Discurso do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cerimônia de formatura da Turma “Celso Furtado” (2002) do Instituto Rio Branco – Palácio Itamaraty – Brasília, DF, 01/09/2005

Excelentíssimo Senhor José Alencar, Vice-Presidente da República,
Minha querida companheira Marisa,
Meu querido companheiro, Embaixador Celso Amorim, Ministro das Relações Exteriores e sua esposa, Ana,
Meu querido companheiro Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, Secretário-Geral das Relações Exteriores,
Embaixador Fernando Guimarães Reis, Diretor do Instituto Rio Branco,
Embaixador Everton Vieira Vargas, Paraninfo da Turma Celso Furtado,
Senhoras e senhoras diplomatas,
Senhoras e senhores formandos,
Secretário Marcos Sperandio, orador da turma,
Meus amigos e minhas amigas,
Meu querido companheiro Marco Aurélio Garcia,

Com grande satisfação, volto a esta Casa para participar da formatura de nova turma de diplomatas.

A partir de hoje, vocês poderão orgulhar-se de pertencer plenamente ao corpo de servidores públicos que se destacam pelo elevado grau de profissionalismo e pelo compromisso com os objetivos nacionais.

Este também é um momento especial para o Instituto Rio Branco, que completa 60 anos dedicados à preparação dos quadros do Itamaraty, para a nobre missão de representar o Brasil e defender seus interesses.

Desde o início do meu governo e sob a condução segura do meu querido chanceler Amorim, o Itamaraty tem tido um papel de destaque na construção de um novo projeto de nação.

Nossa diplomacia não é apenas um instrumento de projeção externa do país, mas um elemento constitutivo de nosso projeto coletivo de desenvolvimento. Para cumprir esses objetivos, a Casa de Rio Branco teve inédita autonomia administrativa que lhe permitiu, em sintonia com as grandes orientações políticas do governo, levar adiante uma política externa de perfil elevado, inovadora e afirmativa.

A criatividade, o entusiasmo e o empenho de cada um de vocês permitirão aprofundar esse projeto. Ele não pertence a um partido ou grupo, não se subordina a engajamentos ideológicos e, menos ainda, se alimentam de pretensões de lideranças regionais.

Os objetivos que norteiam a nossa política externa são a defesa do interesse nacional e a solidariedade continental, o que implica construir uma ordem internacional mais democrática e eqüitativa.

A escolha de Celso Furtado para patrono desta turma demonstra que vocês, jovens formandos, compartilham essa visão. Temos todas as razões para homenagear esse admirável brasileiro, um dos grandes pensadores latino-americanos, lúcido intérprete do Brasil. Homem de pensamento e ação, Celso não se contentou em fazer um diagnóstico dos problemas e desafios que, secularmente, impediram o país de realizar seu potencial de nação. Engajou-se na transformação dessa realidade.

Essa postura inspira as ações externas de meu governo, uma atuação que está a serviço do desenvolvimento nacional e da construção de um Brasil mais solidário. Não aceitamos como fato consumado uma ordem internacional injusta, sustentada por processos decisórios poucos transparentes e pouco democráticos. Nossa atuação diplomática é fundada na defesa de princípios, mas também na busca de resultados. Tem uma dimensão utópica sem deixar de ser pragmática.
Vivemos em um mundo difícil, em que há correlação de forças é adversa às legítimas aspirações dos países em desenvolvimento. Não podemos nos acomodar à inércia e à inação. menos ainda à submissão pregada por alguns poucos em nome de um discutível realismo.

Senhoras e senhoras,

Em um mundo globalizado e interdependente, nossa contribuição à paz e à democracia é determinada pelo princípio da não-indiferença. Por isso, nos engajamos nos esforços de estabilização do Haiti. Aceitamos o desafio de assumir o comando da Missão de Paz naquele país, atendendo a uma solicitação das Nações Unidas.

