Senhoras e senhores,
Jornalistas aqui presentes,
Vejo com grande satisfação, reunidos aqui em Praia, vários empresários do Brasil e de Cabo Verde. Esse encontro mostra que está aberto o caminho para uma nova etapa na parceria econômica e comercial entre nossos países.
Fico feliz em ver que a distância e o oceano que nos separam não mais impedem os bons negócios. Estamos hoje nos conhecendo melhor.
Esse fato reforça minha convicção da importância de restabelecermos as ligações aéreas entre o Brasil e a África. Foi a existência da conexão direta entre Fortaleza e Praia que tornou possível a multiplicação das visitas de turistas e de empresários entre nossos dois países.
Mas há outros fatores que também ajudam a explicar o aumento significativo do comércio entre Brasil e Cabo Verde nos últimos anos.
Nossos países estão empreendendo profundas reformas estruturais que estão modernizando nossas economias. Estamos nos equipando para os desafios de uma globalização cada vez mais competitiva.
Senhoras e Senhores,
Estamos na rota de um crescimento sustentável e duradouro. O comércio internacional é uma de nossas ferramentas mais importantes. Mas podemos fazer melhor.
Tenho grandes expectativas em relação ao Terceiro Fórum Empresarial da CPLP, que terá lugar aqui em Cabo Verde, nos próximos dias 6 e 7 de outubro.
O Fórum contará com uma importante participação do estado do Ceará, parceiro natural e próximo de Cabo Verde.
Será uma oportunidade para retomarmos o debate sobre como realizar o potencial de trocas entre nossos países. Será, sobretudo, ocasião para avaliarmos como fazer da CPLP um mecanismo mais dinâmico para canalizar investimentos e ajuda internacional para o desenvolvimento de países africanos de língua portuguesa.
Sabemos que o comércio tem que ser uma via de duas mãos.
Ao Brasil, não interessa apenas aumentar as nossas exportações para Cabo Verde.
Precisamos criar mais oportunidades para exportações cabo-verdianas para o Brasil. Começamos a enfrentar esse desafio com o anúncio que fiz na Quinta Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP.
Comuniquei que o Brasil, na qualidade de Presidente pro tempore do Mercosul, defenderá uma substancial diminuição de tarifas nas exportações dos países em desenvolvimento da CPLP para o Mercosul.
Estaremos abrindo para o empresário empreendedor de Cabo Verde um mercado que se expande cada dia mais. A convergência com a Comunidade Andina fará da América do Sul um mercado integrado de 350 milhões de habitantes, com um PIB da ordem de US$ 1 trilhão de dólares. Estamos também interessados em promover investimentos brasileiros na economia de Cabo Verde.
Convocamos os empresários brasileiros a aproveitar as vantagens naturais deste país, como centro de processamento e distribuição de bens e serviços para os mercados do continente africano.
Senhoras e Senhores,
Esta é a mensagem de confiança e estímulo que desejo deixar com os empresários aqui presentes. Juntos – agentes públicos e privados – podemos realizar o grande potencial de comércio e cooperação entre nossos países. Eu faço votos de muito êxito em seus contatos e bons negócios.
Quero terminar dizendo ao Primeiro Ministro e dizendo aos empresários de Cabo Verde, que o meu governo está determinado a estabelecer com o continente africano, uma política, eu diria, de recuperação do tempo perdido. Durante muitos e muitos anos, nós estivemos com os olhos voltados para a Europa e para os Estados Unidos e vamos continuar olhando, porque são os dois principais parceiros comerciais do nosso país. Ainda temos muito que conquistar do ponto de vista do espaço econômico, cultural, científico e tecnológico.
Entretanto, isso não impede que não olhemos para outros lugares, que olhemos para a África e saibamos que a África está precisando neste momento da ajuda dos países que têm potencial de desenvolvimento maior. Muitas vezes a ajuda não é apenas a ajuda econômica, não é o dinheiro apenas.
O Brasil tem conhecimento científico e tecnológico para ajudar. O Brasil tem condições de continuar formando quadros intelectuais, profissionais de vários países africanos, sobretudo de Cabo Verde, para que a gente possa repetir aos milhares, pessoas como o nosso Primeiro-Ministro, formado no Brasil.
O Brasil tem conhecimento na agricultura, sobretudo em regiões do semi-árido, para ajudar países como Cabo Verde. A Embrapa é uma das empresas que detém maior conhecimento na área da agricultura e poderemos ter participação efetiva na elaboração conjunta de projetos para executarmos aqui em Cabo Verde.
Temos condições de ajudar Cabo Verde na formação de pequenos empreendedores. No Brasil nós temos o Sebrae, que tem experiência suficiente. Existem muitas federações de indústrias que têm acúmulo na formação de pequenos empresários e nós, certamente, poderemos dar uma contribuição excepcional para ajudarmos a formar novos empreendedores em Cabo Verde.
