Eu quero dizer a vocês que, como de hábito, eu não vou ler o discurso, eu vou ter uma conversa com vocês. Afinal de contas, eu nunca tive a chance de fazer um debate com os empresários chilenos. Se eu ficar de cabeça baixa, aqui, lendo o meu pronunciamento, eu vou sair sem perceber com quem eu conversei.
Queria dizer a vocês da alegria de estar mais uma vez no Chile. Vocês sabem que o Chile tem um significado especial para nós, brasileiros. No momento mais difícil da história política do Brasil, em que muitos jovens, homens e mulheres não puderam fazer política no Brasil, foi o Chile que abriu as suas portas, estendeu as mãos para que, aqui, os brasileiros pudessem encontrar um pouco de tranqüilidade. Está certo que não foi tão duradoura a tranqüilidade, mas não deixou de ser importante. E vocês sabem que por aqui passou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por aqui passou grande parte dos companheiros que hoje fazem parte do meu governo, o meu querido assessor especial Marco Aurélio Garcia, que aqui lecionou durante 3 anos, e tantos outros amigos.
Esta reunião tem uma característica muito especial para nós, brasileiros. Queria dizer ao meu querido Ministro da Fazenda do Chile que é a primeira vez na história do nosso país, que fazemos uma viagem para outro país para discutir negócios e trazemos, na nossa delegação, a Receita Federal, o Ministério da Agricultura, a Anvisa, do Ministério da Saúde; o Inmetro e o INPI. Todos os setores que têm a ver, direta e indiretamente, com a nossa relação comercial, estão aqui representados. Além da nossa Embrapa, que está aqui, para aprender aquilo que vocês sabem mais do que nós e para ensinar aquilo que nós sabemos mais do que vocês.
Esta reunião é importante para mim porque permite que eu possa falar um pouco do Brasil. As coisas não estão totalmente resolvidas no Brasil. Vocês, como empresários, os brasileiros e os chilenos que têm relações com o Brasil, sabem que não é de uma hora para outra que nós fazemos os milagres para consertar coisas que não estavam funcionando há alguns anos.
Entretanto, nós demos passos importantes para que eu possa dizer hoje, na frente dos empresários brasileiros e chilenos, dos representantes do governo chileno, que o Brasil está numa rota sólida de crescimento econômico e está numa rota sólida para cumprir parte da dívida social acumulada durante tantos anos com o nosso povo. Vocês acompanharam o Brasil nesses últimos anos e sabem que nós tomamos a decisão de governo de que era preciso fazer com que o Brasil tivesse uma ação política para, a partir do Mercosul, reconstruir uma relação forte com a América do Sul e, a partir da América do Sul, construir uma relação forte com o resto do mundo.
Eu, nesses 19 meses de governo, já visitei, me parece, 39 países. E já recebi, no Brasil, uma dezena de presidentes de outros países, porque eu aprendi, muito cedo, que quando se trata de relação comercial a gente não pode ficar em casa esperando que o comprador apareça para comprar. Nós temos que sair para vender aquilo que nós acreditamos que é bom. Foi por isso que tomamos a iniciativa de ter uma política internacional mais ousada e mais arrojada. E só poderíamos ter uma política comercial, uma política externa mais arrojada se nós consertássemos primeiro a nossa relação caseira, que era o Mercosul, que durante muitos anos viveu subordinado a duas moedas que não eram reais: o real nunca valeu um dólar e o peso nunca valeu um dólar. Portanto, a falta de iniciativa para mudar a política cambial no momento certo, fez com que um país do tamanho do Brasil acumulasse durante muitos anos seguidos um déficit comercial quase sem precedentes na nossa história. E não foi por falta de aviso. É porque normalmente, quando se trata de política econômica, muitos governantes não têm coragem de fazer as mudanças no tempo certo se a política econômica tiver rendendo algum dividendo eleitoral.
Pois bem. Hoje, depois de 19 meses, posso afirmar para vocês que o Mercosul está reconstituído. Com as fragilidades que ainda temos, com todos os problemas e as simetrias entre as economias dos países, nós achamos que ele está reconstruído do ponto de vista político. Para isso era preciso reconstruir a nossa relação com a Argentina, que durante muito tempo foi uma relação de desconfiança mútua, e hoje nós construímos essa relação, e não permitiremos que um problema comercial de um ou de outro setor crie qualquer complicação na nossa relação. Se tiver um problema comercial prejudicando um setor da Argentina ou um setor do Brasil, ao invés de criar uma crise política, nós temos que sentar os dois setores que estão em conflitos, entrar em acordo, tocar o barco para frente e continuar trabalhando e produzindo, porque os países não podem se dar ao luxo de brigar por coisas secundárias.