Essa é uma oportunidade histórica para os países da América Latina e do Caribe demonstrarem que é possível um novo modelo de cooperação internacional. Um modelo em que o restabelecimento da ordem e da segurança esteja alicerçado na recuperação econômica e na transformação social, nunca na truculência.
Graças à Missão das Nações Unidas, o Haiti caminha hoje para a realização de eleições democráticas que renovam esperanças no seu futuro. Respeitosos dos princípios da não-intervenção sem arrogância, mas também sem indiferença, contribuímos para a solução de crises em países de nossa América do Sul.
Ao mesmo tempo, estamos fortalecendo o projeto de integração física, indispensáveis, para dar à região, condições de inserir-se competitivamente no mundo de hoje.

O mesmo compromisso político e ético nos levou, em 2004, a lançar a Ação Internacional contra a Fome e a Pobreza. A iniciativa reuniu 60 líderes mundiais em Nova Iorque e trouxe para o centro da agenda Internacional a urgência de se enfrentar esses dois flagelos. O compromisso de mais de 100 países no sentido de buscar fontes alternativas inovadoras de financiamento reforçam nossa convicção de que é possível eliminar a pobreza extrema em nosso Planeta.

Igual espírito de solidariedade tem presidido o resgate e o aprofundamento de nossas relações com a África. Em três visitas ao Continente, já estive em 14 países e assumi o compromisso de retornar todos os anos à região com a qual temos afinidades históricas e culturais.

As relações do Brasil com os países africanos, tanto em matéria de cooperação como de comércio, vêm ganhando intensidade sem precedentes. Somente neste último mês de agosto, recebi a visita de dez líderes africanos. Estamos lançando parcerias mutuamente vantajosas, sem assistencialismo, que abrem oportunidades promissoras de negócios em frentes inovadoras de colaboração.
Confiamos nos esforços de transformação política que está em curso no continente africano. À frente da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e em coordenação com a União Africana, o Brasil tem contribuído para a normalização institucional em pontos consagrados da região. Apoiamos a retomada da democracia em São Tomé e Príncipe. Colaboramos para o diálogo político e a capacitação institucional, social e econômica de Guiné-Bissau.

Senhoras e senhores,

As realizações de nossa diplomacia, nesses dois anos e meio de governo, reforça minha convicção de que estamos no caminho certo. São muitas as manifestações de respeito e estímulo ante essa mudança da presença do Brasil na cena internacional.

É amplamente reconhecida a contribuição que temos prestado para a democratização dos organismos multilaterais e para a conformação de uma nova geografia política, econômica e comercial.

A constituição do G-20, que contou com a colaboração decisiva do Brasil, alterou a dinâmica do processo decisório da Organização Mundial do Comércio, trazendo países em desenvolvimento para o centro das negociações.

A Organização Mundial do Comércio está deixando de ser um clube dos ricos em benefício do sistema multilateral de comércio como um todo. Trabalharemos agora para concluir, com êxito, as negociações da Rodada de Doha.

O comércio deve tornar-se definitivamente uma alavanca do desenvolvimento e permitir que a criatividade e a competitividade de nossa gente sejam justamente recompensadas.

Estamos empenhados na eliminação dos subsídios bilionários à exportação e na redução drástica do apoio interno à produção agrícola dos países desenvolvidos. Os recursos hoje gastos com subsídios agrícolas são seis vezes maiores do que o montante adicional necessário para implementar as Metas do Milênio.

A democratização do sistema internacional não será completa sem uma efetiva reforma das Nações Unidas que necessita maior eficácia e legitimidade. Juntamente com os parceiros do G-4, temos insistido na necessidade, em particular, de ampliar o Conselho de Segurança. É inadiável torná-lo mais representativo, com a inclusão de países em desenvolvimento entre os membros permanentes.

Ninguém ignora a complexidade dessa tarefa. Mas estamos convencidos da importância e da oportunidade dessa discussão. A nova correlação de forças internacionais que almejamos, para além de um mundo unipolar, passa também por parcerias estratégicas alternativas e pelo reforço do diálogo Sul-Sul.

