(Alguns trechos não foram inseridos neste discurso por problemas na recepção do áudio. A íntegra do texto será publicada posteriormente)
… cineasta Tizuka Yamasaki, porque foi lançado hoje, no Japão, o filme sobre a saga dos japoneses no Brasil e dos brasileiros no Japão, chamado Gaijin II.
Eu acho que esse filme vai mexer com a mente e com os corações das pessoas que o assistirem, porque eu tive o prazer de receber um DVD de presente e assisti no avião, vindo do Brasil. É um filme que vai falar à alma das pessoas. Portanto, meus parabéns à nossa querida cineasta Tizuka Yamasaki.
Queria também pedir desculpas a vocês, porque a última vez em que vim ao Japão… faz 30 anos que vim ao Japão como dirigente sindical, a convite dos trabalhadores da Toyota, participar de um congresso. Naquele tempo eu nem tinha assessoria, nem tinha discurso para fazer. Hoje, eu tenho muitos assessores, um discurso enorme, mas, ao mesmo tempo, eu sei que com a quantidade de ministros que fizeram uso da palavra, certamente todos os números que eu citar aqui já foram citados por eles.
Mas eu queria dizer algumas coisas sem precisar falar o que já foi dito. Falaram empresários brasileiros, falaram os empresários japoneses e, sobretudo, os empresários brasileiros que sabem que nesses dois anos e quatro meses de governo eu tenho insistido, às vezes tenho sido duro, mesmo quando a conversa é fraterna, para que eles não tenham medo de se transformarem em empresários multinacionais, para que eles não tenham medo de crescer e para que eles compreendam que o mundo globalizado, tal como é hoje, não permite que fiquemos nas nossas indústrias, nas nossas cidades, no nosso país, esperando que as pessoas nos procurem para comprar aquilo que nós temos que vender.
É importante cada um fazer como faz um bom turista japonês: coloca a sua sacolinha nas costas, seu chapeuzinho na cabeça, sua máquina fotográfica e vai conhecer o mundo.
Nós precisamos aprender que a arte do crescer é a arte da relação humana, a arte do convencimento das coisas que nós fazemos, a arte da qualidade do que nós produzimos, e isso ninguém fará melhor do que o interessado. Por isso, eu acho extremamente importante o que aconteceu nesses últimos meses, a ida do Primeiro-Ministro Koizumi ao Brasil e a nossa vinda ao Japão, que como nenhum outro país do mundo soube, depois de ser devastado numa guerra, se recuperar e se transformar na segunda potência econômica do mundo, numa das principais potências em conhecimento científico e tecnológico.
E isso deve servir de lição para nós, Presidente. Para que o Brasil se transforme numa grande nação é preciso pensar grande, é preciso ousar, é preciso olhar para tudo que não fizemos no século passado, ganharmos tempo e fazer agora.
A relação Brasil e Japão, por si só, deveria ser uma relação muito mais ousada. É inadmissível que dois países do tamanho do Japão e do Brasil tenham uma balança comercial de apenas 5 bilhões e 600 milhões de dólares, principalmente quando somos duas nações mais do que irmãs.
Há um século os japoneses adentraram no Brasil e há um século que comemoramos… em 2008, eu dizia ao Imperador que, possivelmente, o Brasil fará a maior festa japonesa fora do Japão para comemorar esse século. Os japoneses, no Brasil, já fazem parte da nossa vida política, já fazem parte do nosso quotidiano, não têm que pedir licença porque lá no Brasil ajudaram a construir o que nós somos hoje. Trabalharam na agricultura como ninguém, trabalham hoje como ninguém em coisas de muito mais conhecimento como na engenharia, como na medicina, como no ramo da biotecnologia. Participam de prefeituras, de governos estaduais, do governo federal, estão na Câmara de Vereadores, estão nas editoras, estão nas artes, estão na televisão, no teatro, no cinema, ou seja, se não fosse a diferença de biotipo, não haveria nenhuma diferença entre brasileiros e japoneses em nosso país.
E agora, a vinda dos brasileiros ao Japão. Já são quase 300 mil, 280 mil, não está próximo de 1 milhão e 400, que é o que significa a comunidade japonesa no Brasil, e nós temos que trabalhar, governo japonês e governo brasileiro, para que da mesma forma como se sentem em casa os japoneses no Brasil, se sintam em casa os brasileiros que estão no Japão. E que sirva de lição para os empresários brasileiros e japoneses, que sirva de lição para os Ministros brasileiros e Ministros japoneses e que sirva de lição para os governantes brasileiros e governantes japoneses: se um povo, com tanta facilidade, conseguiu essa interação entre os dois países, se um povo atravessou de navio levando meses e meses para chegar ao Brasil, viajando quilômetros e quilômetros e chegaram e desceram, porque nós que estamos na era da informática, que estamos na era de aeronaves altamente modernas, não podemos fazer muito mais do que nossos antepassados fizeram? Faltava apenas uma coisa: determinação política e definição de prioridades.
