Declaração à imprensa do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, por ocasião da visita ao Brasil do Presidente do Governo do Reino da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero – Brasília – DF, 24/01/2005

Excelentíssimo senhor José Luis Rodríguez Zapatero, presidente do Governo do Reino da Espanha,

Ministros da Espanha,

Ministros brasileiros,

Delegação da Espanha,

Delegação brasileira,

Sua visita ao Brasil, presidente Zapatero, acompanhado de expressiva delegação, é extremamente significativa. Dá consistência à parceria estratégica que nossos países estão forjando. Não é casual que a sua primeira viagem à América Latina seja ao Brasil.

O presidente Zapatero é expressão de uma nova Espanha, dinâmica e confiante que, como o Brasil, vem redefinindo seu papel no mundo contemporâneo.

A Espanha que o presidente Zapatero representa é exemplo e inspiração para o Brasil. Um país orgulhoso de seu passado, seguro de sua capacidade de responder aos desafios do futuro.

O povo espanhol soube trilhar o caminho do desenvolvimento, reforçando sua vocação democrática. Consolidou as instituições políticas. Superou passivos sociais e econômicos. Deu passos decididos para tornar-se uma potência emergente. Integrou-se, de forma soberana, à União Européia, ao mesmo tempo em que assume, cada vez mais, uma voz própria na comunidade das nações.

Essa nova Espanha não apenas gera prosperidade. Demonstra estar disposta a oferecer importante parcela de cooperação ao mundo em desenvolvimento. Com esse espírito construtivo tem cumprido, de maneira exemplar, as metas de ajuda externa estabelecidas na Cúpula do Milênio.

Mesmo sob o impacto da violência indiscriminada do terrorismo, que chocou a todos os brasileiros, a nação espanhola soube preservar seu compromisso com os ideais da paz e da solidariedade internacional. Reafirmou sua mensagem ao participar da missão da ONU no Haiti.

Espanha e Brasil compartilham os mesmos princípios quando defendemos o fortalecimento do multilateralismo e a reforma das Nações Unidas. Trabalhamos juntos para ampliar a eficácia da Assembléia Geral e a representatividade do Conselho de Segurança. Buscamos respostas adequadas e duradouras aos desafios de uma realidade internacional marcada por assimetrias econômicas e sociais, pela insegurança e por novas ameaças. Mas estamos unindo esforços, sobretudo, na iniciativa global de combate à fome e à pobreza, que são a face escura e indesejável da globalização.

Essa comunhão de valores fez da Espanha um aliado de primeira hora na busca dos mecanismos financeiros inovadores para resgatar parcela significativa da humanidade, hoje mergulhada na miséria e na desesperança.

O relatório do Projeto do Milênio, lançado este mês pelas Nações Unidas, confirma a convicção que sempre nos animou: é possível varrer, até 2020, a pobreza extrema do mundo.

Brasil e Espanha, junto com o Chile e a França, chegarão à reunião de setembro próximo, em Nova Iorque, com propostas realistas para emancipar, no menor prazo possível, os esquecidos do mundo.

Senhor Presidente,
O entusiasmo com que temos trabalhado no plano multilateral é, em grande medida, reflexo da excelência de nossas relações bilaterais.

Em 2003, lançamos um “Plano de Parceria Estratégica” entre nossos países. A Declaração de Brasília que assinamos hoje dá consistência a esse relacionamento, ao criar mecanismos para pôr em prática os compromissos assumidos.

A realização do Primeiro Foro de Diálogo das Sociedades Civis Brasil-Espanha assegura que todos os nossos homens e mulheres estarão engajados nesse esforço.
A realização da primeira reunião do Grupo de Trabalho Brasil-Espanha de Comércio e Investimentos cria bases para a implementação de estratégias capazes de consolidar e fortalecer a posição da Espanha como um dos primeiros parceiros econômicos do Brasil.

A Espanha já é o segundo maior investidor dos países estrangeiros no Brasil. Isso prova o grau de confiança que os empresários espanhóis depositam no Brasil e na capacidade do povo brasileiro.

Essa mesma visão de futuro explica o aumento expressivo de nossas trocas comerciais em tempos recentes. No entanto, os números ainda não refletem o potencial de nossas economias.

Temos de aproveitar o momento extraordinário por que passa a economia brasileira para cimentar, de uma vez por todas, a parceria entre nossos setores produtivos.