Ainda no primeiro ano de meu governo formamos o Ibas, com Índia e África do Sul. Ao juntarmos as três grandes democracias do mundo em desenvolvimento criamos novo mecanismo de articulação entre países com grande potencial de cooperação econômica, cultural e científica.

A realização em Brasília, em maio de 2005, da Cúpula América do Sul/Países Árabes, reforçou nossa convicção de que os países em desenvolvimento, atuando de forma coordenada, têm condições de encontrar as respostas para os desafios comuns. Abrimos novas e promissoras oportunidades de negócios entre as duas regiões e inauguramos um encontro inédito de civilização sobre o signo do diálogo e da tolerância.

Senhoras e senhores,

Desde o primeiro dia de governo ressaltei que o foco prioritário de nossa diplomacia seria a criação de uma América do Sul mais unida, próspera e estável. Quero reconhecer de público o trabalho incansável do Itamaraty para tornar realidade o sonho da integração sul-americana.

Estamos provando que com paciência, dedicação e visão de futuro, é possível atingir objetivos ousados que antes não saiam do papel. Não foi pouco realizado nesses dois anos e meio. Criamos as bases da Comunidade Sul-Americana de Nações, que se reunirá pela primeira vez após sua fundação em Cuzco, em
Brasília, dentro de poucas semanas.

Estamos avançando rapidamente nas áreas de infra-estrutura e integração energética, fundamentais para a consolidação de um espaço sul-americano. Ao mesmo tempo, concluímos acordos comerciais com a Comunidade Andina, que estabelecem praticamente uma área de livre comércio na região.

Estamos tornando a América do Sul uma realidade tangível para os brasileiros que, por muito tempo, viveram de costas para seus vizinhos. O fortalecimento do Mercosul é pedra angular desse esforço de integração. E as relações com a Argentina, seu motor essencial.

É preciso reconhecer que, muitas vezes, não temos tido agilidade para responder às expectativas criadas e para superar os entraves inerentes a qualquer processo de integração profunda.

Precisamos avançar mais levando em conta as preocupações legítimas de nossos parceiros. Temos que aumentar as nossas importações, sobretudo dos sócios menores e avançar na integração das cadeias produtivas.

O futuro do Mercosul depende, em última análise, de nossa capacidade de desenvolver políticas industriais e agrícolas comuns e de fortalecer o Bloco no plano institucional.

Temos razões para otimismo. O comércio intra-regional retoma com vigor sua trajetória ascendente. Em 2004, nossas exportações para os países do Mercosul aumentaram 60%. O poder de atração do Bloco, cada vez maior, se reflete no número crescente de países associados e no dinamismo de nossas negociações externas.

Senhoras e senhores,

A política externa brasileira alcançou um novo nível de maturidade. Não estamos mais limitados por fronteiras imaginárias ou fórmulas prontas. Estamos explorando oportunidades de diálogo, cooperação e negócios, onde quer que elas existam.

Desenvolvemos parcerias diversificadas e relações mais equilibradas com todas as regiões do mundo. Na melhor tradição de nossa diplomacia, temos feito isso sem confrontações estéreis e valorizando sempre as relações indispensáveis com parceiros tradicionais do mundo industrializado.

Para aqueles que acreditam nas estatísticas, basta olhar os resultados excepcionais do nosso comércio exterior. Desde 2003, nossas vendas para os Estados Unidos e para a União Européia crescem em ritmo acelerado. As exportações para os Estados Unidos, somente neste ano, aumentaram quase 24%.
Esses números espelham o excelente nível de entendimento político bilateral.
Nossas vendas para os países em desenvolvimento aumentaram exponencialmente e já representam mais de 50% de nossas exportações, concentrando-se em produtos de maior valor agregado. O comércio exterior brasileiro, que já ultrapassou a marca histórica de 110 bilhões de dólares, é tão somente expressão de uma realidade maior.

O Brasil está assumindo um papel de crescente relevo no cenário internacional, articulando seus interesses com base no diálogo e em nome de valores universais, democráticos e humanistas.