Eu acho que ontem, a reunião com o Primeiro-Ministro e hoje, a assinatura desses protocolos, me dão a certeza de que nós vamos recuperar o tempo perdido no aprimoramento e na revitalização das relações do Japão com o Brasil e vamos revitalizar estabelecendo parcerias, vendendo e comprando mas, sobretudo, ajudando a produzir, juntos, empresas brasileiras e empresas japonesas; tentando construir as coisas que podem dar aos nossos países uma maior certeza de que o século XXI será infinitamente maior do que foi o século o XX. E eu estou convencido de que quando Brasil e Japão se juntam para disputar nas Nações Unidas a ampliação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, exigindo participar como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, nós estamos apenas dizendo que o mundo político e que o mundo geográfico e econômico de 2005 não é mais o mundo de 1945. Houve muitas mudanças, e essas mudanças exigem que a ONU seja democratizada, exigem que países importantes no mundo, como a Alemanha e Japão, que países importantes nos seus continentes, como Índia e Brasil, mais representantes do Continente Africano, estejam participando de forma definitiva como membros permanentes do Conselho de Segurança.
E o Brasil trabalhará com muito fervor, com muito carinho para que não haja preconceito, não apenas contra o Brasil, mas que não haja preconceito contra o Japão, porque o Japão participou de uma guerra. Eu acho que nós precisamos olhar para o futuro. E o futuro é muito mais promissor para todos nós que queremos construir um mundo justo, um mundo sem armas nucleares, um mundo de paz, onde a única guerra a ser vencida é a guerra contra a miséria e contra a pobreza que hoje envolve mais de um milhão de seres humanos.
Quero dizer aos empresários do Japão, dizer ao Ministro Nakagawa que o Brasil está pronto, não apenas de braços abertos do ponto de vista político, mas está pronto do ponto de vista do arranjo da sua economia para consolidar essa parceria. Eu disse hoje, pela manhã, e estou vendo alguns empresários aqui, portanto não se incomodem se eu repetir os mesmos argumentos que utilizei pela manhã. Eu perdi três eleições para chegar à Presidência da República. E digo todo dia que o Brasil não pode mais jogar nenhuma oportunidade fora, o Brasil não pode se dar ao luxo de perder mais um século, como perdemos tantas oportunidades no século XX. Todo mundo sabe que a economia brasileira está caminhando rapidamente para ficar uma economia sólida, uma economia arrumada que possa nos dar a certeza de que teremos um crescimento sustentável que seja duradouro e que possamos crescer 15, 20 anos mais seguidos, para que recuperemos os erros que cometemos tempos atrás.
Senhores Ministros e empresários,
Pela primeira vez na história do Brasil nós temos saldo de conta corrente com crescimento econômico. Quem sabe, aqui no Japão vocês possam estranhar, mas a verdade é que toda vez que nós tivemos saldo de conta corrente no Brasil o país entrava em recessão, porque sempre tinha uma opção: se exportarmos muito, não podemos crescer no mercado interno; e se crescermos no mercado interno, não podemos exportar muito. Nós estamos garantindo que é possível o Brasil exportar, ter saldo de conta corrente e é possível crescer no mercado interno como estamos crescendo.
É por isso que o nosso produto interno cresceu 5.2 % no ano passado, é por isso que trabalhamos para repetir a dose este ano e é por isso que vamos trabalhar para repetir a dose nos anos seguintes, para que a gente possa responder ao anseio da sociedade brasileira, aos anseios dos nossos empresários e dos nossos parceiros. Mais importante é que passamos quase seis anos tendo déficit na nossa balança comercial…
(trecho inaudível)
… política, força de vontade, compromisso com o futuro do nosso país.
Quando o Ministro Furlan me telefonou dizendo que nós tínhamos ultrapassado os 100 bilhões de dólares de exportação, para mim foi uma alegria extraordinária porque era um feito que muita gente no nosso país não acreditava que fosse possível porque, lamentavelmente, no meu país tem muita gente que, embora tendo cargos importantes, pensa pequeno, não pensa grande e não dá a dimensão de grandeza para o que o Brasil representa no mundo de hoje. Hoje já estamos a 105 bilhões de dólares de exportação, o que é um feito extraordinário para o nosso país.
