Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de condecoração da ordem Amílcar Cabral – Cidade da Praia, Cabo Verde, 28/07/2004

É simbólico que as primeiras palavras que pronuncio em território cabo-verdiano sejam para expressar a grande honra que sinto ao receber as insígnias da Ordem Amílcar Cabral.

No Brasil, ele inspirou mais de uma geração de militantes políticos. Sua mensagem de luta ecoou entre nós em um momento em que lutávamos contra a tirania.

Amílcar foi o “engenheiro das consciências”, que soube mobilizar e sensibilizar a muitos, não apenas em Cabo Verde e na antiga Guiné Portuguesa, mas no mundo inteiro.

A todos fascinava a figura desse cabo-verdiano nascido na Guiné-Bissau. Liderou o movimento que forjaria o Partido Africano da Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde. Foi um patriota que uniu duas nações na luta pela liberdade e pela autodeterminação.

Com raro talento, Cabral transformou Cabo Verde e Guiné-Bissau em trincheira da resistência africana à dominação estrangeira. Possuía trajetória, tinha carisma e idéias e uma extraordinária capacidade de comunicação. Todas essas qualidades o transformaram num dos mais eminentes africanos.

Hoje, a África busca resgatar sua identidade.

É momento de lembrar o homem que levou às últimas conseqüências seu ideal de promover a “reafricanização dos espíritos”.

Quando os povos africanos buscam assumir a responsabilidade por encontrar respostas próprias para os desafios do Continente, recordamo-nos, com admiração, desse herói da autodeterminação. Ele foi a consciência da África.

Foi capaz de atar laços étnicos, históricos e culturais que uniram comunidades na luta por um destino independente e soberano.

Senhor Presidente,

Vossa Excelência é testemunha e partícipe desses eventos que ajudaram a fazer a história do século 20 e moldar o futuro da África. Deixou Portugal, onde vivia, para juntar-se à luta dos seus.

O processo de descolonização deve muito a seu esforço, primeiro na Guiné Bissau, depois em Cabo Verde.

Esta medalha evoca um tempo heróico. Lembra os valores aos quais dediquei minha vida: a liberdade e a democracia.

Agradeço ao governo e ao povo de Cabo Verde o privilégio de poder, de agora em diante, ostentar esta condecoração.

Muito obrigado.

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