Estamos projetando lá fora os êxitos econômicos e sociais que temos tido aqui dentro. Depois de tantos anos de recessão e crescimento medíocre, entramos na rota de crescimento sustentado. Isso permitiu criar mais de 3 milhões e 250 mil novos empregos com carteira profissional assinada.

Oito milhões de famílias – e serão 8 milhões e 700 mil famílias em dezembro – já se beneficiam dos programas de transferência de renda do governo. Domamos a inflação e nossa vulnerabilidade internacional teve uma redução sem precedentes nas últimas décadas. O Brasil se constitui em um ponto de atração para investimentos produtivos de todo o mundo.

Em suma, o Brasil se afirma como nação que toma as rédeas de seu destino. Um país que ouve e é ouvido.

É por isso que hoje, um dia especial na vida dos novos diplomatas, quero deixar-lhes uma mensagem ao mesmo tempo singela e poderosa. Inspirem-se no exemplo de Celso Furtado. Acreditem sempre no Brasil, em seu imenso potencial como nação e na capacidade transformadora do nosso povo.

Por isso, eu quero desejar a todos boa sorte e dizer a vocês que nós saímos da teoria para a prática com coisas consideradas extraordinárias para o nosso país. Eu vou ler alguns números, sobretudo para vocês que estão assumindo essa tarefa importante de representar o Brasil no mundo.

No mês agosto, a balança comercial bateu o seu quarto recorde consecutivo. As exportações, em maio, fecharam com 9,8 bilhões. No mês de junho, as exportações ultrapassaram pela primeira vez a marca dos 10 bilhões, foram 10 bilhões e 200. Em junho, as exportações chegaram a 11 bilhões. Em agosto, os números confirmaram a sustentabilidade e as exportações chegaram a 11 bilhões e 300 milhões, com um saldo positivo de 3,7 bilhões de dólares.

Mais importante, no mês de agosto outros recordes também foram batidos. As importações atingiram a cifra recorde de 7 bilhões e 700, quebrando a barreira dos 7 bilhões. A corrente de comércio também alcançou cifra recorde de 19 bilhões. Em comparação com agosto no ano passado, os números ficaram assim: as exportações cresceram 20% e as importações, 31%. No acumulado de 12 meses, novos recordes: exportações de 111 bilhões e 200 milhões e importações de 71 bilhões e 100 milhões, somando 182 bilhões na corrente de comércio, um recorde histórico do nosso país. O saldo disso tudo foram 40 bilhões de dólares favoráveis ao Brasil.

Eu quero aproveitar a emoção dos jovens que estão se formando hoje, depois dos discursos brilhantes de todos que me antecederam, para fazer alguns reconhecimentos. Primeiro, a felicidade de ter escolhido o Celso Amorim para ser ministro das Relações Exteriores do meu governo. Não apenas porque o Celso Amorim é um diplomata calejado, experimentado, e não basta isso para exercer o papel de chefe das nossas Relações Exteriores. É preciso, além de toda essa graduação, de toda essa formação intelectual, a pessoa ter vontade e acreditar naquilo que faz. Eu não sei se em algum momento histórico, mesmo ele, quando foi Ministro do outro governo, se teve a disposição que ele tem hoje para trabalhar, porque uma coisa é você cumprir uma função, outra coisa é você fazer uma coisa que você acredita que a tua consciência e que o teu coração dizem: vai nessa, que nós vamos vencer.

Eu me lembro que quando eu chamei o Celso Amorim e, logo depois, convidei o Marco Aurélio para trabalhar como meu assessor, não faltaram pessoas que tentaram criar disputas de que eu tinha um chefe das relações internacionais e um assessor especial e que, portanto, ia ter um confronto entre os dois. Saíram matérias, no começo precisou-se explicar, e eu acho que é importante dizer: a relação entre Celso Amorim, que cumpre a função institucional de ser ministro das Relações Exteriores, e a relação com Marco Aurélio, que cumpre uma outra função tão nobre quanto se tivesse o título de ministro ou de embaixador, que faz um trabalho que possivelmente qualquer um outro e até eu, teria dificuldade de fazer, porque o Marco Aurélio vem de uma relação com a esquerda da América Latina e a esquerda européia, que eu acredito que poucas pessoas tiveram o prazer de dizer isso em todo o tempo em que ele foi secretário de Relações Internacionais do PT. E, para nossa felicidade, muitos companheiros que eram militantes de esquerda na década de 80 estão se transformando em governo.