Essas condições virão fortificar de forma muito mais forte se nós modernizarmos e agilizarmos os meios de transporte entre Brasil e Cabo Verde. Nós sabemos da precariedade, mas há um avanço excepcional, já tem mais gente do Ceará vindo para Cabo Verde e, certamente, terá mais gente de Cabo Verde indo ao Nordeste brasileiro, sobretudo pela porta de entrada principal, muito próxima daqui, que é o Ceará. E nós pretendemos trabalhar com muita força para que a gente possa, também através do transporte marítimo, fazer com que haja uma evolução e os empresários brasileiros saibam que Cabo Verde pode ser uma porta de entrada importante de produtos brasileiros para outros mercados no continente africano.
O que é importante ter claro é que precisamos começar a criar, Primeiro-Ministro, os instrumentos que podem fortalecer e reabilitar com mais eficácia essa relação. Eu penso que é importante, que no encontro empresarial entre Cabo Verde e o Brasil, que daqui vocês criem uma associação, uma câmara de comércio –o nome vocês saberão criar –, para que a gente possa estabelecer possibilidades de mais encontros, descobrir as aptidões de cada um dos países, descobrir similaridades, descobrir onde podemos nos ajudar mutuamente e, certamente, isso será de extrema valia para a futura relação entre Cabo Verde e Brasil.
Eu termino as minhas palavras dizendo a vocês que o comércio exterior depende, sobretudo, de ousadia, coragem. E coragem, eu diria, com muita eficácia. Nós, quando assumimos o governo, resolvemos transformar a nossa política externa numa ação prioritária. Nesses 18 meses de governo já visitamos mais de 30 países. O resultado que estamos colhendo são visíveis e todos vocês, brasileiros, sabem que nós estamos batendo recorde todo mês no nosso superávit comercial.
Países com os quais o Brasil não tinha nenhuma relação, e eu vou dar um exemplo, a Síria. A gente tinha apenas 8 milhões de dólares de comércio exterior. Depois da nossa visita, nós pulamos de 8 para 78 milhões de comércio exterior, ou seja, crescemos quase 800% a nossa relação.
E isso valeu para todos os países que nós visitamos. Por que para nós é importante diversificar os nossos parceiros? É porque sabemos que em relação de comércio, os empresários que vendem sabem perfeitamente bem que sempre tem um limite, ou seja, quando você atinge um determinado padrão de comércio com uma região ou com um país, cada vez mais você vai poder lhe vender menos, porque já está vendendo o máximo possível.
Então, nós precisamos procurar novos parceiros. Nós, por exemplo, temos uma briga na Organização Mundial do Comércio muito séria para que a gente possa abolir, definitivamente, o subsídio agrícola que a União Européia e os Estados Unidos colocam aos seus produtos, dificultando as exportações naquilo em que nós somos muito mais competitivos.
Nós já ganhamos a briga do algodão. Ainda estamos numa etapa importante da briga, mas os sinais são excepcionais e nós estamos procurando outros parceiros. Por quê? Porque nós achamos que em política de comércio, e vocês, como empresários, sabem melhor do que qualquer governo, que você não pode ficar dependendo apenas de um cliente. Quanto mais clientes você tiver, menos vulnerável a crises você estará. Então, nós precisamos ter uma diversificação muito grande. Por quê? Porque quando os países ricos notarem que nós não estamos tão dependentes deles como eles imaginam, nós teremos muito mais facilidade de fazer negociação nos preços dos produtos que nós queremos comercializar.
Essa política tem colocado o Brasil numa situação importante. Este ano, certamente, teremos um superávit comercial de 30 bilhões de dólares. Será o recorde dos recordes da relação comercial brasileira. A nossa indústria já está, hoje, com 87% da sua capacidade produtiva sendo utilizada. É o maior recorde desde 1995. Quanto aos níveis de emprego no Brasil, de janeiro de 2004 a 1º de junho de 2004, nós geramos 1 milhão, 34 mil e 270 novos empregos. É o maior número desde 1992, portanto, eu acho que a economia brasileira entrou num padrão de crescimento que pode facilitar a nossa relação; que possa facilitar o comércio exterior brasileiro com outros países, sobretudo com os países que estamos descobrindo agora, que, por mais pobres que sejam têm potencial comercial importante para o Brasil.
Vocês estão lembrados que eu disse aqui no meu discurso: comércio exterior é uma mão de duas vias, ou seja, cada país quer vender o máximo possível e comprar o mínimo possível, mas todos querem vender o máximo. A boa política comercial é aquela em que a gente compra um pouco e vende um pouco, porque a gente percebe que haverá um crescimento das duas economias e não apenas de uma. A nós não interessa ter somente superávit, a nós interessa ter uma boa relação comercial que possa ajudar o país-irmão também a crescer.
É com essa convicção que eu faço um chamamento aos empresários cabo-verdianos e aos empresários brasileiros. Possivelmente vocês ainda não descobriram 10% do potencial que têm para incrementar as suas relações de negócios. Não haverá computador, não haverá Internet que substitua uma boa conversa. Vocês são de negócios e sabem disso muito mais do que eu.
Muito obrigado e boa sorte.

29/07/2004



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