Mais importante ainda é que a nossa indústria teve, nesses dois anos, o maior crescimento dos últimos 18 anos, e o mais importante é que em dois anos geramos mais empregos do que foi gerado nos últimos 13 anos. Nesses últimos 12 meses nós geramos, em média, 127 mil empregos por mês, contra uma média de 8 mil empregos por mês num passado não muito distante.
Quando falamos isso aqui, Ministro, falamos para dizer aos empresários japoneses e para dizer aos empresários brasileiros que o Brasil não tem volta, que o Brasil vai ter que aproveitar todos os momentos positivos que puder ter para que no século XXI o Brasil se transforme, definitivamente, numa grande economia capaz de competir em igualdade de condições com as maiores economias do mundo.
Já podíamos ter chegado lá, mas não chegamos porque, muitas vezes, no nosso país as pessoas não conseguem pensar para 20 anos, não conseguem pensar para 30 anos, muitas vezes as pessoas conseguem pensar apenas de eleição em eleição. Eu disse hoje pela manhã: não é possível e não é justo que um homem, por mais importante que ele seja, possa colocar os seus interesses pessoais acima dos interesses de uma nação, que ele esteja mais preocupado com o seu futuro do que com o futuro do seu povo e com o futuro da sua nação. É por isso que nós não brincamos em se tratando de política econômica, é por isso que nós temos consciência de que a única possibilidade de o Brasil crescer é darmos demonstrações de que iremos tomar conta das contas públicas como se tomássemos conta do salário que levamos para casa quando recebemos no fim do mês.
Não tomaremos nenhuma atitude que possa significar tornar a economia brasileira vulnerável e nem tampouco medida populista que muitas vezes serve para eleger um candidato, mas afunda o Brasil em anos e anos de recessão como a experiência política (inaudível). Eu digo todo santo dia, ninguém respeita quem não se respeita e se nós quisermos conquistar respeito dentro e fora do país, com novos investidores e com os investidores externos, nós temos que dizer, em alto e em bom som, que não haverá surpresa na economia, que não haverá aqueles anúncios mirabolantes em que as pessoas pensam que conquistaram o céu e, meses depois, estão quebradas porque o plano econômico não deu certo, como já aconteceu com outros governos na história do nosso país.
Nós estamos dizendo aos empresários brasileiros e aos empresários japoneses que a nossa economia tem rumo e que nós sabemos o destino que queremos traçar para o nosso país. E que o crescimento econômico que nós queremos, a geração de emprego que nós queremos, o aumento da nossa balança comercial que nós queremos, o aumento da nossa relação comercial, a geração de empregos e a distribuição de renda que tanto precisamos só será possível se, antes de tudo, o governo agir com seriedade, se o governo não brincar de fazer política econômica e não gastar mais do que pode gastar, ou gastar mais do que pode arrecadar.
Esse país só pode ser construído se nós tivermos competência e convencermos, não apenas os empresários brasileiros, mas os empresários de outros países de que o que nós falamos não são meras palavras, está consubstanciado nos atos cotidianos da nossa política. E ninguém melhor do que os empresários brasileiros para saírem ao mundo falando das coisas que acontecem no nosso país.
Quero terminar dizendo ao Ministro Nakagawa que o Japão e o Brasil podem, no começo do século XXI, dar uma resposta ao mundo de uma parceria estratégica, uma parceria onde poderemos elaborar juntos grandes projetos de investimentos, grandes projetos de produção de coisas do interesse do Japão e do Brasil e, ao mesmo tempo, grandes projetos para que a gente possa consolidar uma amizade que começou 100 anos atrás e que poderá perdurar por mais outros 100 anos, se nós tivermos a competência de fazer a coisa certa que temos que fazer.
A minha vinda ao Japão, em agradecimento à ida do Primeiro-Ministro Koizumi ao Brasil, é o coroamento de uma relação (inaudível) que deve ser comercial, que deve ser política e que deve ser cultural. Mas, sobretudo, deve ser a relação e o coroamento de dois blocos, que por mais diferentes que pareçam ser, têm nos seus antepassados uma lição de vida, de pessoas que sofreram para ajudar a construir o Brasil, de brasileiros que sofrem para vir ao Japão e ajudar na produção do Japão, esse povo humilde, que um dia atravessou o Pacífico, que um dia atravessou, eu diria, o Atlântico, essas pessoas que nos ensinaram essa lição de vida.
(Falta trecho final)

27/05/2005



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