Então, nós passamos a ter uma relação privilegiada com presidentes e com ministros que eram militantes, junto conosco, do Foro de São Paulo, tentando encontrar uma saída democrática para a esquerda na América Latina.

Essa função de assessor especial é uma função que permite, ao mesmo tempo, a gente ter uma relação de alto nível com o presidente de um país e, ao mesmo tempo, ter uma relação de alto nível e de confiança com a oposição daquele país, com os sindicatos daquele país, com os grupos indígenas, com o movimento social, porque é uma relação construída ao longo de 15 ou 20 anos. Não é uma coisa que aconteceu porque alguém tem um cargo, é uma coisa que aconteceu porque nós temos uma relação.

Então, eu quero, Celso Amorim, falar isso porque já estamos com 32 meses de governo e eu acho que você e o Marco Aurélio deram uma dimensão extraordinária de que é possível a gente construir não apenas a grande diplomacia brasileira, mas é capaz de fazer mais do que isso, a gente é capaz de ir à Bolívia conversar com os presidentes, conversar com os senadores e depois chamar o Evo Morales e conversar com ele com a mesma respeitabilidade, com o mesmo grau de reconhecimento, e assim vale. Foi isso que permitiu que a gente conseguisse criar o Grupo de Amigos para ajudar a Venezuela, porque ao mesmo tempo que a gente conversava com o Chávez, ao mesmo tempo que a gente conversava com a direita na Venezuela, a gente conversava com os setores de esquerda da Venezuela, para que houvesse essa compreensão.

O mesmo aconteceu com o Equador, o mesmo aconteceu com o Uruguai, é uma coisa que eu acho extraordinária, essa relação entre vocês dois e a possibilidade de ver a América do Sul numa ascensão de consolidação da democracia, tal como estamos vivendo hoje.

A segunda coisa, Celso, que eu acho extremamente importante é – obviamente que os números comerciais não dependem apenas da questão de comércio exterior – eu não acredito em política que a gente não olhe no olho das pessoas, o tocar de mão, o abraço. Eu não acredito que as pessoas comprem o que não vêem, que as pessoas comprem o que não conhecem. E o desafio que eu impus a mim, antes da campanha, durante a campanha e depois de eleito, era de que o Brasil precisava parar de pensar pequeno, o Brasil precisava parar de se achar um país de Terceiro Mundo, coitadinho, que dependia muito da sua relação com os Estados Unidos, que dependia muito da sua relação com a Europa, que dependia muito se podia ou não podia fazer, porque os ricos não gostariam. Nós partimos do pressuposto de que respeito é bom, nós gostamos de dar e gostamos de dar e gostamos de receber e que para além da nossa relação com os países mais importantes do mundo, tem a nossa relação com o nosso povo, a nossa relação com o tipo de nação que nós queremos construir, e a nossa relação com os objetivos que nós construímos para o futuro deste país. E nós provamos que o Brasil pode ser tão respeitado na sua relação internacional quanto qualquer um país do mundo.

Para isso, basta que você se respeite e vocês que vão agora adentrar na diplomacia brasileira, que vão viajar o mundo representando o Brasil. Um conselho de um presidente da República, de um sindicalista que passou a vida inteira negociando: vocês só serão respeitados se vocês se respeitarem, portanto, nunca abaixem a cabeça numa negociação.

Toda vez que vocês estiverem vacilando, lembrem-se que vocês representam um país de 186 milhões de habitantes, que têm aspirações, que têm desejos e que estão depositando confiança no nossos jovens diplomatas, que estão com entusiasmo, que estão com esperança, que estão com o objetivo de fazer este país ser cada vez maior.