Estabelecemos o Mercosul e resolvemos partir para uma relação na América Sul. Era inconcebível imaginar que, durante 500 anos da existência do meu país, a gente tivesse uma relação com a América do Sul inferiorizada. A verdade é que uma parte das pessoas que governaram o Brasil nasceram e morreram olhando para a Europa e olhando para os Estados Unidos e esqueceram de construir o alicerce que poderia dar solidez ao crescimento da economia da América do Sul. Afinal de contas o Brasil, como maior economia do continente, como a maior população do continente, tem que ter mais responsabilidade e gestos de abertura política para fazer com que as coisas aconteçam. E quebrar a desconfiança é estabelecer uma relação política sem querer hegemonismo. Nós queremos parceria, nós queremos que o empresário chileno e o empresário brasileiro construam parcerias, nós queremos que o mercado brasileiro seja atrativo para o empresário chileno e queremos que o mercado chileno seja atrativo para o empresário brasileiro.
E assim nós queremos com outros países da América do Sul, porque sem que o Brasil tome iniciativas, as coisas ficam mais difíceis para acontecer. Como é que pode ter integração na América do Sul se nós não temos as estradas, se não temos as ferrovias, se não temos os portos e os aeroportos que precisamos ter? Nós começamos a discutir, a partir de projetos existentes junto à CAF, a possibilidade de uma integração física entre a América do Sul, ou seja, nós temos uma ferrovia que liga o porto de Santos ao porto de Antofogasta. Só que essa ferrovia está deteriorada em vários lugares. Nós estamos consertando agora o trecho do Brasil até Corumbá. Mas é preciso fazer com que essa ferrovia volte a funcionar. A nossa estava parada há 20 anos, e o conserto dela custa apenas 80 milhões de reais, o que significa um descaso e um desprezo.
Nós estamos discutindo com a Bolívia, agora, não apenas como utilizar o gás da Bolívia, nós estamos discutindo agora a construção de um pólo gás-químico entre a Bolívia e o Brasil, porque nós precisamos contribuir para o crescimento econômico e o desenvolvimento da Bolívia. Nós não poderemos repetir o erro histórico de apenas utilizar o gás da Bolívia, sem dar a contrapartida na ajuda ao desenvolvimento industrial daquele país.
Nós temos como decisão de governo, ajudar através de financiamentos do BNDES, e de obras de infra-estrutura em vários países da América do Sul, para que a gente possa ter mais facilidade de transitar entre nós, porque senão o empresário do Equador, para ir ao Brasil, terá que ir a Miami. Se ele vai para Miami, ele já faz negócio em Miami, não vai ao Brasil. Muitas vezes o empresário da África tem que ir à França, para poder vir à América do Sul. Ele já faz negócio na França. Então, nós precisamos cuidar desse direito de ir e vir dos empresários, dos investidores, dos trabalhadores, para que a gente possa criar as condições de fazer com que as pessoas vejam a América do Sul.
Eu vou dar um exemplo para vocês. Nós inauguramos, há 15 dias, a primeira ponte entre Brasil e Bolívia em 500 anos. Uma ponte pequena, uma ponte sobre o rio Acre, uma ponte de 120 metros, mas foi a primeira em 500 anos. Estamos fazendo agora a primeira entre o Brasil e Peru, para permitir que o nosso discurso de integração seja aceito pela sociedade, porque se não falamos em integração, passam-se décadas e décadas e não acontece absolutamente nada. Se o Brasil pode contribuir com o Chile, na questão da política energética, não há porque não contribuir. Se a Petrobrás pode contribuir com investimentos no Chile, nós temos que fazê-lo. Como temos que fazer em São Tomé e Príncipe, como temos que fazer em Cabo Verde, como temos que fazer em Angola. Ou seja, nós precisamos ter coragem de assumir a responsabilidade que nós queremos competir em igualdade de condições com todos os investidores do mundo. Nós não somos nem países e nem empresários de terceira categoria. Muitas vezes, a nossa cultura fez com que nos posicionássemos como se fossemos inferiores.
Eu quero contar uma pequena história para vocês. Eu fui a Londres fazer um debate, no começo do ano passado. E em Londres eu disse que a coisa que eu mais admiro nos americanos é que os americanos pensam muito neles. Se tem uma coisa que os americanos têm de importante é que eles se respeitam. E eu disse que eles pensam primeiro neles, segundo neles e terceiro neles. Na arte de negociar, eles são muito duros. E eu não acho isso ruim. Eu acho isso bom. O que eu acho é que nós deveríamos ser tão duros quanto eles nas negociações, porque nenhum negociador respeita alguém que vai negociar com a cabeça baixa. Ninguém respeita. Nós temos que nos respeitar para merecermos o respeito dos outros.
