Declaração à imprensa do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de assinatura de atos por ocasião da visita oficial do Presidente de Moçambique, Joaquim Chissano
Palácio do Planalto, 31 de agosto de 2004
Excelentíssimo senhor Joaquim Chissano, presidente da República de Moçambique,
Senhor Leonardo Santos Simão, ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Moçambique,
Meu caro companheiro Celso Amorim, ministro de Relações Exteriores do Brasil,
Senhores ministros membros da delegação de Moçambique,
Senhores ministros brasileiros,
Embaixadores,
Embaixadora,
Meus amigos e minhas amigas,
Os acordos que acabamos de assinar são um passo a mais na relação que queremos manter, cada vez mais forte, com o governo de Moçambique.
Todos vocês acompanham a nossa política externa desde que tomamos posse no dia 1º de janeiro do ano passado. E todo mundo, no Brasil, sabe da nossa decisão de termos, cada vez mais, uma política mais ousada, uma política mais positiva com relação aos países da África e, sobretudo, com Moçambique. Pelas nossas raízes históricas, pelo fato de falarmos a mesma língua e pelo fato de sabermos que o Brasil e os outros países têm uma dívida histórica com os países africanos.
E eu digo sempre que por mais que tenhamos feito, nós ainda não conseguimos pagar o que significou o trabalho de homens e mulheres livres na África e que se tornaram escravos dentro do nosso país.
Dentre os acordos que nós assinamos, eu reputo o de maior relevância a reestruturação da dívida de Moçambique para com o Brasil. E felicito o ministro Palocci por ter cumprido um compromisso que já não é novo, é um compromisso que vem desde 2000, e que o reiteramos quando visitamos o presidente Chissano, no ano passado. E estamos cumprindo agora. Eu penso que isso pode servir de exemplo para que outros países da mesma magnitude do Brasil tenham os mesmos gestos para com outros países pobres do mundo, que, muitas vezes, têm uma dívida que todo mundo sabe que é praticamente impagável, mas essa dívida sempre funciona como uma espécie de espada na cabeça do devedor.
Então, eu penso que estamos abrindo um novo padrão de confiabilidade entre o Brasil e Moçambique.
Quero dizer ao presidente Chissano que nesse pouco tempo de governo foi possível verficar com todos os contatos que eu tive com países africanos e fora da África, a sua importância política, o papel simbolizando a recuperação definitiva da democracia que, a partir de Moçambique, o senhor tem permitido se espraiar por todo o continente africano.
Este ano teremos eleições em Moçambique, e eu sei que Vossa Excelência não concorrerá à reeleição. E isso é mais uma demonstração de que vocês conseguiram, depois de 16 anos de guerrilha, depois do aprendizado de uma guerra, depois de muito sofrimento, vocês aprenderam a valorizar, como poucos, o simbolismo e o valor real do exercício da democracia.
Eu tenho mais dois anos de mandato. Dois anos e alguns meses. Independentemente de Vossa Excelência não ser mais o Presidente de Moçambique, esteja certo que nós, do Brasil, não iremos medir esforços para que a gente cumpra, não apenas os acordos assinados, aqui, mas acordos que assinamos em Moçambique, no campo da educação, do combate à Sida, no campo da agricultura. Sobretudo, o Brasil pode e deve ajudar muito Moçambique: a Embrapa tem tecnologia para Moçambique, os empresários do campo brasileiro têm muito para contribuir com o desenvolvimento de Moçambique. E eu acho que o Brasil fará a sua parte.
Quero dizer ao presidente Chissano que é sempre muito difícil quando nós começamos a fazer política, que vamos nos irmanando com as pessoas, conhecendo mais profundamente as pessoas e descobrindo a importância que cada pessoa tem, nesse jogo político mundial muito complicado em que, às vezes, entramos no governo, terminamos um mandato e não conhecemos nem o nosso vizinho. Às vezes não conhecemos praticamente ninguém.
E eu fico imaginando o que uma liderança do seu porte vai fazer. O presidente Chissano, quando sair daqui, vai ao Rio Grande do Sul fazer uma visita a uma feira, que é a Expointer, uma das feiras mais importantes da América do Sul. Ele está interessado em conhecer um pouco a questão do gado zebu brasileiro, onde nós temos um grande rebanho e tratamos isso com alta tecnologia.