Eu me lembro, porque Celso, o Itamaraty sempre me recebeu. A diplomacia brasileira sempre me recebeu bem no mundo inteiro, quando eu não era presidente, quando eu era oposição. Você mesmo me recebeu. Nossos embaixadores no mundo inteiro me receberam com muita fidalguia, com muita diplomacia. Eu nunca tive nenhum problema nas nossas relações, onde quer que seja, fosse eu como dirigente sindical ou eu como candidato da oposição. Hoje como presidente eu sei que sou melhor cuidado, pelo menos igual.

Mas de qualquer forma, nós temos que estar convencidos que mudou a diplomacia brasileira. Ela mudou com os mesmos diplomatas, ela mudou com os mesmos profissionais que nós tínhamos antes. E por que ela mudou? Ela mudou exatamente porque ela tem uma orientação, ela definiu preferências, ela definiu objetivos. Nós não poderíamos ficar de costas para a América do Sul vendo os países com fronteira conosco comprando produtos de outros continentes porque nós não temos estradas, porque não temos pontes, porque não temos aviões, não temos aeroportos, não temos portos.

Ou nós nos convencemos de que temos que participar desse processo de integração, e no dia 9 Celso, estaremos lá no Peru para lançar a pedra fundamental da Rodovia Bioceânica, ou seja, que vai ligar definitivamente… sabe, discurso teórico de mais de um século e meio que motivou Bolívar, que motivou Martín, que motivou tantos heróis da América Latina, nós vamos concretizar no dia 9, com o lançamento da pedra fundamental de uma estrada que, a começar do Acre, vai ligar o Brasil ao Oceano Pacífico.

Nós estamos fazendo, Celso, acho que foi você que me falou, nós estamos tentando conduzir, através de uma política de financiamento do BNDES, aquilo que Bolívar tentou fazer com a espada, que outros tentaram fazer com a luta, nós estamos fazendo com política de financiamento, muitas vezes criticada dentro do Brasil de que nós estamos financiando. Nós não estamos financiando, nós estamos exportando serviços brasileiros e o Brasil só tem a ganhar com isso, sem que a gente, em algum momento, numa palavra, num gesto, a gente transmita qualquer idéia de que queremos ter hegemonia.

Eu tenho dito a todos os presidentes: nós queremos ter parceria, nós não queremos ter hegemonia, porque ninguém é líder porque pede para ser líder, ninguém é líder porque tem mais dinheiro, ninguém é líder porque fala mais grosso ou mais fino. Os líderes surgem quando os liderados o escolhem como líder e o Brasil quer construir uma parceria forte com a América do Sul sim, porque é um mercado extraordinário, não apenas para o Brasil, mas para o desenvolvimento de cada país da América do Sul, porque não seremos ricos se tivermos nas nossas costas países miseráveis onde persiste a fome, o desemprego e a miséria.

Depois, a política para a África, eu sei que tem muita gente que não gosta, ou pelo menos não gostou: “o Brasil deixar … o presidente Lula deixar para os Estados Unidos mais uma vez, deixar de ir para Paris mais uma vez, deixar para ir para Londres mais uma vez, para ir para a África? Quatorze vezes já foi para a África. Já fui 14 e, se Deus quiser, no ano que vem visitarei mais quatro ou cinco países. Não apenas porque nós temos razões de sobra para visitar a África porque temos dívidas históricas com os africanos, devemos parte do que somos aos africanos, mas porque nós sabemos que aquela região do mundo não se desenvolveu porque durante mais de 300 anos nós tiramos de lá a parte mais sadia da população, a parte mais jovem que poderia ter contribuído para o desenvolvimento. Ela veio ser escrava no Brasil, nos Estados Unidos, no Haiti, em Cuba e em tantos outros países.