E vejam, quando eu digo isto, eu digo com respeito e carinho, porque os americanos são os nossos principais parceiros comerciais. Quando eu falo da União Européia, eu falo com respeito porque eles são, no conjunto, hoje, até mais do que os Estados Unidos. Mas eu tenho que pensar, sobretudo, no meu país. Eu tenho que pensar, sobretudo, no meu continente. Eu tenho que brigar para defender os nossos interesses.
E vejam como as coisas evoluíram rapidamente. Vejam a evolução. Quem é, aqui nesta sala, que acreditava, há 12 meses, que o Mercosul pudesse juntar em torno de si todos os países da América do Sul como associados? Inclusive os países da Comunidade Andina? Parecia impossível. Era quase que impossível, do ponto de vista econômico, imaginar que o México ia querer se associar ao Mercosul. E por que isso está acontecendo? Porque quando nós fomos a Cancún, o Chile, o Brasil e outros países tiveram a coragem e a ousadia, nem sempre compreendidos pelos setores da imprensa do nosso continente, que diziam que nós tínhamos sido derrotados. Foi graças àquela reunião de Cancún, foi graças ao comportamento do governo chileno e do governo brasileiro e de outros 18 países, que nós conseguimos, agora, em Genebra, dar os primeiros passos decisivos para o fim dos subsídios agrícolas da União Européia e dos Estados Unidos, que, quando estiver consolidado, pode significar um aumento de 200 bilhões de dólares no comércio exterior favorecendo os países em desenvolvimento.
Quando o Brasil tomou a decisão de ir à OMC brigar contra o subsídio ao algodão americano não era apenas para o Brasil ganhar, é que tem países africanos cuja base da sua economia é o algodão, é o maior produto de exportação. E não era justo competir com uma economia forte como a americana, com subsídio. Era impossível. Gastamos 6 milhões de dólares com advogado, mas ganhamos.
Quando entramos na luta contra o açúcar europeu, nós queríamos apenas que levassem em conta que nós queríamos uma igualdade na negociação. Parecia impossível. Acabamos de ganhar. E isso, obviamente, ajuda não apenas o Brasil, ajuda outros países. Mas se essas lutas entre nós trouxerem problemas, por conta do açúcar chileno ou do açúcar argentino, nós não temos que ver isso como um grande problema, nós temos que sentar em torno da mesa e ter uma política específica para os nossos países.
Nós vamos fazer uma coisa, meu caro Ministro da Economia, uma pequena revolução na relação internacional da América do Sul. Ano que vem nós vamos ter, no começo do ano, uma reunião de todos os presidentes dos países árabes com os presidentes da América do Sul, ou seja, nós temos a obrigação de convencê-los de que eles podem olhar um pouco para a América do Sul. Aqui tem paz, aqui não tem guerra; eles podem aportar um pouco do seu capital em investimentos na América do Sul: em turismo, em ferrovia, em energia, em gasoduto, ou seja, naquilo que eles quiserem. Só vai depender da nossa capacidade de vender as coisas boas que nós temos, porque quando vai um negociador de um outro país, não vai falar bem do Chile, não vai falar bem do Brasil, afinal de contas, ele quer ganhar o mercado. Ele vai falar bem dele. Nós é que temos que falar bem de nós.
Por isso, nós procuramos fazer com que a política externa, não apenas para o Brasil, mas para a América do Sul, seja mais plural, que a gente abra um leque de países negociadores. Por quê? Porque nós não ficamos dependentes apenas de uma força comercial. Vocês sabem que negócios, aqui, vocês, homens de negócios, sabem que toda vez que eu fico dependendo apenas de um comprador do meu produto, eu fico vulnerável. Eu vou ficar mais forte quando o principal comprador do meu produto perceber que tem um outro comprando quase igual a ele. E que se eu não vender para ele, eu vou vender para o outro.
