é contra? Às vezes você tem departamentos da Receita Federal que são contra porque custa caro manter um posto lá. Mas não é a Receita que tem que decidir que vai montar um posto lá, é decisão de política de governo, monta-se um posto lá, coloca-se um funcionário. E eu acho que isso está virando profissional no Brasil.

Vou dar um outro exemplo para vocês: o presidente Putin veio ao Brasil, nós estávamos com um caso de febre aftosa no estado do Amazonas, e já saem logo os pessimistas: “acabou, morreu, não vai vender mais carne. O mundo acabou, não sei das quantas e tal”. Eu peguei o presidente Putin, levei na minha sala, num mapa do Brasil enorme, para mostrar para ele a distância entre o estado e a localidade que tinha um foco de febre aftosa e o local exportador de gado. Eu falei: “Isso aqui dá seis vezes da Rússia à Alemanha. Portanto, não tenha medo, Presidente, compre a nossa carne”. É difícil, porque tem regras internacionais. Difícil, mas o Marcos sabe que, devagarinho, nós vamos botando a nossa carne lá, vão comendo, vão gostando e vão comprando. Mas nós temos que fazer um esforço: aumentar a qualidade dos nossos frigoríficos, melhorar a qualidade do nosso rebanho. Nós agora, Furlan, queremos introduzir a rastreabilidade do boi para quando ele chegar no frigorífico, a gente saber quantos bois foram mortos, porque está cheio de boi de duas cabeças neste país, de oito patas. Porque as pessoas não percebem que, nos dias de hoje, ser sério é uma vantagem comparativa para o Brasil. Porque, qualquer dia, a OMC coloca obstáculos e aí nós vamos perder muito mais.

Eu me lembro de uma vez em que o Furlan entrou na minha sala, nervoso, e falou assim: “Presidente, olha o tanto, tanto que eu exporto frango, Presidente. Nunca, nunca eu vi uma sacanagem. Agora, Presidente, eu peguei uma pessoa que estava exportando frango com água dentro, e congela, fica mais pesado”. Será que esse malandro acha que vai ganhar uns dólares a mais, mas sabe o prejuízo que pode criar para a imagem do país, a política de exportação do país, ele tem noção disso? Então, com essas pessoas, nós temos que ser duros. Nós temos que ser duros com os maus para garantir que aqueles que são bons, sérios, possam ganhar mercado no mundo e possam vender cada vez mais. É assim que um país ganha notoriedade.

O Furlan sabe, nós estamos já há algum tempo tentando introduzir o etanol em vários países, mas, sobretudo no Japão. Já fizemos muitas reuniões, não é, Furlan? Já criamos até um comitê e já fizemos o que vocês possam imaginar. Pois bem, qual é o problema dos japoneses? É que para eles transformarem o álcool em uma parte da matriz energética e colocarem um posto de gasolina para adicionar 3% no carro, eles querem o compromisso de que não vai faltar álcool. Eles querem o compromisso de que alguém não vai produzir açúcar, quando o açúcar estiver mais caro no mercado internacional. Isso se chama profissionalismo, isso se chama compromisso ético, sem os quais nenhum país consegue ir para a frente.

Então, se o Brasil fizer a sua parte, podem ficar certos de que o nosso crescimento de política de exportação e de comércio exterior é irreversível, não tem como o Brasil não continuar crescendo e vamos continuar crescendo cada vez mais, sempre levando em conta que nós temos que procurar novos mercados, sempre levando em conta que é mais fácil falar do que fazer. Vender exige mais sacrifício, mais trabalho, melhorar a qualidade, viajar. É cansativo. As viagens que eu tenho feito – o Furlan é testemunha disso e aqui, muitos empresários – a gente não tem tempo de jantar fora do hotel. Não tem teatro, não tem cinema, não tem museu, não tem nada. São negócios 24 horas por dia. Às vezes são três ou quatro discursos por dia para tentar convencer. E eu acho que isso deu resultado.

Então, eu queria dizer para vocês o seguinte: nós estamos longe de ter a legislação mais adequada, nós temos um problema de infra-estrutura, é verdade. Não pensem que eu fico nervoso quando alguém fala de infra-estrutura. Ainda em… no começo de 2004, Furlan, José Dirceu, Roberto Rodrigues, quem mais? o Ministro dos Transportes, in loco um grupo de ministros desceu para visitar os portos. Foram 11 portos. Colocamos dinheiro à disposição para liberar 11 portos, a começar pelo Porto de Santos, fazer dragagem, fazer a drenagem, fazer o que tinha que ser feito. Quando você começa a fazer, tem um problema de meio ambiente, tem um problema do Ministério Público.