Portanto, nós temos que visitar a África quantas vezes for necessário. E não apenas pensando em comércio, porque não se faz relação apenas pensando em comércio, se faz relação pensando em política, se faz relação pesando em cultura, se faz relação, sobretudo, não pensando em vender nada, mas pensando em fazer políticas de colaboração e de cooperação com países africanos e com outros países.

Vai ser assim para a América Latina. Eu me lembro que muita gente não gostou da nossa relação com o Oriente Médio, mas onde é que estava escrito que a relação preferencial com o Oriente Médio tinha que ser dos Estados Unidos, tinha que ser da Inglaterra, da França ou da Rússia? Não estava escrito em lugar nenhum, não tem manual na ONU, não está na Bíblia, não está em lugar nenhum, porque só eles é que podem ter relações e nós não temos relações.

Assumimos o desafio de fazer uma Cúpula, aqui. Não pensem, alguns diplomata sabem, aqui, do Itamaraty, porque sofreram muita pressão para que ela não existisse. E ela, depois de tudo, depois da má vontade de alguns, a Cúpula se realizou, e o sucesso eu acho que não poderia ser melhor.

Estamos pensando maior, estamos pensando em fazer uma Cúpula, a Nigéria já se ofereceu como território, o Obasanjo, está vindo aí, no dia 6, e vamos ver se ele está disposto a bancar uma Cúpula na Nigéria entre América do Sul e países africanos. E vamos fazer, se Deus quiser, sem que isso diminua a nossa relação com os Estados Unidos, porque não precisa ser diplomata, formado no Rio Branco, para saber que a nossa relação com os Estados Unidos tem que ser cuidada com carinho especial pela importância que os Estados Unidos têm no mundo, pela importância do Brasil e pelo potencial dos dois países.

Da mesma forma com a União Européia. Jamais queremos brigar com a União Européia. Nós só queremos dizer para eles: temos o mesmo direito que vocês. Não somos menores, não queremos ser maiores, mas nós queremos que vocês tornem o comércio mundial mais justo, favorecendo os países mais pobres. Fazemos assim com a China. Nós não tivemos nenhum problema de reconhecer a China como economia de mercado. Mas não teremos nenhum problema em colocar salvaguardas para evitar que os produtos chineses possam, de forma descontrolada, causar qualquer problema na economia brasileira.

É com essa altivez, é de cabeça erguida que vocês irão vencer na vida. É de cabeça erguida e com altivez que vocês serão os diplomatas que vocês sonharam ser e conquistarão o respeito que vocês precisam e merecem ter, não apenas de nós, brasileiros, do governo brasileiro, mas também dos povos estrangeiros e dos governos estrangeiros.

Quando vocês estiverem numa Embaixada, como São Tomé e Príncipe, pequena, humilde, e o Brasil tem que ter porque tem muita gente que fala: “não, mas está gastando muito dinheiro com a diplomacia, o governo está querendo montar Embaixada em país africano pequenininho.” Puro preconceito, porque quando você visita esses países, a maior Embaixada é dos Estados Unidos, ocupa quarteirões e quarteirões. Sabem por quê? Porque tem noção de Nação, tem noção de respeito e sabe que é importante o fincar de uma bandeira num pequeno território de alguns metros quadrados para estabelecer relação política. E nós ficamos com dó de gastar 5 mil dólares, 6 mil dólares, 10 mil dólares. Nós vamos ter que avançar e avançar muito para que o Brasil, definitivamente, a partir da mentalidade da nossa imprensa, a partir da mentalidade do nosso povo, a partir da mentalidade dos nossos diplomatas, que a gente faça diplomacia sem preconceito, como muitas vezes nós temos em relação a países da América do Sul; sem preconceito como às vezes temos com relação a países da África. Até porque nós jamais seremos uma grande Nação, se deixarmos de prevalecer dentro de nós duas coisas que torna a alma humana menor, que torna a consciência medíocre, que é a subordinação e o preconceito.

Tirem essas duas coisas da cabeça de vocês que certamente vocês serão vencedores, mais do que já foram até agora.

Meus parabéns, e muito obrigado a vocês.

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