Primeiro Bloco
Eu trouxe um texto que vou deixar de lado para entrar num debate que começou, não por mim, mas pelos colegas que estão aqui.
Nós estamos começando um novo século e é preciso, sobretudo todos nós, governantes, empresários, intelectuais, sindicatos, igrejas, artistas, pararmos para pensar no que aconteceu no século passado, para saber se vamos continuar fazendo as mesmas coisas que fizemos ou se vamos, com criatividade e inteligência, pensar em fazer algo novo.
O dado concreto é que, no século passado, a distância entre os países pobres e os países ricos não diminuiu, aumentou; ou seja, quem era rico, ficou mais rico, e quem era pobre ficou mais pobre.
E tem uma coisa fundamental que precisamos levar em conta: se nem na relação comercial entre os países conseguimos convencer os países ricos a não aplicarem subsídios nos produtos em que os países pobres são mais competitivos, no resto então, fica ainda mais difícil. Essa é a primeira coisa.
É preciso que se estabeleça uma política que dê condições para os países pobres poderem produzir, sobretudo produtos agrícolas, e vender em igualdade de condições para os países ricos; e para os países ricos tirarem o subsídio dos seus produtos agrícolas. Essa é uma coisa estrutural, que pode ajudar muitos países pobres.
Segundo, penso que é importante termos a certeza de que, mesmo a política de doação de recursos, feita durante o século passado, é muito dispersa. Ela não é homogênea, não tem direção. Então, o dinheiro se perde por si só.
Quando nós levantamos a questão da fome, aqui em Davos em 2003, acho que tivemos um relativo avanço. E o símbolo maior do avanço foi o grande encontro que fizemos no dia 23 de setembro do ano passado, em Nova Iorque, com 65 chefes de Estado, e com adesão ao documento por 111 chefes de Estado.
Imagino que não exista uma única forma de contribuição. A primeira coisa que precisamos ter claro é o seguinte: é preciso que não criemos uma nova estrutura para cuidar de qualquer fundo, porque uma nova estrutura vai gastar metade do dinheiro com a burocracia dessa estrutura. É preciso utilizar o que as Nações Unidas já têm, através do Pnud, através do Ecosoc, e nós, então, poderemos criar um fundo.
Propus que se criasse um fundo em função das transações de armas no mundo. Mas poderia ser um fundo sobre transações financeiras, ou sobre comércio mundial, ou ainda sobre o dinheiro que está nos chamados “paraísos fiscais”. Uma coisa que fosse substancialmente forte, dirigida aos países mais pobres. Que fosse criada junto a organismos multilaterais, mas com os próprios países coordenando a aplicação de recursos, que começariam pela educação, saúde, investimento em agricultura, e microcrédito. Coisas que dessem a certeza que daqui a 10, 15 ou 20 anos aquele país que recebeu o auxílio não seria mais um país que precisasse ser ajudado. Porque quando um país importante se dispõe a dar um fundo para ajudar a combater a AIDS, em qualquer país do mundo, mas com a condição desse país comprar o remédio do país que está dando o financiamento, isso serve muito mais para ajudar os laboratórios do que para ajudar os que estão com AIDS. Assim as coisas não funcionam. O país pobre vai continuar apenas vendo a sua dívida aumentar, porque não tem compromisso, não existe uma disposição política que diz: “a fome não é um problema de quem está com fome, a fome é um problema de quem está comendo.” Nós é que temos que assumir a responsabilidade de estendermos a mão àqueles que não estão comendo.
Então, eu não queria dizer que existe um “fundo Lula”, um “fundo Chirac”, um “fundo Lagos”, ou um “fundo Gordon Brown”, ou seja, o nome não importa, a paternidade não importa, o que importa é que nós assumamos um compromisso de que, do dinheiro que circula no mundo, uma parcela pequena pode constituir um grande fundo para que possamos, definitivamente, sonhar que, daqui a 30 ou 40 anos, teremos um mundo mais justo, mais equânime e mais solidário. É esse o meu sonho, é esse o meu desejo e é por isso que estou tentando brigar.
Segundo Bloco
Acredito que todo mundo tenha uma preocupação em ajudar os países pobres.
O que me preocupa é quando terminar este evento, quando cada um voltar para casa, para o seu país, para os seus problemas, o que vai acontecer?
Falava de Porto Alegre, porque acabo de participar do Fórum Social de Porto Alegre e sempre acreditei que nós só íamos combater a miséria quando ela se transformasse num problema político, que começasse a preocupar o mundo inteiro.
Enquanto o problema é apenas um problema social, ele vai ser escrito por muitos acadêmicos no mundo inteiro, vai ser debatido em sindicato, igreja, partido político. Agora, quando ele se transformar num problema político, nós vamos resolver esse problema.
Estou dizendo isso porque ontem participei do Fórum de Porto Alegre, e uma decisão da coordenação do Fórum é de, a partir desse Fórum que está sendo realizado agora, começar a fazer um trabalho mais próximo às instituições multilaterais, para que elas ajam e cumpram aquilo que nós acordamos em documentos, acordos e protocolos, e que, muitas vezes, não consegue avançar por problemas políticos internos de cada país. Às vezes um presidente assina um protocolo e perde as eleições. O que ganha não concorda com aquele protocolo e vai deixando as coisas acontecerem. Por isso, é preciso um organismo multilateral sério, em que todo mundo acredite e deposite confiança para poder funcionar.
Por exemplo, o Brasil está perdoando dívida. O Brasil, no ano passado, perdoou a dívida da Bolívia, do Gabão, de Moçambique. Não temos muito mais o que perdoar, porque também não temos muito. Agora, a verdade é que esses países já não podiam pagar.
Então, é um perdão de uma coisa que as pessoas não podiam pagar. Eles não tinham como pagar. Se eles estivessem pagando e, por serem pobres nós perdoássemos, o que eles estavam nos dando iriam aplicar internamente. Mas eles já não estavam pagando, então, na verdade, foi um benefício que não teve resultado imediato para aquele país que recebeu o benefício. Por exemplo, o Fundo Monetário, ao invés de receber dos países mais pobres o que eles estão pagando, deveria fazer um acordo para que aquele dinheiro fosse investido em educação, na agricultura familiar, em pesquisa interna, porque traria muito mais benefício para o próprio Fundo. Porque, se não, fica eternamente a espada na cabeça do país, ou seja, o país nem paga e nem progride.
Na medida em que se transforme em problema político, sou otimista e acho que vamos dar passos extraordinários para essa ajuda ao países mais pobres.
No caso do Brasil; o Brasil é um país pobre. O Brasil tinha tudo para ser um país rico, mas não é. É um país imenso, de potencial extraordinário. Durante 30 anos foi o país que mais cresceu no mundo, a percentuais extraordinários. Mas, no Brasil, como em outros países em desenvolvimento, a riqueza produzida não foi distribuída, ela ficou nas mãos de poucos. Então, o que sobrou foi um saldo de pobreza que nós vamos ter que resolver em algum momento.

28/02/2005



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