Chanceler afirma que Brasil deve ajudar mais outros países do bloco e elogia relações com os EUA
Carlos Alberto Jr. e João Cláudio Garcia
Da equipe do Correio
A um mês da visita do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, a Brasília, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, garante que as relações entre os países não esfriaram. Ao contrário, revela que há “camaradagem” entre Bush e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Já em referência ao Mercosul, o chanceler faz um mea culpa e admite que é preciso um “sacrifício de competitividade” por parte do Brasil para ajudar outros países, como o Paraguai. “O Brasil não pode pensar que, se acabamos mais competitivos em tudo, vamos produzir tudo. Temos de comprar algumas coisas”, afirmou Amorim em entrevista exclusiva ao Correio, na última quinta-feira.
O ministro embarcou ontem para a Suíça. Em Genebra, ele participa de uma minirreunião ministerial sobre a Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). Entre os desafios, convencer representantes da União Européia e dos Estados Unidos a reduzir subsídios agrícolas e abrir o mercado para os produtos de países em desenvolvimento. Amorim avisou que, sem um acordo que represente mudanças, o Brasil vai esperar outra rodada de negociações para fazer concessões.
O presidente George W. Bush vem ao Brasil em novembro, mas analistas dizem que as relações com os EUA esfriaram. O governo deixou de priorizar essas relações?
As relações estão ótimas. Há até uma camaradagem do ponto de vista do relacionamento pessoal dos dois presidentes. Isso está na imprensa internacional, que se refere ao presidente Lula como de esquerda moderada, com boas relações com a Casa Branca. Conversei com a secretária de Estado Condoleezza Rice há pouco mais de uma semana sobre temas regionais e globais. Dedicamos bastante tempo à reforma da ONU e a temas como desarmamento, não-proliferação e Oriente Médio. Há sintonia de opiniões. O mesmo ocorre na área comercial. O comércio com os EUA nunca cresceu tão rápido. Não vejo falta de prioridade. Há uma diferença entre ter determinado assunto como prioridade e fazer todas as concessões para conseguir um acordo numa semana.
Muito se fala sobre uma estratégia americana para minar o Mercosul e impedir a consolidação do bloco. Parte dessa ação envolveria os acordos bilaterais dos EUA com países da região. Qual sua avaliação?
No comércio internacional, a monogamia não é uma virtude. O que não pode é ser membro de duas uniões aduaneiras ou de uma união aduaneira e outra área de livre comércio ao mesmo tempo. Vários países já tinham acordos preferenciais com os EUA. Vejo uma diversificação das oportunidades. Não creio que a ação americana seja para irritar o Brasil ou criar alguma dificuldade.
A Cúpula Sul-Americana, realizada em Brasília, revelou alguns problemas. O presidente argentino, Néstor Kirchner, foi embora antes da reunião, o uruguaio Tabaré Vázquez não veio, e o venezuelano Hugo Chávez ficou insatisfeito com a estrutura da Comunidade Sul-Americana de Nações.
A integração regional está mais difícil?
Kirchner veio ao Brasil a propósito da reunião. Esteve aqui, participou do jantar, conversou longamente com o presidente Lula. A Argentina teve uma participação construtiva no documento final da cúpula. Se você me perguntasse no início do governo se eu achava que agora teríamos um documento consolidando uma comunidade sul-americana de nações, eu acharia improvável. Mas a coisa avançou muito. A comunidade não é só um documento declaratório. É baseada em acordos de livre comércio que envolvem praticamente todos os países. Quando se começou a falar mais no assunto, dissemos: não queremos retórica. Queremos que seja para valer. Fechamos acordos e temos feito investimentos na área de infra-estrutura, que ainda são poucos diante de tudo o que é possível e necessário.
Como estão as relações com o Paraguai? Recentemente, o Brasil manifestou preocupação com a instalação de uma base militar dos EUA no país e cobrou mais transparência do governo paraguaio.
Tivemos conversas positivas e satisfatórias. O Brasil tem de fazer mais pelo Paraguai em vários campos, sobretudo no econômico. É legítimo quando o Paraguai diz que o PIB deles caiu desde que o país entrou para o Mercosul. Temos de contribuir para mudar isso. O Brasil não pode pensar que, se acabamos mais competitivos em tudo, vamos produzir tudo. Temos de comprar algumas coisas. Em alguns casos, é preciso fazer um sacrifício da competitividade, transferir a produção para outro lugar, fazer uma joint-venture, ajudar os outros países porque isso nos dará força. Não adianta pensar só no Brasil e depois fazer o Mercosul como um apêndice.
