Eu queria dizer ao presidente Omar Bongo da alegria e da satisfação que a minha delegação pelo carinho com que fomos recebidos ontem neste país.
Nossa relação com a África, Presidente, é muito mais do que relações diplomáticas, muito mais do que relações comerciais, eu diria muito mais do que um acordo científico e tecnológico. A nossa relação com a África é uma relação de irmandade, é a relação de um país que reconhece a importância que os africanos tiveram na construção da nossa gente, na construção da nossa cor, da nossa beleza, da nossa riqueza e da nossa cultura. Foram muitos anos em que homens e mulheres africanos construíram riquezas no meu país em muitos anos, sem conhecer a palavra liberdade.
Nós, hoje, estamos numa cidade, na capital do Gabão, que significa liberdade, num palácio que significa liberdade. Estamos num país que dá passos para um desenvolvimento mais equânime e para que possa, o povo do Gabão, desfrutar da riqueza produzida pelo próprio povo.
Possivelmente, eu seja o presidente da República do Brasil que mais tenha visitado os países africanos, por conta de uma relação histórica que queremos reconstruir, a começar por ensinar as nossas crianças no Brasil que os negros não nasceram escravos, eram homens e mulheres livres que viraram escravos no nosso país. Sem aprender essa lição mínima, nós não acabaremos com o preconceito do planeta Terra.
O Brasil não é um país rico, tem potencial para ser rico. De 1950 a 1980, embora o Brasil tenha sido o país que mais cresceu no mundo, essa riqueza não foi distribuída de forma justa. Entre 1970 e 2004, o Brasil praticamente dobrou a sua população, saindo de 90 milhões para 190 milhões, entretanto, nesses 34 anos de crescimento, em mais de 20 anos, a população cresceu, mas a economia não cresceu. Significa que cresceu o número de pobres.
Mas o fato do Brasil ter pobres não significa que o Brasil não possa ajudar outros irmãos, de países em condições similares a do Brasil ou em condições até de maior pobreza que o Brasil.
Nós poderemos ajudar com conhecimento científico e tecnológico, nós poderemos ajudar na formação de universitários do Gabão e de outros países africanos, nós poderemos ajudar na formação de empreendedores para vários países africanos e poderemos ajudar fazendo parcerias como a que está sendo feita, aqui, pela Companhia Vale do Rio Doce. Poderemos ajudar fazendo parcerias na construção de laboratórios para a produção de remédios para combater a AIDS; poderemos ajudar, financiando obras de infra-estrutura.
Nós fazemos isso, Presidente, porque eu fui um cidadão muito pobre, de uma região brasileira que, de 1680 a 1830, recebeu parte dos 700 mil escravos que o Gabão mandou para o Brasil. A minha mãe sempre dizia: “na mesa que come um, comem dois, e na mesa que comem quatro, comem oito”. Portanto, mesmo o Brasil não sendo um país rico, nós temos, por dever moral, político, ético, histórico e humanitário, muito para ajudar países mais pobres que nós, e vamos fazê-lo. Vamos fazê-lo e, por isso, estamos aqui para afirmar, mais uma vez, que o governo brasileiro, vai tentar, definitivamente, no menor tempo possível, recuperar o tempo perdido, quando os governantes brasileiros só olhavam para o mundo desenvolvido. É importante que olhemos o mundo desenvolvido, é importante que tenhamos negócios e muitos negócios com o mundo desenvolvido, mas é importante que não nos esqueçamos daqueles que historicamente estão ligados ao povo brasileiro.
Por isso, muito obrigado pelo carinho. Podem ficar certos de estamos dando um passo importante e eu torço para que o povo do Gabão e o povo brasileiro, através dos seus ministros, através dos seus presidentes, possam se reunir muitas vezes quando, certamente, produzirão efeitos econômicos que poderão trazer benefícios para os dois povos.
Muito obrigado.

27/07/2004



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