Este é o ano internacional do microcrédito. No seminário patrocinado por Sua Majestade, a rainha Sofía, no ano passado, em Belo Horizonte, exploramos alternativas para fazer do microcrédito um instrumento para potencializar a criatividade dos trabalhadores brasileiros.

Identificamos projetos de cooperação técnica que habilitarão milhares de pequenos empreendedores a emanciparem-se profissional e financeiramente.

Quero, aqui, lançar um desafio aos grupos financeiros da Espanha e do Brasil para que se engajem nessa empreitada, criando mecanismos de incentivo ao financiamento de pequenas e médias empresas.

Também convido os homens de negócio e de visão dos dois países a apostarem no nosso futuro comum, investindo em projetos de infra-estrutura física que integrarão as vastas potencialidades do continente sul-americano.

As negociações entre o Mercosul e a União Européia são fundamentais para alcançarmos esse objetivo. Confiamos no firme empenho do Governo espanhol para que elas possam concluir-se rapidamente.

Queremos assentar as bases de uma aproximação entre dois continentes que tanto possuem em comum.

Temos urgência em demonstrar que é possível aliar competitividade com solidariedade. Vamos construir uma nova geografia comercial mundial em bases equilibradas e equânimes. Um comércio livre de distorções injustificadas assegurará a todos o direito de viver, com dignidade, do fruto do seu próprio trabalho.

Senhor Presidente,

O Brasil vive uma chance histórica de deixar de ser o eternamente “país do futuro”. Para isso, nós brasileiros não podemos permitir que as profundas injustiças de nosso passado e as persistentes desigualdades do presente determinem nosso modelo de desenvolvimento.

Essa é a lição da Espanha de José Luis Zapatero, e também o legado de Felipe Gonzáles, que dedicou suas melhores energias para lançar as bases sólidas de uma Espanha moderna, desenvolvida e plenamente soberana.

Na caminhada para a construção de um Brasil com a cara de nossas esperanças e de nossos sonhos, continuaremos a contar com esse exemplo inspirador e estamos seguros de que encontraremos na Espanha um aliado fiel nessa jornada.
É com esse espírito de confiança e de admiração mútua que une nossos povos que saúdo a visita de Vossa Excelência ao Brasil na certeza de que abrimos novos caminhos de cooperação e fortalecemos os mecanismos que nos tem unido.

Meu caro presidente Zapatero, eu quero que quando regressares à Espanha, leve a convicção e a certeza de que eu tenho bem na minha memória o encontro que tivemos para discutir a questão do combate à fome no Brasil e no mundo e sei que poucos países do mundo têm a experiência do desenvolvimento em tão curto prazo como a Espanha teve a partir de 1982.

Eu penso que o exemplo de desenvolvimento da Espanha, o exemplo de política de distribuição de renda, o exemplo do ajuste de contas para resolver os graves problemas sociais históricos na Espanha poderão servir de exemplos para que no Brasil, num breve tempo, a gente possa construir também um Brasil mais justo, mais solidário, em que todas as pessoas possam tomar café, almoçar e jantar todo dia. E eu tenho a convicção de que a Espanha é um parceiro dos mais memoráveis para que a gente possa convencer outros países do mundo a colocarem o combate à miséria e à fome como prioridade para que possamos cumprir as Metas do Milênio.

Eu espero que o Presidente, ao deixar o território nacional, leve a certeza de que aqui no Brasil nós estamos fazendo o possível e o impossível para que possamos cumprir os próprios compromissos que nós assumimos com o povo brasileiro mas, sobretudo, para que a gente possa cumprir os ideais que nortearam a nossa própria entrada na vida política do meu país.

Esteja certo que estaremos fazendo o máximo, se não conseguirmos tudo não foi porque não quisemos, mas porque não foi possível, mas a dedicação é total e eu quero que a Espanha seja uma parceira extraordinária, não só no projeto de combater a fome, mas no projeto de ajudar na construção da integração da América do Sul porque, sem integração, a América do Sul passará mais um século apenas em vias de desenvolvimento.

Eu espero que tenha passado um bom dia no Brasil, espero que saia do Brasil com a melhor impressão possível e, certamente, estaremos nos encontrando em algum fórum internacional antes de outubro, quando vamos à Espanha, porque o convite é irrecusável e a gente poderá aprofundar a nossa discussão.
Bem-vindo ao Brasil e que o povo da Espanha tenha a felicidade que merece.

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