Foi por isso que nós visitamos tantos países. Reforçamos a nossa relação com a Índia, com a África do Sul, com a China, com vários países africanos, porque nós queremos estabelecer uma política de complementaridade. O que nós podemos fazer para nos ajudar mutuamente? Por exemplo, nós não exportamos apenas soja para a China. A China, ela nos empresta o conhecimento que tem no lançamento de foguetes, de satélites, e nós levamos para a China a nossa tecnologia na construção de aviões. Isso pode ser feito com cada país, acenando quais são as políticas de complementaridade que podem ir fortalecendo a relação Brasil-Chile. O que nós podemos fazer para nos ajudar mutuamente? O que o Chile tem que o Brasil não tem? E o que Brasil tem que o Chile não tem? Não falaremos de futebol, aqui, nesta reunião, mas vocês podem falar de tênis porque ganharam duas medalhas de ouro. Mas nós temos muita coisa para avançarmos. Nós passamos muito tempo com a nossa ação truncada, muito subordinada a um ou a outro bloco. Mas agora temos que crescer e nos ajudar mutuamente. É com este espírito que eu sinto orgulho de estar no Chile, de ter participado de tantas reuniões com o presidente Lagos e de poder estar aqui com os empresários chilenos.
No mês passado, eu fui aos Estados Unidos fazer um debate com investidores e eu estava preocupado porque é que, de vez em quando, aparece o risco-Brasil. Vocês sabem que quando nós ganhamos as eleições, o risco-Brasil estava em 2 mil e 400 pontos, agora está em 500 pontos. Mesmo assim eu fico me perguntando: que risco? Nós não temos terremoto, não temos vulcão, não temos guerrilhas, não temos maremoto, não temos neve, muito menos guerra. Ou seja, onde está o risco?
Bem, eu acho que essas empresas, na medida em que vão percebendo o comportamento dos governantes, vão percebendo que há seriedade. E nós fizemos a combinação de uma política fiscal dura, para não gastarmos mais do que a gente arrecada. E isso eu quero dizer para vocês, com todo o carinho, que a gente não aprende apenas na universidade, a gente aprende dentro da casa da gente. Eu sou filho de uma mulher que morreu aos 64 anos, analfabeta, mas que nunca fez uma dívida que não pudesse pagar. Ela morreu sem ter um televisor, porque achava que não podia pagar e não ia fazer dívidas. Para governar é a mesma coisa, você só pode se endividar até onde pode pagar. Se você não pode pagar, pára, porque senão você vai deixar para um outro. É preciso ter responsabilidade nessa coisa, porque você não está lidando com o seu dinheiro.
E nós, no Brasil, tomamos essa atitude. A atitude de fazermos todas as reformas no primeiro ano de governo. E vocês sabem que não foi fácil, porque aqui foi feita reforma na Previdência. Apesar das brigas que eu tive com os meus companheiros, que são da minha origem, nós fizemos a reforma da Previdência porque era preciso fazer. Fizemos a reforma tributária porque era preciso fazer.
A Dilma vai falar sobre o marco regulatório do setor energético, que foi unanimidade entre os empresários. Vamos fazer o marco regulatório do saneamento básico. Mandamos um projeto de Parceria Público-Privada para o Congresso Nacional, porque nós queremos não apenas que a economia brasileira seja aberta, nós queremos que ela seja aberta de forma responsável, sem destruir a seriedade da relação que nós temos que ter com os nossos parceiros.
É por isso que quero terminar dizendo aos empresários brasileiros e aos empresários chilenos: vocês não têm que ter medo de serem grandes; vocês não têm que ter medo de virarem empresários multinacionais; aliás, eu acho que nós seremos mais fortes e mais respeitados no mundo dos negócios na hora em que nós tivermos muitas empresas multinacionais andando pelo mundo afora.
É com este desejo que eu quero me despedir de vocês, porque tenho outro compromisso agora com o presidente Lagos. Quero dizer a vocês que acreditem que no Brasil nós não vamos fazer brincadeiras com a economia. O povo brasileiro já perdeu muito, o povo brasileiro já perdeu demais. Eu digo sempre que, possivelmente, eu seja o único presidente do meu país que não tem o direito de errar. Porque todo mundo entra, erra, vai embora e não acontece nada.
Acontece que a hora em que eu deixar o governo, eu vou voltar para minha casa, a 600 metros do sindicato onde eu fui presidente, que é o sindicato mais organizado do país, com quem eu mantenho vínculo até hoje. E se tem uma conquista que eu quero ter quando deixar o meu governo, é poder olhar os empresários brasileiros, é poder olhar os trabalhadores brasileiros de cabeça erguida, dizendo para eles: eu posso não ter feito tudo, mas, certamente, eu fiz o máximo que o mandato de um presidente permite que eu faça.
É com essa seriedade que nós, do Brasil, queremos aperfeiçoar as relações com os empresários chilenos, com o governo chileno e com a sociedade chilena.
Muito obrigado e boa sorte para vocês.

24/08/2004



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