Só para se ter uma idéia, em 1964 – eu estou falando de 40 anos atrás – o governo brasileiro daquela época fez uma lei proibindo que o Brasil importasse embriões de zebu da índia, porque alguns amigos do Presidente da época tinham comprado, já, praticamente, todos os embriões e não estavam permitindo a renovação do nosso rebanho. Somente no ano passado foi que nós conseguimos, depois de quase 40 anos, fazer importação de novos embriões da Índia, para que a gente possa renovar o nosso rebanho de gado zebu. Isso, o Brasil tem tecnologia e pode ajudar muito um país como Moçambique a se desenvolver, como temos, na questão da soja.
Agora, me preocupa saber que um homem da sua envergadura, da sua dimensão – num continente complicado, onde nem tudo ainda está resolvido – eu fico imaginando se é direito, ou é justo uma pessoa que conquistou a liderança e a representatividade junto aos países africanos, como o presidente Chissano conquistou, ao longo de muitos anos, voltar para casa e cuidar de boi zebu.
Eu acho, meu caro Celso, que nós vamos ter que trabalhar muito para encontrar uma atividade, eu diria, um pouco maior do que essa e eu acho que é com justeza que se faz isso, porque ele me dizia que a primeira vez que ele voou de avião foi em 1960. A primeira vez em que eu voei, foi em 1975. Ele já tinha 15 anos de luta a mais do que eu. Certamente, não estava voando para passear, estava voando para ver como iria conseguir apressar a independência de Moçambique.
Eu espero que a gente tenha oportunidade, Presidente, de em Nova York podermos conversar um pouco, já que eu sou grato pela nossa relação, sou grato pelo apoio que Moçambique tem dado às pretensões do Brasil no Conselho de Segurança Nacional. Sou grato pela sua participação, em Nova York, no dia 20, para discutir a questão da fome.
Mas eu acho que não tem muito retorno, não. Pode se preparar, porque o Brasil vai aumentar muito a sua relação com os países africanos. Eu, até agora, só fui a sete países africanos, se contar os árabes africanos, eu fui a 10. E eu pretendo, todo ano, visitar um conjunto de países africanos, até ver se nós terminamos o mandato cobrindo, pelo menos, a grande maioria dos países africanos. Porque eu acho que o Brasil, pelo que representa, precisa estar sempre dando o exemplo de estendimento de mão àqueles que mais precisam.
Portanto, eu quero lhe dizer que nesse conjunto de ações que assinamos, hoje, têm um significado maior a questão da dívida, que o nosso querido Palocci assinou. Espero que ele já não esteja arrependido de ter assinado.
Mas eu acho que para nós é muito significante esse ato. É muito importante. Esses dias fizemos o mesmo com a Bolívia e temos mais alguns países que nunca conseguirão pagar a dívida e que eu acho que nós temos que ajudar esses países fazendo um gesto como esse.
Qualquer coisa que eu fizer pela delegação e pelo presidente Chissano, ainda assim nós não conseguiremos pagar o carinho com que fomos tratados em Moçambique.
Eu estou muito otimista, torcendo e fazendo o que é possível para que a nossa Vale do Rio Doce possa conseguir ter o seu projeto aprovado e ser a ganhadora da concorrência pública que vai ter em Moçambique. Acho que os moçambicanos não se arrependerão se a Vale do Rio Doce conseguir ganhar essa concorrência, porque além de explorar carvão, ela pode ajudar em outros projetos, porque a Vale do Rio Doce, além de ser uma grande empresa, tem participação de fundo de pensões. É uma empresa que tem um sentido e uma visão social muito grande.
Eu estou sabendo que Moçambique já recebeu um grupo de técnicos do BNDES, e que o banco se colocou à disposição para financiar projetos neste país. De forma que isso é apenas um pouco do pagamento do carinho que nós recebemos em Moçambique. E pode ficar certo, Presidente, que nós haveremos de avançar a cada ano um pouco, até que a nossa relação não seja apenas uma relação diplomática ou uma relação virtual, mas que seja uma coisa muito forte, de sangue, de um país que se reencontrou com o povo africano que fez esse país ser a maravilha que é.
Não sei se o senhor percebeu que a mistura entre os negros africanos, os portugueses e os índios brasileiros, fez com que essa miscigenação criasse esse povo tão bonito, que é o povo brasileiro. E isso é impagável. E, portanto, nós vamos passar muitos séculos devendo aos países africanos.
Muito obrigado, Presidente. Que Moçambique consiga consolidar todas as aspirações que motivaram a sua independência, que motivaram a sua participação política e que motivam todo o seu governo e o povo de Moçambique.

31/08/2004



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