E não adianta a gente chorar, porque isso é a legislação existente. Então, ao invés de chorar, nós temos que trabalhar. Criamos uma coisa chamada transversalidade, em que colocamos todo mundo junto para ver se resolve mais rapidamente. Criamos uma sala de situação, lá no meu andar, para ver se a gente consegue resolver, porque quanto mais qualidade a gente tiver nos serviços que a gente for prestar, mais bem tratados nós seremos.

Então eu queria pedir para vocês o seguinte. Eu me lembro que, em 2002, o presidente Fernando Henrique Cardoso, no intuito de acertar e de fazer as coisas, anunciou à Nação, a transferência de 14 mil quilômetros de estradas federais para os governos estaduais fazerem a recuperação. Vocês estão lembrados, não estão? E eu ainda – já tinha ganho as eleições – eu ainda fui, com o peso de um presidente que está entrando, que tem mais prestígio do que o que está saindo, eu fui pedir para atender logo, porque tinha alguns estados atrasados. Isso aconteceu na verdade, meus companheiros e companheiras. Isso aconteceu na verdade. Muitos governadores pegaram o dinheiro do governo federal, ao invés de fazer estradas, pagaram folhas de pagamento atrasadas, pagaram o 13º salário. E as estradas estão lá, é aquela criança que não tem pai nem mãe, ninguém assume. Você vai nos estados, está a placa lá: “Essa estrada é do governo federal”, vamos devolver, mas não querem devolver o dinheiro junto.

Então eu, agora, pedi para o Ministro dos Transportes fazer um projeto, porque também nós não podemos ficar brigando sobre quem é o pai da criança, e a criança morrendo, lá, de buracos. Nós precisamos resolver esse problema. Mas é crônico, são 14 mil quilômetros de estradas que estão órfãs, não foram adotadas por ninguém e o dinheiro desapareceu.
Então nós, agora, vamos tentar recuperar isso. E nós sabemos que a infra-estrutura é uma condição básica para que a gente possa diminuir os custos dos nossos produtos e fazer com que ele chegue mais barato aos compradores.

Nós tivemos quanto, Furlan? Um ano e meio para resolver o problema da Brasil Ferrovias, um ano e meio. Aquele gargalo do Porto de Santos, que demorava 36 horas, 40 horas para trocar de trilho, ou seja, nós estamos num investimento, lá, financiado, de quase 2 bilhões e 200 milhões de reais, para a gente resolver o problema da Brasil Ferrovias.

Nós, agora, estamos para dar a ordem de serviço, no começo de dezembro, na Transnordestina, ligando o Porto de Suape ao Porto de Pecém e ligando a Eliseu Martins, no Piauí, para ver se a gente retira a soja que está sendo produzida naquela região, o gesso de Araripina.

A verdade é que nós estamos tentando fazer a nossa parte, mas tem uma parte importante que é de vocês. E qual é a parte de vocês? Não é fazer o que o governo tem que fazer, a parte de vocês é sempre que tiverem uma sugestão não guardarem para si.

Vocês têm relação com o Furlan, uma relação profissional, relação de muitos anos, portanto, não tem segredo. O Estado não é nosso, nós terminamos o nosso mandato e nós vamos embora. O que nós vamos deixar para o Brasil são as coisas boas que nós fizermos.

Então, é preciso que vocês assumam essa responsabilidade, de ser mais ativos para que a gente encontre soluções. Não pensem que a burocracia tem tudo pronto, que não tem. E não pensem que há, da parte do governo, algum ministro, 24 horas por dia preocupado em mudar a legislação, porque a pressão é muito grande.

Aqui, o Furlan entregou um prêmio para um empresário do setor de calçados. O setor de calçados está com problema no Brasil. Ele não está com problema com o mercado interno, ele está com problema porque nós perdemos competitividade. E a gente sabe que quando a gente perde um mercado, é difícil recuperá-lo. É difícil.

Mas eu mesmo já disse ao Furlan: “Furlan, faça quantas reuniões forem necessárias para ver se a gente encontra uma solução, porque é um setor gerador de muitos empregos e eu acho que nós produzimos sapatos de boa qualidade”. Eu estou falando, aí, para ver se alguém me dá um aqui, porque eu estou elogiando muito o setor de calçados.