Qual a perspectiva para a reunião na OMC em Genebra nesta semana? Há uma proposta do Ministério da Fazenda para uma redução drástica das alíquotas de importação…
Tem uma proposta?
Não sei… Não houve uma proposta formal do ministro. Não vejo negociação comercial como oportunidade para liberalização unilateral. Negociação comercial é toma-lá-dá-cá. A tarifa é uma defesa. Se você se despoja de tudo, qual o seu instrumento de barganha? Os países em desenvolvimento já fizeram muito comparado com os países desenvolvidos. Teremos de fazer mais no processo de negociação, mas tem de ser compatível com nosso grau de desenvolvimento. Não adianta eliminar tarifas. Seria um desarmamento unilateral que não sei se o Brasil está em condições de fazer.
Qual a percepção do Brasil sobre a disposição dos países desenvolvidos de abrir a área agrícola?
Estamos chegando na hora da verdade. A Europa terá de fazer um movimento importante no que diz respeito a acesso de mercados, e os EUA terão de mexer na questão do apoio interno às exportações. Se vamos definir todos os pontos até Hong Kong (reunião ministerial da OMC, em dezembro), não sei. Mas fica um jogo de empurra entre a União Européia e os EUA. Não podemos ter um acordo que não represente mudanças. Aí o Brasil vai esperar outra rodada.
O Brasil venceu o caso do algodão na OMC, mas os EUA ainda não mudaram a legislação para reduzir os subsídios. É frustrante ter um organismo internacional como a OMC, que estabelece regras e os países não as cumprem?
A ONU e a OMC têm suas limitações. As mudanças ocorrem de forma gradual. No caso do algodão, são várias questões diferentes. A que dependia de medida administrativa, os americanos começaram a tomar. Vamos avaliar se nos atende. Outra dependia do Legislativo, e a medida foi enviada ao Congresso. No caso do apoio interno às exportações, objeto do nosso pedido de autorização para retaliar, nada foi feito. Vamos ver o que acontece. Não vamos abdicar dos nossos direitos.
A médio e longo prazos, o que se espera da relação com a China? O Brasil vai se consolidar como um mero fornecedor de matérias-primas?
Exportamos minério para a China como exportamos para outros países. Para ser sustentável e estratégica, a parceria precisa de equilíbrio quantitativo e qualitativo. Quantitativamente, apesar dos problemas setoriais, a relação aumentou muito. Qualitativamente, a relação está ficando desequilibrada. Ainda enfrentamos muita dificuldade nas áreas sanitária e fitossanitária na China. Fizemos parcerias na área de aviação, mas o ritmo de encomendas é lento. Tudo terá de ser visto em conjunto para a relação se manter estratégica.
Apesar de toda a aproximação do Brasil com nações africanas, árabes e latino-americanas, há um desapontamento com a resposta obtida. O senhor acredita que o Brasil ainda vai colher os frutos, ou o Itamaraty errou em algum ponto da campanha para o Conselho de Segurança da ONU?
Não nos aproximamos dos países africanos para obter em troca um apoio deles ao conselho. O conselho até ajudou a desenvolver as relações com esses países. O aumento do relacionamento expressa a consciência de que o Brasil é um ator regional e global. Eles se interessam em saber nossa opinião. A reforma do conselho não se resolve num passe de mágica. Qualquer reforma tem de incluir países em desenvolvimento. Vamos continuar trabalhando para isso. O jogo não acabou.
Argentina e México não apoiaram a candidatura brasileira. E o Brasil, estaria disposto a aceitar esses países como membros permanentes no Conselho de Segurança?
O Conselho de Segurança não é concurso de beleza, nem para ver qual país é melhor. Claro que alguns aspectos contam, entre eles o peso que o país tem. O peso decorre do território, da população, do PIB e também da ação diplomática. Mas não é realista achar que haverá três da América Latina. É preciso ver quais países têm viabilidade de estar lá. Isso também deve estar sujeito a algum mecanismo de revisão. Ser membro permanente não significa ser membro eterno.

09/10/2005



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