Intervenção do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na Reunião de Trabalho sobre Coesão Social – III Cúpula América Latina e Caribe – União Européia – Guadalajara – México , 28/05/2004

Com grandes sacrifícios, estamos empreendendo em nosso Continente a reestruturação de nossas economias.
Estamos saneando nossas finanças públicas. Modernizamos e tornamos mais eficiente a ação governamental. Adotamos a responsabilidade fiscal na gestão pública. Reduzimos as vulnerabilidades que comprometem e limitam o desenvolvimento econômico e social. Preparamo-nos para melhor interagir em uma economia crescentemente mundializada e interdependente.
Mas é evidente que não basta “fazer o dever de casa”, como tanto se diz.
Mais grave: todo nosso sacrifício não impediu que se mantivessem inalteradas, ou, pior, se agravassem , as estatísticas da fome, da pobreza, do desemprego, da desesperança.
No mundo globalizado são claros os limites para o que podem fazer nossa vontade e nossos esforços, isoladamente. Esses limites são ainda mais claros para os países mais vulneráveis dentre nós.
A fome, a pobreza, a desigualdade e a exclusão dividem nossas sociedades. Geram instabilidade política. Contribuem diretamente para o aumento da insegurança. Põem em risco a governabilidade democrática. E podem representar ameaça à paz e à segurança internacionais.
É preciso, portanto, enfrentar com determinação e coragem a discriminação, o preconceito, a exclusão, reverter a marginalização econômica e social de segmentos numerosos de nossas populações. Para transformar a vontade em ação são exigidos meios e instrumentos.
O desenvolvimento econômico é condição necessária, mas não suficiente. Não há desenvolvimento econômico verdadeiro sem distribuição de renda, sem justiça social.
A cooperação internacional tem papel importante a desempenhar nesse desafio. É indispensável para que nossa ação seja exitosa em cada um de nossos países.
Sempre que as economias da América Latina e do Caribe cresceram, nossas exportações aumentaram, assim como nossas importações. Abriram-se oportunidades para investimentos vantajosos em nossos países.
A cooperação internacional não só tem a generosa dimensão da solidariedade, ela beneficia economicamente a todos.
Tenho a convicção de que é preciso unir cooperação internacional à vontade e ao esforço nacional na luta a que estamos dedicados no Brasil para erradicar a fome e reduzir a pobreza.
A fome é a mais poderosa arma de destruição em massa. Mata 24 mil pessoas por dia, extingue a vida de 11 crianças por minuto. Atinge quase um quarto da humanidade. Reduz drasticamente a capacidade de produzir dos mais velhos. Compromete seriamente as possibilidades de aprendizagem. É nesse cenário que aparecem os ressentimentos de que se alimentam as soluções de violência para os problemas sociais e políticos.
A solidariedade tem de assumir a forma de uma parceria global, capaz de mobilizar a determinação política e o apoio financeiro, de energizar governos, o sistema das Nações Unidas, as instituições financeiras e comerciais internacionais. Deve reorientar prioridades e políticas de desenvolvimento. Deve buscar reduzir assimetrias econômicas e comerciais, através da eliminação das distintas formas de subsídio que perturbam o livre comércio.
A luta pela inclusão social não é batalha solitária. A convocação para a cooperação internacional tem partido, felizmente, de um número crescente de encontros e tem inspirado importantes iniciativas.
Lembro-me, em particular nesta direção, a Conferência de Monterrey sobre o Financiamento para o Desenvolvimento e a Conferência de Johannsburgo sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.
Destaco como instrumento de suma importância o Programa Mundial de Alimentos, o Fundo da FAO para a Segurança Alimentar, o Fundo da Solidariedade. A eles acrescento o Mecanismo estabelecido pelo Brasil, Índia e África do Sul, e o Mecanismo Internacional de Financiamento proposto pelo governo britânico.
Refiro-me, uma vez mais, à convocação do Grupo do Rio a mecanismos financeiros inovadores, feita durante a Secretaria Pro Tempore do Peru.
E termino minha intervenção reiterando o convite enviado a todos os chefes de Estado e de Governo para que se somem aos presidentes Chirac e Ricardo Lagos, ao secretário Kofi Annan, e a mim mesmo, no dia 20 de setembro; às vésperas da Assembléia Geral da ONU, para que sigamos e ampliemos o diálogo sobre o grande desafio de nossos dias: o do combate à fome, à pobreza e à exclusão social.

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