Mas a verdade é que é um setor em que o Brasil produz 900 milhões de pares de sapatos por ano. Sabe a China, quanto produz? Nove bilhões. Nós somos o segundo. Então, competir com a China não é uma coisa fácil. Não é fácil, lá eles não têm a dificuldade que nós temos aqui, para fazer uma lei. Lá eles não têm o sindicato reivindicando o tanto de aumento de salário que eles reivindicam aqui. É verdade, tem um certo equilíbrio.

Então, eu queria… Se exportar a CUT para lá, eles vão dar um jeito na CUT. Mas, o que eu quero, apesar das brincadeiras, o que eu quero dizer para vocês é o seguinte: gente, nós estamos vivendo um momento que depende muito de nós. Se vocês analisarem a combinação de crescimento econômico, crescimento das exportações, crescimento das importações, crescimento do nosso superávit, crescimento da nossa balança de conta corrente, crescimento do emprego. Nós estamos vivendo um momento muito importante.

O que nós precisamos é não permitir que haja nenhum retrocesso nessas coisas, porque um retrocesso, hoje, significa a gente perder dois anos, três anos, quatro anos. E todo mundo aqui sabe, quando a gente perde uma fatia de mercado, o tanto de tempo que leva para a gente tentar recuperar. E, às vezes, não recuperamos, porque isso é que nem política: você levantou o pé, num ônibus apertado, quando você vai descer tem um pé no teu lugar, meu caro.

Então, eu acho que o Brasil merece essa chance, e nós temos que dar essa chance ao Brasil. Eu quero pedir para vocês o seguinte: aproveitem que vocês têm o Furlan no Ministério do Desenvolvimento, e vamos tentar modernizar o que nós tivermos que modernizar, para garantir que nós tenhamos mais possibilidades.

Não se preocupem com a crise política, porque a crise política será resolvida na política. Sabe, graças a Deus, com todo o barulho que está por este país afora, a política econômica se mantém equilibrada. E quero dizer para vocês, nós demoramos muito para chegar onde chegamos. Só Deus sabe o sacrifício que nós fizemos no ano de 2003, para poder consolidar o sucesso de 2004. Se a gente tivesse feito a “farra do boi” em 2003, a gente não chegaria a 2004.

Portanto, o sacrifício que nós fizemos é porque achamos que o Brasil precisa de um longo ciclo de políticas estáveis, o Brasil precisa de um longo ciclo de crescimento. Não precisa crescer 7, 10, 15%, não. Se crescer, durante 20 anos, 4% está extraordinário. Mas é preciso que a gente consolide isso sem fazer nenhuma imbecilidade. E quando eu digo isso é o seguinte: nós estamos entrando em um ano eleitoral. Vocês viram aqui, na porta do hotel, que a campanha já começou. Vocês viram aqui.

Eu quero dizer para vocês, olhando na cara de vocês: da parte do governo, nós não faremos nenhuma medida que possa colocar em risco a estabilidade que nós conquistamos, por causa do processo eleitoral. Não comprometerei o futuro da próxima geração por causa de uma eleição. Não gastarei o que eu não puder gastar. Nós só vamos gastar aquilo que nós pudermos gastar. Não vamos fazer nenhuma aventura daquelas que, quando terminar o mandato, o povo fica com o prejuízo e fica com esqueletos. Vocês não sabem quantos esqueletos eu já paguei. Só da Previdência foi um esqueleto de 12 bilhões de reais que não estavam no orçamento e que eu tive que pagar.

E todo dia aparece um esqueleto no Supremo Tribunal Federal, de Planos e mais Planos que foram feitos, porque está cheio de mágicos no Brasil, que pegam um Ministério e já inventam uma mágica: tal Plano vai ser fantástico. Três meses depois, nós ficamos com os prejuízos. Então, não tem mágica em economia. Me perdoem, se alguém quiser mágica, não coloquem nenhuma esperança em nós. Se alguém quiser seriedade, coloquem toda a esperança porque nós não vamos cometer os erros que os outros já cometeram.

Aprendemos muito. Alguns, quando deixam o governo, desaparecem, você nem sabe onde estão. Tem muitos que passaram pelo governo, e você pensa que até mudaram para o estrangeiro. Aí você vai ver, ele está em um banco, ele está não sei aonde, porque não sai, isso é que nem praga, vai ficando, é que nem marisco, vai incrustando e não sai nunca.

Eu, quando deixar o governo, vou ficar a 600 metros do Sindicato que me criou para a vida política. E a única coisa que conta na vida pública é o resultado final. E o resultado final, cada um de vocês sabe aferir. E eu não tenho dúvida nenhuma de que o que nós conseguimos fazer nesses três anos vai possibilitar que este país possa ter pelo menos 10 anos de crescimento. Não depende de ninguém a não ser de nós. Somente nós é que poderemos fazer isso. Levanta de manhã, está pessimista, está… dá descarga no pessimismo, vai! Faz alguma coisa, joga no lixo, conta até 10, olha para frente e vamos tocar o barco, senão a gente não anda. Eu não conheço ninguém que vá para frente pessimista. Não conheço. Cidadão que levanta amargo, deita amargo, almoça amargo, reclama de todo mundo, é uma coisa maluca.

Esses dias eu estava dizendo que tem gente que fica nervosa porque eu faço comparação. Eu sou obrigado a fazer comparação com alguma coisa. Eu não posso pegar o governo do Getúlio para fazer comparação, porque já faz tempo. Eu não posso pegar o governo militar, eu tenho que pegar quem eu sucedi. Esses dias disseram “ah, o Marinho está contando lorota porque não cresceu 3 milhões e 600 mil empregos”. E os números do Marinho não são nenhuma pesquisa, não. É o resultado aritmético dos trabalhadores contratados e dos trabalhadores demitidos. Tem saldo positivo ou tem saldo negativo. As empresas comunicam os que são contratados e comunicam os que são demitidos.

Mas, ainda assim, as pessoas falam “ah, mas aí tem coisa, não criou tanto, não”. E a diferença é muito grande. A diferença é que, em oito anos, no governo passado, a média mensal do saldo positivo era de 8 mil empregos e, nos nossos 36 meses, a média mensal é de 108 mil empregos. Apenas 100 mil a mais por mês. Aí, quando as pessoas não acreditam… O Marinho, hoje, me deu um outro dado fantástico: nos oito anos passados, o saldo do Fundo de Garantia foi de 9 bilhões de reais. Nesses 35 meses, o nosso saldo é de 15 bilhões de reais. Ora, é o saldo do Fundo de Garantia. Então isso significa que está crescendo o emprego, significa que está crescendo a renda, significa que estão crescendo as exportações e, fantástico, é que está crescendo, e não parece que vai parar de crescer.

Os Estados Unidos, depois que o Bush comeu a carne lá do Mato Grosso, lá em casa, e gostou, porque a carne era de primeira qualidade, certamente logo, logo, nós vamos estar vendendo a nossa carne lá. Nós temos que fazer mais churrasco lá, Furlan, convidar mais gente. Se você convida alguém para vir jantar, aqui, no Brasil, almoçar, e você serve uma comida de outro país para ele, uma comidinha francesa, porque “não sei das quantas”… Eu me lembro que quando veio a Princesa da Espanha, junto com o Príncipe de Astúrias, aqui, criamos um frisson no Brasil, porque vamos comer feijoada. Mas o Itamaraty oferecer feijoada, onde já se viu, gente, a princesa comer feijoada!
Olha, a jornalista Tereza Cruvinel fez uma entrevista com ela, e ela falou o seguinte: “é a melhor comida que eu já comi na minha vida”. Repetiu três vezes a feijoada. Obviamente que eu não vou oferecer buchada para ninguém. Mas, gente, o país que tem a culinária que nós temos, a gente não oferecer isso para os estrangeiros, oferecer aquelas porçõezinhas pequenas de comida…

Olhe, eu acho que o Bush dificilmente comeu uma carne boa como a nossa. Não foi só para o Bush, não. Fizemos para o Fidel, fizemos para o Lagos, fizemos para o Chávez, fizemos para o Hu Jintao. Ou seja, quer uma caninha para experimentar? Está aqui, caninha boa, aguardente de cana, uísque toma em qualquer… Porque essa coisa tem comércio, mas tem muita relação humana. O nosso amigo da Embraer sabe, quer dizer, o esforço que nós fazemos, a Colômbia pode ou não pode comprar, vai, não vai comprar. Está comprando os nossos aviões, certamente tem pressão para não comprar. A Venezuela está comprando aviões, a Índia, só nós é que não podemos comprar o avião. Estamos doidos para comprar o Lex, não podemos comprar, mas um dia nós vamos chegar lá.

Gente, então eu queria que vocês se sentissem co-responsáveis, não coadjuvantes, mas os artistas principais do sucesso que estamos tendo. Esse sucesso não é meu, não é do Furlan, não é individualmente de nenhum de vocês.

Esse sucesso, ele só pode acontecer se todos nós acreditarmos que é possível. Por isso, boa sorte, que o Brasil possa ter, no trabalho de vocês, melhores resultados para o ano que vem.

Bom encontro e bom seminário!

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